Portuguese Edition
Literature
Só
Portuguese BooksWhale Edition by António Nobre
Um marco da poesia portuguesa sobre saudade, infância, exílio, doença, memória e melancolia nacional.
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Book introduction
Só
Só é o livro central de António Nobre, onde saudade pessoal, infância perdida, paisagem portuguesa, exílio e pressentimento da morte se unem numa voz singular. A obra marcou o simbolismo e o saudosismo, combinando coloquialidade, musicalidade e imagens de forte carga afetiva.
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António Nobre morreu em 1900 e Só foi publicado em 1892. Estas datas sustentam a base de domínio público desta edição portuguesa.
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Só
Memória
Ora isto, Senhores, deu-se em Trás-os-Montes,
Em terras de Borba, com torres e pontes.
Português antigo, do tempo da guerra,
Levou-o o Destino pra longe da terra.
Passaram os anos, a Borba voltou,
Que linda menina que, um dia, encontrou!
Que linhas fidalgas e que olhos castanhos!
E, um dia, na Igreja correram os banhos.
Mais tarde, debaixo dum signo mofino,
Pela lua-nova, nasceu um menino.
Oh mães dos Poetas! sorrindo em seu quarto,
Que são virgens antes e depois do parto!
Num berço de prata, dormia deitado,
Três moiras vieram dizer-lhe o seu fado
(E abria o menino seus olhos tão doces):
«Serás um Príncipe! mas antes… não fosses.»
Sucede, no entanto, que o Outono veio
E, um dia, ela resolve ir dar um passeio.
Calçou as sandálias, toucou-se de flores,
Vestiu-se de Nossa Senhora das Dores:
«Vou ali adiante, à Cova, em berlinda,
António, e já volto…» E não voltou ainda!
Vai o esposo, vendo que ela não voltava,
Vai lá ter com ela, por lá se quedava.
Oh homem egrégio! de estirpe divina,
De alma de bronze e coração de menina!
Em vão corri mundos, não vos encontrei
Por vales que fora, por eles voltei.
E assim se criou um anjo, o Diabo, o lua:
Ai corre o seu fado! a culpa não é sua!
Sempre é agradável ter um filho Virgílio,
Ouvi estes carmes que eu compus no exílio,
Ouvi-os vós todos, meus bons Portugueses!
Pelo cair das folhas, o melhor dos meses,
Mas, tende cautela, não vos faça mal…
Que é o livro mais triste que há em Portugal!
António
Que noite de inverno! Que frio, que frio!
Gelou meu carvão:
Mas boto-o à lareira, tal qual pelo estio,
Faz sol de verão!
Nasci, num Reino d’Oiro e amores,
À beira-mar.
Ó velha Carlota! tivesse-te ao lado,
Contavas-me histórias:
Assim… desenterro, do Val do Passado,
As minhas Memórias.
Sou neto de Navegadores,
Heróis, Lobos d’água, Senhores
Da Índia, d’Aquém e d’Além-mar!
Moreno coveiro, tocando viola,
A rir e a cantar!
Empresta, bom homem, a tua sachola,
Eu quero cavar:
E o Vento mia! e o Vento mia!
Que irá no Mar!
Erguei-vos, defuntas! da tumba que alveja
Qual Lua, a distância!
Visões enterradas no adro da Igreja
Branquinha, da Infância.
Que noite! ó minha Irmã Maria,
Acende um círio à Virgem Pia,
Pelos que andam no alto Mar…
Lá vem a Carlota que embala uma aurora
Nos braços, e diz:
«Meu lindo Menino, que Nossa Senhora
O faça feliz!»
Ao Mundo vim, em terça-feira
Um sino ouvia-se dobrar!
E António crescendo, sãozinho e perfeito,
Feliz que vivia!
(E a Dor, que morava com ele no peito,
Com ele crescia…)
Vim a subir pela ladeira
E, numa certa terça-feira,
Estive já pra me matar…
Mas foi a uma festa, vestido de anjinho,
Que fado cruel!
E a António calhou-lhe levar, coitadinho!
A Esponja do Fel…
Ides gelar, águas das fontes
Ides gelar!
A tia Delfina, velhinha tão pura,
Dormia a meu lado
E sempre rezava por minha ventura…
E sou desgraçado!
Águas do rio! águas dos montes!
Cantigas d’água pelos montes,
Que sois como amas a cantar…
E eu ia às novenas, em tardes de Maio,
Pedir ao Senhor:
E, ouvindo esses cantos, tremia em desmaio,
Mudava de cor!
Passam na rua os estudantes
A vadrulhar…
E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
A mailos Franceses,
Quando ia ao confesso, à ermida da serra,
Levava-me, às vezes.
Assim como eles era eu dantes!
Meus camaradas! estudantes!
Deixai o Poeta trabalhar.
Santinho como ia, santinho voltava:
Pecados? Nem um!
