O Cortiço cover

portugués Edición

Literatura

O Cortiço

Edición BooksWhale en portugués de Aluísio Azevedo

Um romance naturalista brasileiro sobre desejo, exploração, raça, classe e vida coletiva.

Vista previa
Muestra del texto preparado
Formatos
Lector online, EPUB, PDF
Acceso
Claim de Biblioteca

Introducción del libro

O Cortiço

O Cortiço acompanha a vida de uma habitação popular no Rio de Janeiro, mostrando ambição, miséria, desejo e conflito social. Azevedo constrói um dos grandes romances naturalistas da literatura brasileira.

Edición BooksWhale

Cómo se preparó esta edición

Esta edición se basa en un texto de dominio público y fue preparada por BooksWhale para lectura digital.

Base de dominio público

Por qué puede compartirse

Aluísio Azevedo morreu em 1913 e O Cortiço foi publicado em 1890; essas datas sustentam a base de domínio público desta edição portuguesa.

Leer vista previa

Muestra del texto preparado

Vista previa seleccionada del texto preparado.

Capítulo de vista previaFull textLeer vista previa

O Cortiço

Aluísio Azevedo

Capítulo de vista previaParte 1Vista previa

João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco annos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro de Botafogo; e tanto economisou do pouco que ganhára nessa dúzia de annos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.

Proprietario e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se á labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delirio de enriquecer, que affrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um sacco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lh’a, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fora e amigada com um portuguez que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade.

Bertoleza tambem trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem afreguezada do bairro. De manhã vendia angú, e à noite peixe frito e iscas de figado; pagava de jornal a seu dono vinte mil réis por mez, e, apezar disso, tinha de parte quasi que o necessario para a alforria. Um dia, porém, o seu homem, depois de correr meia legua, puxando uma carga superior às suas forças, cahio morto na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta.

João Romão mostrou grande interesse por esta desgraça, fez-se até participante directo dos soffrimentos da vizinha, e com tamanho empenho a lamentou, que a boa mulher o escolheu para confidente das suas desventuras. Abrio-se com elle, contou-lhe a sua vida de amofinações e difficuldades. «Seu senhor comia-lhe a pelle do corpo! Não era brinquedo para uma pobre mulher ter de escarrar p’rali, todos os mezes, vinte mil réis em dinheiro! E segredou-lhe então o que já tinha junto para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe guardasse as economias, porque já de certa vez fôra roubada por gatunos que entraram na quitanda pelos fundos.

Dahi em diante, João Romão tornou-se o caixa, o procurador e o conselheiro da crioula. No fim de pouco tempo era ele quem tomava conta de tudo que ella produzia e era também quem punha e dispunha dos seus pecúlios, e quem se encarregava de remeter ao senhor os vinte mil réis mensais. Abriu-lhe logo uma conta corrente, e a quitandeira, quando precisava de dinheiro para qualquer coisa, dava um pulo até à venda e recebia-o das mãos do vendeiro, de «Seu João,» como ella dizia. Seu João debitava methodicamente essas pequenas quantias n’um quaderninho, em cuja capa de papel pardo lia-se, mal escripto e em letras cortadas de jornal: «Ativo e passivo de Bertoleza.»

E por tal forma foi o taverneiro ganhando confiança no espirito da mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava delle, cegamente, todo e qualquer arbitrio. Por último, se alguém precisava tratar com ella qualquer negócio, nem mais se dava ao trabalho de procural-a, ia logo direito a João Romão.

Quando deram fé estavam amigados.

Ele propoz-lhe morarem juntos e ela concordou de braços abertos, feliz em meter-se de novo com um portuguez, porque, como toda a cafusa, Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instinctivamente o homem numa raça superior á sua.

João Romão comprou então, com as economias da amiga, alguns palmos de terreno ao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha de duas portas, dividida ao meio parallelamente á rua, sendo a parte da frente destinada á quitanda e a do fundo para um dormitorio que se arranjou com os cacarecos de Bertoleza. Havia, além da cama, uma cômoda de jacarandá, muito velha com maçanetas de metal amarelo já mareadas, um oratorio cheio de santos e forrado de papel de côr, um bahú grande, de couro crú tacheado, dois banquinhos de páo feitos de uma só peça e um formidavel cabide de pregar na parede, com a sua competente coberta de retalhos de chita.

