
Portuguese Edition
Literature
O Esqueleto
Portuguese BooksWhale Edition by Camilo Castelo Branco
Segredos familiares, amor e culpa conduzem um romance em que o passado regressa para perturbar a aparente estabilidade social.
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Book introduction
O Esqueleto
Camilo Castelo Branco entrelaça relações amorosas, interesses de família e a memória de acontecimentos que os personagens gostariam de ocultar. A história avança entre revelações, sofrimento e confrontos com a própria consciência, até ao encontro com os vestígios materiais do passado. Um prefácio do autor, vinte e sete capítulos e uma conclusão compõem este romance de paixão e julgamento moral.
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Camilo Castelo Branco morreu em 1890. A obra foi publicada pela primeira vez em 1865. Esta edição utiliza o texto histórico original em português de Project Gutenberg, sem acrescentos editoriais modernos.
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Preview chapterPREFACIORead preview
Em quanto á influencia do romance nos costumes, estou mais que muito desconfiado de que o romance não morigera nem desmoralisa.
Porém, admittida a ponderação que lhe alvidram os exhortadores dos pais de familia, não sei decidir como se ha de escrever o romance fautor da sã moral. São dois os expedientes: levar os personagens viciosos ao despenhadeiro; ou crear anjos n’um paraiso sem serpente.
Na primeira especie, mostra-se a lucta de virtude e crime: natural e concludentemente triumpha a virtude. É o costume com sacrificio, ás vezes, da verosimilhança.
Na segunda fórma de romancear, a virtude recebe as ovações sem batalha. O romancista põe peito á reformação das obras de Deus, e corrige-as. Quando os seus personagens se avisinham de algum sujo aguaçal, em que é uso a gente commum salpicar as botas, atam-lhe asas de serafins, e largam-lhe trella por esse azul dos ceus dentro, até lhes vir a geito poisal-os em alegretes de flores.
São estes os romances que moralisam, ou os outros? É a minha duvida.
Convém mostrar as repulsões do crime lá em baixo, onde a providencia social lhes cavou a paragem; ou é melhor conduzir, por entre hortos amenissimos, os nossos personagens engrinaldados, e mettel-os no ceu finalmente?
Um homem de bem, proprietario de um dos primeiros jornaes d’este paiz, costuma editar os meus romances, com a previa clausula de não serem historias de crimes, que toquem directa ou indirectamente com a probidade da vida conjugal, ou revelem desdouros da honra domestica.
Ha poucos dias, tivémos esta pratica:
—Querem os pais de familias que suas filhas ignorem a corrupção, que lavra nos pantanos da sociedade—observou-me o meu amigo.
—Os pais de familia, contestei, não conseguem isso, em quanto não acharem o caminho da lua, onde presumo que não ha costumes, nem romances. E será preciso que se mudem para lá com as filhas, menores de dez annos, e não levem as mães, porque as mães, maximamente virtuosas, sempre teem que contar ás filhas a historia escandalosa das mães culpadas.
—Mas não se ganha moralisação para os espiritos brandos e virginaes das leitoras, em dar-lhes novellas de adulterios—redarguiu o cavalheiro.
—Ganha, quando se lhes mostram os infortunios acapellados em volta da mulher que se deshonra. Ganha, porque as filhas do pai acautellado sabem que as ha, conhecem-nas, e apertam a mão das deshonradas; concorrem aos salões com ellas; sabem o nome e a culpa do homem que as requesta; observam-lhes uns exteriores de felicidade; e espantam-se de as verem ostensivamente satisfeitas, e, de mais a mais, acatadas com uma urbanidade, que as não estrema das honestas. Então é que o romance ganha muito, levando ao conhecimento das donzellas, até certo ponto innocentes, que o desdouro, cujo horror não as apavorou nos salões, tem angustias secretas, e infamias estrondosas. Parece-me isto, meu amigo.
—Acho-lhe rasão—obtemporou o honrado e illustrado editor dos meus livros—mas que quer, se os pais de familia intendem que suas filhas desconhecem a existencia de certos crimes? E desadoram romances que revolvam essas sentinas hediondas?
Aqui ficou a contenda amigavel. Não procurei pai de familias nenhum para argumentarmos. Fiquei-me a scismar se devia queimar este volume que estava escripto, no intuito de mostrar o squalor de uma chaga social, sem a minima pretenção de lhe pôr o cauterio. Não queimei; mas protesto extrahil-o da circulação, se um dia me persuadir de todo em todo que esta coisa de romances, escriptos assim, peoram a humanidade, e alvorotam a quietação dos pais de familia.
