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Letteratura

A Mortalha de Alzira

Edizione BooksWhale in portoghese di Aluísio Azevedo

Um romance português-brasileiro de paixão, mistério, crítica moral, religião e imaginação dramática.

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A Mortalha de Alzira

A Mortalha de Alzira mostra Aluísio Azevedo em registro intenso, unindo conflito moral, desejo, segredo, teatralidade e crítica social. Esta edição original em português interessa aos leitores de naturalismo, romance brasileiro, literatura oitocentista e narrativas de mistério sentimental.

Edizione BooksWhale

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Aluísio Azevedo morreu em 1913, e A Mortalha de Alzira foi publicada pela primeira vez em 1894. Estas datas sustentam a base de domínio público desta edição original em português.

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Capitolo in anteprimaPart 1Leggi anteprima

A Mortalha de Alzira

Aluísio Azevedo

I. — A cella mysteriosa L’homme n’est done qu’un sujet plein d’erreurs; rien ne lui montre la vérité; tout l’abuse. Les deux principes de vérité, la raison et le sens, outre qu’ils manquent souvent de sincérité, s’abusent réciproquement l’un l'autre. Les sens abusent la raison par de fausses apparences, et cette même piperie qu’ils lui apportent, ils la reçoivent d’elle à leur tour: elle s’en revenge. Les passions de l’âme troublent les sens et leur font des impressions fâcheuses. Ils mentent, et se trompent á l’euvi.

Pascal — Pensées .

No ano de 17**, Paris então muito governado pela Pompadour e um pouco por Luís XV, palpitava de entusiasmo com um escândalo original.

Por um instante, a grande cidade libertina distraía-se dos seus desregramentos habituais e esquecia a ordem dos Aphrodites e dos Hermaphrodites, e esquecia as picantes palhaçadas de Taconnet e o obsceno macaco de Nicolet e os expressivos fogos de vista de Torré, e esquecia Ruggieri com a sua exibição de pernas e colos importados da América, e esquecia les spetacles pyrrhiques e o Wauxhall, e esquecia as velhacas e célebres representações do barão d'Esclapon e da duquesa de Mazarin, e esquecia-se até de ouvir as pilhérias da magra, feia e adorada Guimard, para só ter atenção para o novo escândalo que acabava de surgir inesperadamente.

Era o caso que o famoso pregador La Rose tinha como todos os anos, de pregar o seu sermão da quinta-feira santa na capela real, e fora acometido por um formidável ataque de asma, justamente na véspera desse dia. Escreveu logo ao vigário-geral, seu amigo particular, dando-lhe parte do fato e pedindo-lhe que, sem perda de tempo, tratasse de descobrir alguém que o substituísse.

Ora, o caso era deveras apertado! Quem teria a coragem de ir, à última hora substituir La Rose no púlpito da capela real, num dos sermões mais importantes da quaresma?. . .

Substituir La Rose!... La Rose, "o segundo Bossuet", como lhe chamavam seus inúmeros admiradores! La Rose, o amimado pregador da corte, o protegido de Antoinette Poisono insubstituível, o querido tanto por parte dos Molinistas como por parte dos Jansenistas, o aclamado por todo o alto e baixo público de Paris! La Rose, o indispensável! La Rose, o— insubstituível!

E era preciso que ele com efeito estivesse deveras doente, para faltar ao sermão de quinta-feira santa, porque La Rose prezava muito aos seus triunfos na tribuna sacra, e não esperdiçaria facilmente uma boa ocasião de orar perante o rei e toda sua corte de fidalgos e toda a sua corte de letrados.

Entretanto, sabia-se também que La Rose, desde que sentisse a menor alteração na voz, não seria capaz de falar em público, nem à mão de Deus Padre, porque era precisamente na maneira especial de jogar com a sua bela e sedutora voz, que consistia o grande segredo dos seus incomparáveis triunfos.

É inútil dizer que, por melhores esforços empregados, nenhum pregador se descobriu, bom ou mau, que quisesse ir tomar o lugar do querido mestre. Davam-se todos por igualmente atacados da garganta, como se a asma de La Rose, à semelhança do que sucedia com o seu estilo oratório, se estendesse de improviso por todos eles, desde o mais pretensioso até ao mínimo dos numerosos pregadores sagrados, que nesse piedoso e alegre tempo enchiam os púlpitos de Paris com as suas frases retumbantes e com os seus eloqüentes e artísticos soluços.

