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Portuguese Edition

History

Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo

Portuguese BooksWhale Edition by Manuel Pinheiro Chagas

Pinheiro Chagas confronta tradições geográficas e testemunhos históricos para discutir os descobrimentos portugueses e as viagens de Colombo.

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Book introduction

Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo

Manuel Pinheiro Chagas examina os problemas geográficos que precederam a expansão marítima e a interpretação dos seus resultados. O percurso passa pelo infante D. Henrique, pelos arquipélagos atlânticos, por Colombo, pelo tratado de Tordesilhas e pela viagem de Cabral. A edição portuguesa contém os onze capítulos, incluindo a conclusão, com a grafia histórica da obra.

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Manuel Pinheiro Chagas morreu em 1895. Esta edição utiliza o texto original português conservado pelo Project Gutenberg, sem publicidade editorial e notas separadas.

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Preview chapterI Os problemas geographicos do seculo XVRead preview

A festa do centenario de Colombo deve acima de tudo ser uma festa de justiça e um dos grandes jubileus da humanidade. Os centenarios dos grandes homens e os centenarios dos grandes acontecimentos são as solemnidades com que se festeja sobretudo a chegada a cada um dos marcos milliarios da estrada, que até agora parece ser infinita, do Progresso. Lançando os olhos para o passado, vê-se que a humanidade não parou um só instante na sua marcha para um fim ainda hoje desconhecido. Parece ás vezes aos observadores superficiaes que ha epochas em que se recúa, porque se extingue uma luz que brilhava com immensa intensidade, ou porque retrocede uma ou outra das legiões que formam o immenso exercito da especie humana; mas, se ha umas que retrocedem, porque estavam muito adeante das outras, estas em compensação avançam e ganham o terreno perdido pelos seus companheiros de jornada. Se um clarão se apaga, outros ha que se accendem em pontos que até ahi estavam immersos em trevas profundas. O nivel da humanidade restabelece-se como se restabelece o nivel das aguas depois dos grandes cataclysmos que afundam as mais altas montanhas, e que deixam enxutas immensas planicies cobertas até ahi pela vaga. Assim não ha um só dos grandes cataclysmos historicos de que não resultasse um progresso. Mudou-se a fórma da civilisação occidental quando cahiu o imperio romano. Ao impulso dos barbaros alluiram-se as instituições e os monumentos, a sciencia e as lettras eclipsaram-se, mas a alma humana illuminou-se com a irradiação do Evangelho que só n’essa raça virgem que vinha do Norte e do Oriente podia accender os candidos explendores que foram como que novas estrellas no nosso firmamento moral, que foram a divinisação da mulher e a apotheose da familia e ao mesmo tempo a esperança immortal que expirára no mundo antigo podre de civilisação e que reviveu no mundo barbaro. Cahiam deante do alvião vandalico os monumentos magestosos de Roma e as puras obras primas da Grecia, mas erguia-se envolta n’um nimbo estranho de fé e de poesia a cathedral gothica, e recortavam-se em mil caprichos phantasticos as torrinhas e as innumeraveis agulhas dos paços municipaes, em que a burguezia ostentava, em frente da realeza da espada, a realeza do trabalho. Desappareciam debaixo dos codices monachaes as obras primas dos tragicos e as epopéas gregas, mas a alma complexa da tumultuosa meia edade palpitava nos tercetos de Dante. E, quando a invasão musulmana derrubava no Oriente o ultimo baluarte da antiguidade erudita, quando a Grecia via os seus marmores despedaçados pelas ferraduras dos cavallos do deserto, e o Egypto as suas esphinges sepultadas nas nuvens de areia que as hordas arabes levantavam, no Occidente arrancava Colombo á esphinge do Oceano o seu segredo secular, fixava para sempre Guttemberg os vestigios do pensamento humano, e ás portas orientaes, vindas de remoto occaso, assomavam as prôas das caravelas portuguezas, que acabavam de sulcar, vanguarda da civilisação, as ondas do mar Tenebroso illuminadas pela sua audacia.

Estas festas devem ser porém acima de tudo as festas da justiça, porque n’ellas devem emmudecer perante a grande causa da humanidade as mesquinhas invejas, as pequeninas rivalidades nacionaes, com que por muitas vezes se procura deslustrar a memoria d’aquelles, que foram os agentes providenciaes d’estas grandes transformações. O progresso humano obedece a leis de uma ineluctavel logica. Não ha saltos nem lacúnas. Tudo se succede com uma logica surprehendente. As grandes descobertas derivam-se umas das outras. Todo o grande homem tem os seus humildes predecessores. O seu genio fórma-se com elementos dispersos que elle aproveita, concatena, e de que tira só elle o resultado fecundo. Não foi Watt que inventou a machina de vapor, mas a elle e só a elle cabe a gloria do invento, porque foi o seu genio que encontrou o segredo capital, sem o qual essa machina não seria sempre senão uma curiosidade, inutil para os grandes progressos da sciencia e da industria. Não foi Colombo sem duvida o primeiro que sonhou que para além das vagas do Atlantico se encontrava terra, nem o primeiro que devaneou que a marcha de um navio pelo occidente o deveria conduzir ás plagas orientaes da Asia. Não foi o infante D. Henrique o primeiro que pensou que, torneando a Africa, se poderia chegar ao mar Roxo e á India, mas foram Colombo e o infante D. Henrique que tiveram a audacia, a fé e o espirito scientifico, foram elles que romperam os obstaculos, deante dos quaes recuava pallida e tremente a multidão dos navegantes, ou refugia hesitante o sonho de alguns capitães devaneadores. A elles cabe sem duvida a gloria incontestavel, perante elles se deve curvar com respeito a humanidade, que só a elles deve a conquista maravilhosa de mais de metade da terra.