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Era justa e plausivel a admiração que infundia no espirito dos portuenses, nada espantadiços de mulheres formosas, uma franceza que, poucas vezes, se via no Porto, ahi pelos annos 1834 até 1839. Sabia-se que esta dama vivia n’uma quinta dos arrabaldes da cidade, e para ali viera com um fidalgo portuguez, regressado da emigração em 1835, sujeito pacifico, estranho ás victorias da liberdade, e tambem estranho aos reposteiros das secretarias. Era Nicoláo de Mesquita.
Da procedencia da franceza é que ninguem sabia. Geralmente duvidava-se da honestidade de tal contubernio; isto, porém, não implicava ao quasi respeito com que os galãs mais audaciosos da cidade eterna encaravam a gentil amazona, ao lado do cavalheiro grave, sombrio, e sympathico. Outras vezes, a estrangeira entrava no Porto sósinha, com um lacaio; apeiava no hotel do Pêxe, saía a provêr-se de objectos de luxo nas lojas de modas, seguida do criado, e voltava ás suas flôres e bosques, que deviam de alegrar-se, vendo chegar a sua bella e solitaria rainha.
O cavalheiro conhecia poucas pessoas no Porto, e tão friamente as praticava, que ninguem ousava perguntar-lhe miudezas de sua vida particular.
Em 1838, saía a franceza do estabelecimento de uma modista, e estremeceu fitando em rosto um homem, que empallidecera ao encaral-a surprehendido. Era este homem o chanceller do consulado francez.
Ella estugou o passo a evitar a aproximação do seu patricio: era superfluo o susto. O chanceller ficára empedernido, e extatico.
Passava um amigo, e disse-lhe, sorrindo:
—A sua patricia tem causado muitos d’esses spasmos aos portuguezes...
—Não é possivel...—disse o francez abstrahido.
—Não é possivel?!—replicou o outro.
—A impressão que me fez aquella mulher não creio que a possa receber quem a não conhece.
—E conhece-a o senhor?
—Pois não! É a mulher de um dos meus melhores amigos. Eu já sabia que ella fugira de Bruxellas com um portuguez; mas não esperava encontral-a. Onde vive ella?
—Na Cruz da Regateira, a meia legua do Porto, com um fidalgo transmontano, chamado Nicoláo de Mesquita.
O chanceller escreveu na sua carteira, e disse:
—A mulher do meu amigo Ernesto Froment, um dos primeiros fabricantes de Lyão, rico e gentil, moço e honrado, pundonoroso e amigo d’esta infame, como não sei que haja outro! O homem com quem ella fugiu foi hospede de seu marido. Sinto que em Portugal se produzam villões d’este calibre!... Froment cuida que ella está na America. Não lhe direi eu que a vi sem vingal-o, se ha vingança honrosa a tirar de similhante affronta!
O francez retirou-se apressado.
Dias depois, Nicoláo de Mesquita era procurado na serena solidão dos seus arvoredos por dois cavalheiros desconhecidos: um era o consul francez, o outro pessoa importante da sociedade portuense.
O chanceller desafiava Nicoláo, em nome de um marido infamado.
O portuguez tergiversou na resposta. Obrigado a responder explicitamente se nomeava testemunhas, disse:
—Eu não embaraço que madame Froment vá para seu marido, se lhe apraz. Bater-me com um cavalheiro, em quem não reconheço direitos a pedir-me contas, não o faço, sem alienar o juizo que tenho.
O consul redarguiu com azedume. Nicoláo de Mesquita sorriu-se, e replicou:
—Respondi. Os cavalheiros excedem as suas funcções, e collocam-me n’uma posição desagradavel. Estas disceptações costumam resolver-se melhor nas estradas.
O portuguez da provocação ficou-se; mas o consul mordeu os beiços até sangrarem.
A senhora Froment, assim que os estranhos visitantes sairam, correu assustada a indagar a causa.
Nicoláo respondeu glacialmente:
—Depois de seis annos, um amigo de teu marido manda-me desafiar. Não me bato.
—Quem te desafia? É o chanceller? Não acceites, que elle é temivel!—acudiu ella.
O orgulhoso abespinhou-se, e disse severamente:
—Não ha homens temiveis para mim. Não acceito, porque é preciso muito coração para que um homem se bata por amor de qualquer mulher.
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O morgado da Palmeira cuidou que facilmente se desatavam os vinculos tenazes do amor-habito. Este amor é tão entranhado e subtil em alguns temperamentos, que até resiste á lima roaz do tedio. Se a mulher fastidiosa desapparece dos olhos fatigados de a verem, não sei de que refolhos da alma rebenta um espinho levemente doloroso, quando inesperadamente fere; mas com o rodar de dias, crava-se, punge, e doe tanto como a saudade da mulher que mais se ama e deseja.
