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Portuguese Edition

Literature

O sangue

Portuguese BooksWhale Edition by Camilo Castelo Branco

Um romance de Camilo em que vínculos familiares, paixões e julgamentos morais se revelam por meio de conflitos e diálogos intensos.

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Book introduction

O sangue

A narrativa acompanha as consequências das relações familiares e afetivas num mundo em que a origem, a reputação e as obrigações pesam sobre as escolhas. Camilo alterna episódios dramáticos, intervenções do narrador e observação dos costumes. A introdução e os vinte e um capítulos desenvolvem uma intriga marcada pelo choque entre sentimentos, interesses e responsabilidades.

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Camilo Castelo Branco morreu em 1890. Utiliza-se o texto português original da edição de 1907, disponibilizado pelo Project Gutenberg, sem notas, imagens ou material editorial posterior.

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O sangue

Camilo Castelo Branco

Preview chapterINTRODUCÇÃOPreview

—Como tu estás conservado, homem!

Exclamou, n’um d’estes dias, o meu amigo Antonio Joaquim, encarando comigo, na revolta d’uma esquina.

—Nem pés de gallinha, nem calvo, nem bigode grisalho, os dentes todos!—proseguiu elle, encruzando os braços sobre a placida cornija do abdomen.

«Nem sequer duzentos kilos de toicinho, envolucro sujo com que a natureza veste os seus filhos maiores de quarenta annos, para que o alfaiate não possa jámais embonecal-os com as graças seductoras d’um tisico sorvido pelos vampiros do amor!... És invejavel! Pois convence-te de que és velho!

—Vinte annos ha que eu me convenci, amigo Antonio. Passados mais alguns, morri. Hoje, o que vês n’este arcaboiço, é uma alma insepulta e penada que se offerece penitente e docil ás tuas injurias. Não espremas, comtudo, a esponja, meu amigo. Sabe que todas as passadas, que dou, vão na vereda escabrosa do meu calvario...

—Devo prevenir-te que não venho disposto para fazer via-sacra—atalhou o meu velho amigo.—Se vaes até ao calvario, faz lá recommendações ao mau ladrão, e diz-lhe que, se florescesse em Portugal, mil oitocentos e trinta e cinco annos depois, seria visconde de Gestas, visto que elle se chamava Gestas. Diz tambem a Dimas, ao bom ladrão, que os do nosso tempo todos são bons como elle, e por isso todos se salvam. E, se quizeres questionar com algum dos apostolos, caso lá os topes, diz-lhes que, presentemente, a gente graúda, á imitação de Christo, considera os bons ladrões dignos do céo; e que, desde o facto algum tanto reparavel de ser perdoado um salteador com prejuizo de terceiro, todos os salteadores «de sobrado alto», como lhes chama a Arte de furtar, são, sobre perdoados, honrados,—o que até certo ponto é christianismo progressivo.

—Então, como te vae?—atalhei eu, cortando a insulsa calumnia apontada ao brioso peito de muitos dos meus melhores amigos.

—Vae-me bem, não vês? Tenho esta grande barriga em que está sepultado o melhor do meu eu subjectivo, e tenho gôta n’este joanete do pé direito. Tu, pelos modos, és alma penada, e eu sou alma despennada, que é peor. Tu ainda sobes ao calvario e respiras ar desafogado, em quanto eu a custo me desatasco da lama. Em summa, estou velho...

—E rico?

—Tambem.

—E feliz?

—Feliz como um cerdo amarrado com uma corrente de ouro. Tu não sabes ainda o que é a felicidade da pobreza, homem! Não soubeste ainda abrir o thesouro em que a Providencia divina te remetteu o arnez impenetravel aos golpes da desgraça...

—Não sei... Terei eu lá em casa isso?!

—Tens, ingrato, se tens!... É o trabalho.

—Ah!

—Esse ah! é alvar. O trabalho é como aquelle anjo que em fórma de pomba pairava sobre a face de Santo Adelino adormecido, para que os raios do sol não lhe acordassem os sentidos e a consciencia da dôr. O trabalho é um absintho celestial, que suavemente embriaga e entorpece as faculdades cognoscitivas atormentadoras do infeliz ocioso. O trabalho é a compensação da pobreza...

—E a riqueza que é? uma calamidade que dispensa a pomba de Santo Adelino ... não é?

—Se alguem ha ahi, até certa idade, verdadeiramente feliz por ella,—o que não creio—a riqueza é um abutre cruelissimo que principia a espicaçar o rico, assim que o espelho, e a dispesia, e as insomnias, e a indifferença das novas, e a consideração das velhas, e o commedimento dos rapazes em sua presença se conjuram para lhe dizer: «envelheces». Aqui tens o verdugo, que dá o laço ahi pelos quarenta e cinco annos, e aperta e arrocha, até aos setenta, até aos oitenta, prolongando-lhe o supplicio, ao apuro de lhe fazer invocar a morte, execrar o ouro, amaldiçoar os homens e blasfemar de Deus.

