
Portuguese Edition
Literature
O Garatuja
Portuguese BooksWhale Edition by José de Alencar
No Rio colonial, a habilidade e a irreverência de Ivo atravessam disputas de autoridade, aventuras amorosas e os costumes da cidade.
- Preview
- A sample from the prepared text
- Formats
- Online reader, EPUB, PDF
- Access
- Library claim
Book introduction
O Garatuja
O Garatuja acompanha Ivo e sua ligação com a casa do tabelião Sebastião Freire, em um Rio de Janeiro marcado por rivalidades entre autoridades civis e religiosas. José de Alencar combina intriga amorosa, caricatura e observação dos costumes coloniais. A apresentação do autor e os vinte e oito capítulos preservam o percurso do rapaz cuja imaginação artística contrasta com as convenções ao seu redor.
BooksWhale edition
How this edition was prepared
This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.
Public domain basis
Why this edition can be shared
José de Alencar morreu em 1877; a obra foi publicada em 1873. Esta edição utiliza o texto português em domínio público disponibilizado na Wikisource, sem notas nem acréscimos editoriais modernos.
Read preview
A sample from the prepared text
Preview selected from the prepared reader text.
Preview chapterApresentaçãoRead preview
O GARATUJA é a primeira de uma série de crônicas dos tempos coloniais, algumas já escritas, outras apenas esboçadas, em tempos idos, quando o pensamento, ainda não de todo enredado nas teias do mundo, tinha folga para vaguear pelo passado, e entreter-se com as pieguices e ingenuidades de nossos pais, a quem o mais simplório garoto de agora enfiaria, não pelo fundo de uma agulha, o que não fora nenhuma façanha, mas pela cabeça de um alfinete.
Todavia, se o leitor no folhear estas páginas, tiver tempo de pensar, e se deixe ir a cogitar na singularidade da revolução, que esteve para ensangüentar a heróica, mas pacata, cidade de São Sebastião, lembre-se da magna questão do martelinho, que por pouco não perturbou a paz maçônica, da mesma forma que outrora o hissope na igreja d'Elvas.
Então há de concordar comigo que o homem é sempre menino até morrer de velhice; e que depois das criançadas do pirralho, vêm as travessuras do rapazola, e por último as estrepolias dos barbaças, as quais são as piores, sobretudo quando começa-lhe a grisar o pêlo.
Quem duvidar do cunho histórico desta simples narrativa, poderá facilmente verificá-lo abrindo o 3º volume dos Anais do Rio de Janeiro, escritos pelo Dr. Baltasar da Silva Lisboa.
Naquele tempo o cidadão, porque servira o cargo de juiz de fora e presidente da Câmara, julgava-se obrigado a oferecer a seu país "o fruto dos conhecimentos adquiridos nas diligências do serviço público". Hoje em dia nem a juizes, nem a edis, sobra tempo para se ocuparem com tais nugas, pois todo se vai em subir e descer escadas, pôr e tirar o chapéu, dobrar e torcer a cerviz.
No referido tomo, à página 314, entre os parágrafos 35 e 39, apanhou o cronista fluminense pela rama os acontecimentos que puseram em tumulto a cidade. Aí se encontram até eruditas elucidações do caso jurídico, sobre o qual o Dr. Baltasar entendeu que devia emitir seu juízo.
Não é ele o único dos compiladores de notícias, que neste país se meteu a tralhão, recheando a história com os lardos de uma erudição rançosa. Outros o excederam de muito nessa mania enciclopédica.
Escaparam porém ao cronista muitas particularidades, que ele descurou e que eu pude, obter consultando um arquivo arqueológico, bem provido, e que tenho à minha disposição, para o estudar à vontade.
Meu arquivo arqueológico, por cautela vou prevenindo, não custou um ceitil aos cofres públicos, nem aspira à honra de ser comprado pelo governo do Sr. D. Pedro II, como está em voga desde a consciência até as leis, que tudo hoje em dia se vende, por atacado ou a varejo, em códigos ou empreitadas.
