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Portuguese Edition

Literature

Quatro Novelas

Portuguese BooksWhale Edition by Ana de Castro Osório

Ana de Castro Osório reúne quatro narrativas sobre vínculos familiares, condição feminina, infância e os limites impostos pela sociedade.

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Quatro Novelas

A vinha, A feiticeira, Diario duma criança e Sacrificada formam este volume de Ana de Castro Osório. As narrativas observam relações familiares, dependências e escolhas pessoais, com particular atenção à experiência das mulheres e das crianças. Esta edição em português apresenta as quatro novelas do livro e mantém as divisões internas da narrativa final.

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Ana de Castro Osório morreu em 1935. Esta edição utiliza o texto original português conservado pelo Project Gutenberg, sem publicidade editorial e notas separadas.

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Preview chapterI A VinhaRead preview

Luis sahira para o colegio ainda criança e de lá para as escolas superiores; assim os anos tinham decorrido sem que nunca mais visitasse a terra natal.

Dez anos, dez longos anos se tinham passado, e só agora voltava, como um foragido ou como um ladrão, que enlouquecido de saudades arrisca a vida e a liberdade para revêr a terra que primeiro conheceu e é sempre para o homem a mais querida, a mais bela, a melhor de todas.

E—pobre Luis!—era na verdade como um foragido que voltava, escondendo-se para que o não vissem, envergonhado dessa fraqueza sentimental que já não ia nada bem com os seus galões de guarda-marinha e o seu bonito bigode a ensombrar-lhe o labio superior.

E voltava amesquinhado aos seus proprios olhos, elle que se julgava tão importante pelos estudos transcendentes, que seguira com certo brilho, porque só agora compreendia o sacrificio de cada momento, a luta de cada hora, o verdadeiro heroismo obscuro e respeitavel que a sua educação representava na vida da familia.

Compreendia, afinal, um pouco tarde demais para que a consciencia lhe ficasse limpa de remorso, quanta mentira santa fôra preciso inventar, com quanta delicadeza envolver as palavras, quanta historia arquitétar para que elle aceitasse sem desconfiança o propositado afastamento em que o tinham conservado durante esse longo periodo de tempo.

Chegara por vezes a pensar, as poucas ocasiões em que reparara nisso, que o desprezavam, que era um pária, que os pais afastavam receando a vergonha de o apresentarem como seu herdeiro e continuador.

Dizia-lhe a consciencia que tal procedimento não era justo, porque—se é verdade que não fôra nunca um estudante desses que se mostram com desvanecido orgulho, carregados de distinções e premios que esmagam o proprio dôno e irritam os companheiros,—é certo que o curso lhe sahira limpo, seguido como de empreitada, numa indiferença risonha de quem o levava com uma perna ás costas.

Lembrava-se de pensar ás vezes no facto, um tanto irritante, do seu afastamento sistematico da casa paterna, e pôr-se consigo a acusar os pais; mas á mais leve referencia acudia uma carta de Eduarda, que varria do seu coração, voluvel e bondoso, a desconfiança cruel.

Era sempre a mesma delicadeza inteligente, procurando as palavras para não maguar nem esclarecer, fugindo graciosamente duma pergunta mais nitida, dizendo pouco em longas cartas, que satisfaziam plenamente a sua ansiedade de momento mas muito deixavam escondido nas dobras duma alma que se não pode expandir, sob pena de infelicitar os outros.

Eduarda, apenas mais velha dois anos do que Luis, fôra desde criança uma pequena figura simpatica de mulher, dessas mulheres adoraveis sem deixarem de ser profundamente humanas, ou talvez por isso mais adoraveis ainda, que tudo compreendem, por tudo se interessam, para todos são a providencia, o refugio e a esperança.

Quando fôra resolvida a sua entrada para o colegio militar, Luis ficara radiante. É que essa admissão fôra o seu maior empenho, a ambição de largos mêses e dias—desde que na terra aparecera, a proposito de qualquer festa pública, um regimento de lanceiros, que o tinha enlouquecido com o seu ar soberbamente marcial e as bandeirolas, vermelho e branco, a panejarem ao sol.

Não pensava noutra coisa senão naquella sua entrada para o colegio em que todos os alunos são já pequeninos homens, pequeninos militares de botões reluzentes, barretina, dragonas, e duma compostura grave de disciplina rígida.

Fazia projectos, contava as peças do enxoval, que a mãe lhe ia empilhando na mala, lia e relia a relação das coisas que lhe mandavam levar e prometia a si mesmo só quebrar o seu, mialheiro de barro quando tivesse já a farda, para ir tirar o retrato de grande uniforme.

