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Letteratura

Contos d’Aldeia

Edizione BooksWhale in portoghese di Alberto Braga

Alberto Braga observa a vida aldeã através de histórias de afetos, convivência e conflitos que nascem das relações quotidianas.

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Contos d’Aldeia

Estes contos de Alberto Braga aproximam o leitor dos pequenos acontecimentos que marcam a vida de uma comunidade rural. Famílias, vizinhos e relações afetivas dão forma a situações em que as expectativas pessoais se cruzam com os costumes coletivos. A coleção em português privilegia a observação das personagens e dos ambientes, encontrando na experiência aldeã diferentes maneiras de desejar, sofrer e conviver.

Edizione BooksWhale

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Questa edizione si basa su un testo di pubblico dominio ed è stata preparata da BooksWhale per la lettura digitale.

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Alberto Braga morreu em 1911. A edição parte do original português em domínio público disponível no Project Gutenberg; esta base não abrange acréscimos editoriais nem ilustrações posteriores.

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Contos d’Aldeia

Alberto Braga

A MINHAS IRMÃS

Capitolo in anteprimaA GUERRAAnteprima

Logo abaixo dos açudes, ficava de uma banda do rio a azenha do Euzebio moleiro, e da margem opposta, um pouco mais abaixo, a azenha do tio Anselmo.

Eram dous velhotes viuvos, de bons sessenta annos, e amigos desde creanças. Para contradicção do anexim popular, estes dois moleiros queriam-se como dois irmãos, a despeito de serem do mesmo officio.

Parece que o rio, n'aquelle sitio, era até mais pittoresco! Por detraz das azenhas descia a enfesta de uma cerrada deveza de carvalhos e sobreiros, com o atalho aberto ao meio, que era por onde seguiam os machos carregados com os taleigos da fornada. Mesmo á ourela havia alguns amieiros e choupos, que se debruçavam sobre o rio. As aguas cahidas nos açudes, vinham costeando uma gandara, escondiam-se em meio de um canavial, e surgiam depois mais limpidas até ás rodas do moinho, que as marulhavam e batiam constantemente.

No verão, quando a levada era minguada, os dois velhotes visitavam-se a miudo, atravessando destemidamente pelas poldras; mas, quando as chuvas do outomno principiavam a tornar o rio caudaloso, limitavam-se então a falar d'um lado para o outro. Era triste! Já tão velhotes! E depois dizia o Euzebio:

—Anselmo, fala mais alto, que te não oiço.

—O que é?—perguntava o outro, inclinando o pavilhão da orelha.

O Euzebio fazia um porta-voz com as mãos, e gritava:

—Não te intendo.

Quando chegavam a falar, concordavam sempre que era o barulho das rodas do moinho, que os não deixava ouvir. Isso sim! Era o peso dos annos que os tinha quasi surdos de todo. Pobres velhos!

O Euzebio tinha um filho, que era um rapagão de vinte e dois annos, como um castello! Ainda o dia vinha longe, já elle estava a trabalhar, que era um regalo a gente vel-o.

—Lida como um moiro!—diziam os conhecidos.

E se havia esfolhada, ou espadellada, quem lá não faltava era elle.

O pae, que, n'outros tempos, tinha sido um folião, dizia-lhe, á bôcca da noite:

—Simão, se tens de ir a algures, parte, que eu cá fico, para aviar os freguezes.

—Estava arranjado!—respondia o moço a rir.—Vocemecê já deu o que tinha a dar. Agora coma e beba, e deixe-me cá com a vida!

Primeiro que tudo estava a sua obrigação. O rapaz assim que não tinha mais freguezes a aviar, fechava a ucha do moinho, e partia então para a brincadeira.

E o velhote do pae, quando alguem lhe contava as diabruras do filho, parece que até a alma se lhe ria na menina dos olhos.

O Anselmo tinha uma filha. Chamava-se ella Margarida, e era formosa, d'aquella formusura campesinha, sem artificio, jovial e expansiva. Em dotes do coração—que é a principal belleza!—nem as mais virtuosas a excediam.

Desde pequenina foi Margarida creada com Simão. Se não ficasse mal estabelecer agora parallelos já sabidos e repetidos, estava em dizer que os dois se queriam e estimavam como Paulo e Virginia.

Quando os quinze annos de Margarida, que era mais nova dois do que Simão, vieram pôr termo aos brinquedos d'infancia, então principiou elle a olhal-a com aquelle respeito com que se olha para uma irmã mais velha.

Mas vá-se desde já sabendo que esse respeito não estorvava, antes acrysolava um outro sentimento, que principiava a exercer e a avultar no generoso coração do rapaz.

Margarida, quando Simão lhe falava na sua tristeza e no seu amor, fingia-se contrariada, carregava o sobr'olho e mudava de conversa. D'estas esquivanças repetidas ateou-se o fogo da paixão na alma do moleiro.

—Margarida—dizia-lhe elle d'uma vez—se não quizeres casar comigo, hei de morrer solteiro.

—Não te faltam mulheres, Simão.

—E se te vejo ser d'outro—protestava o rapaz com as lagrimas nos olhos—não sei que faça, que me não mate.

