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Letteratura
Eu
Edizione BooksWhale in portoghese di Augusto dos Anjos
Um livro de poesia singular, entre ciência, morte, matéria, angústia e linguagem visionária.
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Introduzione al libro
Eu
Eu tornou Augusto dos Anjos uma voz única da poesia brasileira. Seus poemas misturam vocabulário científico, obsessão pela decomposição, intensidade filosófica e uma musicalidade sombria e inesquecível.
Edizione BooksWhale
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Questa edizione si basa su un testo di pubblico dominio ed è stata preparata da BooksWhale per la lettura digitale.
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Perché può essere condivisa
Augusto dos Anjos morreu em 1914, e Eu foi publicado em 1912. Essas datas sustentam o fundamento de domínio público desta edição em português.
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Eu
Augusto dos Anjos
Augusto dos Anjos
Rio de Janeiro — 1912
Capitolo in anteprimaÁ MEMORIA DE MEU PAEAnteprima
Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos
Monologo de uma Sombra
«Sou uma Sombra! Venho de outras éras,
Do cosmopolitismo das monéras.
Polypo de reconditas reintrancias,
Larva do cháos tel ùrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substancia de todas as substancias!
A symbiose das coisas me equilibra.
Em minha ignóta mónada, ampla, vibra
A alma dos movimentos rotatórios.
E é de mim que decorrem, simultaneas,
A saúde das forças subterraneas
E a morbidez dos sêres illusórios!
Pairando acima dos mundanos tectos,
Não conheço o accidente da
Senectus
— Esta universitaria sanguesuga
Que produz, sem dispendio algum de virus,
O amarellecimento do papyrus
E a miseria anatómica da ruga!
Na existencia social, possuo uma arma
— O metaphysicismo de Abhidharma —
E trago, sem brahmánicas tesouras,
Como um dorso de azémola passiva,
A solidariedade subjectiva
De todas as especies soffredoras.
Com um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo á Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os residuos ruins dos kiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
É com certeza meu irmão mais velho!
Tal qual quem para o proprio tumulo olha,
Amarguradamente se me antolha,
Á luz do americano plenilunio,
Na alma crepuscular de minha raça
Como uma vocação para a Desgraça
E um tropismo ancestral para o infortunio.
Ahi vem sujo, a coçar chagas plebéas,
Trazendo no deserto das idéas
O desespero endémico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens,
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Philosopho Moderno!
Quiz comprehender, quebrando estereis normas,
A vida phenoménica das Fórmas,
Que, iguaes a fogos passageiros, luzem...
E apenas encontrou na idéa gasta
O horror dessa mechanica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!
E hão de achál-o, amanhã, bestas agrestes,
Sobre a esteira sarcóphaga das pestes
A mostrar, já nos ultimos momentos,
Como quem se submette a uma xarqueada,
Ao clarão tropical da luz damnada,
O espolio dos seus dedos peçonhentos.
Tal a finalidade dos estames!
Mas elle viverá, rôtos os liames
Dessa estranguladora lei que aperta
Todos os aggregados pereciveis,
Nas etherisações indefiniveis
Da energia intra-atómica liberta!
Será calor, causa úbiqua de gozo,
Raio X, magnetismo mysterioso,
Chimiotaxia, ondulação aérea,
Fonte de repulsões e de prazeres,
Sonoridade potencial dos sêres,
Estrangulada dentro da materia!
E o que elle foi: claviculas, abdomen,
O coração, a bocca, em synthese, o Homem,
— Engrenagem de visceras vulgares —
Os dedos carregados de peçonha,
Tudo coube na logica medonha
Dos apodrecimentos musculares!
A desarrumação dos intestinos
Assombra! Vêde-a! Os vermes assassinos
Dentro daquella massa que o humus come,
Numa glutoneria hedionda, brincam,
Como as cadellas que as dentuças trincam
No espasmo physiologico da fome.
E’ uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece.
E até os membros da familia engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadaver malsão, fazendo um s
E foi então para isto que esse doudo
Estragou o vibrátil plasma todo,
A’ guisa de um fakir, pelos cenóbios?!.
Num suicidio graduado, consumir-se,
E após tantas vigilias, reduzir-se
A’ herança miseravel dos micróbios!
Est’outro agora é o satyro peralta
Que o sensualismo sodomista exalta,
Nutrindo sua infamia a leite e a trigo.
Como que, em suas céllulas vilissimas,
Ha estratificações requintadissimas
De uma animalidade sem castigo.
Brancas bacchantes bebedas o beijam.
Suas artèrias hircicas latejam,
Sentindo o odor das carnações abstémias,
E á noite, vai gozar, ébrio de vicio,
No sombrio bazar do meretricio,
O cuspo aphrodisiaco das femeas.
