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Portuguese Edition

Literature

O Uraguai

Portuguese BooksWhale Edition by Basílio da Gama

Um clássico em domínio público sobre guerra guaranítica, natureza americana, império, missão e tragédia indígena.

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Book introduction

O Uraguai

O Uraguai de Basílio da Gama continua relevante para leitores interessados em guerra guaranítica, natureza americana, império, missão e tragédia indígena na tradição de língua portuguesa. Esta edição portuguesa apresenta o texto original em domínio público numa forma limpa para leitura online, EPUB e PDF.

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How this edition was prepared

This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.

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O Uraguai foi publicado pela primeira vez em 1769. Esta edição usa o texto original português em domínio público, com base na data da obra e nos direitos autorais expirados.

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O Uraguai

Basílio da Gama

Preview chapterParte 1Preview

Fumam ainda nas desertas praias

Lagos de sangue tépidos e impuros

Em que ondeiam cadáveres despidos,

Pasto de corvos. Dura inda nos vales

O rouco som da irada artilheria.

Musa, honremos o Herói que o povo rude

Subjugou do Uraguai, e no seu sangue

Dos decretos reais lavou a afronta.

Ai tanto custas, ambição de império!

E Vós, por quem o Maranhão pendura

Rotas cadeias e grilhões pesados,

Herói e irmão de heróis, saudosa e triste

Se ao longe a vossa América vos lembra,

Protegei os meus versos. Possa entanto

Acostumar ao vôo as novas asas

Em que um dia vos leve. Desta sorte

Medrosa deixa o ninho a vez primeira

Águia, que depois foge à humilde terra

E vai ver de mais perto no ar vazio

O espaço azul, onde não chega o raio.

Já dos olhos o véu tinha rasgado

A enganada Madri, e ao Novo Mundo

Da vontade do Rei núncio severo

Aportava Catâneo: e ao grande Andrade

Avisa que tem prontos os socorros

E que em breve saía ao campo armado.

Não podia marchar por um deserto

O nosso General, sem que chegassem

As conduções, que há muito tempo espera.

Já por dilatadíssimos caminhos

Tinha mandado de remotas partes

Conduzir os petrechos para a guerra.

Mas entretanto cuidadoso e triste

Muitas cousas a um tempo revolvia

No inquieto agitado pensamento.

Quando pelos seus guardas conduzido

Um índio, com insígnias de correio,

Com cerimônia estranha lhe apresenta

Humilde as cartas, que primeiro toca

Levemente na boca e na cabeça.

Conhece a fiel mão e já descansa

O ilustre General, que viu, rasgando,

Que na cera encarnada impressa vinha

A águia real do generoso Almeida.

Diz-lhe que está vizinho e traz consigo,

Prontos para o caminho e para a guerra,

Os fogosos cavalos e os robustos

E tardos bois que hão de sofrer o jugo

No pesado exercício das carretas.

Não tem mais que esperar, e sem demora

Responde ao castelhano que partia,

E lhe determinou lugar e tempo

Para unir os socorros ao seu campo.

Juntos enfim, e um corpo do outro à vista,

Fez desfilar as tropas pelo plano,

Por que visse o espanhol em campo largo

A nobre gente e as armas que trazia.

Vão passando as esquadras: ele entanto

Tudo nota de parte e tudo observa

Encostado ao bastão. Ligeira e leve

Passou primeiro a guarda, que na guerra

É primeira a marchar, e que a seu cargo

Tem descobrir e segurar o campo.

Depois desta se segue a que descreve

E dá ao campo a ordem e a figura,

E transporta e edifica em um momento

O leve teto e as movediças casas,

E a praça e as ruas da cidade errante.

Atrás dos forçosíssimos cavalos

Quentes sonoros eixos vão gemendo

Co peso da funesta artilheria.

Vinha logo de guardas rodeado

- Fontes de crimes - militar tesouro,

Por quem deixa no rego o curvo arado

O lavrador, que não conhece a glória;

E vendendo a vil preço o sangue e a vida

Move, e nem sabe por que move, a guerra.

Intrépidos e imóveis nas fileiras,

Com grandes passos, firme a testa e os olhos

Vão marchando os mitrados granadeiros,

Sobre ligeiras rodas conduzindo

Novas espécies de fundidos bronzes

Que amiúdam, de prontas mãos servidos,

E multiplicam pelo campo a morte.

Que é este, Catâneo perguntava,

Das brancas plumas e de azul e branco

Vestido, e de galões coberto e cheio,

Que traz a rica cruz no largo peito?

