Portuguese Edition
Literature
O Mulato
Portuguese BooksWhale Edition by Aluísio Azevedo
Um romance naturalista sobre racismo, religião, família e hipocrisia social no Maranhão oitocentista.
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O Mulato
O Mulato acompanha Raimundo em São Luís do Maranhão, onde origem racial, segredo familiar, desejo amoroso e poder clerical se entrelaçam. Aluísio Azevedo inaugura o naturalismo brasileiro com uma crítica direta ao preconceito, à autoridade religiosa, ao provincianismo e à violência social.
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Aluísio Azevedo morreu em 1913 e O Mulato foi publicado em 1881. Essas datas sustentam o domínio público do texto original em português usado nesta edição.
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O Mulato
Preview chapterCapítulo IPreview
Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luís do Maranhão parecia entorpecida pelo calor. Quase que se não podia sair à rua: as pedras escaldavam; as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes, as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas das árvores nem se mexiam; as carroças de água passavam ruidosamente a todo o instante, abalando os prédios; e os aguadeiros, em mangas de camisa e pernas arregaçadas, invadiam sem cerimônia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não se encontrava viva alma na rua; tudo estava concentrado, adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho.
A Praça da Alegria apresentava um ar fúnebre. De um casebre miserável, de porta e janela, ouviam-se gemer os armadores enferrujados de uma rede e uma voz tísica e aflautada de mulher, cantar em falsete a "gentil Carolina era bela", doutro lado da praça, uma preta velha, vergada por imenso tabuleiro de madeira, sujo, seboso, cheio de sangue e coberto por uma nuvem de moscas, apregoava em tom muito arrastado e melancólico: "Fígado, rins e coração!" Era uma vendedeira de fatos de boi. As crianças nuas, com as perninhas tortas pelo costume de cavalgar as ilhargas maternas, as cabeças avermelhadas pelo sol, a pele crestada os ventrezinhos amarelentos e crescidos, corriam e guinchavam, empinando papagaios de papel. Um ou outro branco, levado pela necessidade de sair, atravessava a rua, suado vermelho afogueado, à sombra de um enorme chapéu-de-sol. Os cães, estendidos pelas calçadas, tinham uivos que pareciam gemidos humanos, movimentos irascíveis, mordiam o ar querendo morder os mosquitos. Ao longe, para as bandas de São Pantaleão, ouvia-se apregoar: "Arroz de Veneza! Mangas! Macajubas!" Às esquinas, nas quitandas vazias, fermentava um cheiro acre de sabão da terra e aguardente. O quitandeiro, assentado sobre o balcão, cochilava a sua preguiça morrinhenta, acariciando o seu imenso e espalmado pé descalço. Da Praia de Santo Antônio enchiam toda a cidade os sons invariáveis e monótonos de uma buzina, anunciando que os pescadores chegavam do mar; para lá convergiam, apressadas e cheias de interesse, as peixeiras, quase todas negras, muito gordas, o tabuleiro na cabeça, rebolando os grossos quadris trêmulos e as tetas opulentas.
A Praia Grande e a Rua da Estrela contrastavam todavia com o resto da cidade, porque era aquela hora justamente a de maior movimento comercial. Em todas as direções cruzavam-se homens esbofados e rubros; cruzavam-se os negros no carreto e os caixeiros que estavam em serviço na rua; avultavam os paletós-sacos, de brim pardo, mosqueados nas espáduas e nos sovacos por grandes manchas de suor. Os corretores de escravos examinavam à plena luz do sol, os negros e moleques que ali estavam para ser vendidos; revistavam-lhes os dentes, os pés e as virilhas; faziam-lhes perguntas sobre perguntas; batiam-lhes com a biqueira do chapéu nos ombros e nas coxas, experimentando-lhes o vigor da musculatura como se estivessem a comprar cavalos. Na Casa da Praça, debaixo das amendoeiras, nas portadas dos armazéns, entre pilhas de caixões de cebolas e batatas portuguesas discutiam-se o câmbio, o prego do algodão, a taxa do açúcar, a tarifa dos gêneros nacionais; volumosos comendadores resolviam negócios, faziam transações, perdiam, ganhavam, tratavam de embarrilar uns aos outros, com muita manha de gente de negócios falando numa gíria só deles, trocando chalaças pesadas, mas em plena confiança de amizade Os leiloeiros cantavam em voz alta o preço das mercadorias, com um abrimento afetado de vogais; diziam: "Mal-rais " em vez de mil-réis. À porta dos leilões aglomeravam-se os que queriam comprar e os simples curiosos. Corria um quente e grosseiro zunzum de feira.
