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Letteratura
A Carne
Edizione BooksWhale in portoghese di Júlio Ribeiro
Um romance naturalista brasileiro sobre desejo, educação, corpo, ciência, moral social e conflito íntimo.
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Introduzione al libro
A Carne
A Carne é o romance naturalista de Júlio Ribeiro que provocou debates por tratar de desejo, corpo, educação feminina e moral social com linguagem direta. Esta edição BooksWhale apresenta o texto português de domínio público para leitores de naturalismo brasileiro, crítica social e romance oitocentista.
Edizione BooksWhale
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Questa edizione si basa su un testo di pubblico dominio ed è stata preparata da BooksWhale per la lettura digitale.
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Júlio Ribeiro morreu em 1890, e A Carne foi publicado pela primeira vez em 1888. Essas datas sustentam a base de domínio público desta edição original em português.
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A Carne
Júlio Ribeiro
Capitolo in anteprimaParte IAnteprima
O doutor Lopes Mattoso não foi precisamente o que se póde chamar um homem feliz.
Aos desoito annos de sua vida, quando apenas tinha completado o seu curso de preparatorios, perdeu pae e mãe com poucos meses de intervallo.
Ficou-lhe como tutor um amigo da familia, o coronel Barbosa, que o fez continuar com os estudos e formar-se em direito.
No dia seguinte ao da formatura, o honesto tutor passou-lhe a gerencia da avultada fortuna que lhe coubera, dizendo:
— Está rico, menino, está formado, tem um bonito futuro diante de si . Agora é tratar de casar, de ter filhos, de galgar posição. Si eu tivesse filha você já tinha noiva; não tenho, procure-a você mesmo.
Lopes Mattoso não gastou muito tempo em procurar: casou-se logo com uma prima de quem sempre gostára, e juncto á qual viveu felicissimo por espaço de dous annos.
Ao começar o terceiro, morreu a esposa, de parto, deixando-lhe uma filhinha.
Lopes Mattoso vergou á força do golpe, mas, como homem forte que era, não se deixou abater de vez: reergueu-se, e acceitou a nova ordem de cousas que lhe era imposta pela imparcialidade brutal da natureza.
Arranjou de modo seguro seus negocios, mudou-se para uma chácara que possuia perto da cidade, segregou-se dos amigos, e passou a repartir o tempo entre o manusear de bons livros e o cuidar da filha.
Esta, graças ás qualidades da ama que lhe foi dada, cresceu sadia e robusta, tomando-se desde logo a vida, a nota alegre do eremiterio que se constituira Lopes Mattoso.
Visitas de amigos raras tinha elle, porque mesmo não as acoroçoava : convivencia de familias não tinha nenhuma.
Leitura, escripta, grammatica, arithmetica, algebra, geometria, geographia, historia, Francez, Hespanhol, natação, equitação, gymnastica, musica, em tudo isso Lopes Mattoso exercitou a filha, porque em tudo era perito: com ella leu os classicos portuguezes, os auctores estrangeiros de melhor nota, e tudo quanto havia de mais selecto na litteratura do tempo.
Aos quatorze annos Helena ou Lenita, como a chamavam, era uma rapariga desenvolvida, forte, de kharacter formado e instrucção acima da vulgar.
Lopes Mattoso entendeu que era chegado o tempo de tornar a mudar de vida, e voltou para a cidade.
Lenita teve então optimos professores de linguas e de sciencias; estudou o Italiano, o Allemão, o Inglez, o Latim, o Grego; fez cursos muito completos de mathematicas, de sciencias physicas, e não se conservou extranha ás mais complexas sciencias sociologicas. Tudo lhe era facil, nenhum campo parecia fechado a seu vasto talento.
Começou a apparecer, a distinguir-se na sociedade.
E não tinha nada de pretenciosa, blas-bleu : modesta, retrahida mesmo, nos bailes, nas reuniões em que não de raro se achava, ella sabia rodear-se de uma como aura de sympathia, escondendo com arte infinita a sua immensa superioridade.
Quando, porém, algum bacharel formado de fresco, algum tourist recemvindo de Paris ou de New-York queria campar de sabio, queria fazer de oraculo em sua presença, então é que era vel-a. Com uma candura adoravelmente simulada, com um sorriso de desdenhosa bondade, ella enlaçava o pedante em uma rede de perguntas perfidas, ia-o pouco a pouco estreitando em um circulo de ferro e, por fim, com o ar mais natural do mundo, obrigava-o a contradizer-se, reduzia-o ao mais vergonhoso silencio.
Os pedidos de casamento succediam-se : Lopes Mattoso consultava a filha.
—É il-os despedindo, meu pae, respondia ella. Escusa que me consulte. Já sabe, eu não me quero casar.
—Mas, filha, olha que mais cedo ou mais tarde é preciso que o faças.
—Algum dia talvez, por emquanto não.