Preview chapterII A FeiticeiraPreview

«La peur qui met dans les chemins Des personnages surhumains La peur aux invisibles mains qui revet l'arbre D'une carcasse ou d'un linceul Qui fait trembler comme un aïeul Et qui vous rend, quand on est seul, Blanc comme un marbre.»

MAURICE ROLLINAT.

De todos os rapazes da aldeia era o Manoel da Clara o mais querido das raparigas.

Fôra sempre um belo rapaz de afugentar rivais, mas, desde que viera da tropa e de lá trouxera aquelle ar desdenhoso de feliz D. João, aprendido no convivio dos camaradas presunçósos e mulheres de vida airada, parece que as enlouquecia.

Acostumado a ajustar a farda, como apertava bem a cinta de lã preta ou carmezim, que parecia trazer espartilho, o démo do rapaz!

Os sapatos com o lustro bem puxado, que pareciam de verniz; o chapéo garbosamente descahido sobre a esquerda; a ponta do cigarro atraz da orelha; e o lenço, com flôres e uma legenda bordadas a côres vivas, a sahir da pequena algibeira da jaqueta, as mais das vezes levada ao hombro; o Manoel era na verdade a nata da rapaziada do logar.

No meio dos outros, com as suas caras rapadas de lôrpas, valentes mas sem a elegancia dos gestos disciplinados pelo exercicio regular, o seu pequeno bigode de cidadão retorcia-se aos domingos com uma petulancia irresistivel.

Nas feiras e romarias, firmado no varapau metido debaixo do braço, toda a vaidade satisfeita a brilhar-lhe nos inquietos olhitos garços, desafiava toda a concorrencia desagradavel. Ás raparigas iam-se-lhes os olhos nelle, e mediam-se com o rancôr de rivalidades latentes.

E valentão!?—como aquilo poucos! E, como sempre, era a superioridade material da força e da coragem o que mais o fazia valer aos olhos de primitivas femeas, oferecendo-se orgulhosamente ao vencedor, ao macho forte e soberbo.

Quando o Manoel, com um rapido piparote atirava para a nuca o chapéo móle de largas abas, dava um passo atraz, fazia girar o varapau em sarilho sobre a cabeça, e torcia a bôca espumante num esgare de raiva... podiam fugir delle!

Contavam-se na aldeia as valentias do Manoel com o mesmo entusiasmo e ufanía com que se contariam as de um heroi da historia, um heroi autêntico, de que a tradição nos deixasse o nome e a memoria de largos feitos.

Uma vez era todo o povo de Infias que se juntara para o desafiar, raivosos por uma questão de mulheres de que o Manoel era afortunado protogonista, e que elle enfiara pela serra abaixo—que até parecia que o vento os levava.

«Ó Manoel, lembras-te?...

«E daquella vez na romaria da Senhora dos Verdes?...

«E na feira, quando foi da compra dos meus bois?!...

As perguntas, as respostas, as diferentes versões e comentarios, envolviam o Manoel num côro de louvôres, que elle recebia mal disfarçando a vaidade num meio sorriso modesto emquanto ia enrolando o cigarro entre os dedos fortes onde brilhava um anel de cobra, o encanto e a inveja dos mais rapazes.

No jogo da bola, ao domingo, no terreiro da igreja, nenhum o excedia, como ninguem era capaz de o vencer numa partida de chinquilho ou no jogo do pau. Um valentão, um rapaz ás direitas, sempre pronto a fazer um favôr, riso franco, coração nas mãos para os amigos; ninguem emfim mais digno da estima dos seus patricios e ninguem que de facto fosse mais estimado do que o Manoel da Clara.

Álêm de todos estes merecimentos fisicos, que o superiorisavam, ainda era senhor de algumas belgas, e unico herdeiro da meação da mãe, a viuva do Rezadeira, que ajuntara o seu peculiosito na casa dos fidalgos. E era uma mulher de trabalho, a velha Clara do Rezadeira, que só tinha olhos e coração para o filho, o seu enlevo e orgulho. Primeiro do que ninguem, como o galo da manhã, saltava da cama, onde a asfixia dum coração emperrado mal a deixava socegar, e começava a labuta de todos os dias: amassando o pão, chegando ao forno a prevenir a forneira, cosinhando a vianda para os cevados, chamando a gente para o trabalho, despachando serviço, ralhando com um, combinando com outro, e sem nunca perder de vista a panela onde se cosiam as batatas para o caldo verde que o seu Manoel havia de comer antes de sahir, na sua tigela bem meada de brôa. Mal elle aparecia, ainda espreguiçando-se e os olhos mal abertos mas já risonho e feliz como soberano que se julga crédor de todos os afétos e homenagens, a vélhota aprontava tudo num ápice, rindo e ralhando num visivel contentamento de quem se revia no rapagão, que era o seu filho.

