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Portuguese Edition

Literature

O Missionário

Portuguese BooksWhale Edition by Inglês de Sousa

Um romance naturalista amazônico sobre vocação religiosa, desejo, ambiente, poder local e conflito moral.

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Book introduction

O Missionário

O Missionário acompanha o padre Antônio de Morais em meio a tensões entre ideal religioso, desejo, isolamento amazônico e pressões sociais. Inglês de Sousa constrói um romance naturalista atento ao meio, à sexualidade, à hipocrisia e à vida regional, importante para a literatura brasileira do século XIX.

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Inglês de Sousa morreu em 1918 e O Missionário foi publicado em 1891. Estas datas sustentam a base de domínio público desta edição portuguesa.

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O Missionário

Preview chapterCAPÍTULO IPreview

Padre Antônio de Morais devia chegar a Silves naquela esplêndida manhã de fevereiro.

A carta que escrevera ao Macário sacristão anunciava o dia da partida, designando o paquete, e pedia uma casa modesta e mobiliada simplesmente. Macário fizera o cômputo do tempo necessário à viagem, rio acima até Silves, e espalhara por toda a vila, havia exatamente quinze dias, a notícia da próxima vinda do vigário enviado pelo Sr. D. Antônio “na solicitude paterna de pastor que não descura a salvação das suas mais obscuras ovelhas”, conforme lera o professor Aníbal na Boa nova da última semana. A casa não fora difícil de arranjar, bem perto da Matriz, na melhor situação, olhando para o lago. Era pequena, mas muito arejada e estava caiadinha de novo. Cedera-a por seis mil-réis mensais o presidente da Câmara, que a mandara preparar para si, com umas veleidades de deixar o sítio ao rio Urubus e vir morar para a vila; mas a força do hábito o fizera desistir do projeto, e depois... a D. Eulália... coitada! não queria ouvir falar em tal mudança, por causa dos seus queridos xerimbabos. Assim o Neves Barriga preferira alugar a casinha, branca e asseada, e resignara-se a continuar enterrado naquele sertão do Urubus, matando carapanãs e fazendo farinha de mandioca. O Antônio Capina, por muito empenho, só pudera fornecer uma mesa de pinho, envernizada e decente e a marquesa de palhinha que fora do último juiz municipal, reformada para servir a “algum desses esquisitos lá de fora que não gostam de dormir em rede”. As cadeiras, a mesa de jantar, o lavatório, a bacia de banho, tinha-os o Macário pedido emprestado ao capitão Mendes da Fonseca, que, em toda a vila, possuía as melhores coisas desse gênero. Para ornar a parede do fundo da sala, o professor Aníbal emprestara uma grande gravura, representando a batalha de Solferino, e retratos de Pio IX, de Antonelli, de Cavour, da princesa Estefânia e do conselheiro Paranhos. A louça, tanto a de mesa como a de cozinha, compunha-se do que o Macário pudera arrancar à cobiça da Chiquinha do Lago, restos do espólio do finado padre José, e do que comprara na casa do Costa e Silva. Estava tudo decente.

Depois de aprontar a casa e arranjar a mobília, Macário assumira as funções de diretor da recepção do novo pároco e, naquele dia, ao romper da alva, envergara a sobrecasaca de lustrina, pusera na cabeça o seu boliviano de seis patacas, engolira, a ferver, uma tigela de chá de folhas de cafeeiro adoçado com rapadura, e saíra para a rua, não se podendo ter dentro de quatro paredes, cheio de ansiedade, receando o surpreendesse o apito do vapor, ardentemente esperado.

Era ainda muito cedo. Macário deteve-se à porta, olhos na rua, desejando avistar um amigo, um vizinho, uma criatura qualquer com quem desabafasse a extraordinária emoção da hora, até ali nunca esperada, de ser o diretor da recepção, o organizador da festa, a fonte de informações, o único homem da vila que entretinha relações com S. Rev.ma, a quem S. Rev.ma escrevia.

A rua estava deserta e as casas fechadas. Macário, passeando a sapata de pedras desiguais, esburacada e velha, não podia expandira agitação intestina que lhe escaldava o sangue e bulia com os nervos; só oferecia derivativo à atividade a que se entregava a passos incertos, ziguezagueando às vezes como um ébrio, dando topadas que lhe irritavam os calos e despelavam o bezerro novo das botinas de rangedeira.

O sol subia lentamente no azul esbranquiçado do céu, banhando a frente das casas e dando pinceladas verdes na massa escura da floresta da outra banda. Sobre a superfície do lago Sacracá deslizava pequena montaria, tripulada por um tapuio de movimentos automáticos e vagarosos, que com o remo chato cortava a água cuidadosamente, para não acordar o peixe. Na vila ladravam cães e cantavam galos, e da próxima capoeira vinham vozes confusas de pássaros e de bichos.

Preview chapterCAPÍTULO IIPreview

Os amigos despediram-se afinal. Padre Antônio ficou só, sentindo necessidade de repouso. Seriam três horas da tarde. O calor era intenso.

