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Letteratura
O Romance de um Homem Rico
Edizione BooksWhale in portoghese di Camilo Castelo Branco
A Portuguese romantic novel of wealth, conscience, suffering, religious feeling, and moral redemption.
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Introduzione al libro
O Romance de um Homem Rico
O Romance de um Homem Rico follows Álvaro Teixeira de Macedo through family secrecy, inheritance, love, remorse, and spiritual trial. Camilo Castelo Branco combines melodrama, social observation, religious meditation, and emotional intensity in a characteristic nineteenth-century Portuguese narrative.
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Camilo Castelo Branco died in 1890, and this Portuguese novel was published in the nineteenth century. The restored text uses Project Gutenberg public-domain transcription of the Portuguese edition.
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O Romance de um Homem Rico
PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO
Capitolo in anteprimaEste foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticinio, queAnteprima
Este foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticinio, que
Capitolo in anteprimaaventuro sobre o meu futuro de escriptor, me sahe exacto, este romanceAnteprima
prevalecerá a quantos a minha imaginação já desluzida, e como á força, der de si. Com tristeza sincera confesso que no que fui já mal me reconheço. As rugas da fronte empecem ao coar d'aquella flamma, que
Indice
In questa edizione
- 01Full text
- 02Este foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticinio, que
- 03aventuro sobre o meu futuro de escriptor, me sahe exacto, este romance
- 04me aquentava a phantasia, e dentro me alumiava, como em lampada magica,
- 05lances da vida exterior, uns de riso, outros de lagrimas. E eu entrava
- 06modestia de vaidade, podia chamar-lhe feliz capacidade para engenhar
- 07sabia gastar melhor e mais aproveitados.
- 08esfriada e dorida sobre o papel em que escrevo? Acabou-se como tudo que
- 09principia, e mais depressa que o deperecer commum das faculdades
- 10glacial da desfortuna.
- 11solitarias? Devo suppor que vim apparelhado para os maximos infortunios,
- 12quando o experimental-os levemente me incommoda, e o relembral-os me
- 13deve antes ser pena de ver murcharem-se as chimeras que me infloravam de
- 14padre Alvaro d'este romance, e Maria da Gloria e Leonor, e a santa de
- 15E eu tenho saudades d'elles, e das noites em que os via sentados em
- 16Bellas, 19 de Maio de 1863.
- 17CAMILLO CASTELLO BRANCO.
- 18parecem miserias da fortuna,
- 19ancias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima
- 20d'isto, o meu dorido amor a quantos sitios guardavam para a minha
- 21Entrei n'uma das mais flacidas carruagens do comboi.
- 22Vejam a egoista e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma
- 23padecia tanto, se dispensou a ignobil materia dos regalos das almofadas!
- 24A angustia lamentosa de Lamartine era sincera; creio: mas em que
- 25recamaras de asiatica opulencia se lamentava elle! Que requintes de luxo
- 26infloravam ao poeta de Elvira a dupla existencia, quando elle escrevia:
- 27Endorme le Malheur,
- 28E Petrarcha, tanto anno a chorar sonetos, aposentado no palacio d'um
- 29doge, rodeado de servos, e d'amigos, e de admiradores, n'aquella
- 30feiticeira Veneza, tudo a expensas da republica!
- 31E todos os outros mestres de bardos melancolicos?
- 32Eu ia a scismar n'isto, quando me deu na vista um homem, companheiro de
- 33correspondesse, de abstrahido que ia a pensar no corpo e na alma, cousas
- 34Agostinho, e melhor ainda, em Xavier de Maistre; no primeiro, quando se
- 35cousas, e muitas outras.
- 36companheiro. Dava-se logo a conhecer por tal n'aquelle apostolico
- 37Agradeci o agradavel consentimento, e offereci-lhe a minha charuteira,
- 38Recahi no meu lethargo. Agora era diversa a these: meditava n'esta
- 39palavra MORAL, e n'esta outra virtude, e lembrou-me Bruto. Todos sabem
- 40que Bruto, no ultimo instante de vida, dissera que a virtude era apenas
- 41do heroico inimigo dos tyrannos.
