
Portuguese Edition
Literature
Os Escravos
Portuguese BooksWhale Edition by Castro Alves
Uma coleção poética abolicionista de Castro Alves, marcada por eloquência, dor e liberdade.
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Book introduction
Os Escravos
Os Escravos reúne poemas em que Castro Alves transforma a denúncia da escravidão em alta poesia romântica. A obra ocupa lugar central na literatura brasileira e na memória do movimento abolicionista em língua portuguesa.
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Castro Alves morreu em 1871, e Os Escravos foi publicado pela primeira vez em 1883. Estas datas sustentam o domínio público desta edição original em português.
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Os Escravos
Castro Alves
Preview chapterO SeculoPreview
Soldados, do alto daquellas pyramides quarenta seculos vos contemplam! Napoleão O seculo é grande e forte. V. Hugo. Da mortalha de seus bravos Fez bandeira — tyrannia Oh! armas talvez o povo De seus ossos faça um dia. J. Bonifacio. O seculo é grande... No espaço Ha um drama de tréva e luz. Como Christo a liberdade Sangra no poste da cruz. Um corvo escuro, anegrado Obumbra o manto azulado,
Das asas d’aguia dos céus... Arquejam peitos e frontes... Nos labios dos horizontes Ha um riso de luz... E’ Deus. A’s vezes quebra o silencio Ronco estridulo feroz. Será o rugir das mattas, Ou da plebe a immensa voz?... Treme a terra hirta e sombria... São as vascas da agonia Da liberdade no chão?... Ou do povo o braço ousado Que, sob montes calcado Abala-os como um Titão?!... Ante esse escuro problema Ha muito ironico rir. P’ra nós o vento da esp’rança Traz o polen do porvir. E emquanto o scepticismo Mergulha os olhos do abysmo, Que a seus pés raivando tem, Rasga o moço os nevoeiros, P’ra dos morros altaneiros Ver o sol que irrompe além. Toda noite — tem auroras, Raios — toda a escuridão. Moços, creiamos, não tarda A aurora da redempção. Gemer — é esperar um canto... Chorar — aguardar que o pranto
Faça-se estrella nos céus. O mundo é o nauta nas vagas.. Terá do oceano as plagas Se existem justiça e Deus. Emtanto inda ha muita noite No mappa da creação. Sangra o abutre dos tyranos Muito cadaver — nação. Desce a Polonia esvaida, Captaletica, adormida, A’ tumba do Sobieski; Inda em sonhos busca a espada.. Os reis passam sem ver nada.. E o Czar olha e sorri... Roma inda tem sobre o peito O pesadelo dos reis; A Grecia espera chorando Canaris, Byron talvez! Napoleão amordaça A boca da populaça E olha Jersey com terror, Como o filho de Sorrento, Treme ao fitar um momento O Vesuvio aterrador. A Hungria é como um cadaver Ao relento exposto nu; Nem sequer a abriga a sombra Do foragido Kossúth. Aqui — o Mexico ardente, — Vasto filho independente
Da liberdade e do sol — Jaz por terra... e lá soluça Juarez, que se debruça E diz-lhe: “Espera o arrebol!” O quadro é negro. Que os fracos Recuem cheios de horror. A nós, herdeiros dos Gracchos, Traz a desgraça valor! Lutai... Ha uma lei sublime Que diz: “á sombra do crime Ha de a vingança marchar” Não ouvis do Norte um grito, Que bate aos pés do infinito, Que vai Franklin despertar? E’ o grito dos Cruzados Que brada aos moços “de pé!” E’ o sol das liberdades Que espera por Josué. São bocas de mil escravos Que transformaram-se em bravos Ao cinzel da abolição . E’ — á voz dos libertadores Reptis, que saltam condores, A topetar n’amplidão!... E vós, arcas do futuro, Crysalidas do porvir, Quando vosso braço ousado Legislações construir, Levantai um templo novo, Porém não que esmague o povo,
