
Portuguese Edition
Literature
O que fazem mulheres
Portuguese BooksWhale Edition by Camilo Castelo Branco
Um romance camiliano de amor, intriga, convenção social e observação irônica dos costumes.
- Preview
- A sample from the prepared text
- Formats
- Online reader, EPUB, PDF
- Access
- Library claim
Book introduction
O que fazem mulheres
O que fazem mulheres revela o olhar satírico e sentimental de Camilo Castelo Branco sobre relações amorosas, reputação, família e sociedade. O romance combina ritmo narrativo, ironia moral e intensidade emocional característica do autor.
BooksWhale edition
How this edition was prepared
This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.
Public domain basis
Why this edition can be shared
Camilo Castelo Branco morreu em 1890; a obra foi publicada em 1858. Essas datas sustentam o domínio público desta edição.
Read preview
A sample from the prepared text
Preview selected from the prepared reader text.
Preview chapterFull textRead preview
O que fazem mulheres
Camilo Castelo Branco
A TODOS OS QUE LEREM
É uma historia que faz arripiar os cabellos.
Ha aqui bacamartes e pistolas, lagrimas e sangue, gemidos e berros,
anjos e demonios.
É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juizo!
Preview chapterIsto sim que é romance!Preview
Não é romance; é um soalheiro, mas tragico, mas horrivel, soalheiro em
que o sol esconde a cara.
Como da seva mesa de Thyestes
Quando os filhos por mão de Atreu comia.
Escreve-se esta chronica em quanto as imagens dos algozes e victimas me cruzam por diante da phantasia, como bando de aves agoureiras, que espirram de pardieiro esboroado, se as acossa o archote de um phantasma.
Tenebroso e medonho! É uma dança macabra! um tripudio infernal! cousa só semelhante a uma novella pavorosa das que aterram um editor, e se perpetuam nas estantes, como espectros immoveis.
Ha ahi almas de pedra, corações de zinco, olhos de vidro, peitos de
asphalto?
Que venham para cá.
Aqui ha cebola para todos os olhos;
Broca para todas as almas;
Cadinhos de fundição metallurgica para todos os peitos.
Não se resiste a isto. Ha-de chorar toda a gente, ou eu vou contar aos
peixes, como o padre Vieira, este miserando conto.
Os dias actuaes são melancolicos; a humanidade quer rir-se; muita gente, séria e sisuda, se compra um romance, é para dar treguas ás despoetisadas e pêcas realidades da vida.
Sei-o de mais. Eu tambem compro os livros dos meus amigos, para espairecer de meditações serumbaticas em que me anda trabalhado o espirito.
Sei quantos devo, e que favores impagaveis me deveria, leitor bilioso, se eu lhe encurtasse as horas com paginas galhofeiras, picarescas, salitrosas, travando bem á malagueta, nos beiços de toda a gente, afóra os seus.
Tenha paciencia: ha de chorar ainda que lhe custe.
Se respeita a sua sensibilidade, fique por aqui; não leia o resto, que está ahi adiante uma, ou duas são ellas, as scenas das que se não levam ao cabo, sem destillar em lagrimas todos os liquidos da economia animal.
Este romance foi escripto n'um subterraneo, ao bruxolear sinistro de uma lampada.
Alfredo de Vigny não diz que escreveu um drama, ás escuras, em vinte
dias? E Frederico Soulié não se rodeava de esqueletos e esquifes?
E outros não se espertaram com todos os estimulos imaginaveis de terror? Menos o do subterraneo... este é meu, se me dão licença.
Pois foi lá que eu desentranhei do seio estes lobregos lamentos.
No fim de cada capitulo, vinha ao ar puro sorver alguns átomos de
oxigenio, e todos me perguntavam se eu tinha pacto com o diabo.
Almas plebeias! não sabem o que é a fidalguia do talento, que tem alcaçar nos astros, e nos antros lobregos da terra; não entendem este fadario do «genio», que elles chamam «excentricidade», como se não houvesse um nome portuguez que dar a isto.
O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar de um caustico? Excruciaram-no, alguma vez, os flagellos da inspiração corrosiva, como duas onças de sublimado?
Se não sabe o que isto é, estude pharmacia, abra um expositor de chimica mineral, e verá.
Não cuidem que podem ler um romance, logo que soletram. Precisam-se mais conhecimentos para o ler que para o escrever. Ao auctor basta-lhe a inspiração, que é uma cousa que dispensa tudo, até o siso e a grammatica. O leitor, esse precisa mais alguma cousa: intelligencia;--e, se não bastar esta, valha-se da resignação.
Ora, está dito tudo.
Leiam isto, que é verdadeiro como o «Agiologio» de Ribadaneira, como as «Peregrinações» de Fernão Mendes, como todos os livros legados de geração a geração com o sinete da crença universal.
A ALGUNS DOS QUE LEREM
Não será uma acção meritoria amoldurar em fórmas verosimeis a virtude, que os pessimistas acoimam de impraticavel n'este mundo? Hão de só crer nas façanhas do crime, nas hyperboles da maldade humana, e negar as perfeições do espirito, descrêr o que ultrapassa as balisas de uma certa virtude convencional, que não custa dores a quem a usa?
Preview chapterIPreview
--Ludovina, já pensaste a resposta que has-de dar a teu pae?
Pergunta que faz a sua filha uma senhora de nobre presença, quarenta annos, ainda frescal, chamada Angelica, e casada com o sr. Melchior Pimenta, empregado na alfandega do Porto.