Preview chapterPartiram às cinco horas.Preview
Logo que os dois, e mais o guia, se acharam em caminho, Raimundo procurou entabular a mesma conversação que tivera na véspera com o roceiro; queria ver se conseguia arrancar de Manuel algum esclarecimento positivo sobre os seus antepassados. Nada obteve; as respostas do negociante eram, como sempre que o sobrinho lhe tocava nisso, obscuras, difusas, entrecortadas de pausas e reticências. Manuel falou-lhe no cônego, na cunhada, no mano José, e em mais ninguém. A respeito da mãe de Raimundo — nem a mais ligeira referência. "Ora adeus!... Estou sempre na mesma!..." concluiu o moço de si para si e fez por pensar noutra coisa. O fato, porém, é que ele, apesar do seu temperamento de artista não tinha uma frase para as belas paisagens que se desenrolavam diante de seus olhos. Ia cabisbaixo e preocupado.
Jornadearam em silêncio horas e horas. De vez em quando o guia, com o seu de sertanejo, levava-os a uma fazenda ou a um rancho, onde os três descansavam e comiam, para tomar logo a cavalgar por entre as melancólicas carnaubeiras e pindovais da estrada. Raimundo sentia-se aborrecido e impacientava-se pelo fim da viagem. Seu maior empenho era visitar São Brás; propôs até que se fosse lá primeiro, mas o negociante declarou que era impossível. "Não tinham tempo a perder!..."
— Na volta, doutor, na volta, acrescentou, sairemos bem cedo e daremos um pulo até lá. Lembre-se de que nos esperam, e não seria razoável bater fora de hora em casa de uma família. O outro consentiu, praguejando entre dentes contrariado e cheio de tédio: "Que grandíssima estopada! O diabo da tal fazenda do inferno parecia fugir diante deles!..."
— Não se rale, patrãozinho! É ali quase! disse compassadamente o guia, espichando o beiço inferior. Meta a espora no animal, que talvez chegaremos com dia!
— Ah! suspirou Raimundo, desanimado por ver o sol ainda alto e compreender que tinha de caminhar até à noite.
E deixou-se cair numa prostração mofina, a fitar as orelhas do burro, que arfavam com a regularidade monótona das asas de um pássaro voando.
— Cá está! exclamou Manuel, duas horas depois, chegando a um lugar mais sombrio do caminho.
— Que é? ia perguntar o moço quando deu por sua vez com uma cruz de madeira, muito tosca e arruinada. Ah!
— Foi neste lugar assassinado o José!...
Todos pararam, e o guia apeou-se e foi rezar de joelhos ao cruzeiro.
— Reze pela alma de seu pai, meu amigo. Neste lugar foi ele varado por uma bala.
— E o assassino? perguntou Raimundo depois de um silêncio.
— Algum preto fugido!... até hoje nada se sabe ao certo... mas dizem que nisto andou unha política... outros atribuem o fato ao diabo. Bobagens! ...
Raimundo apeou-se e indagou se o pai estava enterrado ali.
Manuel, já de pé, respondeu que não. Enterrara-se no cemitério da fazenda, ao lado da mulher. Aquela cruz, explicou ele, era um antigo uso do sertão; servia para mostrar ao viajante o lugar onde fora alguém assassinado e fazê-lo rezar pela alma da vítima, como ali estava praticando aquele homem.
E apontou para o guia, que, terminada a sua oração, levantou-se e foi colher um ramo de murta, que depôs aos pés da cruz.
Raimundo sentia-se comovido. Manuel, de joelhos, cabeça baixa e chapéu pendurado das mãos postas, rezava convictamente. Ao terminar surpreendeu-se por saber que Raimundo não tencionava fazer o mesmo.
— O quê? Pois então o senhor não reza?...
— Não. Vamos?
— Ora! essa cá me fica!... Então qual é a sua religião? Como adora o senhor a Deus?
— Ora, senhor Manuel, deixemo-nos disso; conversemos sobre outra coisa...
— Não! queria só que o senhor me dissesse como adora a Deus!
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02Capítulo I
- 03Partiram às cinco horas.
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