Esta dôr sentiu-a elle, quando se viu no Vidago, ao pé do leito da mãe entrevada, sem sociedade que o distrahisse, além do reitor que o mortificava com perguntas sobre paizes estrangeiros.
Mulheres, n’aquella povoação, não havia uma que lhe prendesse o olhar, nem o fizesse descer á requesta, em competencia com os seus criados. Perguntava á desmemoriada mãe pelas formosas primas, que deixára, em tal e tal casa. A velha respondia-lhe que umas estavam acabadas, outras mães de filhos, e outras na sepultura. Nicoláo de Mesquita espantava-se de achar extincta a formosura das primas da sua creação. Os homens que não descaem ou fingem não descair da mocidade tão de pressa, assombram-se da mudança que dez annos fazem no rosto e na alma das mulheres suas contemporaneas.
Foi isto grande parte na saudade, que por pouco o não impelliu ao Porto. Se fosse antes de reaccender-se na chamma do seu antigo amor a Margarida, uma nova enchente de tedio lhe apagaria as faiscas instantaneas. Estes amores são relampagos. Nas trevas, que se carregam depois, ha um abafar de coração, angustia incomparavel com a tristeza da saudade.
Elle adivinhava este segredo, que todos sabemos de animo frio, e todos ignoramos, se a paixão nos desluz a razão experimentada nos desvarios proprios e nos alheios. Ainda assim, póde ser que o presagio o não demovesse; conteve-o, por ventura, o receio de expôr-se ás iras do chanceller. Margarida, em quanto a perplexidade do amante durou, recebeu cartas muito amoraveis, que lhe consolaram a vaidade. Respondia ella que a chamasse a viver obscura entre arvores, sem mais alegrias que as das avesinhas, e a certeza de ser precisa á vida d’elle. Estas supplicas demonstram a singeleza ou o errado artificio de Margarida. Se ella tivesse respondido friamente, resignando-se com a ausencia, Nicoláo iria buscal-a. Nós entendemos sempre que a resignação é renuncia. O ciume faz então prodigios que nivellam o mais descaroado orgulho com a allucinação de Werther ou Othello.
Permaneceu o morgado na indecisão, até que, um dia, foi a Chaves concorrer a um baile, com que seu primo Martinho Xavier de Sousa Vahia celebrava o natalicio de sua filha primogenita Beatriz. Tinha dezeseis annos esta menina. Rosto e candura do ceu. Alegria de borboleta na primavera entre as alvissimas flores do espinheiro.
Nicoláo dançou com sua sobrinha... ou prima. Elle antes queria que Beatriz lhe chamasse primo. Passou a noite: ninguem vira dançar o morgado da Palmeira com outra dama. E a rainha da festa uma vez apenas esvoaçara na sala amparada, senão levemente presa por um dos anneis louros do seu cabello á espadua de outro homem.
De Nicoláo de Mesquita diziam as mulheres:—Parece que tem vinte annos! Como está moço, e que airosidade na dança!
—Pois tem perto de quarenta!—Atalhava um moço de vinte, com um sorriso e abanar de cabeça desdenhoso.
Acabou n’esta noite a indecisão de Nicoláo, respeito a madame Froment.
Recolhendo ao Vidago, encontrou uma carta em que ella amorosamente o ameaçava de ir procural-o, sem consentimento prévio. Apressou-se elle a responder-lhe que se contivesse, a não querer contrarial-o.
Dois dias passados, tornou para Chaves, a cumprir a promessa de quinze dias de hospedagem em casa de seu primo Vahia: quinze dias de jantares e saraus, em que Nicoláo de Mesquita impressionou muitas damas com o leve incommodo de contar anecdotas joviaes, costumes estrangeiros, amores celebrados, aventuras estranhas, coisas de chorar e de rir, iguarias para todos os paladares.
Table of contents
Inside this edition
- 01PREFACIO
- 02I
- 03II
- 04III
- 05IV
- 06V
- 07VI
- 08VII
- 09VIII
- 10IX
- 11X
- 12XI
- 13XII
- 14XIII
- 15XIV
- 16XV
- 17XVI
- 18XVII
- 19XVIII
- 20XIX
- 21XX
- 22XXI
- 23XXII
- 24XXIII
- 25XXIV
- 26XXV
- 27XXVI
- 28XXVII
- 29CONCLUSÃO
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