Ludovina respondeu:
«Como hei-de eu responder, se ainda não vi o homem?
--É um homem como os outros;--replicou D. Angelica--são todos o mesmo, menina. Teu pae sabe o que faz. Um homem é quem melhor conhece outro homem. Se elle te disse que achou um bom marido, não póde enganar-se.
«Ora essa, mãe! E se eu antipathisar com elle?
--Deves casar, como se sympathisasses.
«Bravo!... e depois?
--E depois, virá a sympathia. Imaginas lá com que repugnancia eu casei? Casaram-me, deixei-me levar porque era uma creança, vivia na aldeia, e sonhava com os vestidos e os bailes, e os theatros do Porto. Depois, teu pae... teu pae adorava-me, dava-me mais do que eu ambicionava, e sem saber como, nem porque, contentei-me tanto com a minha sorte, que não invejava a de ninguem. Tinha vaidade em ser bonita, vestir com gosto, e chegar onde as mais ricas não podiam chegar. Via homens elegantes, reconhecia a differença que os fazia superiores a teu pae, e, comtudo, nunca me passou pela cabeça a loucura, a ingratidão, o crime da infidelidade. Posso dizer que principiei a amar meu marido, quando as outras mulheres se enfastiam. Aqui tens o que nunca te disse. Não ha homem nenhum que seja indigno da estima de uma mulher.
«Mas a mãe sabe que eu... amo outro homem.
--Eu não sei se amas outro homem... Sei que namoras outro homem, e entre namorar e amar está o reflectir, menina. Esse rapaz que te manda romances e cartas entre as paginas... (não te inquietes, que sei tudo, e tudo pouco vale...) esse rapaz quem é? Um filho-familia, sem posição, sem modo de vida, que te ama, que será teu marido, se tu quizeres; que viverá das tuas sopas, se as tiveres para ti, que se envergonhará da sua dependencia, quando o amor obedecer á razão; que se enfastiará dos teus carinhos, se quizeres prende'-lo com elles a ti, ou ao berço de teu filho. Se quizesses exemplos, dava'-tos. Tens ouvido censurar duas ou tres amigas, que tens, casadas com homens ricos de cabellos brancos?
«Ainda hontem li um folhetim contra as mulheres que se deixam seduzir
pela «fortuna» de estupidas creaturas...
--Lêste? De quem era o folhetim? Se o auctor fôr rico, e tiver quarenta annos, o auctor é insuspeito, e, n'esse caso, digo-te que sujeites o teu destino á determinação do folhetim. Escreve uma carta ao auctor, e conta-lhe que és uma menina pobre, virtuosa, com excellentes joias de espirito. Offerece-lhe o teu coração, e promette que has-de levar-lhe a felicidade com a pobreza. Se elle te vier buscar, peso-te a ouro ao santo que fizer o milagre. Ora, se o folhetinista é um talento raro, um elegante de grande bigode e luneta, mas pobre, faz-lhe o mesmo offerecimento, prevenindo-o de que és tão pobre como elle. Se o folhetinista te vier pedir, é um dia de festa n'esta casa...
Aprende, creança. Os rapazes pobres, se vivem na boa sociedade, criam ahi ambições, que uma menina sem riqueza não satisfaz. Pois não os conheces tu, Ludovina? Não os vês no baile e no theatro namorando um dote como quem namora uma mulher? Não és tu a mesma que censuras a indignidade de certos homens, que recebem resignados todas as repulsas, e teimam sempre em esquadrinhar um dote, como se fizessem voto de casarem ricos, ainda á custa de vergonhas? Vê lá se entre os folhetinistas aspirantes ao casamento de especulação se te depara o nome que hontem lêste... Talvez ainda não reparasses em outra injustiça que se faz ás mulheres pobres, se a fortuna lhes dá maridos ricos. Não ha por ahi rapazes com grandes patrimonios? Recebem elles, por ventura, em casamento meninas virtuosas e pobres? Não. Procuram-nas ricas, e fiscalisam menos a vida honesta da noiva, que o numero de acções do banco, ou o valor da propriedade paterna. Os moralistas de gazeta que dizem d'isto? Sacrificam, talvez, a sua indignação ao amor do sexo: não dizem nada, e rebentam por outro lado em imprecações contra a mulher, que os elegantes ricos rejeitam, e os ricos sem elegancia procuram.
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02Isto sim que é romance!
- 03I
- 04II
- 05III
- 06IV
- 07V
- 08Inventou-se uma lua para os casados.
- 09Isto, se eu o não contasse, era cousa que morria ignorada porque o
- 10VI
- 11Isto é uma grande idéa, das quatro idéas grandes que apparecem em cada
- 12VII
- 13VIII
- 14isso.
- 15Instam na explicação das respostas, e elle troveja:
- 16IX
- 17X
- 18Isto occorreu naturalmente da castidade da lua.
- 19XI
- 20Isto é uma tyrannia, uma inquisição, uma crueza turca.
- 21XII
- 22XIII
- 23XIV
- 24In terris...
- 25XV
- 26XVI
- 27isso não sei eu.
- 28XVII
- 29inventaria o inferno para me fazer deixar-te!
- 30Ingrato homem! é a exclamação natural com que as leitoras sensiveis
- 31Item: que o estirar uma idéa para avolumar a lombada de um livro era
- 32Inspirou-m'os, deu-m'os ella
- 33ironico enfado.
- 34insolente que vaes disparar-me.
Language availability
Other languages
Additional language editions are not published yet. This section will link to other BooksWhale editions when they become available.
Request another language