
Portuguese Edition
Literature
O Bem e o Mal : Romance
Portuguese BooksWhale Edition by Camilo Castelo Branco
Camilo acompanha amores, conflitos familiares e escolhas morais num romance em que a inocência enfrenta convenções e relações de poder.
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Book introduction
O Bem e o Mal : Romance
Camilo Castelo Branco organiza em torno do amor e da consciência uma narrativa de conflitos domésticos, autoridade e julgamento. Figuras como Guilherme Lira e o vigário de São Julião da Serra atravessam situações em que a aparência de virtude nem sempre coincide com a ação justa. Os dezanove capítulos conduzem à conclusão e à moralidade final. A edição portuguesa conserva o prefácio da segunda edição e o percurso narrativo do romance.
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Camilo Castelo Branco morreu em 1890. A obra foi publicada em 1863. Esta edição utiliza o texto original português em domínio público.
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Preview chapterPREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃORead preview
Foi vagarosa a sahida da primeira edição d’este livro.
É obvia e, ao mesmo passo, desconsoladora a explicação. A novella não perdeu por mal escripta; mas por mal pensada. Quanto a linguagem tanto montava o quilate d’esta como o das suas irmans. A incorrecção é o castigo de quem escreve muito á pressa para ir acabando mais de vagar. Em Portugal é preciso isto.
O defeito d’este livro é a superabundancia de virtudes de infastiar leitores que as exercitam eguaes e maiores, todos os dias.
Ainda bem.
Quem quizer voga e fama pinte e salpique de sangue e lama os seus paineis. Ganhar a curiosa attenção dos leitores sómente é permittido a quem lhes dá noticia de cousas não sabidas nem experimentadas. A virtude é o ranço d’estas gordas almas da nossa terra. Relatem-se crimes de cafrárias em linguagem de cafra.
S. Miguel de Seide, agosto de 1868.
Camillo Castello Branco.
AO PADRE ANTONIO DE AZEVEDO
Nome que os pobres, seus irmãos, reverenceiam, e os enfermos da alma abençoam; ancião virtuoso; operario infatigavel em serviço de DEUS e da humanidade
OFFERECE ESTE ESCRIPTO
O Auctor.
Meu Amigo:
Ha vinte e tres annos que eu vivi em sua companhia.
Lembra-se d’aquelle incorrigivel rapaz de quatorze annos, que ia á venda da Serra do Mesio jogar a bisca com os carvoeiros, e a bordoada, muitas vezes?
Esse rapaz sou eu; é este velho, que lhe escreve aqui do cubiculo de um hospital, muito visinho do cemiterio dos Prazeres.
Eu sou aquelle a quem padre Antonio de Azevedo ensinou principios de solpha, e as declinações da arte franceza.
Sou aquelle que leu em sua casa as «Viagens de Cyro», o «Theatro dos Deuzes», os «Luziadas», «As perigrinações de Fernão Mendes Pinto», e outros livros, que foram os primeiros.
Sou aquelle que, sem saber latim, resava matinas, laudes, terça, sexta, etc., com padre Antonio.
Sou, finalmente, aquelle, a quem padre Antonio disse:—«O tempo ha de fazer de você alguma cousa.»
Passados vinte e tres annos, como eu acabasse de escrever o meu quadragesimo segundo volume, lembrou-me dedicar-lh’o, meu venerando amigo, e rogar-lhe que peça a Deus por mim.
Lisboa, 22 de junho de 1868
Preview chapterI A visão do presbyterioPreview
Apresento o sr. Ladislau Tiberio Militão de Villa Cova.
Nasceu no termo de Pinhel em 1818. Seu pae, viuvo sem consolação, vestiu o habito de frade mendicante no convento de Vinhaes. Assim cuidou elle que dignamente honrava a memoria de sua santa mulher. Escolhera convento pobre como penitencia, e deixara sua casa e filho unico sob a vigilancia de um irmão clerigo, sujeito de clara fama e varão doutissimo.
N’aquella casa de Villa Cova, que dera o appellido a dez gerações de honrados lavradores, floreceram, na passagem de cinco seculos, padres de muito saber, uns famigerados na oratoria, outros grandes cazuistas, e alguns bastantemente notaveis por sua virtude sem lettras, e nenhum por lettras sem virtudes.