- 42intelligente: como que estou vendo por elle uma boa alma.
- 43Fitei os olhos suaves do sacerdote. Estava elle com os dedos
- 44a mais artistica e significativa de paz, e conformidade vencedora dos
- 45maus e dos males da vida.
- 46convencional, e timorato do escarneo dos insultadores! O contentamento
- 47interior d'aquelle homem, revendo-lhe ao rosto, em suave tristeza,
- 48feliz?
- 49Sahiu-se o padre do seu absorvimento, e disse-me:
- 50e outras, que se embebem d'ellas. A saudade do objecto, existente a
- 51em espirito ao lugar onde as amamos, e conversal-as na linguagem das
- 52lagrimas...
- 53longas e ossudas sobre o peito.
- 54linguagem e semblante. Eu sou assim com todos os homens, se me elles
- 55em que me sinto bem. Estou alli como encasado n'aquellas paredes
- 56abaladas que parecem estar-me dizendo todos os dias: quando cahiremos
- 57Abriu um sorriso de extrema tristeza, e ajuntou:
- 58Canavial, e procure o padre Alvaro Teixeira. Raras horas no anno estou
- 59se algum visinho lhe disser que o pobre presbytero passou a morar
- 60Disse isto o padre sem o menor tregeito beatifico. N'aquellas palavras
- 61mas, ainda que muito longe fosse, eu iria passar uma hora com o homem
- 62raciocinio; ao passo que frequentemente as melhores qualidades do homem,
- 63primeiro encontro.
- 64Disse-lhe o meu nome. O padre repetiu-o tres vezes pausadamente, syllaba
- 65por syllaba, e depois exclamou de repente:
- 66cito o titulo: O CLERO E O SENHOR A. HERCULANO.
- 67paginas da minha infancia litteraria, felizmente esquecidas...
- 68podendo hombrear com o historiador doutissimo no solio da sciencia, e
- 69sobejavam conselhos aos parciaes do clero, que porfiavam em levar
- 70N'esta esteira foi navegando o padre, a todo o panno da sua muita
- 71levita, e eu de melhor vontade os dispenso de ouvir-lh'as, mesmo porque
- 72Merece chronica um episodio de instantes que se deu entre mim e o
- 73mau conceito. Isto prova que bem avisado andou o governo, collocando o
- 74intelligente belga, no lugar onde podia fazer tolices algum portuguez
- 75ainda assim a boa escolha.
- 76renascem para chorar commigo. Um poeta diria e pensaria isto. Quando
- 77depois, acerto de encontrar-me com a madresilva, com a margarita, com a
- 78se ri d'esta palavra na boca de um velho, que cahiria extenuado se
- 79maravilha da fabula: rompa n'aquella pedra a fonte da juventude do corpo
- 80annos me faz?
- 81Contemplei-o com assombro e piedade. Quarenta e seis annos aquelle
- 82vincos da testa escalvada encruzados e fundos, travando-se em miuda
- 83d'este homem, quando o involucro assim se fende e estala febra a febra!
- 84diante da tua paciencia!? Falla, falla, ensina-me a compor dos meus
- 85gemidos o hossana da victoria, sobre as agonias, que me vergam, quando
- 86adivinhaste um infeliz no homem, que deixou em tua memoria as vinte
- 87caminho da vida; aponta-lhe d'aqui o trilho menos escarpado da
- 88com o cilicio que revigora a alma; dulcifica-lh'a com o travor das
- 89tua essencia de anjo.
- 90das pessoas que foram commigo a visitar um palacio derrocado, ou as
- 91No convento de franciscanos, cerca de Vianna, reliquias santas em cujas
- 92comtemplativos, estava eu, por uma tarde de estio, com um amigo, que
- 93escrevera muito sobre a poesia da cruz. Subimos a um teso d'onde se
- 94avistavam descampadas e fertilissimas varzeas. A fronte do meu amigo
- 95pareceu-me alumiada do sacro lume do estro. Esperei, com reverente
- 96silencio, a estrophe inspirada pela soledade, e esmaltada dos matizes do
- 97sitio, que eram poesias feitas para um genio que as bem soubesse ler.