Capitolo in anteprimaA VOLTA DAS ANDORINHASAnteprima

Ficava no beiral do meu telhado o ninho das andorinhas. Quando o trolha vinha remedear os estragos da invernia (e então, no Minho, quando o vento sopra do Gerez, oh! Pae do céo! por mais bem construida que seja uma casa, as telhas vão todas pelo ar, como se fosse um pobre telhado de levadia!) eu tinha sempre o cuidado de lhe recommendar:

—Se ainda lá topar o ninho, mestre, deixe-o ficar.

Imagine-se quanto custaria aquillo a um trolha, a um trolha que guarda sempre contra um passarinho o mesmo odio que um velho lobo de mar conserva implacavel contra um rato! Ter de remendar um telhado inteiro—façam ideia!—sem destruir um ninho fôfo, pendurado n'um beiral!

Como eu habitava só, aquelle ninho, ali, era quasi como um outro andar da casa, onde vinha passar o verão uma familia minha conhecida. E eu tinha tanto zelo e canceira em conserval-o no mesmo sitio, muito arranjado e prompto, como se fosse o caseiro d'aquelles alegres inquilinos!

As pessoas da cidade não dão valor nenhum a estas coisas, e até se riem d'ellas; mas nós, os que vivemos na aldeia, temos um grande affecto pelas andorinhas, pelos melros, pelas toutinegras, pelos pintasilgos, pelos rouxinoes, emfim, por toda a passarada.

Os pardaes, esses então, é que não gostam nada dos figurões da cidade. E a gente do campo, que lhes conhece o fraco, assim que elles espreitam cubiçosos as searas, d'entre os ramos folhudos dos carvalhos, dizem logo:

—Esperae, que já vos arranjo.

E espetam no meio do campo um pinheiro muito alto, penduram-lhe uma vestia e põem-lhe por cima, d'um modo arrogante, um pouco para o lado, como se aquillo fosse um grande janota—um enorme chapeo alto! Oh! fica admiravel!

Poucos pardaes, por mais audaciosos que sejam, se atrevem com o figurão.

E a gente, vendo-os, á tardinha, todos a chilrear na copa frondente do arvoredo, até parece que os ouve dizer:

—Ainda lá está o espantalho?

—E estará, compadre, e estará!

—Se ainda se conservar até ámanhã—accode o mais atrevido—diabos me levem, se lhe não prego uma peça!

—Sempre queriamos vêr isso!—desafiam os outros.

—Pois então…

No dia seguinte, quando o sol radiante innundava todo o trigal, ás onze horas da manhã, estava tudo a postos, tudo silencioso, para vêr a partida.

O arrojado observou attentamente pelos atalhos—que não fosse vir a rapaziada da escola—e voou rapido d'entre um sobreiro, como se o tivesse desferido o arco d'uma setta. Foi poisar direito na copa do chapéo alto do espantalho, e voltou-se depois para os amigos, a chilrear com uma grande troça.

Por toda a deveza estalou então uma gargalhada frenetica dos outros, que observavam, cheios de alegria, a immobilidade do janota!

D'ahi por meia hora—é sabido!—estava a sementeira desvastada!

Uma bella manhã, em meado de março, quando abri a janella do meu quarto, ouvi pipilar em cima. Debrucei-me no peitoril, olhei para o beiral, e lá vi a andorinha, que tinha chegado na vespera, á bocca da noite, emquanto eu andava por fóra.

—Bem!—disse eu comigo—já sei que tenho d'ir fazer uma visita.

Ao cabo de meia hora, peguei no meu bordão, e puz-me a caminho pelo meio de uma bouça, que ia dar á estrada.

Eu ia visitar a sr.^a viscondessa, uma gentil viscondessa minha amiga, que chegava sempre quando chegavam as andorinhas e floresciam as amendoeiras.

Ao atravessar o pateo lageado, que precedia o velho sollar da fidalga, estavam ainda os criados, vestidos com blusas de riscadinho azul, atarefados na limpeza da carruagem e dos cavallos. As janellas da casa estavam todas abertas. Sentia-se que havia lá dentro uma creatura delicada, sequiosa dos perfumes balsamicos dos pinheiraes, do ar puro, da luz, como aquellas plantas aquaticas, as nympheas, que sobem do fundo escuro dos lagos á tôna d'agua para receber os raios quentes do sol do meio dia!

Indice

In questa edizione

  1. 01Full text
  2. 02A GUERRA
  3. 03A VOLTA DAS ANDORINHAS
  4. 04A SÉSTA DO AVÔ
  5. 05O GALLO PRETO
  6. 06ESTÁ NO CÉO!
  7. 07O RETRATO DOS PAES
  8. 08O SERMÃO
  9. 09ÁS CEREJAS
  10. 10O JANTAR DO NATAL
  11. 11VINHOS E AGUAS-ARDENTES
  12. 12AS ARRECADAS DA CASEIRA
  13. 13O ANACREONTE DE CANDEMIL
  14. 14O ABANDONO DO MOINHO
  15. 15O SONHO DA NOVIÇA

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