A minha preciosidade literária não custou nem mesmo o trabalho de andar cascavilhando papéis velhos em armários de secretarias; ou a canseira de trocar as pernas pela Europa, cosido em fardão agaloado a pretexto de representar o Brasil nas cortes estrangeiras. Que formidável "prosopopéia!".
Quero fazer ao leitor a confidência do meu achado.
Costumava outrora, como ainda hoje, ir pela manhã ao Passeio Público, onde há uma meia dúzia de árvores que o bom Deus ali conserva para refrigério dos emparedados da cidade. Tem esse jardim urna qualidade mui apreciável: é uma perfeita solidão, nio meio do burburinho, com o bonde à porta, e ao alcance do olhar protetor do ministro da Justiça; por conseguinte, facilidade de condução e segurança individual: duas importantes garantias da liberdade. Da verdadeira liberdade prática, e não dessa que anda nos cartazes políticos, para o efeito cênico.
Preview chapterCapítulo I: Três antigos luzeiros escapos a poeira dos temposPreview
No dia 3 de novembro do anno que se contou 1659 da graça e nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, a leal cidade de S. Sebastião de Rio de Janeiro, estava em grande alvoroto.
Não era a então nascente capital, socegada e pachorrenta, como a grande corte em que se transformou. Si não mente a chronica tinha naquelles tempos affonsinhos genio trefego, e um sestro de intrometter-se com as cousas da governança para não deixar que os officiaes d'el-rei The tosquiassem muito cerce o pello e a bolsa.
Promovida á corte, lembrou-se no principio alguma vez da balda antiga; mas com a vida palaciana, breve esqueceu de todo os ardores da juventude, e aquellas desenvolturas de rapariga.
Agora da-se à respeito. Já não é a carioca faceira e petulante, de saia de crivo e olhos bregeiros, estalando castanholas ao som do fadinho. Fez-se dama; traz anquinhas, e arrasta a cauda com donaires de matrona.
Sete horas acabavam de soar na torre do mosteiro, e apezar do muito cedo o povo enchia as poucas ruas que formavam naquelle tempo o ambito da cidade, ainda conchegada ás abas do outeiro de S. Januario, que a protegia com seu castello roqueiro.
Onde porem mais alvoriçava o arruido era no Rocio do Carmo, nome que tinha então nos livros da vereança o Largo do Paço, ao qual não obstante a arraia miuda continuava á dar a alcunha popular de Terreiro da Polė.
Golpes de gente azoinada e assustadiça, borbotavam uns apoz outros da rua Direita e becco dos Barbeiros, mas sobretudo das bandas da Misericordia, Castello e Ajuda, area onde mais se condensava o povoado.
Varios ajuntamentos se haviam formado aqui e ali no circuito da vasta praça, separados pelo refluxo dos mais alvoroçados, que não se podendo ter parados um instante, ferviam, á maneira das ondas em torno de abrolhos, e burburinhavam sôfregos de colher pormenores da grande nova.
Desafrontada do paço, que só muitos anos depois devia ser construído, a praça estendia-se até a Rua da Misericórdia, onde se erguera a nova Igreja de São josé3 cuja capela-mor, de recente fábrica, entrava pelo mar adentro.
Do lado oposto, desde o canto da Rua Direita alongava-se um renque de lojas e tercenas, esboço do opulento empório que derramando-se pela várzea, havia de cobrir antes de dois séculos a vasta marinha. No lugar onde mais tarde se edificaram as casas do Teles e o arco, famoso na crônica fluminense, via-se ainda a velha tenda do ferreiro, que dera nome ao lugar.
A face de terra era ocupada pela Capela de Nossa Senhora do Ó e pelos dormitórios dos Carmelitas cuja cerca terminava na Rua da Cadeia. Ainda não existia o templo que hoje serve de capela imperial, erguido um século mais tarde sobre as rumas daquele.
A face do mar descortinava o formoso panorama da baía. Junto à Ilha das Cobras balouçavam-se os galeões da frota próxima a partir para o reino.
Na praia, onde brincavam as ondas, ainda não rechaçadas por cais ou aterro, abicavam de instante a instante as canoas da outra banda e as barcas dos pescadores que tornavam do mar.