Preview chapterIII Diario duma criançaPreview

Creio que não é bem exáto o titulo que escrevi no alto da página. Isto não é verdadeiramente o Diario duma criança, não é, mas sim a minha vida toda recordada dia por dia, hora por hora, com uma precisão de factos e sensações de que o Chico muito se admira.

Decerto não sou muito velha—fiz em março vinte e dois anos—mas, assim mesmo, elle acha extraordinario como os episodios da minha infancia se me fixaram na memoria tão vivamente, e os posso recordar com tanta nitidez, como se a minha alma tivesse a receptibilidade mecânica de um fonógrafo.

Não pensei nunca em escrever; sei, tão pouco, que nenhuma novidade pode trazer ao mundo a minha prosa descuidada e frouxa.

Fui sempre pouco estudiosa e nenhuma honra dei aos meus professores. O Chico, que é um sábio, é que me disse, uma tarde, resumindo toda uma longa palestra em que eu lhe contei os mil incidentes de vida estranha em que o meu pobre espirito se debateu até chegar á dôce paz da nossa felicidade de hôje:

—«Se tu escrevesses isso tal qual o contas, fariamos um belo estudo de psicologia infantil!...

Eu, que adoro o meu Chico, não o queria desgostar, mas escrever tudo quanto sentia, tudo quanto me lembrava têr sofrido, parecia-me tão dificil!... Vida toda feita de sensações e estranhêzas de caráter, quem poderá têr interesse em conhecê-la?!

Oh que coisa tão custosa de realisar, este desejo, quasi imposição, do Chico!...

As minhas memorias são leves fios de aranha que não servem para urdir e tecer utilmente uma sólida obra caseira.

Escrever o Diario da minha infancia, eu que nunca tive paciencia de rabiscar cartas muito grandes—a não sêr para o Chico!...

Depois, sei unicamente escrever o que sinto, e os escritôres—dizem—não fazem assim. O Chico sente os versos que faz tão lindamente, mas esse... oh esse é outra coisa!

Por muito tempo discutimos, mas, como o senhor meu marido é adoravelmente teimoso e eu não sei ainda contrariá-lo, deixei-o ir uma noite destas ao teatro, recusando-me a acompanhá-lo a pretexto de ter sôno, e quando voltou, eram duas horas da manhã, entreguei-lhe o manuscrito, que leu sem descansar, tal qual o mandou imprimir logo no dia seguinte.

Isso é que me custou!... Porque, depois de o escrever duma só vez, e sem hesitar diante duma unica palavra que não correspondesse ao meu pensamento, deixando correr a penna nervosamente, em galopada doida, quando as recordações vinham em montão, chamadas umas pelas outras, numa lufada de quasi vertigem, sempre imaginei que elle emendaria aquilo e lhe daria uma fórma mais corréta.

Mas—qual historia!—o querido infame teve o descaramento de se rir na minha cara e de me responder:

—Que se o emendasse estragaria tudo!

Foi assim que sahiu, tal qual o escrevi, numa hora de febre.

Chamo-me Raquel. Creio que este nome é hereditario na minha familia, porque a minha avó e a mãe da minha avó eram tambem Raquel. Não sei. De genealogias, como de tudo mais, entendo pouco.

O mais longe que posso recordar na minha existencia humana, vejo-me feliz.

Era uma grande casa de aldeia, a nossa. Havia ali de tudo quanto pode desejar uma criança acostumada á simplicidade da vida campestre.

Os pateos eram habitados por uma multidão de animais domesticos, que nos conheciam bem, de tanto milho que ás escondidas lhes deitavamos.

Eu era a mais velha, e os meus quatro irmãositos seguiam-me alegremente pelos campos fóra, como um rebanho segue o pastor. Nada nos era defêso, nem parede que não tivessemos escalado, nem arvore que não conhecessemos como os nossos dedos. Os frutos eram vigiados desde que as arvores se cobriam de prometedoras flôres, e antes, muito antes da familia os vêr em casa, já nós tinhamos feito a nossa primeira escôlha. Quando a nossa pobre burrica descansava do fatigante trabalho da nóra, iamos desamarrá-la da manjedoura, saltavamos-lhe para cima, e fazíamo-la trotar pelos caminhos pedregosos da aldeia como um pur-sang trotaria nas avenidas areadas dum luxuoso parque.

Table of contents

Inside this edition

  1. 01I A Vinha
  2. 02II A Feiticeira
  3. 03III Diario duma criança
  4. 04IV Sacrificada
  5. 05I
  6. 06II
  7. 07III
  8. 08IV
  9. 09V
  10. 10VI
  11. 11VII
  12. 12VIII

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