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Literatura

Cartas Chilenas

Edición BooksWhale en portugués de Tomás António Gonzaga

Sátira política em versos que transforma abuso colonial em crítica mordaz.

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Introducción del libro

Cartas Chilenas

Cartas Chilenas usa a forma epistolar e o verso satírico para denunciar arbitrariedade, corrupção e poder local no mundo luso-brasileiro. Esta edição portuguesa apresenta a obra em leitura clara.

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Tomás António Gonzaga died in 1810, and Cartas Chilenas circulated in manuscript before later nineteenth-century publication. The author's death date and textual age support the public-domain basis for the Portuguese source text used in this edition.

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Cartas Chilenas

Tomás António Gonzaga

Capítulo de vista previaPrólogo e dedicatóriaVista previa

Amigo leitor, arribou a certo porto do Brasil, onde eu vivia, um galeão, que vinha das Américas espanholas. Nele se transportava um mancebo, cavalheiro instruído nas humanas letras. Não me foi dificultoso travar, com ele, uma estreita amizade e chegou a confiar-me os manuscritos, que trazia. Entre eles encontrei as Cartas Chilenas, que são um artificioso compêndio das desordens, que fez no seu governo Fanfarrão Minésio, general de Chile.

Logo que li estas Cartas, assentei comigo que as devia traduzir na nossa língua, não só porque as julguei merecedoras deste obséquio pela simplicidade do seu estilo, como, também, pelo benefício, que resulta ao público, de se verem satirizadas as insolências deste chefe, para emenda dos mais, que seguem tão vergonhosas pisadas.

Um D. Quixote pode desterrar do mundo as loucuras dos cavaleiros andantes; um Fanfarrão Minésio pode também corrigir a desordem de um governador despótico.

Eu mudei algumas coisas menos interessantes, para as acomodar melhor ao nosso gosto. Peço-te que me desculpes algumas faltas, pois, se és douto, hás-de conhecer a suma dificuldade, que há na tradução em verso. Lê, diverte-te e não queiras fazer juízos temerários sobre a pessoa de Fanfarrão. Há muitos fanfarrões no mundo, e talvez que tu sejas também um deles, etc.

Horat. Sat lª, versos e .

Ilmos. e exmos. senhores,

Apenas concebi a idéia de traduzir na nossa língua e de dar ao prelo as Cartas Chilenas, logo assentei comigo que Vv. Exas. haviam-de ser os Mecenas a quem as dedicasse. São Vv. Exas. aqueles de quem os nossos soberanos costumam fiar os governos das nossas conquistas: são por isso aqueles a quem se devem consagrar todos os escritos, que os podem conduzir ao fim de um acertado governo.

Dois são os meios porque nos instruímos: um, quando vemos ações gloriosas, que nos despertam o desejo da imitação; outro, quando vemos ações indignas, que nos excitam o seu aborrecimento. Ambos estes meios são eficazes: esta a razão porque os teatros, instituídos para a instrução dos cidadãos, umas vezes nos representam a um herói cheio de virtudes, e outras vezes nos representam a um monstro, coberto de horrorosos vícios.

Entendo que Vv. Exas. se desejarão instruir por um e outro modo. Para se instruírem pelo primeiro, têm Vv. Exas. Os louváveis exemplos de seus ilustres progenitores. Para se instruírem pelo segundo, era necessário que eu fosse descobrir o Fanfarrão Minésio, em um reino estranho! Feliz reino e felices grandes que não têm em si um modelo destes!

Peço a Vv. Exas. que recebam e protejam estas cartas. Quando não mereçam a sua proteção pela eloqüência com que estão escritas, sempre a merecem pela sã doutrina que respiram e pelo louvável fim com que talvez as escreveu o seu autor Critilo.

Beija as mãos

De Vv. Exas.

O seu menor criado...

Capítulo de vista previaCarta IVista previa

Amigo Doroteu, prezado amigo,

Abre os olhos, boceja, estende os braços

E limpa, das pestanas carregadas,

O pegajoso humor, que o sono ajunta.

Critilo, o teu Critilo é quem te chama;

Ergue a cabeça da engomada fronha

Acorda, se ouvir queres coisas raras.

"Que coisas, (tu dirás), que coisas podes

Contar que valham tanto, quanto vale

Dormir a noite fria em mole cama,

Quando salta a saraiva nos telhados

E quando o sudoeste e outros ventos

Movem dos troncos os frondosos ramos?"

