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Portuguese Edition

Literature

Ubirajara

Portuguese BooksWhale Edition by José de Alencar

Alencar’s Indianist novel of warrior honor, tribe, ritual, rivalry, and national mythmaking.

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Book introduction

Ubirajara

“Ubirajara” belongs to José de Alencar’s Indianist cycle, shaping Indigenous warrior legend into a romantic national epic. The novel emphasizes courage, ritual combat, alliance, love, and the literary invention of Brazilian origins.

BooksWhale edition

How this edition was prepared

This edition is based on a public domain text and has been prepared for digital reading by BooksWhale.

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Why this edition can be shared

Ubirajara is a public-domain work: the author died in 1877, and the text was first published in 1874. This edition uses the original Portuguese text.

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Ubirajara

Preview chapterO CAÇADORPreview

Pela marjem do grande rio caminha Jaguarê, o joven caçador.

O arco pende-lhe ao hombro, esquecido e inutil. As flechas dormem no coldre da uiraçaba.

Os veados saltam das moitas de ubaia e vêm retouçar na grama, zombando do caçador.

Jaguarê não vê o timido campeiro; seus olhos buscam um inimigo capaz de rezistir-lhe ao braço robusto.

O rujido do jaguar abala a floresta; mas o caçador tambem despreza o jaguar, que já cançou de vencer.

Elle chama-se Jaguarê, o mais feroz jaguar da floresta; os outros fojem espavoridos quando de lonje o presentem.

Não é esse o inimigo que procura, porém outro mais terrivel, para vencel-o em combate de morte e ganhar nome de guerra.

Jaguarê chegou á idade em que o mancebo troca a fama do caçador pela gloria do guerreiro.

Para ser aclamado guerreiro por sua nação é precizo que o joven caçador conquiste esse titulo por uma grande façanha.

Por isso deixou a taba dos seus e a prezença de Jandira, a virjem formoza que lhe guarda o seio de espoza.

Mas o sol tres vezes guiou o passo rapido do caçador através das campinas, e tres vezes como agora deitou-se além nas montanhas da Aratuba, sem mostrar-lhe um inimigo digno de seu valor.

A sombra vai decendo da serra pelo vale e a tristeza cae da fronte sobre a face de Jaguarê.

O joven caçador empunha a lança de duas pontas, feita da roxa craúba, mais rija que o ferro.

Nenhum guerreiro brandiu jámais essa arma terrivel, que sua mão primeiro fabricou.

Lá estaca o joven caçador no meio da campina. Volvendo ao céu o olhar torvo e iracundo, solta ainda uma vez seu grito de guerra.

O bramido rolou pela amplidão da mata e foi morrer lonje nas cavernas da montanha.

Respondeu o ronco da sucurí na madre do rio e o urro do tigre escondido na furna; mas outro grito de guerra não acudiu ao dezafio do caçador.

Jaguarê arremessou a lança, que vibrou nos ares e foi cravar-se além no grosso tronco da emburana.

A copa frondoza ramalhou, como as palmas do coqueiro ao sopro do vento, e o tronco gemeu até á raiz.

O caçador repouza á sombra de sua lança.

Salta uma corça da mata e veloz atravessa a campina.

Mais veloz a persegue gentil caçadora com a seta embebida no arco flexivel.

Ergue-se Jaguarê.

Seu olhar ardente voou, sofrego de encontrar o inimigo que lhe tardava.

Avistando uma mulher, a alegria do mancebo apagou-se no rosto sombrio.

Pela faxa côr de ouro, tecida das penas do tucano, Jaguarê conheceu que era uma filha da valente nação dos Tocantins, senhora do grande rio, cujas marjens elle pizava.

A liga vermelha que cinjia a perna esbelta da estranjeira dizia que nenhum guerreiro jámais possuira a virjem formoza.

A corça veiu cair aos pés de Jaguarê, atravessada pela flecha certeira da joven caçadora que a seguia de perto.

A virjem reconheceu o cocar da nação que na ultima lua chegára aos campos do Taari e da qual os pajés tinham dado noticia.

--Guerreiro araguaia, pois vejo pela pena vermelha de teu cocar que pertences a essa nação valente; se pizas os campos dos Tocantins como hospede, bem vindo sejas; mas se vens como inimigo, foje, para que tua mãi não chore a morte de seu filho e tenha quem a proteja na velhice.

--Virjem dos Tocantins, Jaguarê já soltou seu grito de guerra. Elle piza os campos de teus pais como senhor. Tu és sua prizioneira. Não que vencer a corça timida seja gloria para o caçador; mas tu chamarás o inimigo que elle espera.

