Portuguese Edition
Literature
O Garimpeiro
Portuguese BooksWhale Edition by Bernardo Guimarães
Um romance brasileiro de sertão, mineração, aventura amorosa e costumes provincianos.
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Book introduction
O Garimpeiro
O Garimpeiro leva o leitor ao interior brasileiro, onde a busca por riqueza mineral cruza paixões, honra, rivalidades e paisagens regionais. Bernardo Guimarães oferece um romance útil para pesquisas sobre literatura brasileira, garimpo, regionalismo e século XIX.
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O Garimpeiro
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As regiões que formam os municípios de Araxá, Patrocínio e Bagagem, na província de Minas, encerram paisagens as mais risonhas e encantadoras que se podem imaginar, e quem uma vez tem percorrido esses férteis e pitorescos sertões nunca mais os perde da lembrança.
É impossível dar uma idéia do aspecto geral desse país. A cada eminência que se transpõe, uma nova perspectiva nos surpreende, um novo panorama se desenrola aos olhos do viandante. Aqui o solo ondula graciosamente em colinas de suave declive, separadas uma das outras por cristalinos córregos, orlados de capões, cujo tope escuro se destaca vivamente em meio do brilhante e verde claro matiz das Campinas. Além se achata em vastos chapadões, que cansam a vista e impacientam o viandante que os percorre. Acolá os espigões se abaúlam, como leivas gigantescas divididas pelos buritizais que se estendem como filas de guerreiros ao longo dos brejais. Aqui o horizonte é limitado ao longe por uma linha de serras, cujos topes, longe de serem coroados de ásperos alcantis, são lisos e risonhos tabuleiros cobertos de viçosas e suculentas pastagens. Acolá uma linha escura forma o fundo do painel; é a selva profunda e imensa, que lá se vai perder pelo coração dos desertos sem fim. De todas essas encostas, por todos esses vales, à sombra de todos esses selváticos vergéis, jorram e murmuram perenemente com pasmosa abundância as mais límpidas e frescas águas. O humilde regato que aqui transpondes de um salto, algumas léguas além ainda ao alcance de vossas vistas já é largo e caudaloso rio.
Tudo é belo e grandioso, é risonho e enlevador por aquelas imensas solidões.
Inúmeras manadas de gado e de éguas, mugindo e relinchando pelos vargedos de viço perenal, bandos de emas e siriemas vagando pelos camegais, alegram a solidão daqueles sertões abençoados.
De três em três , de quatro em quatro léguas lá alveja no fundo do valado, entre moitas de laranjais, coqueiros e bananeiras, a casa do abastado lavrador, que o viandante fatigado saúda sempre com indizível prazer, pois sabe que à sua porta o espera a mais franca e cordial hospitalidade.
Posto que ali ainda não tenham penetrado os benefícios do progresso material, todavia a condição moral e intelectual da população é e sempre foi excelente. Os habitantes dessas regiões são notáveis pela amenidade dos costumes e pela amabilidade do trato.
Nessas paragens os homens são robustos, ativos e inteligentes, as moças são bem feitas, meigas e formosas.
Todas essas vantagens são devidas talvez em grande parte à doce e sempre igual temperatura do clima, à inexcedível uberdade do solo, à beleza e magnificência de seus horizontes incomparáveis.
Entre a Bagagem e a vila do Patrocínio, no meio de espigões separados por um pequeno córrego situado num vale delicioso, que ia morrer nas faldas de um serrote vizinho, era a fazenda do major. No sertão não há fazendeiro algum tanto abastado que não tenha um posto elevado na guarda nacional. Portanto, para não declinar o nome de nosso personagem, o designaremos sempre pelo do seu posto.
A casa do Major era baixa mas espaçosa, circundada pelas suas faces, que olhavam para o lançante do espigão, de uma larga varanda aberta, e pelos fundos reunida entre moitas de laranjeiras, coqueiros, jambeiros e outras árvores frutíferas, que em pitoresca desordem a sombreavam em torno.
Na frente havia um vasto curral em um canto do qual erguia— se uma velha e truculenta gameleira, dessas que estendem seus galhos gigantescos dez braços em derredor, e que servia de sombra e aprisco para o gado, para os carros e outros utensílios de roça.
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A vila do Patrocínio está em uma das mais lindas e aprazíveis situações. Ocupa o alto e os lançantes de uma colina de pendor suave, encostada de um lado ao topo de uma serra, e gozando pelos outros lados da mais risonha e extrema perspectiva de largos e formosos horizontes.