Mas lhe seja o pedestal. Que ao menino dê-se a escola, Ao veterano — uma esmola... A todos — luz e fanal. Luz!... sim; que a criança é uma ave, Cujo porvir tendes vós; No sol é uma aguia arrojada, Na sombra — um mocho feroz. Libertai tribunas, prélos... São fracos, mesquinhos élos.. Não calqueis o povo-rei! Que este mar d’almas e peitos, Com as vagas de seus direitos, Virá partir-vos a lei. Quebre-se o sceptro do Papa, Faça-se delle uma cruz, A purpura sirva ao povo P’ra cobrir os hombros nús. Ao grito do Niagara Sem escravos, Guanabara Se eleve ao fulgor dos sóes. Banhem-se em luz os prostibulos, E das lascas dos patibulos Erga-se estatua aos heróes! Basta!... Eu sei que a mocidade E’ o Moysés no Sinai; Das mãos do Eterno recebe As taboas da lei! marchai! Quem cahe na luta com gloria, Tomba nos braços da historia,
Preview chapterAo Romper d’AlvaPreview
Pagina feia, que ao futuro narra Dos homens de hoje a lassidão, a historia Com pranto escripta, com suor sellada Dos pariás miserrimos do mundo!... Pagina feia, que eu não posso altivo Romper, pisar-te, recalcar, punir-te!... Calasans Sigo só caminhando serra acima, E meu cavallo a galopar se anima Aos bafos da manhã. A alvorada se eleva do levante, E, ao mirar na lagôa seu semblante, Julga ver sua irmã. As estrellas fugindo — aos nenuphares Mandam rutilas perolas dos ares De um desfeito collar. No horizonte desvendam-se as collinas, Sacode o veu de sonhos de neblinas A terra ao despertar. Tudo é luz, tudo aroma e murmurio, A barba branca da cascata o rio
Faz orando tremer. No descampado o cedro curva a frente, Folhas e prece aos pés do Omnipotente Manda a lufada erguer. Terra de Santa Cruz, sublime verso Da epopéa gigante do universo, Da immensa creação, Com tuas mattas, cyclópes de verdura, Onde o jaguar, que passa na espessura, Roja as folhas no chão, Como és bella, soberba, livre, ousada! Em tuas cordilheiras assentada A liberdade está. A purpura da bruma a ventania Rasga, espedaça o sceptro que s’erguia Do rijo piquiá. Livre o tropeiro toca o lote e canta A languida cantiga com que espanta A saudade, a afflicção. Solto o ponche, o cigarro fumegando Lembra a serrana bella, que chorando Deixou lá no sertão. Livre como o tufão corre o vaqueiro Pelos morros e vargea e taboleiro
Do intrincado sipó. Que importa’os dedos da jurema aduncos? A anta, ao vel-os, occulta-se nos juncos, Voa a nuvem de pó. Dentre a flor amarella das encostas Mostra a testa luzida, as largas costas No rio o jacaré. Catadupas sem freios, vastas, grandes, Sois a palavra livre d’esses Andes Que além surgem de pé. Mas o que vejo? E’ um sonho!... A barbaria Erguer-se n’este seculo, á luz do dia, Sem pejo se ostentar. E a escravidão — nojento crocodilo Da onda turva expulso lá do Nilo — Vir aqui se abrigar!. Oh! Deus! não ouves d’entre a immensa orchesta Que a natureza virgem manda em festa Soberba, senhoril, Um grito que soluça afflicto, vivo, O retinir dos ferros do captivo, Um som discorde e vil? Senhor, não deixes que se manche a tela Onde traçaste a creação mais bella
De tua inspiração. O sol de tua gloria foi toldado... Teu poema da América manchado, Manchou-o a escravidão. Prantos de sangue — vagas escarlates — Toldam teus rios — lubricos Euphrates — Dos servos de Sião. E as palmeiras se torcem torturadas, Quando escutam dos morros nas quebradas O grito de afflicção. Oh! ver não posso este labéo maldito! Quando dos livres ouvirei o grito? Sim.. talvez amanhã. Galopa, meu cavallo, serra acima, Arranca-me a este sólo. Eia! te anima Aos bafos da manhã.
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02O Seculo
- 03Ao Romper d’Alva
- 04A visão dos mortos
- 05A canção do africano
- 06Mater dolorosa
- 07Confidência
- 08O sol e o povo
- 09Tragédia no Lar
- 10O sibarita romano
- 11A criança
- 12A cruz da estrada
- 13Bandido negro
- 14América
- 15Remorso
- 16O canto de Bug Jargal
- 17A órfã na sepultura
- 18Antítese
- 19Canção do violeiro
- 20Súplica
- 21O vidente
- 22A mãe do cativo
- 23Manuela
- 24Fábula - O pássaro e a flor
- 25Estrofes do solitário
- 26O Navio Negreiro
- 27Lúcia
- 28Prometeu
- 29Vozes d'África
- 30Saudação a Palmares
- 31Jesuítas e frades
- 32Frades
- 33A bainha do punhal
- 34O derradeiro amor de Byron
- 35Adeus, meu canto
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