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Literatura

A Cidade e as Serras

Edición BooksWhale en portugués de Eça de Queirós

Um romance português sobre civilização, excesso moderno, campo e reencontro com a vida simples.

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Introducción del libro

A Cidade e as Serras

A Cidade e as Serras contrapõe o brilho tecnológico e social de Paris à experiência rural portuguesa. Eça de Queirós transforma essa oposição em uma reflexão irônica sobre progresso, desejo e felicidade.

Edición BooksWhale

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Esta edición se basa en un texto de dominio público y fue preparada por BooksWhale para lectura digital.

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Eça de Queirós morreu em 1900 e A Cidade e as Serras foi publicado em 1901; essas datas sustentam a base de domínio público desta edição portuguesa.

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A cidade e as serras

Eça de Queirós

Capítulo de vista previaCapítulo IVista previa

O meu amigo Jacintho nasceu n’um palacio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e d’olival.

No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos d’esta velha familia agricola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos d’el-rei D. Diniz. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torrão lhe pagava fôro. E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga até ao mar d’Ancora. Mas o palacio onde Jacintho nascêra, e onde sempre habitára, era em Paris, nos Campos Elyseos, n.º 202.

Seu avô, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em Lisboa o D. Galião, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, rente d’um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n’uma casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n’esse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e botas altas de picador, que, galhofando e com uma força facil, levantou o enorme Jacintho — até lhe apanhou a bengala de castão d’ouro que rolára para o lixo. Depois, demorando n’elle os olhos pestanudos e pretos:

— Oh Jacintho Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas pedras?

E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel!

Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amára, apesar de tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o seu Deus! Na sala nobre da sua casa (á Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do «seu Salvador», enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a bengala que as magnanimas mãos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Zé-Maria em Belem á botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do anginho, a tramar o regresso do anginho. No dia, entre todos bemdito, em que a Perola appareceu á barra com o Messias, engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, d’aureola e azas de Archanjo, furava de cima do seu corcel d’Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia vomitando a Carta. Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro livre» mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres, caixas de dôce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz atochadas de peças que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um macho, tomára o caminho de Sines e do final desterro — Jacintho Galião correu pela casa, fechou todas as janellas como n’um luto, berrando furiosamente:

— Tambem cá não fico! tambem cá não fico!

Não, não queria ficar na terra perversa d’onde partia, esbulhado e escorraçado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos! Embarcou para França com a mulher, a snr. a D. Angelina Fafes (da tão fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o ’Cinthinho, menino amarellinho, mollesinho, coberto de caróços e leicenços; com a aia e com o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou tão rijos mares que a snr. a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d’Alcantara uma corôa d’espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em Bayonna, onde arribaram, ’Cinthinho teve ithericia. Na estrada d’Orleans, n’uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio até uma aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram nos bancos d’uma taberna. No «Hotel dos Santos Padres», em Paris, soffreram os terrores d’um fogo que rebentára na cavalhariça, sob o quarto de D. Galião, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em camisa, até ao pateo, enterrou o pé nú numa lasca de vidro. Então ergueu amargamente ao céo o punho cabelludo, e rugiu:

Capítulo de vista previaCapítulo IIVista previa

Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava, levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até ás abas recurvas do chapéo d’onde fugiam anneis d’um cabello crespo, reçumava elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atraz das costas, calçadas d’anta branca, sustentava uma bengala grossa com castão de crystal. E só quando elle parou ao portão do 202 reconheci o nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.

— Oh Jacintho!

— Oh Zé Fernandes!

O abraço que nos enlaçou foi tão alvoroçado que o meu chapéo rolou na lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade:

— Ha sete annos!...

— Ha sete annos!...

E, todavia, nada mudára durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e varrida que a lã d’um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraçaria toldava, as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galião, sustentavam as antigas lampadas de globos foscos, onde já silvava o gaz.

Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado por Jacintho — apesar do 202 ter sómente dois andares, e ligados por uma escadaria tão doce que nunca offendêra a asthma da snr. a D. Angelina! Espaçoso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d’urso, um roteiro das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida d’uma tarde de Maio, em Guiães. Um creado, mais attento ao thermometro que um piloto á agulha, regulava destramente a bocca dourada do calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n’um terrasso santo de Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo aquelle ar delicado e superfino.

Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sêr:

— Eis a civilisação!

Jacintho empurrou uma porta, penetramos n’uma nave cheia de magestade e sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropeçar n’uma pilha monstruosa de livros novos. O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma corôa de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as estantes monumentaes, todas d’ebano. N’ellas repousavam mais de trinta mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com retoques d’ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores n’um concilio.

Não contive a minha admiração:

— Oh Jacintho! Que deposito!

Elle murmurou, n’um sorriso descorado:

— Ha que lêr, ha que lêr...

Reparei então que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilára mais entre duas rugas muito fundas, como as d’um comediante cançado. Os anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a antiga serenidade de marmore bem polido. Não frisava agora o bigode murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava.

Elle erguêra uma tapeçaria — entramos no seu gabinete de trabalho, que me inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os divans, as madeiras, eram verdes, d’um verde profundo de folha de louro. Sêdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas tão baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de arrefecer e morrer: só uma rebrilhava, núa e clara, no alto d’uma estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n’uma planicie, e de que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde, fresco verde de relva, resguardava a chaminé de marmore verde, verde de mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d’uma lenha aromatica. E entre aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens, hastes, friezas, rigidezas de metaes...

Índice

Dentro de esta edición

  1. 01Full text
  2. 02Capítulo I
  3. 03Capítulo II
  4. 04Capítulo III
  5. 05Capítulo IV
  6. 06Capítulo V
  7. 07Capítulo VI
  8. 08Capítulo VII
  9. 09Capítulo VIII
  10. 10Capítulo IX
  11. 11Capítulo X
  12. 12Capítulo XI
  13. 13Capítulo XII
  14. 14Capítulo XIII
  15. 15Capítulo XIV
  16. 16Capítulo XV
  17. 17Capítulo XVI

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