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Viagens na Minha Terra
Edición BooksWhale en portugués de Almeida Garrett
Um clássico português que mistura viagem, memória, política, romance e reflexão nacional.
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Introducción del libro
Viagens na Minha Terra
Viagens na Minha Terra parte de uma viagem real para construir uma obra híbrida de narrativa, ensaio, memória e romance. Garrett observa Portugal com ironia, afeto e inquietação política.
Edición BooksWhale
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Almeida Garrett morreu em 1854, e Viagens na Minha Terra foi publicado em 1846; essas datas sustentam o domínio público desta edição em português.
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Viagens na Minha Terra
Almeida Garrett
Capítulo de vista previaPrologo dos editores.Vista previa
Os editores d’esta obra, vendo a popularidade extraordinaria que ella tinha publicada em fragmentos na Revista, intenderam fazer um serviço ás lettras e á gloria do seu paiz, imprimindo-a agora reunida em um livro, para melhor se podêr avaliar a variedade, a riqueza e a originalidade de seu tylo inimitavel, da philosophia profunda que incerra, e sôbre tudo o grande e transcendente pensamento moral a que sempre tende, ja quando folga e ri com as mais graves coisas da vida, ja quando seriamente discute por suas leviandades e pequenezas.
As Viagens na minha terra, são um d’aquelles livros raros que so podiam ser escriptos por quem, como o auctor de Camões e de Catão, de D. Branca e do Portugal na Balança da Europa, do Auto de Gil-Vicente e do Tractado de Educação, do Alfageme e de Fr. Luiz de Souza, do Arco de Sanct’Anna e da Historia Litteraria de Portugal, de Adozinda e das Leituras Historicas e de tantas producções de tam variado genero, possue todos os stylos e, dominando uma lingua de immenso podêr, a costumou a servir-lhe e obedecer-lhe; — por quem com a mesma facilidade sobe a orar na tribuna, entra no gabinete nas graves discussões e demonstrações da sciencia — voa ás mais altas regiões da lyrica, da epopeia e da tragedia, lida com as fortes paixões do drama, e baixa ás não menos difficeis trivialidades da comedia; — por quem ao mesmo tempo, e como que mudando de natureza, póde dar-se todo ás mais aridas e materiaes ponderações da administração e da politica, e redigir com admiravel precisão, com uma exacção ideologica que talvez ninguem mais tenha entre nós, uma lei administrativa ou de instrucção pública, uma constituição politica, ou um tractado de commercio.
Orador e poeta, historiador e philosopho, crítico e artista, jurisconsulto e administrador, erudito e homem d’Estado, religioso cultor da sua lingua e falando correctamente as extranhas — educado na pureza classica da antiguidade, e versado depois em todas as outras litteraturas — da meia-edade, da renascença e contemporanea — o auctor das viagens na minha terra é egualmente familiar com Homero e com o Dante, com Platão e com Rousseau, com Thucidides e com Thiers, com Guizot e com Xenophonte, com Horacio e com Lamartine, com Machiavel e com Chateaubriand, com Shakspeare e Euripedes, com Camões e Calderon, com Goethe e Virgilio, Schiller e Sá-de-Miranda, Sterne e Cervantes, Fenelon e Vieira, Rabelais e Gil-Vicente, Addison e Bayle, Kant e Voltaire, Herder e Smith, Bentham e Cormenin, com os Encyclopedistas e com os Sanctos-Padres, com a Biblia e com as tradicções sanscritas, com tudo o que a arte e a sciencia antiga, com tudo o que a arte emfim e a sciencia moderna teem produzido. Ve-se isto dos seus escriptos, e especialmente se ve d’este que agora publicâmos apezar de composto bem claramente ao correr da penna.
Mas ainda assim, e com isto somente, elle não faria o que faz se não junctasse a tudo isso o profundo conhecimento dos homens e das coisas, do coração humano e da razão humana; se não fosse, além de tudo o mais, um verdadeiro homem do mundo, que tem vivido nas côrtes com os principes, no campo com os homens de guerra, no gabinete com os diplomaticos e homens d’Estado, no parlamento, nos tribunaes, nas academias, com todas as notabilidades de muitos paizes — e nos salões emfim com as mulheres e com os frivolos do mundo, com as elegancias e com as falsidades do seculo.
De tantas obras de tam variado genero com que, em sua vida ainda tam curta, este fecundo escriptor tem inriquecido a nossa lingua, é ésta talvez, tornâmos a dizer, a que elle mais descuidadamente escreveu: mas é tambem a que, em nossa opinião, mais mostra os seus immensos podêres intellectuaes, a sua erudição vastíssima, a sua flexibilidade de stylo espantosa, uma philosophia transcendente, e por fim de tudo, o natural indulgente e bom de um coração recto, puro, amigo da justiça, adorador da verdade, e inimigo declarado de todo o sophisma.
