
Portuguese Edition
Literature
O Coruja
Portuguese BooksWhale Edition by Aluísio Azevedo
Um romance naturalista brasileiro sobre amizade, ambição, educação e desigualdade social.
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Book introduction
O Coruja
O Coruja acompanha os destinos contrastantes de André e Teobaldo, examinando formação, dependência, prestígio e fracasso moral no Brasil do século XIX. Esta edição é indicada para leitores de Aluísio Azevedo e naturalismo brasileiro.
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Aluísio Azevedo died in 1913, and O Coruja was first published in 1890. These dates support the public-domain basis for this original Portuguese edition.
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O Coruja
Aluísio Azevedo
Quando, em uma das pequenas cidades de Minas, faleceu a viúva do obscuro e já então esquecido procurador Miranda, o pequenito André, único fruto deste extinto casal, tinha apenas quatro anos de idade e ficaria totalmente ao desamparo, se o pároco da freguesia, o Sr. padre João Estêvão, não o tomasse por sua conta e não carregasse logo com ele para casa.
Esta bonita ação do Sr. vigário levantou entre as suas ovelhas um piedoso coro de louvores, e todas elas metendo até as menos chegadas ao padre, estavam de acordo em profetizar ao bem-aventurado órfão um invejável futuro de doçuras e regalias, como se ele fora recolhido pelo próprio Deus e tivesse por si a paternidade de toda a corte celeste.
A Joana das Palmeirinhas, essa então, que era muito metediça em coisas de igreja, chegava a enxergar no fato intenções secretas de alguma divindade protetora do lugar e, quando lhe queriam falar nisso, benzia-se precatadamente e pedia por amor de Cristo que "não mexessem muito no milagre"
É melhor deixar! segredava ela. - É melhor deixar que o santinho trabalhe a seu gosto, porque ninguém como ele sabe o que lhe compete fazer!
Mas o "pequeno do padre" como desdaí lhe chamaram, foi aos poucos descaindo das graças do inconstante rebanho, pelo simples fato de ser a criança menos comunicativa e mais embesourada de que havia notícia por aquelas alturas. O próprio Sr. vigário não morria de amores por ele, e até se amofinava de vê-lo passar todo o santo dia a olhar para os pés, numa taciturnidade quase irracional.
— Ora, que mono fora ele descobrir!... dizia de si para si, a contemplar o rapaz por cima dos óculos. - Aquela lesma não havia de vir a prestar nem para lhe limpar as galhetas!
O pequeno era de fato muito triste e muito calado. Em casa do reverendo não se lhe ouvia a voz durante semanas inteiras; e também quase nunca chorava, e ninguém se poderia gabar de tê-lo visto sorrir. Se o vestiam e o levavam a espairecer um bocado à porta da rua, deixava-se o mono ficar no lugar em que o largavam; o rosto carrancudo, o queixo enterrado entre as clavículas, e seria capaz de passar assim o resto da vida se não tomassem a resolução de vir buscá-lo.
A criada, uma velha muito devota, mas também muito pouco amiga de crianças, só olhava para ele pelo cantinho dos olhos e, sempre que olhava, fazia depois uma careta de nojo. "Apre! Só mesmo a bondade do Sr. vigário podia suportar em casa semelhante lorpa!"
E cada vez detestava mais o pequeno; afinal era já um ódio violento, uma antipatia especial, que se manifestava a todo o instante por palavras e obras de igual dureza. E a graça é que jamais nenhuma destas vinha só; era chegar a descompostura e aí estava já o repelão, em duas, três, quatro sacudidelas, conforme fosse o tamanho da frase.
O André deixava-se sacudir à vontade da criada, sem o menor gesto de oposição ou de contrariedade.
— Ah! Só mesmo a paciência do Sr. vigário!
Apesar, porém, de tanta paciência, o Sr. vigário, se não mostrava arrependido daquela caridade, era simplesmente porque esse rasgo generoso muito contribuíra para a boa reputação que ele gozava, não só aos olhos da paróquia inteira, como também aos dos seus superiores, a cujos ouvidos chegara a notícia do fato. Mas, no íntimo, abominava o pupilo; mil vezes preferia não o ter a seu lado; suportava-o, sabia Deus como! como quem suporta uma obrigação inevitável e aborrecida.
Ah! não havia dúvida que o pequeno era com efeito muito embirantezinho. Sobre ser uma criança feia, progressivamente moleirona e triste, mostrava grande dificuldade para aprender as coisas mais simples. Não era com duas razões, nem três murros, que o tutor conseguia meter-lhe qualquer palavra na cabeça.