Preview chapterCAPITULO IPreview

Argumento

Fundação da rua das Cangostas, no Porto; origem dos Barros, e sua descendencia até ao seculo XIX. Diz-se quem comia o anho no theatro de S. João e outrosim quem era a menina que tolheu o espirito de Nicoláo. Dá-se noticia de Innocencio. Virtudes do negociante, e suas duvidas a respeito da liberdade. Não entende o que seja diplomacia, e representa o fervor constitucional dos seus contemporaneos. Como Gervasio José se bateu para que o não roubassem, e dá assim a razão por que se bateram muitos que foram liberaes depois. Lagrimas de creança. A razão por que os orfãosinhos não choram.

Quando os frades de S. Domingos, do Porto, no primeiro quartel do seculo XVI offerecêram terreno da sua cerca aos portuenses que quizessem edificar, muitos aceitaram a liberdade dos dominicanos, e para logo se formou a rua das Cangostas. Um dos fundadores da nova rua chamava-se Pero Barrios, judeu oriundo de Castella, e official de tecidos de prata e ouro.

Os filhos de Pero, indecisos entre Moisés e Jesus, inclinaram-se á religião que mais os caucionava de sustos e desfalques no seu prosperado commercio. Seguiram pontual e ostensivamente o rito romano, guardando em secreto os preceitos d’uma religião comesinha que ainda hoje nos parece ser a predominante na Europa: a religião da absoluta indifferença por todas.

D’esta arte, a familia Barros, já aporteguezado o appellido hespanhol, fruia socegadamente os seus haveres mediante as toleraveis incommodidades de ir, cada quaresma, confessar culpas veniaes aos dominicos, de presentear o prior com algumas varas de galão de ouro para guarnecer os paramentos sacerdotaes, acudir aos jubileus, aos lausperennes, e á missa nos dias santos com fervor edificativo.

Estes trabalhos eram suaves e bons de levar comparados aos dos contumazes e boçaes hebreus, que, por amor das tabuas da lei, se deixavam levar de casa á mesa do santo officio, da mesa ao carcere, do carcere á polé, da polé ao templo de Jesus misericordioso, do templo ao tribunal civil, e d’aqui á fogueira. O filho de Jethro, por optimo legislador e subtil embaidor que haja sido, realmente não valia tanto.

Outro Pero de Barros, bisneto do primeiro morador na rua das Cangostas, reedificou a casa de seu bisavô, fazendo-lhe portas voltadas á rua, feitio que a camara do seculo XVI não consentira sem pleito aos primeiros edificadores, como se depreende de um documento ainda archivado no cartorio municipal.

Aquelle Pero de Barros era já abastado em 1700. Seus filhos levantaram mão da tecelagem de ouro e deram-se ao commercio de estofos chamados de Damasco. Em 1750 os netos do segundo Pero, já muito ricos, mercadejavam em vinhos, e possuiam grandes montados no Douro que plantavam de vinhaes, animados pelo trafego mercantil que respondêra cabalmente ás previsões do ministro de D. José I.

No primeiro quartel d’este seculo, os Barros eram contados entre os maiores proprietarios do Porto, e tinham largado todo o negocio, laborando tão sómente na cultura dos seus bens de raiz.

Dizia, em 1806, João Maria de Barros, representante dos antigos e já esquecidos israelitas de Cordova, que seu pae lhe deixára em dinheiro de contado quinhentos mil cruzados em ouro, estipulando-lhe que esta reserva a transmittisse intacta aos seus descendentes, com a obrigação restricta de darem este dinheiro para a reedificação de Jerusalem, se alguma hora os hebreus dispersos se congregassem e fintassem para renovar a cidade de Salomão, consoante o promettido pelos seus profetas. Este pio legado acabou na pessoa de João Maria de Barros, em razão de lhe entrarem em casa os francezes invasores em 1808, e descobrirem debaixo d’um leito de páo santo o cofre ferrado com o recheio dos quinhentos mil cruzados, os quaes a esta hora constituem, em Pariz, a opulencia de alguma duqueza, filha do soldado, que roubou a casa da rua das Cangostas, e morreu general do imperio.

Table of contents

Inside this edition

  1. 01Full text
  2. 02INTRODUCÇÃO
  3. 03CAPITULO I
  4. 04CAPITULO II
  5. 05CAPITULO III
  6. 06CAPITULO IV
  7. 07CAPITULO V
  8. 08CAPITULO VI
  9. 09CAPITULO VII
  10. 10CAPITULO VIII
  11. 11CAPITULO IX
  12. 12CAPITULO X
  13. 13CAPITULO XI
  14. 14CAPITULO XII
  15. 15CAPITULO XIII
  16. 16CAPITULO XIV
  17. 17CAPITULO XV
  18. 18CAPITULO XVI
  19. 19CAPITULO XVII
  20. 20CAPITULO XVIII
  21. 21CAPITULO XIX
  22. 22CAPITULO XX
  23. 23CAPITULO ULTIMO

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