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Portuguese Edition

Literature

O Seminarista

Portuguese BooksWhale Edition by Bernardo Guimarães

Um amor impedido pelo destino religioso transforma vocação, família e desejo em drama romântico brasileiro.

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Book introduction

O Seminarista

O Seminarista acompanha Eugênio e Margarida em uma história de amor sufocada pela imposição da carreira eclesiástica. Bernardo Guimarães constrói um romance de crítica social, sentimento intenso e conflito entre religião, família e liberdade afetiva.

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Bernardo Guimarães morreu em 1884; a obra foi publicada ou compilada por volta de 1872. Esses dados sustentam a base de domínio público desta edição portuguesa.

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O Seminarista

A uma légua, pouco mais ou menos, da antiga vila de Tamanduá, na província de Minas Gerais, e a pouca distância da estrada que vai para a vizinha vila da Formiga, via-se, há de haver quarenta anos, uma pequena e pobre casa, mas alva, risonha e nova. Uma porta e duas janelinhas formavam toda a sua frente.

Um estreito caminho, partindo da porta da casa, cortava o vargedo e ia atravessar o capão e o córrego, por uma pontezinha de madeira, fechada do outro lado por uma tronqueira de varas. Junto à ponte, de um lado e outro do caminho, viam-se duas corpulentas paineiras, cujos galhos, entrelaçando-se no ar, formavam uma arcada de verdura, à entrada do campo onde pastava o gado.

Era uma bela tarde de janeiro. Dois meninos brincavam à sombra das paineiras: um rapazinho de doze a treze anos e uma menina, que parecia ser pouco mais nova do que ele.

A menina era morena; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade, de corpo esbelto e flexível como o pendão da imbaúba.

O rapaz era alvo, de cabelos castanhos, de olhar meigo e plácido e em sua fisionomia como em todo o seu ser transluziam indícios de uma índole pacata, doce e branda.

A menina, sentada sobre a relva, despencava um molho de flores silvestres de que estava fabricando um ramalhete, enquanto seu companheiro, atracando-se como um macaco aos galhos das paineiras, balouçava-se no ar, fazia mil passes e piruetas para diverti-la.

Perto deles, espalhados no vargedo, umas três ou quatro vacas e mais algumas reses estavam tosando tranqüilamente o fresco e viçoso capim.

O sol, que já não se via no céu, tocava com uma luz de ouro os topes abaulados dos altos espigões; uma aragem quase imperceptível mal rumorejava pelas abas do capão e esvoaçava por aquelas baixadas cheias de sombra.

— Vamos, Eugênio. São horas... vamos apartar os bezerros e tocar as vacas para a outra banda.

Dizendo isto, a menina levanta-se da relva, e, atirando para trás dos ombros os negros e compridos cabelos, sacudiu do regaço uma nuvem de flores despencadas.

— Pois vamos lá com isso, Margarida, exclamou Eugênio, vindo ao chão de um salto, e ambos foram ajuntar as poucas vacas que ali andavam pastando.

— Arre! com mil diabos!... que bezerrada mofina! - exclamou o rapaz tangendo os bezerros. - Por que é que estes bezerros da tia Umbelina andam sempre assim tão magros?

Ora! pois, que é que você quer? mamãe tira quase todo o leite das vacas, e deixa um pinguinho só para os pobres bezerros. Por isso mesmo quase nenhuma cria pode vingar, e algum que escapa mamãe vende logo.

— E por que é que ela não te dá uma bezerrinha? aquela vermelhinha estava bem bonita para você...

— Qual!... não vê que ela me dá!... e eu que tenho tanta vontade de ter a minha vaquinha. Há que tempo Dindinha prometeu de me dar uma bezerra e até hoje estou esperando...

— Mamãe?... ora!... é porque ela se esqueceu... deixa estar, que eu hei de falar com ela... mas não, eu mesmo é que hei de te dar uma novilha pintada muito bonitinha que eu tenho. Assim como assim, eu tenho de me ir embora mesmo, que quero eu fazer com a criação?

— Como é isso?... - exclamou Margarida com surpresa. - Pois você vai-se embora?...

— Vou, Margarida; pois você ainda não sabia?...