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— Ah! É a primeira vez?
— Sim.
— E morou sempre com o reverendo?
— Não.
— Ele é seu parente?
— Não.
— Tutor, talvez...
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— Como se chamava seu pai?
— João.
— E sua mãe?
— Emília.
— Ainda se lembra deles?
— Sim.
E, depois de mais alguns esforços inúteis para conversação, o homem das barbas convenceu-se de que tudo era baldado e, para fazer alguma coisa, pôs-se a considerar a estranha figurinha que levava a seu lado.
André representava então nos seus dez anos o espécime mais perfeito de um menino desengraçado.
Era pequeno, grosso, muito cabeçudo, braços e pernas curtas, mãos vermelhas e polposas, tez morena e áspera, olhos sumidos de uma cor duvidosa e fusca, cabelo duro e tão abundante, que mais parecia um boné russo do que uma cabeleira.
Em todo ele nada havia que não fosse vulgar. A expressão predominante em sua fisionomia era desconfiança, nas seus gestos retraídos, na sua estranha maneira de esconder o rosto e jogar com os ombros, quando andava, transparecia alguma coisa de um urso velho e mal domesticado.
Não obstante, quem lhe surpreendesse o olhar em certas ocasiões descobriria aí um inesperado brilho de inefável doçura, onde a resignação e o sofrimento transluziam, como a luz do sol por entre um nevoeiro espesso.
Chegou ao colégio banhado de suor dentro da sua terrível roupa de lustrina preta. O empregado de barbas longas levou-o à presença do diretor, que já esperava por ele, e disse apresentando-o:
— Cá está o pequeno do padre.
— Ah! resmungou o outro, largando o trabalho que tinha em mão. - O pequeno do padre Estêvão. É mais um aluno que mal dará para o que há de comer! Quero saber se isto aqui é asilo de meninos desvalidos!... Uma vez que o tomaram à sua conta, era pagarem-lhe a pensão inteira e deixarem-se de pedir abatimentos, porque ninguém está disposto a suportar de graça os filhos alheios!
— Pois o padre Estêvão não paga a pensão inteira? perguntou o barbadão a mastigar em seco furiosamente e a lamber os beiços.
— Qual! Veio-me aqui com uma choradeira de nossa morte. E, "porque seria uma obra de caridade, e, porque já tinha gasto mundos e fundos com o pequeno", enfim foi tal a lamúria que não tive outro remédio senão reduzir a pensão pela metade!
Os das barbas fez então várias considerações sobre o fato, elogiou o coração do Dr. Mosquito (era assim que se chamava o diretor) e ia a sair, quando este lhe recomendou que se não descuidasse da cobrança e empregasse esforços para receber dinheiro.
— Veja, veja, Salustiano, se arranja alguma coisa, que estou cheio de compromissos!
E o Dr. Mosquito, voltando ao seu trabalho, exclamou sem mexer com os olhos:
— Aproxime-se!
André encaminhou-se para ele, de cabeça baixa.
— Como se chama?
— André.
— De quê?
— Miranda.
— Só?
— De Melo.
— André Miranda de Melo... repetiu o diretor, indo a escrever o nome em um livro que acabava de tirar da gaveta.
— E Costa, acrescentou o menino.
— Então por que não disse logo de uma vez?
André não respondeu.
— Sua idade?
— Dez.
— Dez quê, menino?
— Anos.
— Hein?
— Dez anos.
— An!
E, enquanto escrevia:
— Já sabe quais são as aulas que vai cursar?
— Já.
— Já, sim, senhor, também se diz!
— Diz-se.
— Como?
— Diz-se, sim, senhor.
— Ora bem! concluiu o Mosquito, afastando com a mão o paletó para coçar as costelas. E, depois de uma careta que patenteava a má impressão deixada pelo seu novo aluno, resmungou com um bocejo:
— Bem! Sente-se; espere que venham buscá-lo.
— Onde? perguntou André, a olhar para os lados, sem descobrir assento.
— Ali, menino, oh!
E o diretor suspendeu com impaciência a pena do papel, para indicar uma das duas portas que havia do lado oposto do escritório. Em seguida mergulhou outra vez no seu trabalho, disposto a não interrompê-lo de novo:
Table of contents
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- 01Full text
- 02— É.
- 03— É.
- 04— É.
- 05— É.
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