O rei aborreceu-se e chegou a franzir as sobrancelhas. Luís XV, se era folgazão, era também devoto. E se era devoto era também homem de gosto exigente; não compreendia uma quinta-feira santa sem La Rose. Além disso, tinha na véspera abusado da sua suntuosa adega, e a melhor água de Selters para as suas ressacas era ainda La Rose.

Capitolo in anteprimaPart 2Anteprima

Que meio poderia ser esse que ele exigia de Deus?

Eis ao que nem o próprio Ozéas seria capaz de responder.

Todavia, não cessava de pedir ao senhor misericordioso que lhe mandasse dos céus uma luz guiadora do caminho da completa salvação, certo de que Deus, onipotente e compassivo, havia de achar, nos segredos de sua bondade, recursos para apagar aquela dor incurável e profunda.

Foi nessa conjuntura que ele uma vez de madrugada, saindo do seu convento para uma piedosa excursão, encontrou à porta do jardim uma pequena cesta, de onde um fraco e quase imperceptível vagido partia como de um berço.

Abaixou-se logo, apoderou-se da cesta, e verificou que dentro dela havia uma criança do sexo masculino.

Um enjeitado!

Tomou-o nos braços.

Mas um enjeitado de quem?. . . Por aquelas alturas não lhe apontava a memória qualquer pessoa que fosse capaz desse crime.

Além disso, porque o depunham à porta de um mosteiro, frio lugar onde só havia alguns pobres religiosos sem recursos para nada?. . .

Era como se o lançassem ao surdo portão de um cemitério!

Qual seria a mães tão néscia, que, procurando passar seu filho às mãos de quem o pudesse fazer viver, fosse procurar um lugar onde eram crime a voz e o choro desses anjinhos da terra?...

Então uma estranha idéia acudiu ao espírito sobressaltado do infeliz frade.

Quem sabe, pensou ele; se esta inocente criatura, será um enviado de Deus?. . . Sim! Sim! bem pode ser o Senhor misericordioso, compenetrado da sinceridade do meu arrependimento e da amargura da minha dor, me enviasse dos céus este meio de resgate para minha alma! . . . Sim! Sim! eu, que não consegui ser um padre digno e puro; eu, a quem faltaram amparo e forças para lutar com as tentações mundanas, tenho aqui, nesta pequena porção de carne imaculada, o cabedal para fazer um sacerdote casto e sagrado, como eu devia ter sido e não fui!

E Ozéas como que se encontrava a si mesmo, encontrando aquela criatura angélica.

Era Deus, sem dúvida, que o restituía ao berço e ao seu supremo estado de pureza, para que ele começasse de novo a viver, armado, entretanto, para todas as lutas.

— Sim! Sim! exclamou ele erguendo nas mãos trêmulas a criancinha, e cobrindo-lhe os pés de beijos e de lágrimas de alegria. Sim! Sim! Desta cera virgem poderia fazer um sacerdote digno de Deus! Obrigado, obrigado, meu Pai de bondade, que ouviste as minhas súplicas e me enviaste do teu peito de amor um meio de salvação!

E louco de contentamento, despiu sem hesitar o seu velho capote, envolveu nele a criança e correu à casa mais próxima, para pedir que a ela prestassem os primeiros socorros.

Logo que pôde, levou-a à igreja, batizou-a com o nome de Ângelo; depois tratou de descobrir uma mulher honesta, que se quisesse encarregar da aleitá-la até a época competente.

E, quando o pequenino Ângelo pode enfim dispensar os cuidados da ama, Ozéas carregou com ele para o seu convento, e encerrou-o misteriosamente numa cela ignorada e sombria.

A bem poucos dos seus confrades confiou o segredo do que ele chamava "a criação do Messias da sua alma". E, desde essa época, Ângelo viveu sem nunca sair do convento e nem sequer chegar a uma janela para ver a rua.

Ozéas foi o seu companheiro, e o seu guia, e o seu mestre, e o seu pai espiritual. Só o confiava a algum dos outros religiosos ou a algum professor do seminário, quando as exigências do ensino assim o determinavam.

O sigilo da existência e da criação de Ângelo no convento, não foi quebrado por nenhum dos frades que o conheciam. Uma cadeia de respeitoso interesse formou-se em torno dessa criança, que todos eles acreditavam predestinada, pelos mistérios do céu, a cumprir na terra uma alta e sagrada missão.

Capitolo in anteprimaPart 3Anteprima

"Minha porta dorme tão aberta como meu peito. Meu leito não tem muros, e meus braços não se cruzarão para o teu encontro, posto sejas tu o senhor e eu escrava que te espera.