— Eu não; quem me havia de contar? para onde é que você vai, então?

— Vou para o estudo, Margarida; papai mais mamãe querem que eu vá estudar para padre.

— Deveras, Eugênio!... ah! meu Deus!... que idéia!... e é muito longe esse estudo?

— Eu sei lá; eles estão falando que eu vou para Congonhas...

— Congonhas?... ah! já ouvi falar nessa terra; não é onde moram os padres santos?... ah! meu Deus! isso é muito longe!

Preview chapterPart 2Preview

Não eram ainda Romeu e Julieta; mas eram inseparáveis como Paulo e Virgínia vagueando pelas sombras dos pitorescos bosques da Ilha de França.

Entretanto Eugênio tocava já aos seus nove anos, e um dia foi preciso mandá-lo morar na Vila em casa de um parente, a fim de freqüentar a escola de primeiras letras.

Ah! foi esse um dia de prantos e desolação naquela pequena família. Parecia que ela havia sido fulminada por alguma grande desgraça. Umbelina e a dona da casa ralhavam e afagavam, sorriam e choravam ao mesmo tempo; os meninos resmungavam queixas e soluçavam pelos cantos da casa. O pai gritava, enternecia-se e exasperava-se alternativamente à vista de tanta choradeira. E tudo isso por causa de um menino que ia para a escola dali a légua e meia!...

No momento de partir foi a muito custo que conseguiram arrancar os dois meninos dos braços um do outro.

Foi necessário que Umbelina agarrasse à força sua filha, que se atirava pelo chão, estorcendo-se e rasgando as roupas em desespero, e queria a todo o transe ir correndo pela estrada afora atrás de seu companheiro, que lá se ia em lágrimas e soluços.

Por alguns dias Margarida ficou metida em sua casa, triste e amuada. Uma dor de alguns dias já é para assombrar em um coração de oito anos. Mas o tempo é o melhor, senão o único consolador das mágoas passageiras da vida. Sobretudo no coração das crianças, o seu bálsamo é de uma eficácia e prontidão espantosa. Assim pois com o tempo e também porque quase todos os domingos Eugênio vinha passar o dia na fazenda, Margarida foi-se consolando e acomodando com a sua sorte.

Eugênio esteve dois anos na escola, e quando voltou definitivamente para a casa paterna, Margarida, que estava entre os nove e dez anos, já não era tão assídua em casa do fazendeiro. A menina já podia ajudar a sua mãe; sabia coser, bordar, e era muito diligente em toda a espécie de serviço caseiro compatível com a sua idade. Portanto somente aos domingos e dias santos, ou por acaso em alguma tarde costumava aparecer em casa de seus padrinhos em companhia de sua mãe.

Desde então trocaram-se os papéis, e era Eugênio quem não deixava a pequena casa da tia Umbelina, onde passava os dias quase inteiros junto a Margarida, ajudando-a em seus pequenos serviços, ou pelos campos e capões vizinhos, armando arapucas e esparrelas para apanhar pombas, sabiás, inhambus, saracuras e outros pássaros com que obsequiava a sua linda amiguinha, a qual com isto mostrava-se infinitamente satisfeita.

Os pais de Eugênio não deixavam de ralhar com ele em razão de não parar em casa.

— Meu filho - dizia a mãe em tom de branda repreensão -, eu desejava bem saber o motivo por que não me paras em casa!... parece que não queres mais bem a tua mãe?...

— Quero, mamãe...

— Não queres... isto já é muito travessear... é preciso sossegar um pouco... não paras um instante ao pé de mim. Não gostas de teu pai, nem de tua mãe?...

— Gosto, mamãe...

— Qual!... não gostas. De manhã apareces apenas para tomar a bênção, tomas à pressa o teu café com leite, e depois... adeus, Sr. Eugênio, passe por lá muito bem até à hora de jantar, ou até à noite!... Isto não vai bem!.. estou zangada contigo.

— E se eu contar a mamãe por que é que eu fico lá tanto tempo, mamãe fica zangada comigo?

— Eu sei!?... conforme... fala; que é, então?...

— Pois mamãe sabia que a tia Umbelina me pediu para ensinar a ler à Margarida...