--Se o veado te der a sua lijeireza, joven guerreiro, elle não te servirá senão para ver o rasto de meu pé antes que o vento o apague.

Preview chapterO GUERREIROPreview

Retumba a festa na taba dos araguaias.

As fogueiras circulam a vasta ocara e derramam no seio da noite escura as chamas da alegria.

Toda a tarde o trocano reboou chamando os guerreiros das outras tabas á grande taba do chefe.

Era a festa guerreira de Jaguarê, filho de Camacan, o maior chefe dos araguaias.

No fundo da ocara prezide o conselho dos anciãos, que decide da paz ou da guerra, e governa a valente nação.

Os anciãos, sentados no longo giráu, contemplam taciturnos a geração de guerreiros que elles ensinaram a combater, e têm saudades da passada gloria.

Suspenso em frente delles está o grande arco da nação araguaia, ornado nas pontas das penas vermelhas da arara.

É a insignia do chefe dos guerreiros, a qual Camacan, pai de Jaguarê, conquistou na mocidade e ainda a conserva, pois ninguem ouza disputal-a.

Eil-o, o velho chefe, embaixo do arco, que sua mão tantas vezes brandiu na guerra. Em pé, arrimado ao invencivel tacape, elle dirije a festa.

De um e outro lado da vasta ocara, está a multidão dos guerreiros, colocados por sua ordem; primeiro os chefes das tabas; depois os varões; por ultimo os moços guerreiros.

Vêm depois os jovens caçadores que já deixaram a oca materna e estão impacientes de ganhar por suas proezas a honra de serem admitidos entre os guerreiros.

Mas para isso têm de passar pelas provas, e sua juventude não lhes consente ainda a robustez, que tamanho esforço demanda.

Todos invejam a gloria de Jaguarê que hontem era o primeiro entre elles, e hoje ali está disputando a fama aos mais valentes guerreiros.

Por detraz da estacada apinham-se as mulheres, que segundo o rito patrio não podem ser admitidas nas festas guerreiras.

De lonje acompanham silenciozas com os olhos, as velhas aos filhos, as espozas aos seus guerreiros, e as virjens aos noivos.

Exultam quando ouvem celebrar as façanhas dos seus; mas não ouzam murmurar uma palavra.

Entre ellas está Jandira, a doce virjem, cujos negros olhos não se cansam de admirar Jaguarê, seu futuro senhor.

Já lhe tarda o momento de ver aclamar guerreiro ao joven caçador, para ter a felicidade de servil-o como escrava na paz, e acompanhal-o como espoza ao combate.

No centro da ocara ergueu-se Jaguarê.

Defronte delle, Pojucan, no corpo que a ferida não abateu, mostra a grande alma, serena em face dos inimigos.

Camacan troou a inubia para ordenar silencio e o filho começou:

--Guerreiros araguaias, ouvi a minha historia de guerra.

«Depois que Jaguarê sofreu as provas do valor, partiu para conquistar um nome famozo.

«Deixando a taba, viu o falcão negro que despedia o vôo para as aguas sem fim, e Jaguarê disse:

«O falcão negro é o valente guerreiro dos ares; elle será a fama do guerreiro araguaia que atravessará as nuvens e subirá ao céu.

«Então Jaguarê marcou o vôo do falcão negro e seguiu por elle.

«O sol despediu-se e voltou; uma, duas, tres vezes. No ultimo sol Jaguarê encontrou um guerreiro da nação tocantim, senhora do grande rio.

«Guerreiros araguaias, quereis saber qual foi o campeão que Tupan enviou a Jaguarê para dar-lhe o nome de guerra?

«Elle aí está diante de vós.

«É o grande Pojucan, o feroz matador de gente, chefe da tribu mais valente da poderoza nação dos tocantins, senhores do grande rio.

«Vós que o tendes aqui prezente, vêde como é terrivel o seu aspeto, mas só eu que o pelejei conheço o seu valor no combate.

«O tacape em sua mão possante é como o tronco do ubiratan que brotou no rochedo e creceu.

«Jaguarê, que arranca da terra o cedro gigante, não o pôde arrancar de sua mão; e foi obrigado a despedaçal-o.

Table of contents

Inside this edition

  1. 01Full text
  2. 02O CAÇADOR
  3. 03O GUERREIRO
  4. 04A NOIVA
  5. 05A HOSPITALIDADE
  6. 06SERVO DO AMOR
  7. 07O COMBATE NUPCIAL
  8. 08A GUERRA
  9. 09A BATALHA
  10. 10UNIÃO DOS ARCOS
  11. 11NOTAS

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