- 98beijo do sol, e disse:
- 99desbancar quantos luxos orientaes o Byron inventou para o seu
- 100do conde de Oeiras. Refugi com o pensamento d'este laivo sangrento da
- 101historia, e fui em cata de glorias aos seculos primeiros d'aquelle
- 102baluarte da nossa independencia de Castella e da mourisma. Enleavam-me
- 103carne assada e duas garrafas do Cartaxo, que era optimo vinho, e havia
- 104de saber-nos aqui que nem o nectar dos deuses.
- 105Ora, este poeta era amantissimo de ruinas, quando as poetava no seu
- 106gabinete, em artigos, a um tempo, de saudade do que fomos, e
- 107iconoclasta demolir os vetustos moimentos da nossa extincta grandeza.
- 108Outro caso:
- 109uma casa esburacada de balas, e aberta em largas fendas, desde o cerco
- 110de 1833. Por entre hervas e arbustos silvestres rompem algumas hastes
- 111descia com o sol a colher ao seu jardim os mais gentis enfeites do seus
- 112scismava n'isto, quando o meu amigo, author de idyllios que faziam amar
- 113tristeza, da qual nem todas as almas se magoam.
- 114pelo calor. Nas padieiras e cornijas amarelleciam fetos e outras
- 115agradavelmente tecida, que dissereis ser a natureza tanto mais de
- 116circumpostas eram ladrilhadas de tijolo azul e apainelado, figurando
- 117passagens mythologicas e campestres. No rebordo superior d'este
- 118senhores, refestelados nas suas cadeiras encouradas, vinham, do patim
- 119rinchando, escarvando, e folgando em airosas upas.
- 120Subimos a escadaria do patim, e entramos n'uma sala pouco alumiada e
- 121muito extensa. De relance vi que o tecto era de castanho e profundo, com
- 122centro. D'este pendia uma corrente de arame e um grande lampadario,
- 123castanho, de altissimo respaldo, com a pintura duplicada a ocre das
- 124armas do tecto.
- 125tinham tecto, nem portas, nem pavimento. Na extrema do corredor estava
- 126camandulas, e estas no fuso, e este no fiado.
- 127foi imbelinhar!
- 128inutilisados n'uma grossa pitada de simonte, que resfolegou, em quando
- 129o padre pacientemente desenredava a cambulhada.
- 130residencia do locatario. Era uma sala, e dous quartos contiguos. N'um
- 131d'estes estava a cama e livraria do padre; o outro era devoluto para
- 132espaldar alto e douraduras floreadas, mesas lisas orladas de embrechados
- 133reluzentes matizes de escarlate e azul. Das paredes, cintadas de
- 134desterro, adornavam, a grandes intervallos, as quatro paredes da sala,
- 135cuja limpeza abonava o cuidado da senhora Eufemia.
- 136examinar os contornos da casa. Vi em baixo uma pequena parte d'um grande
- 137jardim cultivado e retalhado por meandros de murta e alecrim. O restante
- 138estava abandonado. Feixes de herva myrrada afogavam um cysne de
- 139copa e muita grossura de troncos formavam, emmaranhando-se, a enorme
- 140entrevi um paul, reliquias do que devera ter sido um vistoso lago.
- 141Defronte, a duzentos passos, vi uma casa nobre, toda ladrilhada de
- 142armas, retocadas de novo, no triangulo em que remata o frontal do
- 143edificio.
- 144dos que foram donos d'esta em que vivo...
- 145olhar para uma das janellas do palacete. Dava a cuidar, pela insistencia
- 146com que fitava a janella, que devia alguem apparecer alli; mas tanto
- 147aquella, como todas as mais, estavam fechadas, e nenhum signal de vida,
- 148Como de golpe, sahiu o padre do seu transporte, e, voltando-se risonho
- 149para mim, disse:
- 150lhe dou. Venha d'ahi.
