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Portuguese Edition

Literature

Os Pobres

Portuguese BooksWhale Edition by Raul Brandão

Um romance sombrio e lírico sobre miséria, consciência social, sofrimento e humanidade invisível.

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Book introduction

Os Pobres

Os Pobres reúne a intensidade moral e estilística de Raul Brandão numa visão da pobreza, da exclusão, da compaixão e da vida interior dos marginalizados. Esta edição em português valoriza a força original da prosa.

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Os Pobres foi publicado pela primeira vez em 1906. A data de publicação e a morte de Raul Brandão em 1930 sustentam o domínio público desta edição em português.

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Os Pobres

Raul Brandão

produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

OS POBRES

OBRAS DO AUCTOR

A ARVORE:

I--_Historia d'um palhaço_. II--_Os pobres_. III--_Raizes_ (em preparação).

ROMANCE:

_A Farça_.

THEATRO:

(De collaboração com Julio Brandão)

_A noite de Natal_, drama em 3 actos, representado no theatro de D. Maria II.

RAUL BRANDÃO

OS POBRES

Precedido de uma Carta-Prefacio de GUERRA JUNQUEIRO

LISBOA EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL SOCIEDADE EDITORA Livraria Moderna, R. Augusta, 95 | Typographia R. Ivens, 45 e 47 1906

Preview chapterCARTA--PREFACIOPreview

_Meu bom amigo_:

O seu livro é a historia patetica d'uma alma. Qual? A do Gebo, a de Luiza, a de Sophia, a da Mouca, a dos _Pobres_ emfim? Não. A sua. Historias diversas, que se resumem n'uma historia unica: a da sua alma, transitando almas, a da sua vida, percorrendo vidas. Autobiografia espiritual, dilacerada e furiosa, demoniaca e santa, blasfemadora e divina. Confissão verdadeira, plena, absoluta d'um organismo que sente a musica mysteriosa do universo, d'um coração que repercute a dôr eterna da natureza, mas que só ao cabo de oscilações, duvidas e desanimos, coordena a idealidade do ser com as aparencias do ser, o espirito com as formas, o Deus,--amor e beatitude, com a materia,--crime e soffrimento.

Não vejo diante de mim um poema esteril, obra dos sentidos, da imaginação e da volupia. Vejo um acto profundo, espontaneo, d'imensidade religiosa. O homem que se confessa abala-me e deslumbra-me. Não a confissão mentirosa, a confissão vulgar, da boca que tem dentes, para o ouvido que tem sombras. Não a confissão-analise, a confissão dos criticos, rol de inteligencia, catalogo de ideias. Mas a esplendida confissão das almas vertiginosas, desagregando-se, transidas de eternidade e de mysterio. Como o fogo devorador dissocia o rochedo, ha lavaredas ignotas que dissociam as almas. E, se taes almas se desdobram, a natureza denuncia-se. O homem é um resumo ideal da natureza. Andou o infinito, e lembra-se; andará o infinito, e já o sonha. Quando o genio explue, conta-nos a natureza a sua historia. O genio supremo é o santo. O verbo do santo, eis a lingua clara do universo.

As confissões augustas são as dos poetas e dos santos. No homem vulgar a personalidade rigida encarcera e coalha as personalidades volateis e difusas. O inconsciente imenso não acorda, porque está, como um aroma, dentro d'um bloco duro, impenetravel. É o sonho captivo n'um ovo hermetico de bronse. As almas emotivas dos grandes visionarios, essas conservam aquella graça radiante, aquella omnipresença espiritual, que as deixa embeber, mover, existir na fraternidade cosmica e divina. O sonhador dos _Pobres_ é um evocador atormentado e religioso. Busquei no seu livro a imagem ardente da sua alma. Vamos vêr se a desenho com rapidez e precisão.

Alma vibratil e fugaz, olhando a natureza, o que sentiu? Assombro, esplendor, pavor, enigma, deslumbramento. Tudo vive, deseja, estremece, palpita, murmura e sonha. Tudo vive, tudo vive: o homem, a féra, a rocha, o lodo, a agua, o ar, braseiros de mundos, aluviões de nebulosas, incorporeidade genesica do ether. Fervedoiro de vidas insondavel, que o tempo não exgota, porque a morte creadora continuamente o desorganisa e reproduz em formas novas e diversas. E todas se cruzam, beijam, penetram, correspondem. É uma teia vertiginosa de fios sem fim, de fios moveis, ondeantes, cambeantes, urdindo-se ella mesma, na eternidade impenetravel, sem ninguem ver o tecelão. Rigidez, solidez, inercia, não existem. Na fraga mais dura, no bronse mais compacto circulam desejos, dramas, turbilhões de moleculas e vontades. As cordilheiras inabalaveis são redemoinhos dentro de enxovias. O concreto dilue-se, o material evapora-se. O sol tombando, aniquilaria cardumes de planetas, e a lua do sol, que é sol volatilisado, pesa menos que uma folha de rosa na mão d'uma creança. Em cada bloco metalico latejam oceanos dormentes, de vagas fluidas, invisiveis. Acordem-n'os, e o bloco obtuso, electrisado, irradia no ether. Vêde um penedo monstruoso: Parece firme. Desagregou-se, e é lama; a raíz tocou-lhe e é seiva; a seiva gerou, e é flor e é fructo; o fructo, alimento; o alimento sangue; e o sangue vermelho, corpo que caminha, carne que fala, cerebro que pensa. Natureza! universo!... Vidas infindaveis eternamente circulando n'uma vida unica. Assombro, esplendor, pavor, deslumbramento! O homem vacila, desmaia, quer equilibrar-se... mas onde, se não ha terra em que poise, nem muro a que se encoste?! Tudo impalpavel, fugaz, incerto, ilusorio, ilimitado... tudo vida, tudo sonho, tudo voragem... Se baixa os olhos do imenso ao grão d'areia, o grão d'areia, infinitessimo, resolve-se-lhe em vidas infinitas. Quer contemple o universo, quer examine um corpusculo, a alma engolfa-se, estonteada, no mesmo abismo devorador e creador.