Nas vésperas da festa, a que nos reportamos(há de haver mais de vinte anos), a alegre e faceira vila estava mesmo louçã e garrida, como menina da roça, que se enfeita com alegre sofreguidão para ir à festa na povoação vizinha. As fazendas e arraialetes, num raio de dez léguas em redor, tinham ficado despovoados. As casas da pequena vila já não eram suficientes para acomodar tanta gente; os ranchos improvisados e cobertos de capim; as barracas e os carros de bois, outras barracas ambulantes, com seu toldo de couro, agrupados em desordem pelas Campinas e vargedos vizinhos, abrigavam uma multidão de famílias sertanejas, que ao sol sempre brilhante daquelas paragens, onde se desconhecem as neblinas e aguaceiros, alardeavam seus vestidos de cores vivas e variegadas, seus grossos rosários e trancelins de ouro com pesados relicários e medalhas pendentes do pescoço, derramando-se pelo seio com incrível profusão. Os rapazes montados em lindos poldros ou em possantes mulas ajaezadas de prataria, as esporeavam pelas ruas, procurando fazer admirar as excelentes qualidade de suas cavalgaduras, e o seu desempenho e galhardia em dirigi-las. As violas, violões e guitarras ressoavam por todos os cantos daquela vila que sempre foi notável por seu gosto pelas sinfonias e serenatas.
A arena ou circo, em que se deviam correr as cavalhadas, era no meio do largo da Matriz, em uma esplanada que fica na parte mais eminente do outeiro em que está situada a vila. Era um arco circular de cento e vinte passos, mais ou menos, de diâmetro, em torno do qual os particulares iam construindo em desordem e sem simetria alguma seus palanques toldados e guarnecidos em roda de colchas de damasco, de seda e de chita de variadas e brilhantes cores.
Dois dias antes da festa, à tarde, fazia sua entrada na vila pela estrada do sertão uma família, que, entre outras muitas que am chegando, atraiu particularmente a atenção do povo que vagava pelas ruas, e que se apinhava pelas portas e janelas. Era um homem idoso, tendo a seu lado uma jovem e gentil cavaleira, que cavalgava com suma graça um lindo ginete branco, uma menina de nove a dez anos, e alguns pajens e mucamas a cavalo.
— Que moça tão bonita é aquela? — perguntavam dali.
— É a Lúcia! Pois não conhecem a Lúcia? Ah! Cada vez mais bela!
— É a Lúcia! Aí vem a Lúcia! — sussurrava-se em outro grupo; e moços, velhos e meninos a correrem às janelas para verem aquela peregrina formosura, cuja fama há muito já se tinha espalhado por toda aquela redondeza.
— É um sol de formosura! exclamavam simpaticamente os velhos. É o retrato de sua mãe, que eu conheci muito no meu tempo, mas retrato favorecido...
— É na verdade bonita — diziam as moças; mas, coitada, por viver sempre na roça, está com um ar tão acanhado.
— Ora, prima, se a senhora não fosse tão bonita, eu diria que isso é inveja. Veja com que graça e desembaraço ela governa o cavalo... queria que ela estivesse a olhar sempre para todos os lados?
Quando uma moça é bonita, airosa e bem feita, se cavalga um lindo ginete e sabe bem dirigi-lo, seus encantos ganham novo realce. Com o movimento as faces se incendem de cores mais vivas, os olhos despedem mais fulgor, e o porte como que se torna mais garboso e senhoril. Lúcia, que reunia todas aquelas condições em grau eminente, estava fascinadora. Sua entrada na vila produziu uma verdadeira expectação.
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02I
- 03II
- 04À tarde tiveram lugar as cavalhadas.
- 05Lúcia apenas respondeu com um olhar de desprezo.
- 06Chegou a hora da corrida de cabeças.
- 07III
- 08IV
- 09V
- 10VI
- 11VII
- 12Lúcia reportou-se.
- 13A voz de Joana veio despertá-la.
- 14VIII
- 15IX
- 16O dia amanhecera esplêndido.
- 17X
- 18XI
- 19XII
- 20O moço mordeu os beiços de raiva.
- 21E ia montar a cavalo.
- 22XIII
- 23XIV
- 24Isso mesmo.
- 25XV
- 26XVI
- 27Elias voltou pressuroso ao quarto do enfermo.
- 28XVII
- 29Lúcia corou extraordinariamente e baixou os olhos.
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