- 151Segui-o ao quarto visinho, onde estava a senhora Eufemia toda azafamada
- 152fina e alvissima toalha. Na parede estavam doze estampas enquadradas em
- 153lagrimas...
- 154desventurados n'este mundo!--acrescentei eu, enlevado no meu rapto de
- 155brutal entre o forte e o fraco, entre a creatura manietada, desvalida,
- 156sua impavidez, e soberba. Mal d'aquelle, que foge o mundo, e se
- 157homem, desfavorecido dos acasos de que depende a felicidade, o bem, e a
- 158contingencias, meramente casuaes, d'esta vida. Offerece-se-me cuidar que
- 159desprezo ou mofa, vendo quam dissaboridos e minguados passam os dias do
- 160d'este fatuo dos seus bens exteriores, quando a roda do acaso desandar.
- 161alto, entendesse que o salvar-se estava em ser revessado contra os
- 162Senhor dos mundos se amercie dos seus reptis, occasionando-lhes um dos
- 163absolvidos por sua consciencia, refrigeram-se, convalescem, e saram no
- 164com ella, e deixem a arena aos vencedores lacerados de uma hora, e aos
- 165vencidos manietados da hora seguinte. Dito isto, meu amigo, pergunto-lhe
- 166respondesse consoante mandava a cortezia, fomos para a mesa, que era
- 167soleiras de duas portas.
- 168pradera, hijo mio, por que hay en
- 169ella cosas mas dignas de tu
- 170pradera su belleza; las miradas
- 171de Dios animabam la claridad del
- 172bosque, hijo mio, porque tus oidos
- 173nutrir em colmeia copiosa, como era aquella, do mel que ao depois
- 174delicadamente a minha companhia, e se fechava em seu quarto. Na terceira
- 175immoveis e fitos na casa fronteira do negociante de Lisboa.
- 176casa, e vi, como sempre, as janellas hermeticamente fechadas. Estive
- 177me culpe a mim, condemne a sua affectuosa convivencia, e o mundo tambem
- 178mim.
- 179Lembrou-me meu pai, cuja face eu beijei no esquife ha vinte e sete
- 180annos. As ultimas palavras amoraveis d'um homem de cabellos brancos, meu
- 181e retirou com ordem de nos trazer alli o jantar.
- 182D'aquella eminencia iam os olhos a muito longe buscar a suave melancolia
- 183que levanta o espirito. Enlevavam as lezirias com as suas manadas de
- 184gado, os grupos alvejantes de casas, as granjas dispersas na esplainada,
- 185os pomares de laranja, os olivedos, e o rumorejo confuso e indistincto
- 186das aves, dos regatos, do brando ramalhar das arvores, e da toada de
- 187nosso outeirinho. Estavam entre as arvores umas pedras musgosas
- 188com seus encostos. O padre sentou-se na menos commoda, e disse-me:
- 189meus raros hospedes. Esse alamo, a que o senhor encosta o hombro,
- 190plantei-o eu em 8 de Junho de 1832. Tem vinte e dous annos.
- 191Obrigava-me a discreto silencio a brevidade da resposta, e o
- 192cenobitas, moradores das brenhas, estomagos fortalecidos por fructos
- 193Theocrito, Columella, e outros amantes da natureza e do leite. Se o
- 194instante a instante fez-se noite n'aquelle aspecto, um quarto de hora
- 195antes claro e aberto ao contentamento interior.
- 196trabalhando por reprimir as lagrimas.
- 197replicar, nem consolar.
- 198tirando o padre do fundo do cabaz dous livros: um era o breviario da sua
- 199reza, o outro era um romance... Um romance! e, de mais, um romance
- 200Espirito Santo!...
- 201Acceitei o livro, e li, no prefacio, estas linhas:
- 202nimiamente escrupulosas, acaso espavoridas pelo equivoco titulo que ella
- 203pessoas, convidadas justamente pelo titulo que repelle as outras, essas,
- 204brevemente podiam ensinar-me o enredo da historia. Comprehendi-a toda em
- 205espectaculo das agonias d'um naufragio fosse causa a gelar de terror os
- 206o padre--Se o senhor tivesse em mim um amigo, capaz de escrever com
- 207desculpem?--atalhei eu.