Capítulo de vista previaCapitulo I.Vista previa
De como o auctor d’este erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem. Chega ao Terreiro-do-Paço, imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que ahi lhe succede. A Deducção-Chronologica e a Baixa de Lisboa. Lord Byron e um bom charuto. Travam-se de razões os Ilhavos e os Bordas-d’agua:
os da calça larga levam a melhor.
Que viage á roda do seu quarto quem está á beira dos Alpes, de hynverno, em Turim, que é quasi tam frio como San’Petersburgo — intende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o proprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.
Eu muitas vezes, n’estas suffocadas noites d’estio, viajo até á minha janella para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me inganar com uns verdes de árvores que alli vegetam sua laboriosa infancia nos intulhos do Caes-do-Sodré. E nunca escrevi éstas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha penna: pobre e suberba, quer assumpto mais largo. Pois hei de dar-lh’o. Vou nada menos que a Santarem: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se hade fazer chronica.
Era uma idea vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha ha muito de ir conhecer as riccas varzeas d’esse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais historica e monumental das nossas villas. Aballam-me as instancias de um amigo, decidem-se as tonterias de um jornal, que por mexeriquice quiz incabeçar em designio politico determinado a minha visita. Pois por isso mesmo vou: — pronunciei-me.
São 17 d’este mez de julho, anno de graça de 1843, uma segunda-feira, dia sem nota e de boa estrea. Seis horas da manham a dar em San’Paulo, e eu a caminhar para o Terreiro-do-Paço. Chego muito a horas, invergonhei os meus madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam de mais matutinos homens que eu. Ja vou quasi no fim da praça, quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça d’ancien règime: é o nosso chefe e commandante, o capitão da impreza, o Sr. C. da T. que chega em estado.
Tambem são chegados os outros companheiros: o sino dá o último rebate. Partimos.
N’uma regata de vapores o nosso barco não ganhava decerto o premio. E se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns isthmicos ou olympicos para este genero de carreiras — e se para ellas houver algum Pindaro ancioso de correr, em strophes e antistrophes, atraz do vencedor que vai coroar de seus hymnos immortaes — não cabe nem um triste minguado epodo a este cançado corredor de Villa-nova. É um barco serio e sizudo que se não mette n’essas andanças.
Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pittoresco amphitheatro de Lisboa oriental, que é, vista de fóra, a mais bella e grandiosa parte da cidade, a mais characteristica, e onde, aqui e alli, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das chronicas. Da Fundição para baixo tudo é prosaico e burguez, chato, vulgar e semsabor como um periodo da Deducção Chronologica, aqui e alli assoprado n’uma tentativa ao grandioso do mau gôsto, como alguma oitava menos rasteira do Oriente.
Assim o povo, que tem sempre melhor gôsto e mais puro do que essa escuma descórada que anda ao decima das populações, e que se chama a si mesma por excellencia a Sociedade, os seus passeios favoritos são a Madre-de-Deus e o Beato e Xabregas e Marvilla e as hortas de Chellas. A um lado a immensa majestade do Tejo em sua maior extensão e podêr, que alli mais parece um pequeno mar mediterraneo; do outro a frescura das hortas e a sombra das árvores, palacios, mosteiros, sitios consagrados todos a recordações grandes ou queridas. Que outra sahida tem Lisboa que se compare em belleza com ésta? Tirado Bellem, nenhuma. E ainda assim, Bellem é mais arido.
Índice
Dentro de esta edición
- 01Full text
- 02Prologo dos editores.
- 03Capitulo I.
- 04Capitulo II.
- 05Capitulo III.
- 06Capitulo IV.
- 07Capitulo V.
- 08Capitulo VI.
- 09Capitulo VII.
- 10Capitulo VIII.
- 11Capitulo IX.
- 12Capitulo X.
- 13Capitulo XI.
- 14Capitulo XII.
- 15Capitulo XIII.
- 16Capitulo XIV.
- 17Capitulo XV.
- 18Capitulo XVI.
- 19Capitulo XVII.
- 20Capitulo XVIII.
- 21Capitulo XIX.
- 22Capitulo XX.
- 23Capitulo XXI.
- 24Capitulo XXII.
- 25Capitulo XXIII.
- 26Capitulo XXIV.
- 27Capitulo XXV.
- 28Capitulo XXVI.
- 29Capitulo XXVII.
- 30Capitulo XXVIII.
- 31Capitulo XXIX.
- 32Capitulo XXX.
- 33Capitulo XXXI.
- 34Capitulo XXXII.
- 35Capitulo XXXIII.
- 36Capitulo XXXIV.
- 37Capitulo XXXV.
- 38Capitulo XXXVI.
- 39Capitulo XXXVII.
- 40Capitulo XXXVIII.
- 41Capitulo XXXIX.
- 42Capitulo XL.
- 43Capitulo XLI.
- 44Capitulo XLII.
- 45Capitulo XLIII.
- 46Capitulo XLIV.
- 47Capitulo XLV.
- 48Capitulo XLVI.
- 49Capitulo XLVII.
- 50Capitulo XLVIII.
- 51Capitulo XLIX.
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