No horror de sua anómala nevrose,
Toda a sensualidade da symbiose,
Capitolo in anteprimaIAnteprima
Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direcção á casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!
Na austéra abóbada alta o phósphoro alvo
Das estrellas luzia.
O calçamento
Saxeo, de asphalto rijo, atro e vidrento,
Copiava a polidez de um cráneo calvo.
Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pelle de rhinoceronte
Estendida por toda a minha vida!
A noite fecundava o ovo dos vicios
Animaes. Do carvão da treva immensa
Cahia um ar damnado de doença
Sobre a cara geral dos edificios!
Tal urna hórda feroz de cães famintos,
Atravessando uma estação deserta,
Uivava dentro do eu
, com a bocca aberta,
A matilha espantada dos instinctos!
Era como si, na alma da cidade,
Profundamente lubrica e revôlta,
Mostrando as carnes, uma besta solta
Soltasse o bérro da animalidade.
E aprofundando o raciocinio obscuro,
Eu vi, então, á luz de aureos reflexos,
O trabalho génésico dos sexos,
Fazendo á noite os homens do Futuro.
Livres de microscopios e escalpellos,
Dansavam, parodiando saraus cynicos,
Billiões de centrosomas apollinicos
Na camara promiscua do vitellus
Mas, a irritar-me os glóbos oculares,
Apregoando e alardeando a côr nojenta,
Fetos magros, ainda na placenta,
Estendiam-me as mãos rudimentares!
Mostravam-me o apriorismo incognoscivel
Dessa fatalidade egualitaria,
Que fêz minha familia originaria
Do antro daquella fábrica terrivel!
A corrente atmospherica mais forte
Zunuia
. E, na ignea crostra do Cruzeiro,
Julgava eu ver o funebre candieiro
Que ha de me allumiar na hora da morte.
Ninguem comprehendia o meu soluço,
Nem mesmo Deus! Da roupa pelas bréchas,
O vento bravo me atirava fléchas
E applicações hyemaes de gelo russo,
A vingança dos mundos astrónomicos
Enviava á terra extraordinaria faca,
Posta em rija adhesão de gomma lacca
Sobre os meus elementos anatómicos.
Ah! Com certeza, Deus me castigava!
Por toda a parte, como um réu confesso,
Havia um juiz que lia o meu processo
E uma forca especial que me esperava!
Mas o vento cessára por instantes
Ou, pelo menos, o ignis sapiens do Orco
Abafava-me o peito arqueado e porco
Num nucleo de substancias abrazantes.
E’ bem possivel que eu um dia cégue.
No ardor desta lethal tórrida zona,
A côr do sangue é a côr que me impressiona
E a que mais neste mundo me persegue!
Essa obsessão chromática me abate.
Não sei porque me vêm sempre á lembrança
O estomago esfaqueado de uma creança
E um pedaço de viscera escarláte.
Quizéra qualquer coisa provisória
Que a minha cerebral caverna entrasse,
E até ao fim, cortasse e recortasse
A faculdade aziaga da memoria.
Na ascensão barométrica da calma,
Eu bem sabia, anciado e contrafeito,
Que uma população doente do peito
Tossia sem remedio na minh’alma!
E o cuspo que essa hereditária tosse
Golphava, á guisa de acido residuo,
Não era o cuspo só de um individuo
Minado pela tisica precóce.
Não! Não era o meu cuspo, com certeza
Era a expectoração putrida e crassa
Dos bronchios pulmonares de uma raça
Que violou as leis da Natureza!
Era antes uma tosse úbiqua, estranha,
Igual ao ruido de um calháo redondo
Arremessado no apogêo do estrondo,
Pelos fundibularios da montanha!
E a saliva daquelles infelizes
Inchava, em minha bocca, de tal arte,
Que eu, para não cuspir por toda a parte,
Ia engolindo, aos poucos, a hemoptisis!
Na alta allucinação de minhas scismas,
O microcosmos liquido da gotta
Tinha a abundancia de uma arteria rôta,
Arrebentada pelos aneurismas.
Chegou-me o estado maximo da magua!
Duas, tres, quatro, cinco, seis e sete
Vezes que eu me furei com um canivete,
Indice
In questa edizione
- 01Full text
- 02Á MEMORIA DE MEU PAE
- 03I
- 04II
- 05III
- 06IV
- 07I
- 08II
- 09III
- 10IV
- 11V
- 12VI
- 13O
- 14VII
- 15VIII
- 16IX
- 17I
- 18II
- 19III
- 20I
- 21II
- 22III
- 23INDICE
Disponibilità lingue
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