- 208as veredas muito differentes.
- 209alguma pergunta melindrosa, o padre, erguendo a face inflammada, com a
- 210luz dos olhos estranhamente viva, disse n'um impeto de espirito:
- 211letras, e continuou depois d'este theor:
- 212d'este desafogo. Digo-a a cada noite que Deus manda com os seus
- 213natural este desejo de infelizes que se querem lastimados na sua dor.
- 214Esse mesmo desejo tenho submettido ao jugo de todos os outros. Nunca
- 215fallei do homem que foi aos que a mera curiosidade tem aqui trazido a
- 216cabedal que fazem da sua mesma dignidade. Outros avelhentou-os o mesmo
- 217e outros erram sem vontade. Na sociedade, em que elles medraram e se
- 218acreditaram, sou e devo ser aquillo que de mim pensam: um exquisito, que
- 219se goza das suas singularidades; ou um martyr excruciado por sua infeliz
- 220porque a hypocrisia tem n'este mundo a sua ganancia, e elles bem sabem
- 221que eu nada tenho ganhado, nem solicitado. Isto, que vou dizendo, tem
- 222piedosos com as almas remissas e afrouxadas na trabalhosa fabrica das
- 223o menos previdente dos tres a quem o Senhor distribuiu os talentos? O
- 224dizer a gente illuminada, segundo o tempo, d'um homem, que foi abastado,
- 225voltar a si com artes infalliveis o bom rosto da fortuna, e nem sequer
- 226escassamente soltou uma palavra de queixume contra os ingratos?
- 227escolhidos de Deus, um exemplo, e uma gloria da especie humana.
- 228tive alguns annos de homem social e amoldado ao feitio vulgar. Pois
- 229Jantamos.
- 230os heroes dos meus romances. Eu tenho a sinceridade de fazer comer, com
- 231santos, como o padre Alvaro.
- 232ECCLES.--12. 5.
- 233Na tarde d'aquelle dia chamou-me o padre para junto de si, diante da
- 234mesa em que escrevia. Abriu uma das quatro gavetas da escrivaninha, e
- 235alguma outra cobertura.
- 236minha reverencia houvesse menos ceremonia de ritual e mais religiosa
- 237livro. Na primeira pagina, li este dictame de Isaias:
- 238Quer dizer:
- 239ENTRA NA SEPULTURA, E SOME-TE NA TERHA D'ESSA
- 240COVA.
- 241E mais abaixo o verso do psalmo 117:
- 242palavras eram as mais expressivas, e respondiam fielmente ao pensamento.
- 243a do sol me dispensava da outra.
- 244entendera por idolatria.
- 245nem promenores. Era tudo claro e minudencioso como historia escripta de
- 246consciencia em Deus.
- 247Diga-me agora: que aproveitou?
- 248dizer mais singelamente o resumo de tudo que leu, nem lhe darei,
- 249ninguem o vulga aos respeitos publicos. E que vai n'isso? Basta-me Deus.
- 250Veio a senhora Eufemia cortar-me a resposta. Trazia ella uma carta
- 251havia dado pulso de ferro para sofrear os impetos do sangue.
- 252ruinas, mais contente voltarei.
- 253ser-me-ia dolorosa.
- 254Separamo-nos no Rocio, onde apeamos do carro que nos transportou de
- 255Santa Apolonia. O padre disse-me a sua pousada, e eu fui para a minha
- 256hospedaria. Procurei-o no dia seguinte: estava elle a ponto de sahir
- 257leitor o que elle ia fazer duas vezes em cada dia ao convento de Santa
- 258Martha.
- 259pateo do convento, e d'alli a sua casa. N'este breve termo, o semblante
- 260do homem das dores declinou rapidamente para a lividez e magreza
- 261da sege a uma grade, onde o esperava uma senhora muito idosa, de
- 262veneravel aspecto, a quem o padre chamou prioreza. De relance, vi que
- 263na grade.