Preview chapterPart 3Preview

Enquanto seus companheiros brincavam, corriam, saltavam, balouçando-se em gangorras ou trepando pelas árvores, Eugênio se isolava, e sentado no paredão olhava para os outeiros e espigões que se desdobravam diante de seus olhos.

Se via um grupo de mulheres passeando ao longo das colinas verdes, e entre elas alguma menina, seu coração suspirava. Margarida! murmurava ele, e aquele nome tão doce, que lhe escapava como um soluço do fundo do coração, ia morrer nas asas da brisa perfumada, abafado pela algazarra de seus alegres companheiros. Era um arrulho de juritis perdido no meio da atroadora garrulice dos melros.

Outras vezes ficava olhando para o ocidente. Era desse lado que ficava a sua terra natal. Por largo tempo ficava com os olhos pregados nas nuvens brilhantes, que como franjas de ouro pairavam sobre os cumes das últimas colinas, e lá iam boiando a atufar-se no vapor esbraseado do ocidente. Ele se transportava em espírito para o seio daquelas nuvens de ouro, donde pensava poder-se enxergar as colinas e vargedos da fazenda paterna, e dali conversava com a saudosa companheira de sua infância. Tinha inveja da andorinha e do corvo, que talhando os ares lá se iam perder nas douradas brumas do ocaso demandando os sítios venturosos onde morava a bem querida do seu coração, e pesaroso por não poder acompanhá-los dizia-lhes do íntimo d'alma: - dai saudades a Margarida!

O sino da capela badalando ave-marias o vinha despertar daquelas doces e saudosas cismas.

— Anda, sorumbático!... vamos, meu sonso!... que estás aí banzando? bradavam-lhe seus galhofeiros e alegres companheiros.

Então os meninos, descobrindo-se com as mãos postas dentro de seus barretes, os olhos baixos, e a fronte venerabunda postavam-se em semicírculo em face do regente, e murmuravam em voz baixa a prece das Ave-Marias.

Eugênio, posto que com o espírito preocupado pelas inquietações e saudades de um afeto terreno, rezava com mais fervor e recolhimento do que seus frívolos e descuidosos companheiros. Seu espírito apurado ao fogo de um amor infantil e casto, como o sutil e rosado vapor da manhã, despegava-se da terra com facilidade remontando ao firmamento.

As puras e santas afeições da alma, longe de a desviarem do caminho do céu, são asas com que mais depressa se eleva ao trono de Deus.

No seminário o menino Eugênio era um exemplo de boa conduta e aplicação. Cordato, dócil e obediente, depressa granjeou a benevolência e estima dos padres, e a simpatia de seus companheiros. No estudo, porém, não deu a princípio muito boas contas de si, nem apresentou os progressos que eram de esperar de sua boa memória e inteligência.

A imagem de Margarida e a saudade do lar paterno enchiam-lhe de sombra o espírito e o coração para deixarem lugar às fastidiosas lições de gramática latina. O compêndio de Antônio Pereira foi para ele um pesadelo, diante do qual teve de gemer e suar por alguns meses. Lia e relia as páginas da lição a ponto de as esfarelar para conseguir gravar na memória algumas palavras. É que eram seus olhos somente que passeavam por sobre aquelas letras mortas, que nada diziam ao seu espírito.

Aquelas definições e classificações tão frias e áridas, aquelas enfiadas enfadonhas de declinações e conjugações, como um bando de morcegos e corujas, recusavam-se obstinadamente a penetrar no cérebro inflamado do adolescente, onde como em um santuário ardente e luminoso fulgurava incessantemente a imagem de Margarida. Se desde o começo lhe tivessem posto nas mãos o livro dos Testes de Ovídio ou as Éclogas de Virgílio, talvez aquela calma impressionável e apaixonada se tivesse mais depressa congraçado com o latim.

Table of contents

Inside this edition

  1. 01Part 1
  2. 02Part 2
  3. 03Part 3
  4. 04Part 4
  5. 05Part 5
  6. 06Part 6
  7. 07Part 7
  8. 08Part 8
  9. 09Part 9
  10. 10Part 10
  11. 11Part 11
  12. 12Part 12
  13. 13Part 13
  14. 14Part 14
  15. 15Part 15

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