Preview chapterII Causas de erro para a historia da solução dos problemasPreview

Para podermos seguir passo a passo a marcha dos descobrimentos, para vermos como pouco a pouco se foi correndo a cortina que escondia aos olhos dos homens da nossa raça metade do mundo conhecido, é necessario a cada instante abstrahirmos dos nossos conhecimentos actuaes, para nos collocarmos no ponto de vista em que os homens de eras anteriores se collocavam em virtude do que elles então sabiam. A falta d’essa correcção indispensavel arrasta muitos escriptores notaveis a erros grosseiros, que muitas vezes lhes escapam exactamente por não terem o cuidado constante de applicarem essa correcção ás tradições que dos tempos passados lhes vem. O proprio Humboldt, que frequentemente observa quanto é funesto esse erro, a esse erro cede só porque uma vez se esqueceu de verificar qual era a região que nos principios do seculo XV era conhecida pelo nome de Guiné. Se reparasse que a Guiné de Bethencourt ficava comprehendida entre o cabo Cantim e o Bojador não acceitaria a pretenção franceza de terem chegado os Normandos de Dieppe e o proprio Bethencourt a essa Guiné tropical que já muito para além fica do Cabo Bojador. Pois é elle comtudo que nota como é fallaz a denominação de India dada pelos antigos a varias regiões, visto que muitas vezes comprehendia as regiões meridionaes da Asia, a parte da Asia que chegava ao mar Vermelho, e ainda o extremo Oriente. Marco Polo designava tres Indias, havia a India exterior e a India inferior, a India superior que era a parte mais oriental da Asia etc. Pois ainda hoje frequentemente se espantam homens instruidos não de que Colombo julgasse ter encontrado a Asia, mas de que imaginasse ter encontrado a India, arrastados pela tendencia natural de vermos com os nossos olhos de agora a geographia dos outros tempos; e de suppôrmos que a India não podia ser no seculo XV senão a que nós hoje conhecemos e como tal designamos.

Quantas vezes mudou no decorrer dos tempos a posição geographica de varias terras, a que attribuimos a sua posição actual, logo que lhes encontramos em mappas antigos os nomes! Quantas terras differentes receberam o mesmo nome que de umas a outras foi passando, segundo as conjecturas dos geographos! As ilhas Afortunadas, como a ilha fluctuante de Delos, foram sempre navegando para o occidente, até que a geographia positiva as fixou nas Canarias, arrancando-lhes o véo da lenda em que os antigos as envolviam. Estiveram primeiro no grande Oasis no Egypto, passaram depois para o sul da Cyrenaica, depois ainda para defronte do rio Lukkos, quer dizer, quasi pegadas com a costa marroquina, e só depois para o ponto em que estão as Canarias. A quantas ilhas se applicou o nome de Taprobana, que nós affirmamos hoje que era Ceylão, quando muitas vezes a sua posição corresponde á de Sumatra, e quando outras vezes a collocava a geographia conjectural dos antigos no oriente das Indias! A que peninsulas tão diversas se attribuiu o nome de Aurea Chersoneso que arbitrariamente suppomos agora que correspondia á peninsula de Malaca! Como é perfeitamente conjectural, apezar dos argumentos de alguma força apresentados por Mr. d’Anville, a identificação de Sofala com Ophir! Como ainda se illudem hoje os mais serios investigadores com o nome de Ethiopia, que intentam applicar ao paiz que hoje consideramos como tal, quando a Ethiopia, na supposição dos antigos, abrangia toda a parte meridional da Africa e vinha ligar-se com a costa marroquina! Como poderiamos nunca ter fé n’essas identificações, se vemos que os antigos e os Arabes, e os povos da edade média davam á India uma fórma completamente phantastica, suppunham que o mar das Indias era um mar mediterraneo, approximavam assim a costa asiatica da costa africana, como a costa africana está proxima da Europa no Mediterraneo europeu, sendo por conseguinte tão possivel que ficasse Ophir na Africa como na India!