É doce esse descanso, não te nego.

Também, prezado amigo, também gosto

De estar amadornado, mal ouvindo

Das águas despenhadas brando estrondo,

E vendo, ao mesmo tempo, as vãs quimeras,

Que então me pintam os ligeiros sonhos.

Mas, Doroteu, não sintas que te acorde;

Não falta tempo em que do sono gozes:

Então verás leões com pés de pato,

Verás voarem tigres e camelos,

Verás parirem homens e nadarem

Os roliços penedos sobre as ondas.

Porém que têm que ver estes delírios

Co'os sucessos reais, que vou contar-te?

Acorda, Doroteu, acorda, acorda;

Critilo, o teu Critilo é quem te chama.

Levanta o corpo das macias penas;

Ouvirás, Doroteu, sucessos novos,

Estranhos casos, que jamais pintaram

Na idéia do doente, ou de quem dorme

Agudas febres, desvairados sonhos

Não és tu, Doroteu, aquele mesmo

Que pedes que te diga se e verdade

O que se conta dos barbados monos

Que à mesa trazem os fumantes pratos?

Não desejas saber se há grandes peixes,

Que abraçando os navios com as longas,

Robustas barbatanas, os suspendem,

Inda que o vento, que d'alheta sopra,

Lhes inche os soltos, desrinzados panos?

Não queres que te informe dos costumes.

Dos incultos gentios? Não perguntas

Se entre eles há nações, que os beiços furam?

E outras que matam, com piedade falsa,

Aos pais, que afrouxam ao poder dos anos?

Pois se queres ouvir notícias velhas

Dispersas por imensos alfarrábios,

Escuta a história de um moderno chefe.

Que acaba de reger a nossa Chile,

Ilustre imitador a Sancho Pança.

E quem dissera, amigo, que podia

Gerar segundo Sancho a nossa Espanha!

Não penses, Doroteu, que vou contar-te

Por verdadeira história uma novela

Da classe das patranhas, que nos contam

Verbosos navegantes, que já deram

Ao globo deste mundo volta inteira.

Uma velha madrasta me persiga,

Uma mulher zelosa me atormente,

E tenha um bando de gatunos filhos,

Que um chavo não me deixem, se este chefe

Não fez ainda mais do que eu refiro.

Ora pois, doce amigo, vou pintá-lo

Da sorte que o topei a vez primeira;

Nem esta digressão motiva tédio

Como aquelas que são dos fins alheias,

Que o gesto, mais o traje nas pessoas

Faz o mesmo que fazem os letreiros

Nas frentes enfeitadas dos livrinhos,

Que dão, do que eles tratam, boa idéia.

Tem pesado semblante, a cor é baça.

O corpo de estatura um tanto esbelta

Feições compridas e olhadura feia,

Tem grossas sobrancelhas, testa curta,

Nariz direito e grande, fala pouco

Em rouco, baixo som de mau falsete

Sem ser velho, já tem cabelo ruço

E cobre este defeito e fria calva

À força de polvilho, que lhe deita.

Ainda me parece que o estou vendo

No gordo rocinante escarranchado

As longas calças pelo umbigo atadas,

Amarelo colete e sobre tudo

Vestida uma vermelha e justa farda

De cada bolso da fardeta, pendem

Listadas pontas de dois brancos lenços;

Na cabeça vazia se atravessa

Um chapéu desmarcado, nem sei como

Sustenta o pobre só do laço o peso.

Ah! tu, Catão severo, tu que estranhas

O rir-se um cônsul moço, que fizeras

Se em Chile agora entrasses e se visses

Índice

Dentro de esta edición

  1. 01Full text
  2. 02Prólogo e dedicatória
  3. 03Carta I
  4. 04Carta II
  5. 05Carta III
  6. 06Carta IV
  7. 07Carta V
  8. 08Carta VI
  9. 09Carta VII
  10. 10Carta VIII
  11. 11Carta IX
  12. 12Carta X
  13. 13Carta XI
  14. 14Carta XII
  15. 15Carta XIII
  16. 16Carta XIV
  17. 17Carta XV
  18. 18Carta XVI
  19. 19Carta XVII
  20. 20Carta XVIII
  21. 21Carta XIX

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