Dentro da praça, mas encostada à Igreja de São José, destacava-se a casa da Câmara, com o seu campanário, e as enxovias da cadeia, corridas de um e outro lado do pavimento térreo.
Em frente, a alguns passos de distância, no lugar onde fica atualmente a ucharia imperial, erguia-se o pelourinho, esse padrão do governo da cidade, ao qual o povo chamava cruamente — a polé.
Era justamente em torno da coluna da governança, que se apinhava a multidão, cujas vistas inquietas, desenganando-se de achar na picota qualquer edital da vereança acerca da grande novidade, voltavam-se para as janelas inda fechadas da Casa das Sessões.
Preview chapterCapítulo II: A mais afiada língua entre as famosas que então havia na leal cidade de S. Sebastião.Preview
Em outro ponto do rossio, para o lado da Misericórdia, tinha-se formado novo motim de gente, que se apinhava para ouvir os pormenores do caso.
Quem falava era uma velha, de trunfa bem riçada em topete, com a mantilha trançada acima do ombro e repuxada por baixo do braço direito, o qual gesticulava de uma maneira desabrida.
Tinha a regateira uns olhos tão pequenos que pareciam dois caroços de feijão-preto embutidos na testa; as pestanas, as comera a sapiranga que lhe arroxeava as pálpebras. A boca, de bom tamanho, desdentada na frente, em falando, o que era o seu estado habitual, mostrava uma língua fina e ligeira, que espevitava os beiços delgados, como o ferrão de uma vespa devorando por dentro a casca de uma goiaba.
Essa linguinha afiada, que tinha fama de cortar como nenhuma outra na pele do próximo, pertencia à Sra. Pôncia da Encarnação, que fazia vida de regateira; mas não se ocupava de outra cousa senão de espreitar por detrás da rótula o que ia pela rua, para enredar os vizinhos e falar mal da vida alheia.
Fronteiro a ela, e seu atento ouvinte, aparecia o Belmiro, sujeito esgrouvinhado e macilento, com um corpo desengonçado sobre duas pernas de taquari.
As pastas de alvaiade que tinha pelo cabelo ruivo e assanhado, bem como as dedadas de oca e zarcão, apalpadas nas mangas e peitos do gibão de cor indescritível, estavam-lhe denunciando o ofício de pintor.
— Ninguém me tira de que tudo isto não passa de artes daquele capeta, Deus me perdoe, do Garatuja... Sabem? O cujo da Rosalina, que ela chama de enjeitado!... Nanja eu, que engula essa! Ai, a sujeita é matreira! Lá isso é, não tenham dúvida! Como ela arranjou o tal enjeitadinho tão a ponto, que foi mesmo um trás, zás; saiu por uma porta, entrou por outra, e manda El-Rei meu senhor que me conte novas. E o maganão do alferes, que ainda anda na corte requerendo licença para meter-se em matrimônio, e já o filho... Olhem que não sou eu quem diz, a cidade anda cheia... e já o filho quer passar-lhe a perna. Pois não verão frango com gogo? O peralvilho do enjeitado a se derrengar com a filha do tabelião, a Marta! ... Sonsa como ela só! É rapariguinha para dar sota e basto a um seminário inteiro de minoristas, e ainda sobra! De olho só, gentes, não estejam aí a maldar; só de piscar o olho e namorar de janela é que eu falo, que lá do mais não sei!... Enfim eu cá não meto minha mão no fogo por ninguém! Deus me defenda!... Tomara eu poder com os meus pecados, quanto mais ainda por cima carregar lá com a culpa do que os outros fazem!
Ao cabo desta lengalenga, que zunia como uma matraca tangida em ofício de trevas por garoto formigão, tomou a Pôncia respiração, mas para despedir-se em nova parlice.