Erguera-se aquele dia antes do romper da aurora e mal fundeara o vapor, tivera de receber os seus paroquianos, que se apresentavam em maioria de sobrecasaca de lustrina, calças de ganga amarela, mostrando em grandes manchas claras os chapéus de palha da Bolívia, vistosos e baratos, fingindo Panamás.

Quem primeiro lhe falara fora o sacristão, um tal Macário de Miranda Vale, moço corpulento, com uma belida e um lombinho, todo cheio de si dentro da comprida sobrecasaca de grandes pregas duras. Dera-se a conhecer como o destinatário da carta que o padre, por informações que o Filipe do Ver-o-peso colhera do seu correspondente Costa e Silva, havia escrito para Silves. Em primeiro lugar, o Macário vinha agradecer a S. Rev.ma as expressões delicadas que usara na missiva, e, em segundo lugar, cientificá-lo de que a casa estava pronta e mobiliada. E tudo baratinho e decente. Depois o sacrista apresentara as principais pessoas da terra com muita cerimônia, e na intenção de informar a S. Rev.ma, em poucas palavras, das distintas qualidades daqueles cavaleiros:

Fora uma enfiada:

- O tenente Valadão, subdelegado de polícia, muito boa pessoa, incapaz de matar um carapanã.

Era um sujeito magro, esgrouviado, tísico. Tinha um comprido cavanhaque grisalho, e usava óculos.

- O senhor capitão Manoel Mendes da Fonseca, coletor das rendas gerais e provinciais, negociante importante, traz aviamentos de contos de réis. O Elias tem muita confiança nele. É influência política e dispõe de muitas relações boas.

Este era barrigudo e reforçado. Usava a barba toda e trazia a camisa muito bem engomada. Parecia um homem de toda a consideração.

- O senhor presidente da Câmara, alferes José Pedreira das Neves Barriga, que alugou a casa a S. Rev.ma.

Descendente de espanhóis, muito boa pessoa, mora no sítio, ao Urubus, quase nunca vem à vila. Cara de carneiro com largas ventas cheias de Paulo-Cordeiro.

- O escrivão da coletoria, Sr. José Antônio Pereira moço de muito bons costumes.

Baixo, magro, mal barbado. Dentinhos podres, olhinhos mal abertos.

- O senhor vereador João Carlos, íntimo do senhor capitão Fonseca.

- O Sr. Aníbal Americano Selvagem Brasileiro, professor régio, inteligente e sério.

Era um mulato, de óculos de tartaruga.

- O Sr. Joaquim da Costa e Silva, que tem uma boa loja à rua do Porto, e faz o comércio de regatão, mais por divertimento do que por necessidade. É bom católico e fornece noticias ao Diário do Grão-Pará.

- O Sr. Antônio Regalado, o Sr. Francisco Ferreira, uma chusma, de que se destacava um sujeito de cara redonda. Dele Macário dissera em voz alta:

- O Sr. Pedro Guimarães, eleitor.

E depois acrescentara com voz baixa, curvando-se para o padre, familiarmente:

- Chamam-lhe o Mapa-Múndi, mas é boa pessoa.

Tivera de sorrir a toda aquela gente, de apertar-lhe a mão oferecendo os nenhuns préstimos dum humilde criado. Os silvenses diziam:

- Não há de quê...

E sérios, empertigados, mal a cômodo na sobrecasaca, atrapalhados com o chapéu, balbuciavam palavras de respeito, num acanhamento roceiro, cumprindo um dever penoso, olhando desconfiados para todos os lados, vexados das vistas curiosas e zombeteiras dos passageiros do vapor.

Felizmente o desembarque se fizera sem demora, e apenas em terra, o primeiro cuidado de padre Antônio fora dirigir-se à Matriz, a fazer oração. O povo, em grande concurso, desertando o porto, o acompanhara por entre o tanger dos sinos e o estourar dos rojões. Macário, o capitão Fonseca, o Neves Barriga e outras pessoas gradas, ajoelhando as calças de ganga amarela sobre os tijolos da igreja, oraram com ele, pedindo a Misericórdia divina para o bom desempenho da sua missão nesta terra desconhecida.

Table of contents

Inside this edition

  1. 01Full text
  2. 02CAPÍTULO I
  3. 03CAPÍTULO II
  4. 04CAPÍTULO III
  5. 05OS ABUTRES
  6. 06PELO
  7. 07PADRE QUELÉ
  8. 08MANAUS
  9. 09TIP. DO "DEMOCRATA"
  10. 10CAPITULO IV
  11. 11CAPITULO V
  12. 12CAPITULO VI
  13. 13CAPITULO VII
  14. 14CAPITULO VIII
  15. 15CAPITULO IX
  16. 16AURORA CRISTÃ
  17. 17REDATOR - ANÍBAL A. S. BRASILEIRO
  18. 18MORTO POR AMOR
  19. 19NÊNIA
  20. 20CAPITULO X
  21. 21CAPITULO XI
  22. 22CAPITULO XII
  23. 23CAPITULO XIII
  24. 24BELÉM, 20 DE DEZEMBRO DE 18...

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