O educador de Ladislau sobre ser virtuoso, era grande letrado; a sua sciencia, porém atrazára-se dous seculos na historia do espirito humano.
Padre Praxedes de Villa Cova sabia de cór Aristoteles e Platão. Philosophia, physica, historia natural, grammatica, logica, metaphysica, poetica, meteorologia, politica, e mais um centenar de sciencias todas lh’as ensinaram os dous sabios de Stagira e Athenas. Na opinião d’elle, a intelligencia do homem, depois de Platão e Aristoteles, envelhecera, ou fingira remoçar-se com atavios de ouropel e pechisbeques, sem quilate na experimentada mão de um sabio.
Era padre Praxedes copiosamente lido em livros portuguezes anteriores ao seculo XVII, e possuia os melhores nas suas ponderosas estantes de castanho. Da epocha dos Senhores Reis D. João V e D. José I já pouquissimos volumes, e esses mesmos entremados do ouro puro dos classicos, se honravam de prender-lhe a attenção.
Foi, desde menino, Ladislau encaminhado por esta, em parte, errada vereda da sabedoria util e verdadeira.
Começou a escrever como caligraphicamente se escrevia ha dous seculos: lettra garrafal, com as hastes a prumo, longas e enfeitadas com mui engenhosos quadrados, mórmente as maiusculas. Era a escripta de padre Praxedes, tal qual a que seu tio avô, sabio fallecido em 1707, transmittira a um padre Heliodoro, seu filho, e este ao avô de Ladislau, e o avô ao filho, que vinha a ser o tio paterno d’este padre Praxedes. De modo que, n’aquella familia, o «traslado» da escripta em 1830 era fielmente copiado do de 1680. Em tudo mais como na escripta.
Está situada a casa dos Militões de Villa Cova nas faldas de uma serra chamada a Castra. Affirma documentalmente o padre que o chamar-se Castra o sitio, vem de ter estado alli presidio romano, ha vinte seculos; e quer elle que sobre as ruinas d’aquella atalaia dos senhores do mundo esteja cimentada a modesta habitação dos Militões desde o seculo IX.
É a casa grossa de cantaria com dez janellas de peitoril sem vidraças, quasi a roçarem nas proeminentes cornijas, assentadas em fortes cachorros sem lavor. É largo e alto o portão de castanho, que abre sobre um espaçoso quinteiro, intranzitavel na maior parte do anno, por causa das gabellas de tojo e urze, que os pés do gado vão calcando e curtindo.
Do fundo do quinteiro, sobe larga escadaria a um pateo lageado com guardas de pedra tão em bruto e sem visos de esquadria que parecem ter alli ficado casualmente postas umas contra outras pelo revolutear aquoso de algum diluvio.
Este exterior assim é triste, mais triste que a soledade das ruinas de outras casas, que em redor existiam até ao começo d’este seculo, e ás quaes os francezes acossados pegaram fogo, na sua ultima evasão de Portugal. Do desastre da Povoa de Villa Cova salvou-se a casa dos Militões, porque os incendiarios não acharam brecha por onde lançassem o lume: o morro de pedra era incombustivel; as portadas de castanho tão sómente a bala raza poderiam saltar dos seus enormes gonzos.
Preview chapterII Amor de predestinaçãoPreview
A mulher ajoelhada á sombra do escuro arco, era Peregrina, irmã do vigario.
Viera de longe para alli com seu irmão, sacerdote pobre, que devia a sua ordenação ao bemfazer do padrinho, velho fidalgo de Pinhel. Em quanto João se ordenava em Bragança, Peregrina vivera e educara-se sob o amparo do padrinho de seu irmão, e querida das filhas do fidalgo, que a vestiam de seus vestidos, e a sentavam entre si á meza.
Disse padre João a sua missa nova na capella do bemfeitor, e alli ficou estimado como da familia, até que, por diligencias do fidalgo, recebeu a apresentação na igreja de S. Julião da Serra.