—Sabes que mais ? estou quasi convencido de que errei e muito na tua educação : dei-te conhecimentos acima da bitola commum e o resultado é ver-te isolada nas alturas a que te levantei. O homem fez-se para a mulher, e a mulher para o homem. O casamento é uma necessidade, já não digo social, mas physiologica.
Capitolo in anteprimaParte IIAnteprima
Disfarçadamente, habilmente, sem tocar de modo direto no assunto, conseguiu saber do coronel que o castigo havia de ter lugar na casa do tronco, no dia seguinte, ao amanhecer.
Passou a noite em sobressalto, acordando a todas as horas, receosa de que o sono imperioso da madrugada lhe fizesse perder o ensejo de ver o espetáculo por que tanto anelava.
Cedo, muito escuro ainda, levantou-se, saiu, atravessou o terreiro, e, sem que ninguém a visse, entrou no pomar.
Do lado de leste era este fechado pela fila das senzalas, cujas paredes de barro cru erguiam-se altas, inteiriças, muito gretadas.
Havia uma casa mais vasta duas vezes do que qualquer outra: era a casa do tronco.
A essa chegou-se Lenita, encostou-se e, tirando do seio uma tesourinha que trouxera, começou a abrir um buraco na parede, à altura dos olhos, entre dois barrotes e duas ripas, em lugar favorável, donde já se protraía um torrão muito pedrento, muito fendido, meio solto.
A tesourinha era curta, mas reforçada, sólida, de aço excelente, de Rodgers. A obra avançava, Lenita trabalhava com ardor, mas também com muita paciência, com muito jeito. O aço mordia, esmoía o barro friável quase sem ruído. Um rastilho de pó amarelado maculava o vestido preto da moça.
Deslocou-se o torrão, e caiu para dentro, dando um som surdo ao tombar no chão fofo, de terra mal batida.
Estava feito o buraco.
Lenita retraiu-se, ficou imóvel, sustendo a respiração.
Após instantes estendeu o pescoço, espiou. Nada pôde ver: estava muito escuro dentro. Ouvia-se um ressonar alto, igual.
Passou-se um longo trato de tempo.
O brilho das estrelas empalideceu. Uma faixa de luz branca desenhou-se ao nascente, ruborizou-se, purpurejou inflamada com reflexos cor de ouro. O ar tornou-se mais fino, mais sutil e a passarada rompeu num hino áspero, desacorde, mas alegre, festivo, titânico, saudando o dia que despontava.
Ouviu-se o sino da fazenda vibrar muito sonoro.
Lenita tornou a espiar: a casa do tronco já estava clara.
A um canto espalmava-se um estrado de madeira engordurado, lustroso pelo rostir de corpos humanos sujos. As tábuas que o constituíam embutiam-se em um sólido pranchão de cabriúva, cortado em dois no sentido do comprimento: as duas peças por ele formadas justapunham-se, articulando-se de um lado por uma dobradiça forte, presas de outro por uma fechadura de ferrolho. Na parte superior da peça fixa e na inferior da móvel havia piques semicirculares, chanfrados, que, ao ajustarem-se essas peças, coincidiam, perfazendo furos bem redondos, de um decímetro mais ou menos de diâmetro.
Era o tronco.
Sobre o estrado, de ventre para o ar, com as pernas passadas, pouco acima dos tornozelos, nos buracos dos pranchões, envolto em uma velha coberta de lã parda, despedaçada, imunda, tinha atravessado a noite o escravo fugido.
Dormira, ao bater do sino acordara.
Segurando-se a um joelho com as mãos ambas, sentara-se por um pouco, espreguiçara, volvera a deitar-se, com os membros doloridos, resignado.
Abriu-se a porta, e entrou o administrador seguido por um dos caboclos que tinham trazido o preto.
—Olá, seu mestre! gritou o caboclo, olhe o que aqui lhe trago:
chocolate, café, berimbau.
E a correia na ponta do pau!
Vai chuchar cinquenta para largar da moda de tirar cipó por sua conta. Não sabe que negro que foge dá prejuízo ao senhor? Olhe só este pincel, está tinindo, está beliscando!
E sacudia ferozmente o bacalhau.
É um instrumento sinistro, vil, repugnante, mas simples.
Toma-se uma tira de couro cru, de três palmos ou pouco mais de comprimento, e de dois dedos de largura. Fende-se ao meio longitudinalmente, mas sem separar as duas talas nem em uma, nem outra extremidade. Amolenta-se bem em água, depois se torce e se estira em uma tábua, por meio de pregos, e põe-se a secar. Quando bem endurecido o couro, adapta-se um cabo a uma das extremidades, corta-se a outra, espontam-se as duas pernas a canivete, e está pronto.
Indice
In questa edizione
- 01Full text
- 02Parte I
- 03Parte II
- 04Parte III
- 05Parte IV
- 06Parte V
- 07Parte VI
- 08Parte VII
- 09Parte VIII
- 10Parte IX
- 11Parte X
- 12Parte XI
- 13Parte XII
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