E a instâncias do padre dizia (e chorava):
«Não tenho nenhum…»
Preview chapterENTRE DOURO E MINHOPreview
Purinha
O Espírito, a Nuvem, a Sombra, a Quimera,
Que (aonde ainda não sei) neste Mundo me espera;
Aquela que, um dia, mais leve que a bruma,
Toda cheia de véus, como uma Espuma,
O Sr. Padre me dará pra mim
E a seus pés me dirá, toda corada: Sim!
Há-de ser alta como a Torre de David,
Magrinha como um choupo onde se enlaça a vide
E seu cabelo em cachos, cachos d’uvas,
E negro como a capa das viúvas…
(À maneira o trará das virgens de Belém
Que a Nossa Senhora ficava tão bem!)
E será uma espada a sua mão,
E branca como a neve do Marão,
E seus dedos serão como punhais,
Fusos de prata onde fiarei meus ais!
E os seus seios serão como dois ninhos,
E os seus sonhos serão os passarinhos,
E será sua boca uma romã,
Seus olhos duas Estrelinhas da Manhã!
Seu corpo ligeiro, tão leve, tão leve,
Como um sonho, como a neve,
Que hei-de supor estar a ver, ao vê-la,
Cabrinhas-montesas da Serra da Estrela…
E há-de ser natural como as ervas dos montes
E as rolas das serras e as águas das fontes,
E há-de ser boa, excepcional, quasi divina,
Mais pura, mais simples, que moça e menina.
Deus, pela voz dos rouxinóis há-de gabá-la
E os Rios ao passar hão-de cantá-la.
Seu virgem coração há-de ser tão branquinho,
Que não há neste Mundo a que igualá-lo: o linho
Que, em roca de cristal, fiava a minha Avó
Parecerá de crepe, e a neve… far-me-á dó,
Mais a farinha do moleiro e a violeta,
E a Lua para mim será como uma Preta!
Mas em que Pátria, em que Nação é que me espera
Esta Torre, esta Lua, esta Quimera?
Fui ter com minha Fada e disse-lhe: «Madrinha!
Onde haverá na terra assim uma Rainha?»
E a minha Fada, com sua vara de encantar,
Um reino me apontou, lá baixo, ao pé do Mar…
Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu Ideal?
Meninas, lindas meninas
Do Reino de Portugal!
E no dia do meu recebimento!
Manhã cedo, com luar ainda no Firmamento,
Quando ainda no Céu não bole uma Asa,
A minha Noiva sairá de casa
Maila sua Mãe, mailos seus Irmãos.
E há-de sorrir, e hão-de tremer-lhe as mãos…
E a sua Ama há-de segui-la até à porta,
E ficará, coitada! como morta!
E há-de ser triste vê-la, ao longe, ainda… olhando,
Com o avental seus olhos enxugando…
E hão-de cercá-la sete Madrinhas,
Que hão-de ser sete virgens pobrezinhas,
Todas contentes por estreiar vestido novo!
E, ao vê-las, suas mães sorrirão dentre o Povo…
E o povo da freguesia
Esperará mais eu, no adro de Santa Iria.
E hão-de mirar-me com seu ar curioso,
E hão-de cercar-me, num silêncio respeitoso.
E eu hei-de-lhes falar das colheitas, da chuva,
E dir-me-ão «que já vai pintando a uva…»
E animados então (o Povo é uma criança!)
Porque o Sr. Doutor lhes deu confiança,
«Que Deus o ajude» dirá um, e o Regedor:
«Vá coa Graça de Nosso Senhor!»
E eu hei-de agradecer, sorrir, gostar.
Mas o Anjo, no entanto, não deve tardar…
E dentre o grupo exclamará um Velho, então:
«Já nasce o dia!» eu olharei… mas não:
É a minha Noiva que parece dia,
Luzente como a cal de Santa Iria!
E ao vê-la tão branca, de branco vestida,
Ao longe, ao longe, hei-de cuidar ver uma Ermida!
E dirá o Pastor, com espanto tamanho,
Que é uma Ovelha que fugiu do seu rebanho!
E o João Maluco dirá que é o Luar de Janeiro!
Preview chapterIDEAL DUM PARISIENSEPreview
Felicidade! Felicidade!
Ai quem ma dera na minha mão!
Não passar nunca da mesma idade,
Dos 25, do quarteirão.
Morar, mui simples, nalguma casa
Toda caiada, defronte o Mar;
No lume, ao menos, ter uma brasa
E uma sardinha pra nela assar…
Não ter fortuna, não ter dinheiro,
Papéis no Banco, nada a render:
Guardar, podendo, num mealheiro
Economias prò que vier.
Ir, pelas tardes, até à fonte
Ver as pequenas a encher e a rir,
E ver entre elas o Zé da Ponte
Um pouco torto, quasi a cair.
Não ter quimeras, não ter cuidados
E contentar-se com o que é seu,
Não ter torturas, não ter pecados
Que, em se morrendo, vai-se prò Céu!
Não ter talento; suficiente
Para na Vida saber andar,
E quanto a estudos saber somente
(Mas ai somente!) ler e contar.