"Tu me reconhecerás na sombra, se chegares; basta que ponhas a mão sobre minha carne. E isso será um selo para que tu nunca mais me percas.

"Vem, amado do meu coração! Vem! Vem, que toda eu te quero!" E, no entanto, Ângelo era um inocente, ou, pelo menos, nunca tinha visto uma mulher.

A Mortalha de Alzira por Aluísio Azevedo V. — Triumpho inconsciente Dotado, como ficou dito, de grande atividade intelectual e poderoso talento de assimilação, Ângelo aos quinze anos já embasbacada os seus ingênuos professores, com as argúcias das suas réplicas e com os engenhosos comentários que fazia do Velho e do Novo Testamento.

Ozéas, cada vez mais profundamente convencido da procedência divina do seu pupilo, guardava-o e escondia-o afinal com o respeitoso carinho e desvelo com que se guarda uma relíquia consagrada.

E a crença de que Ângelo era um inspirado por Deus, foi ganhando o espírito de todos que com ele praticavam no convento.

Havia com efeito no ar daquele pobre adolescente prisioneiro de um claustro, alguma cousa que impressionava a quem o observasse de perto. Os seus grandes olhos azuis, muito escuros, quase negros, tinham uma híbrida expressão feita de inocência e perspicácia; eram vivos como os da águia, mas transparentes e doces como os de uma criança, e tinham, ao mesmo tempo que deixavam transluzir toda a virgindade daquela alma imaculada, súbitos clarões, Inteligentes, que denunciavam um espírito agudo e forte. Na suavidade das suas faces de moço, havia a sombra das duras penitências e das grandes vigílias místicas sobre as páginas do breviário, ou defronte do altar da Virgem Santíssima, mas havia também uma juvenil frescura de flor, dessas misteriosas e pálidas, que só à noite desabrocham e recendem. A sua boca imberbe era um conjunto fascinador de graça e de tristeza, seus lábios, um tanto cheios e sangüíneos, pareciam todavia talhados mais para os beijos de amor do que para o frouxo balbuciar das orações. Seus cabelos negros, crescidos à nazarena, como então usavam os religiosos de França, derramavam-se-lhe em fartos anéis sobre a brancura do pescoço e caíam-lhe em trêmulas madeixas de lado a lado do rosto.

Devia ter sido um rapaz muito forte, se não fora a enervadora clausura a que o condenara seu infeliz destino. Era de natural esbelto e airoso, tinha os dentes brancos e rijos, o queixo enérgico, o nariz feito de uma só linha, a fronte alta e severa.

As macerações dos jejuns e das ásperas disciplinas não conseguiram desfibrar-lhe de todo a sólida compleição com que a natureza o dotara. Apesar de tudo, era ainda, nos seus cândidos vinte anos, uma garbosa e gentil figura, que havia fatalmente de impressionar às damas sensuais da corte de Luís XV.

Efetivamente assim foi.

Conduzido até ao púlpito por seu pai espiritual, Ângelo, mal se mostrou e percorreu com os olhos inexperientes o auditório que o aguardava ansioso, um súbito rumor de simpatia percorreu toda a igreja. As mulheres, instaladas nas tribunas, alongaram o pescoço para o ver melhor. O rei sorriu interessado, e logo toda a sua corte sorriu também.

A capela, completamente cheia, palpitava de curiosidade. Paris elegante estava todo ali, entre aquelas bonitas paredes de mármore cor-de-rosa, guarnecida de florões e filetes de ouro rebrilhante. Sentia-se o tilintar dos pingentes de cristal dos imensos lustres de mil velas, e sentia-se por entre o farfalhar dos veludos e das sedas, o fremir dos leques de tartaruga e madrepérola, suavemente agitados contra os adereços preciosos. O cheiro sagrado da mirra e do incenso confundia-se no espaço com os voluptuosos perfumes do toucador.

Indice

In questa edizione

  1. 01Part 1
  2. 02Part 2
  3. 03Part 3
  4. 04Part 4
  5. 05Part 5
  6. 06Part 6
  7. 07Part 7
  8. 08Part 8
  9. 09Part 9
  10. 10Part 10
  11. 11Part 11
  12. 12Part 12
  13. 13Part 13
  14. 14Part 14
  15. 15Part 15
  16. 16Part 16
  17. 17Part 17
  18. 18Part 18
  19. 19Part 19

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