Geraldo, que os conhece, lhe responde:

É o ilustre Meneses, mais que todos

Forte de braço e forte de conselho.

Toda essa guerreira infanteria,

A flor da mocidade e da nobreza

Preview chapterParte 2Preview

Duas vezes a lua prateada

Curvou no céu sereno os alvos cornos,

E inda continuava a grossa enchente.

Tudo nos falta no país deserto.

Tardar devia o espanhol socorro.

E de si nos lançava o rio e o tempo.

Cedi, e retirei-me às nossas terras.

Deu fim à narração o invicto Andrade

E antes de se soltar o ajuntamento,

Com os régios poderes, que ocultara,

Surpreende os seus, e os ânimos alegra,

Enchendo os postos todos do seu campo.

O corpo de dragões a Almeida entrega,

E Campo das Mercês o lugar chama.

Depois de haver marchado muitos dias

Enfim junto a um ribeiro, que atravessa

Sereno e manso um curvo e fresco vale,

Acharam, os que o campo descobriram,

Um cavalo anelante, e o peito e as ancas

Coberto de suor e branca escuma.

Temos perto o inimigo: aos seus dizia

O esperto General: Sei que costumam

Trazer os índios um volúvel laço,

Com o qual tomam no espaçoso campo

Os cavalos que encontram; e rendidos

Aqui e ali com o continuado

Galopear, a quem primeiro os segue

Deixam os seus, que entanto se restauram.

Nem se enganou; porque ao terceiro dia

Formados os achou sobre uma larga

Ventajosa colina, que de um lado

É coberta de um bosque e do outro lado

Corre escarpada e sobranceira a um rio.

Notava o General o sítio forte,

Quando Meneses, que vizinho estava,

Lhe diz: Nestes desertos encontramos

Mais do que se esperava, e me parece

Que só por força de armas poderemos

Inteiramente sujeitar os povos.

Torna-lhe o General: Tentem-se os meios

De brandura e de amor; se isto não basta,

Farei a meu pesar o último esforço.

Mandou, dizendo assim, que os índios todos

Que tinha prisioneiros no seu campo

Fossem vestidos das formosas cores,

Que a inculta gente simples tanto adora.

Abraçou-os a todos, como filhos,

E deu a todos liberdade. Alegres

Vão buscar os parentes e os amigos,

E a uns e a outros contam a grandeza

Do excelso coração e peito nobre

Do General famoso, invicto Andrade.

Já para o nosso campo vêm descendo,

Por mandado dos seus, dous dos mais nobres.

Sem arcos, sem aljavas; mas as testas

De várias e altas penas coroadas,

E cercadas de penas as cinturas,

E os pés, e os braços e o pescoço. Entrara

Sem mostras nem sinal de cortesia

Sepé no pavilhão. Porém Cacambo

Fez, ao seu modo, cortesia estranha,

E começou: Ó General famoso,

Tu tens à vista quanta gente bebe

Do soberbo Uraguai a esquerda margem.

Bem que os nossos avôs fossem despojo

Da perfídia de Europa, e daqui mesmo

Co’s não vingados ossos dos parentes

Se vejam branquejar ao longe os vales,

Eu, desarmado e só, buscar-te venho.

Tanto espero de ti. E enquanto as armas

Dão lugar à razão, senhor, vejamos

Se se pode salvar a vida e o sangue

De tantos desgraçados. Muito tempo

Pode ainda tardar-nos o recurso

Com o largo oceano de permeio,

Em que os suspiros dos vexados povos

Perdem o alento. O dilatar-se a entrega

Está nas nossas mãos, até que um dia

Informados os reis nos restituam

A doce antiga paz. Se o rei de Espanha

Ao teu rei quer dar terras com mão larga

Que lhe dê Buenos Aires, e Correntes

E outras, que tem por estes vastos climas;

Porém não pode dar-lhes os nossos povos.

E inda no caso que pudesse dá-los,

Eu não sei se o teu rei sabe o que troca

Porém tenho receio que o não saiba.

Eu já vi a Colônia portuguesa

Na tenra idade dos primeiros anos,

Quando o meu velho pai cos nossos arcos

Às sitiadoras tropas castelhanas

Deu socorro, e mediu convosco as armas.

Table of contents

Inside this edition

  1. 01Full text
  2. 02Parte 1
  3. 03Parte 2
  4. 04Parte 3
  5. 05Parte 4
  6. 06Parte 5
  7. 07Parte 6

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