Preview chapterIII A zona torrida perante as sciencias da antiguidade e da edade médiaPreview

Accentuámos bem que tres elementos havia que se oppunham ás expedições que os Portuguezes audaciosamente emprehenderam: a sciencia, a fé e a lenda. Foi a primeira a que se oppoz sempre a que os ousados navegadores da antiguidade lustrassem o caminho que os Portuguezes depois percorreram. Não eram de certo mais terriveis os mares africanos do que os mares da Europa septentrional, e os marinheiros phenicios, que affrontaram a bahia de Biscaya e o canal da Mancha e o mar do Norte até á Islandia, não podiam facilmente assustar-se com os mares muito mais manejaveis da costa africana. Mas a idéa da navegação para o sul fazia recuar os mais audaciosos. Era ahi que o sol estendia o seu terrivel dominio, era ahi que os seus raios queimavam a terra e o mar, e tornavam impossivel a passagem do homem. Á medida que esses calores excepcionaes iam sendo mais proximos, o seu effeito fazia-se sentir na vegetação e na fauna, e na propria humanidade. Então a natureza, violentada por assim dizer, produzia os mais extraordinarios monstros. Por mais de uma vez tentaram os Phenicios e os Carthaginezes demandar essas regiões do sul, mas a mais insignificante estranheza os fazia recuar. De Hannon se conta que percorreu quasi a Africa toda, e no seu periplo se relata essa viagem maravilhosa. Logo mostraremos como elle de certo não passou para além da costa de Marrocos. Gabava-se a sua intrepidez, porque voltára narrando que vira horrorosos monstros, cynocephalos, quer dizer, homens com cabeça de cão, e gorgonas ou mulheres com o corpo absolutamente coberto de pellos. Os escriptores modernos, que teem procurado benevolamente interpretar estas descripções phantasticas, dizem que os cynocephalos eram simplesmente macacos e as gorgonas simplesmente gorillas. Na hypothese mais favoravel para elle, o que isso prova é que, apenas viu na costa de Africa duas especies de macacos, julgou-se chegado ao paiz dos monstros e confirmou todas as mentiras que ácerca das vizinhanças da zona torrida estavam estabelecidas, e não chegou portanto á zona torrida. Mas não é bem mais natural ainda que Hannon, um carthaginez, um africano, não ignorasse a existencia do macaco, e portanto não podesse confundir facilmente o genero simiesco com uma variedade monstruosa do homem?

Essas noções rudimentares de cosmographia, que existiam no espirito dos antigos, chegaram ao seu apogeu com a escola de Alexandria. Sabios notabilissimos imprimiram grandes progressos á sciencia, e principalmente á astronomia. O nome de Ptolomeu e o nome de Hipparcho bastam para fazer a gloria de uma escola, de um paiz e de um seculo. A conclusão a que chegaram era falsa, mas quantas descobertas importantes lhes serviram para assentar os primeiros alicerces de uma sciencia a que pozeram então uma cupula errada, por lhes terem faltado informações e elementos que só a audacia dos navegadores lhes podia levar! Que maravilhosos instrumentos de estudo não encontraram elles! Que calculos levaram a cabo que os sabios do seculo XVI, ao poderem juntar-lhes novos elementos, aproveitaram para a transformação da sciencia! Sem Ptolomeu como se comprehenderia Copernico? Sem Hipparcho o que poderia fazer Tycho-Brahé? N’esta conquista da verdade, os antigos tomaram as obras avançadas e julgaram estar senhores da cidadella; mas, só depois de occupadas essas obras, só depois dos maravilhosos esforços dos navegadores peninsulares, é que se podia descortinar e assaltar a cidadella... E quem sabe se será esta definitivamente a verdadeira!

Mas o que é absolutamente indispensavel saber, para que se possa avaliar a transformação produzida no seculo XV pelos descobrimentos portuguezes, é quaes eram os principios estabelecidos como certos e indubitaveis com relação á terra por esses sabios cuja auctoridade era incontestavel, cujas doutrinas se ensinavam ás creanças, como hoje se ensinam as novas theorias, e que representavam portanto a verdade absoluta d’esse tempo. Alguns pontos havia que encontravam contradicção, como era o da redondeza da terra. N’outros, porém, não havia a mais leve divergencia, como em todos os que se ligavam com o movimento dos corpos celestes, com a marcha do sol em volta da terra para produzir o dia e a noite, com a marcha do sol pelo zodiaco produzindo a differença das estações. Tantas maravilhas conseguira já a astronomia que as doutrinas que ella promulgava não podiam soffrer contestação. Se ella já conseguira adivinhar os eclipses, que maior prova podia dar de que encontrára a chave do mechanismo celeste?

Table of contents

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  1. 01I Os problemas geographicos do seculo XV
  2. 02II Causas de erro para a historia da solução dos problemas
  3. 03III A zona torrida perante as sciencias da antiguidade e da edade média
  4. 04IV A religião e a lenda
  5. 05V O infante D. Henrique e o povo portuguez
  6. 06VI Queda das barreiras da zona torrida e primeira exploração do Atlantico
  7. 07VII Preludios açorianos e madeirenses do descobrimento da America
  8. 08VIII Christovam Colombo e D. João II
  9. 09IX O tratado de Tordesillas e a viagem de Pedro Alvares Cabral
  10. 10X
  11. 11XI Conclusão

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