Preview chapterO ENXURROPreview

Vem o inverno e os montes pedregosos, as arvores despidas, a natureza inteira envolve-se n'uma grande nuvem humida que tudo abafa e penetra. As coisas dil-as-hieis recolhidas e scismaticas.

É como um rôlo mysterioso e profundo que vem d'um mar desconhecido. E a chuva começa. É um ruido dôce o da chuva. Faz sonhar em tantas coisas idas e tristes! Primeiro a terra imbebe-se e incha. E, depois de cheia, a torrente jorra até polir as pedras: ara na terra, põe raizes á mostra, arrasta n'alluvião o humus, as folhas seccas das arvores, os cadaveres dos bichos, os detrictos desagregados das rochas, que rola juntos, dispersa e reune, atira, entre a baba da agua, para um destino ignoto.

Assim a vida. É um rio de lagrimas, de brados, de mysterio. A onda turva põe as mais fundas raizes á mostra, a torrente leva comsigo de roldão a desgraça e o riso; sem cessar carreia este terriço humano para uma praia, onde as mãos esqualidas dos que soffreram encontram emfim a mão que os ampara, onde os olhos dos pobres, que se fartaram de chorar, ficam attonitos diante da madrugada eterna, onde todo o sonho se converte em realidade...

* * * * *

Vêde... É noite. A ventania redobra e nas lufadas que passam viajam gritos, catastrophes, lamentos. Sou pobre e transido e nada sei da vida, mas sou um principe. De que terra? direis.--Do sonho. E assim n'este predio revolvido me quédo, sósinho e triste, a escutar... Ouço um rio que os mais não sentem. Cada creatura nascida traz comsigo uma fonte, fio de agua humedecendo a frincha d'uma pedra ou levada impetuosa e aos jorros. É ella que tira á vida a sua seccura. Em certas creaturas pobres e simples quasi se ouve essa agua correr e tão amoravelmente, que dá vontade de nos chegarmos á sua sombra. É emoção. Minae, não na deixeis seccar: se finda torna-se a vida como os chãos sequiosos.

N'este casarão onde móro a toda a hora se ouve o ruido da levada; corre sempre como as torrentes desordenadas e esplendidas. Escutae!... Préga o inverno bravio, o vento e os aguaceiros passam, mas escutae, escutae!...

* * * * *

São meus visinhos, lá em baixo mulheres perdidas, ao pé de mim dois casados, e na trapeira um gato pingado, a quem chamam S. José. As mulheres passam ás vezes na rua, com chales purpuras a rasto; o gato pingado só sahe á noitinha, á hora dos morcegos. Mais timido que eu, encontro-o nas escadas a tossir, com o peito escalavrado e rôto.

Para que vive esta ralé? Levantam-se derreados, para cavar, para berrar, para que lhes deem um pedaço de pão e só se deitam no sepulchro. Caminho sem sonho. Da vida coube-lhes este quinhão amargo: o cansaço, a humilhação e a fome.

Se passam pelas arvores, n'um dia de primavera, tão lindo, que até as proprias macieiras de commovidas se vão desentranhando em flor, sabeis o que acontece? As arvores retrahem-se, as coisas callam-se ao vel-os passar cobertos de suor, calcados e gastos. Para que é que elles vivem aos gritos, offendidos, ralé, pedras, sapos? para que é que Deus os cria?

* * * * *

O gato pingado... Eil-o que sobe. Cada passo me lembra uma pázada de terra. É soturno este homem, esguio e magro, com o chapeu alto embrulhado no lenço do rapé e a casaca dobrada no braço. Nunca fala. Estou mesmo em dizer que não pensa, este avejão que só sahe para os enterros. Deve ser máo, deve ser duro: nunca decerto chorou. Os garotos apedrejam-n'o quando elle passa pela rua, esguio, vesgo, de chapeu alto e casaca, rigido _clown_ da morte, que em logar de gargalhadas toda a sua vida ouvisse lagrimas. Aposto que, quando arrancam das casas os caixões como quem arranca o coração dos vivos, ao ouvir gritos, tem um riso interior, jubilo de quem está farto de viver só, arredado, humilhado... Gato pingado! gato pingado! Vive de lagrimas, sustenta-se de dôres. E quando vai, de tocha accesa, esguio, a galgar atraz d'um carro funerario, na reles mascarada, em que irá elle a pensar, esbaforido e triste?....

Table of contents

Inside this edition

  1. 01Full text
  2. 02CARTA--PREFACIO
  3. 03O ENXURRO
  4. 04O GEBO
  5. 05AS MULHERES
  6. 06O GABIRU
  7. 07HISTORIA DO GEBO
  8. 08PRIMAVERA
  9. 09MEMORIAS DE LUIZA
  10. 10PHILOSOPHIA DO GABIRU
  11. 11HISTORIA DO GEBO
  12. 12LUIZA E O MORTO
  13. 13PHILOSOPHIA DO GABIRU
  14. 14ESSA RAPARIGUINHA...
  15. 15O ESCARNEO
  16. 16HISTORIA DO GEBO
  17. 17XVIII
  18. 18HISTORIA DO GEBO
  19. 19O GABIRU TRESLÊ
  20. 20A MOUCA
  21. 21PHILOSOPHIA DO GABIRU
  22. 22XXIII
  23. 23A OUTRA PRIMAVERA
  24. 24A MORTE
  25. 25A ARVORE
  26. 26NATAL DOS POBRES

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