Peregrina beijou a mão do velho caridoso, beijou o rosto de suas amigas de infancia, e sahiu com o presbytero em demanda da vetusta igreja. Os parochianos, posto que descontentes ao verem semblantes desconhecidos no adro dos seus mortos, disseram:
«Assim é que vinha o pastor de Villa Cova com a irmã».
Era melancolico o presbyterio; as arvores ressequidas; o chão arido; as penedias calvas; os tectos assentes em vigas; as paredes interiores afumadas; os taboados movediços. Alli, as primaveras passariam despresentidas, se não fosse o azulejar-se o céu, e os festões das giestas na serra, e o calar-se o estridor das torrentes despenhadas dos cerros das montanhas.
Peregrina, quando alli se viu, por um anoutecer de novembro, disse:
—Como isto é triste e feio!
Padre João olhou em redor de si, e respondeu:
—Irmã, este chão triste é que nos ha de dar o pão santo da independencia. Bemdigamos o coração generoso dos nossos amigos, que me deram terra onde lavrar com minhas proprias mãos o nosso sustento de cada dia. A casa parece-nos agora triste, porque é noute. Ámanhã um raio de sol nos virá alegrar estas paredes.
E, como assim fallasse, o vigario desceu ao adro, subiu sobre uma peanha tosca, travou da corda que movia o sino unico do simulacro de torre, e tangeu as nove badaladas de Ave-Marias. Os lavradores, que iam passando, descobriram-se, pararam, oraram, benzeram-se, e seguiram seu caminho murmurando:
—Os padres de Villa Cova faziam o mesmo. Quer Deus que todos os nossos vigarios sejam bons e devotos.
Entretanto, Peregrina, rezada a oração final da sua prece da tarde, alongou os olhos ás sombrias serras que avultavam para o lado de Pinhel, e chorou. Eram saudades das filhas do bemfeitor, e do casal onde nascera, e onde seus pais, caseiros do fidalgo, haviam morrido.
A irmã do vigario tinha 18 annos. Era dotada de abundantes graças, compleição menos robusta que o ordinario das moças aldeãs, senhoril talvez extraordinariamente, rica de negros cabellos, formosa de olhos, doce e meiga no dizer, modestissima, parca em sorrisos, meditativa, laboriosa, e muito dada á oração.
Costumava ella erguer-se ante-manhã, quando ouvia os passos do irmão no sobrado visinho do seu quarto. O vigario madrugava assim para dizer missa á hora em que os parochianos sahiam ás suas lavouras. Peregrina accendia o lume, aconchegava o pucaro das brazas, cegava as couves, ia assistir á missa do irmão, e vinha depois cosinhar o caldo que era a refeição matinal do sacerdote e d’ella.
Uma grande parte do clero, que pastorêa almas, póde bem ser que me não acceite a verosimilhança d’este caldo de couves. Espero que se desçam de sua incredulidade, se eu lhes disser que a congrua e pé-de-altar de S. Julião da Serra não davam para chá, n’aquelle tempo em que os direitos da charopada chineza eram enormes, e os paladares eram genuinamente portuguezes, lá d’aquellas serranias, se saboreavam de preferencia no salutar cozimento de couves adubadas de saboroso unto. Ora eu, que n’esta fidalga e franceza Lisboa tenho sido espectaculo de riso, pedindo nos hoteis, e recommendando aos meus amigos o caldo verde, insisto contumazmente em me expôr á mofa da gente culta, dando á estampa, n’este logar e para meu duradouro opprobiro, o panegyrico do caldo verde, caldo de meus avós, e de padre João e de sua irmã.
Table of contents
Inside this edition
- 01PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO
- 02I A visão do presbyterio
- 03II Amor de predestinação
- 04III Casamento patriarchal
- 05IV Outros amores
- 06V Veredas penhascosas
- 07VI A humildade vencedora
- 08VII Felicidades
- 09VIII O Vigario de S. Julião da Serra
- 10IX D. Alexandre é espalmado
- 11X A victoria d’uma creancinha
- 12XI Guilherme Lira
- 13XII Serenidade da innocencia
- 14XIII O Réu
- 15XIV Episodio
- 16XV Continuação
- 17XVI O julgamento
- 18XVII Contrastes
- 19XVIII Mãi!
- 20XIX Paz e contentamento
- 21Conclusão
- 22Moralidade
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