Capítulo de vista previaParte 2Vista previa

Entretanto, a rua lá fora povoava-se de um modo admirável. Construía-se mal, porém muito; surgiam chalés e casinhas da noite para o dia; subiam os aluguéis; as propriedades dobravam de valor. Montara-se uma fábrica de massas italianas e outra de velas, e os trabalhadores passavam de manhã e às Ave-Marias, e a maior parte deles ia comer à casa de pasto que João Romão arranjara aos fundos da sua varanda. Abriram-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia ser tão afreguesada como a dele. Nunca o seu negocio fora tão bem, nunca o finório vendera tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos anos anteriores. Teve até de admitir caixeiros. As mercadorias não lhe paravam nas prateleiras; o balcão estava cada vez mais lustroso, mais gasto. E o dinheiro a pingar, vintém por vintém, dentro da gaveta, e a escorrer da gaveta para a barra, aos cinqüenta e aos cem mil-réis, e da burra para o banco, aos contos e aos contos.

Afinal, já lhe não bastava sortir o seu estabelecimento nos armazéns fornecedores; começou a receber alguns gêneros diretamente da Europa: o vinho, por exemplo, que ele dantes comprava aos quintos nas casas de atacado, vinha-lhe agora de Portugal às pipas, e de cada uma fazia três com água e cachaça; e despachava faturas de barris de manteiga, de caixas de conserva, caixões de fósforos, azeite, queijos, louça e muitas outras mercadorias.

Criou armazéns para depósito, aboliu a quitanda e transferiu o dormitório, aproveitando o espaço para ampliar a venda, que dobrou de tamanho e ganhou mais duas portas.

Já não era uma simples taverna, era um bazar em que se encontrava de tudo, objetos de armarinho, ferragens, porcelanas, utensílios de escritório, roupa de riscado para os trabalhadores, fazenda para roupa de mulher, chapéus de palha próprios para o serviço ao sol, perfumarias baratas, pentes de chifre, lenços com versos de amor, e anéis e brincos de metal ordinário.

E toda a gentalha daquelas redondezas ia cair lá, ou então ali ao lado, na casa de pasto, onde os operários das fábricas e os trabalhadores da pedreira se reuniam depois do serviço, e ficavam bebendo e conversando até as dez horas da noite, entre o espesso fumo dos cachimbos, do peixe frito em azeite e dos lampiões de querosene.

Era João Romão quem lhes fornecia tudo, tudo, até dinheiro adiantado, quando algum precisava. Por ali não se encontrava jornaleiro, cujo ordenado não fosse inteirinho parar às mãos do velhaco. E sobre este cobre, quase sempre emprestado aos tostões, cobrava juros de oito por cento ao mês, um pouco mais do que levava aos que garantiam a divida com penhores de ouro ou prata.

Não obstante, as casinhas do cortiço, à proporção que se atamancavam, enchiam-se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas secassem. Havia grande avidez em alugá-las; aquele era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira preferiam todos morar lá, porque ficavam a dois passos da obrigação.

O Miranda rebentava de raiva.

— Um cortiço! exclamava ele, possesso. Um cortiço! Maldito seja aquele vendeiro de todos os diabos! Fazer-me um cortiço debaixo das janelas!... Estragou-me a casa, o malvado!

E vomitava pragas, jurando que havia de vingar-se, e protestando aos berros contra o pó que lhe invadia em ondas as salas, e contra o infernal barulho dos pedreiros e carpinteiros que levavam a martelar de sol a sol.

O que aliás não impediu que as casinhas continuassem a surgir, uma após outra, e fossem logo se enchendo, a estenderem-se unidas por ali a fora, desde a venda até quase ao morro, e depois dobrassem para o lado do Miranda e avançassem sobre o quintal deste, que parecia ameaçado por aquela serpente de pedra e cal.

Índice

Dentro de esta edición

  1. 01Full text
  2. 02Parte 1
  3. 03Parte 2
  4. 04Parte 3
  5. 05Parte 4
  6. 06Parte 5
  7. 07Parte 6
  8. 08Parte 7
  9. 09Parte 8
  10. 10Parte 9
  11. 11Parte 10
  12. 12Parte 11
  13. 13Parte 12
  14. 14Parte 13
  15. 15Parte 14
  16. 16Parte 15
  17. 17Parte 16
  18. 18Parte 17
  19. 19Parte 18
  20. 20Parte 19
  21. 21Parte 20

Disponibilidad de idiomas

Otros idiomas

Aún no hay otras ediciones lingüísticas publicadas. Esta sección enlazará las disponibles.

Solicitar otro idioma

O Cortiço

Membresía $9.90 / año · acceso claim

Vista previaUnirse