Mulher e filhos! A Mulherzinha
Tão loira e alegre, Jesus! Jesus!
E, em nove meses, vê-la choquinha
Como uma pomba, dar outra à luz.
Oh! grande vida, valha a verdade!
Oh! grande vida, mas que ilusão!
Felicidade! Felicidade!
Ai quem ma dera na minha mão!
Paris, 1892.
Para as Raparigas de Coimbra
1
Tristezas têm-nas os montes
Tristezas têm-nas o Céu,
Tristezas têm-nas as fontes,
Tristezas tenho-as eu!
2
Ó choupo magro e velhinho,
Corcundinha, todo aos nós,
És tal qual meu Avôzinho:
Falta-te apenas a voz.
3
Minha capa vos acoite
Que é pra vos agasalhar:
Se por fora é cor da noite,
Por dentro é cor do luar…
4
Ó sinos de Santa Clara,
Por quem dobrais, quem morreu?
Ah, foi-se a mais linda cara
Que houve debaixo do Céu!
5
A sereia é muito arisca,
Pescador, que estás ao Sol:
Não cai, tolinho, a essa isca…
Só pondo uma flor no anzol!
6
A Lua é a hóstia branquinha,
Onde está Nosso Senhor:
É duma certa farinha
Que não apanha bolor.
7
Vou a encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei!
Mondego, qu’é da tua água,
Qu’é dos prantos que eu chorei?
8
No inverno não tens fadigas,
E tens água para leões!
Mondego das raparigas,
Estudantes e violões!
9
— É só porque o mundo zomba
Que pões luto? Importa lá!
Antes te vistas de pomba…
— Pombas pretas também há!
10
Teresinhas! Ursulinas!
Tardes de novena, adeus!
Os corações às batinas
Que diriam? sabe-o Deus…
11
Ó boca dos meus desejos,
Onde o padre não pôs sal,
São morangos os teus beijos,
Melhores que os do Choupal!
12
Manuel no Pio repoisa.
Todas as tardes, lá vou
Ver se quer alguma coisa,
Perguntar como passou.
13
Agora, são tudo amores
À roda de mim, no Cais,
E, mal se apanham doutores,
Partem e não voltam mais…
14
Aos olhos da minha fronte
Vinde os cântaros encher:
Não há, assim, segunda fonte
Com duas bicas a correr.
15
Os teus peitos são dois ninhos
Muito brancos, muito novos,
Meus beijos os passarinhos
Mortinhos por porem ovos.
16
Nossa Senhora faz meia
Com linha branca de luz:
O novelo é a Lua Cheia,
As meias são pra Jesus.
17
Meu violão é um cortiço,
Tem por abelhas os sons,
Que fabricam, valha-me isso,
Fadinhos de mel, tão bons.
18
Ó fogueiras, ó cantigas,
Saudades! recordações!
Bailai, bailai, raparigas!
Batei, batei, corações!
Coimbra, 1890.
Carta a Manuel
Manuel, tens razão. Venho tarde. Desculpa.
Mas não foi Anto, não fui eu quem teve a culpa,
Foi Coimbra. Foi esta paisagem triste, triste,
A cuja influência a minha alma não resiste.
Queres notícias? Queres que os meus nervos falem?
Vá! dize aos choupos do Mondego que se calem
E pede ao Vento que não uive e gema tanto:
Que, enfim, se sofre, abafe as torturas em pranto,
Table of contents
Inside this edition
- 01Full text
- 02ENTRE DOURO E MINHO
- 03IDEAL DUM PARISIENSE
- 04Livre de Coimbra, minha flor!
- 05LUA CHEIA
- 06O PRIMEIRO HOMEM
- 07A MONTANHA
- 08OS RIOS
- 09A LUA
- 10A TERRA
- 11A MACIEIRA
- 12AS ESTRELAS
- 13O MAR
- 14OS RELÂMPAGOS
- 15O INFINITO
- 16A ESPERANÇA
- 17OS CIPRESTES
- 18OS CEMITÉRIOS
- 19OS MORTOS
- 20LUA QUARTO-MINGUANTE
- 21POR UMA TEMPESTADE NA COSTA DE INGLATERRA
- 22SONETOS
- 23ELEGIAS
- 24(QUE FLORESCEU EM NABÂNCIA NO SÉCULO VII)
- 25UM PASTOR FALA:
- 26MALES DE ANTO
- 27A ARES NUMA ALDEIA
- 28MESES DEPOIS, NUM CEMITÉRIO
- 29ANTO
- 30O POVO
- 31O COVEIRO
- 32O ZÉ DOS LODOS
- 33O DR. DELEGADO
- 34ANTO
- 35O SR. ABADE
- 36A MULHER DO MOLEIRO
- 37O ASTRÓNOMO
- 38O COVEIRO
- 39O CEGO DO CASAL
- 40CARLOTA
- 41ANTO
- 42A MÃE DE ANTO
- 43DEUS
- 44FIM
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