— A tal rapariguinha... Não digam que foi a Pôncia quem contou. Menos essa, que não quero enredos comigo! A sonsa da Marta anda desinquietando os familiares do prelado. Os minoristas, já se sabe... isso de rapazes perto da cachopa, é como algodão que em lhe tocando fogo, fica logo em labareda!... Mas o Garatuja, como não lhe cheirasse a cousa, lá fez das suas trampolinas, e pregou algum mono à clerezia, a qual se engrilou com o Sebastião Ferreira, e então arrumou-lhe a assuada! Pudera não! Os formigões!... Escrevam, e verão se eu lhes engano. A tramóia toda foi arranjada pelo demônio do Garatuja... Cruzes, filho de Belzebu, engrimanço do porco sujo!... O tabelião e o prelado andam aí vendidos!... Sou capaz de jurar!... Agora se o Almada também está enfeitiçado pela rapariga, e teve algum bate-barba com o tabelião, pelo que assanhou a clerezia contra ele... pode bem ser; não digo que não; mas com certeza o Garatuja andou metido em toda essa embrulhada.
Table of contents
Inside this edition
- 01Apresentação
- 02Capítulo I: Três antigos luzeiros escapos a poeira dos tempos
- 03Capítulo II: A mais afiada língua entre as famosas que então havia na leal cidade de S. Sebastião.
- 04Capítulo III: Um tipo que já não se encontra no tempo d'agora
- 05Capítulo IV: Porque o Sebastião Freire não fechava mais os olhos para fazer o sinal público
- 06Capítulo V: Como se ajeitava um enjeitado naquele século pudico
- 07Capítulo VI: Desacato que cometeu Ivo contra as reverendíssimas ventas da companhia
- 08Capítulo VII: O caipora que foi a causa de toda a embrulhada da excomunhão
- 09Capítulo VIII: Sumiço que levou um cupido armado em guerra, e estampado em pergaminho
- 10Capítulo IX: Prova-se a boa razão que teve Camões entrelaçando a mitologia com o catolicismo
- 11Capítulo X: Do alvoroço que produziu um grilo na noite da novena
- 12Capítulo XI: No fim das contas ei-lo o rato dentro do queijo
- 13Capítulo XII: Do primeiro traslado que o Ivo tirou no cartório
- 14Capítulo XIII: Uma edição antiga do prelado moderno
- 15Capítulo XIV: Onde se mostra que se os povos servem de instrumento, também os reis servem às vezes de pretexto.
- 16Capítulo XV: Utilidade que um namorado pode tirar dos rivais e dos pintos
- 17Capítulo XVI: Perigo de meter uma franga no poleiro, quando não se tem o costume de lidar com a criação.
- 18Capítulo XVII: Prognóstico tirado por um tabelião da ascensão ou gravitação do nariz de seu escrevente
- 19Capítulo XVIII: Da pesca famosa que fez o Ivo nos bagres que lhe perseguiam a piabinha
- 20Capítulo XIX: Mostra-se a verdade dos dois anexins, que "o bocado não é para quem o fez" e que "paga o justo pelo pecador"
- 21Capítulo XX: Um beca do século XVII que não chega aos calcanhares dos modernos temudos
- 22Capítulo XXI: Como se arranjava outrora um motim para desafio do bom povo fluminense, em vez das insípidas luminárias que lhe dão agora
- 23Capítulo XXII: Uma cerimônia que já não se vê hoje em dia, apesar de ainda haver procissões e mascaradas de igreja
- 24Capítulo XXIII: Onde se vê trabalhar a governança antiga, e se reconhece que nesse mecanismo havia de mais um cilindro chamado povo, que hoje não existe
- 25Capítulo XXIV: Processo pelo qual inventou o Ivo o que hoje se chama o homem da situação
- 26Capítulo XXV: Um dos casos em que a autoridade obtempera prontamente a vontade do povo, e tira a sardinha com a mão do gato
- 27Capítulo XXVI: Ainda uma vez se prova que o povo é em todos os tempos a mesma criança travessa, a quem se engabela com um doce ou um boneco
- 28Capítulo XXVII: Onde se vê a importância jurídica do medo na decisão dos casos mais intricados da teologia
- 29Capítulo XXVIII: Mais um exemplo da ingratidão daqueles a quem a popularidade eleva ao pináculo da glória
Language availability
Other languages
Additional language editions are not published yet. This section will link to other BooksWhale editions when they become available.
Request another language