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Portuguese Edition

Literature

Os meus amores

Portuguese BooksWhale Edition by Trindade Coelho

Trindade Coelho reúne contos e baladas sobre a vida rural, os afetos familiares, a infância e os contrastes da comunidade.

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Book introduction

Os meus amores

Os meus amores apresenta histórias e baladas ligadas às paisagens, às vozes e aos costumes da vida rural portuguesa. Trindade Coelho observa pastores, crianças, famílias e figuras da província, alternando ternura, humor e situações de sofrimento. Esta versão acompanha o conteúdo da edição de 1894, com narrativas como Idílio rústico, Sultão e Tragédia rústica, preservando a variedade do conjunto.

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How this edition was prepared

This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.

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Trindade Coelho morreu em 1908. Esta edição utiliza o original português em domínio público disponibilizado pelo Project Gutenberg, sem notas editoriais nem ilustrações.

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Preview chapter«Os Meus Amores»Read preview

Folhas dispersas dos meus annos de oiro, Vivo enxame das minhas alvoradas, Tenho zelos de vós, folhas sagradas, As Desdémonas sois de um outro moiro.

As brancas horas que eu em sonhos doiro, Essas horas febris, illuminadas, Eil-as fugindo, em tristes debandadas... Levaes nas azas todo o meu thesoiro.

Folhas: subi, voae ao céo tão alto, Que o ceo em estrellas vos converta e mude, Lá nas longinquas illusões que exalto;

Como as frementes aguas d'um açude, Levae a Deus, no derradeiro salto, O derradeiro adeus da juventude...

Luiz Osorio.

Preview chapterIDYLLIO RUSTICOPreview

A Fialho d'Almeida.

Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atraz d'elle, era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais insignificante ruido. Dormia-se a somno solto por todas aquellas casas. Apenas algum cão, subitamente acordado em sobresalto pelo chocalhar do rebanho, ladrava do alto dos escadorios de pedra onde ficara de sentinella, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo companhia aos novilhos. D'onde em onde, gallos madrugadores entoavam matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de bohemios, n'alguma esturdia, a deshoras...

Mas passadas as ultimas casas, o silencio condensava-se para toda a banda, n'uma grande pacificação de templo adormecido. Nem viv'alma pela ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no céo azul-escuro cardumes prateados de estrellas. A toda a largura, a paizagem era torva e indecisa, immersa n'uma luz muito mortiça que nem era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No emtanto a manhã era calma; nem rumores de briza pela rama das azinheiras velhas que faziam guarda ao corrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grillos nas hervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho que se ia submissamente á mercê do pequeno pastor, parando se elle parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando marcha se de novo elle se punha a caminhar.

Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruido de um tiro, que o echo levou para longe.

―Não gastes polvora, Antonio!―recommendou o pastor.―Ouviste?

E logo a voz do guardador:

―Madrugas hoje, Gonçalo!

―P'ra que saibas: cá um homem não tem medo.

―Está bem. Adeus!

―Saudinha.

A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na côr. Invadia a amplidão da cupula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrellas feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira d'além, entravam de fazer-se nitidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham altitudes de uma immobilidade mysteriosa e sinistra... N'este assomo d'alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras era bandos levantavam-se repentinamente, em vôo perpendicular, e cortavam ares fóra, chilreantes e alegres, até se perderem de vista por de traz dos arvoredos e cabeços. De cauda em riste e orelhas immoveis, o rafeiro espreitava as hervagens seccas, onde algum reptil passasse vagaroso.

―Busca, Turco!―fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo ás cobras.―Busca, valente!

Á medida que descia a ladeira, um marulhar monotono de aguas ouvia-se, mais e mais distincto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá se chegasse ainda era preciso andar... Era um poder de passos e de paciencia,―reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os interminaveis torcicollos da vereda. Ia andando, descendo sempre, á frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquelle céo ainda estrellado, o Gonçalo desabafou:

―Uff! até que emfim!―E pensava aliviado:―Nada mais facil do que terem-me sahido os lobos!...

Mas vista áquella hora, e no meio de tal silencio, a corrente liquida tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, n'uma lucta desesperada com as aguas, clamando em vão que lhes acudissem, em tamanho transe afflictivo. A margem de lá, especialmente, era toda accidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quaes no inverno o vento assobiava lugubre, e as aguas faziam remoinho, o que era um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, n'um descuido involuntario―simples remadela pouco a tempo, manobra menos segura de leme, ou impulso errado de vara.

Preview chapterSULTÃOPreview

(Copiado do Natural)

Ao meu Henrique e a Beldemonio, seu amigo.

Table of contents

Inside this edition

  1. 01«Os Meus Amores»
  2. 02IDYLLIO RUSTICO
  3. 03SULTÃO
  4. 04I
  5. 05II
  6. 06ULTIMA DADIVA
  7. 07COMEDIA DA PROVINCIA
  8. 08I
  9. 09PRELUDIOS DE FESTA
  10. 10I
  11. 11TYPOS DA TERRA
  12. 12VAE VICTORIBUS!
  13. 13BALLADAS
  14. 14I
  15. 15MARICAS
  16. 16II
  17. 17PARA A ESCOLA
  18. 18TRAGEDIA RUSTICA
  19. 19I
  20. 20II
  21. 21III
  22. 22ABYSSUS ABYSSUM...
  23. 23MÃE!
  24. 24ARRULHOS
  25. 25BATALHAS DOMESTICAS

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