- 264Sahi logo com o boleeiro, que me ajudara a amparar o meu amigo; mas
- 265Ao toque de Ave-Marias fui chamado pela porteira do convento, e esta me
- 266disse que o senhor padre Alvaro me pedia a esmola de lhe ir dar o meu
- 267encruzadas sobre o seio, e as palpebras descidas como se quizesse
- 268Parou a sege.
- 269Saltei para amparar o padre na descida.
- 270andar, e dizer ao dono da casa, que tenha a paciencia de vir aqui
- 271fallar-me.
- 272Subi, e desceu commigo o dono da casa, ao qual o padre disse o seguinte:
- 273avisinhando das minhas ruinas como o reptil, ferido de morte, da
- 274Voltou-se para mim, e disse-me:
- 275poder fazer sem custo.
- 276consolados por ninguem.
- 277Levei-lhe a resposta affirmativa, e a sege partiu, a passo rapido.
- 278Fiquei conversando com o amigo do padre.
- 279n'este mundo.
- 280E ficamos concertados a mandar no dia seguinte saber novas do nosso
- 281amigo.
- 282voltara sem resposta, ou promessa de responder, quando podesse.
- 283procurou para me dizer que a velha Eufemia lhe escrevera, dizendo-lhe
- 284que o seu amo estava em perigo de vida. D'alli partimos no mesmo ponto
- 285sorriso, e estas palavras pausadamente pronunciadas:
- 286Francisco de Sales ou Vicente de Paula...
- 287padre Alvaro--disse-lhe eu.
- 288Estas vozes extenuaram-no como se fossem um desafogo vehemente. O meu
- 289companheiro disse abundancia de palavras que, a seu juizo, deviam
- 290perdoavel verbosidade de um, e ao recolhimento offegante do outro.
- 291Fallou-se em ir buscar medicos a Lisboa. O padre sorriu-se, encarando no
- 292amigo, que propozera a consulta.
- 293tudo da misericordia Divina.
- 294fechassemos a janella.
- 295Pernoitamos ao seu lado, e vimol-o dormir duas horas serenamente.
- 296Palpei-lhe o pulso, e senti-o refrigerado e sem ponta de febre. Cobrei
- 297compadecido:
- 298Fui dar as ordens, e voltei ao quarto, d'onde sahi, quando entrou o
- 299prior.
- 300desfallecimentos e agonias passageiras do enfermo. A criada chorava alto
- 301a cada accidente, e eu via, no semblante contrahido do meu amigo, quanto
- 302respondeu-me:
- 303Curvei-me diante d'esta dor, e adivinhei as angustias d'aquella mulher
- 304reptil, nem quando despega da arvore a folha secca.
- 305murmurando vozes imperceptiveis.
- 306As onze horas da noite, estremeceu o agonisante na cadeira, e estirou os
- 307Soaram as doze horas n'um relogio de parede. O padre parecia contal-as,
- 308por um movimento nervoso dos labios. Tinha cahido a ultima pancada, e
- 309elle disse:
- 310cadeira, e suspirou. Cuidei que elle ia adormecer, quando vi calarem-lhe
- 311Era aquelle glacial dormir, que espera novo dia annunciado pelo anjo do
- 312ultimo juizo.
- 313Ajoelhei de novo, e disse:
- 314I
- 315n'est pas ici un vain spectacle d'art et
- 316et des yeux. Non, c'est un acte de foi,
- 317Alvaro Teixeira de Macedo nasceu, em Lisboa, no anno de 1813.
- 318companheiros aquella dulcissima palavra, como grande parte e incentivo
- 319Alvaro devia acreditar que a sua tinha morrido; mas ninguem lh'o
- 320Estava de ferias em casa, e tinha nove annos, quando perguntou a
- 321esperteza de Alvaro.
- 322perguntas.
- 323suas.
- 324sentado nos joelhos de seu pae, que lhe anediava os cabellos, e aparava
- 325as unhas.
- 326morreu?
- 327Manoel Teixeira ficou por um pouco tempo suspenso; mas continuou a
- 328concernentes ao collegio.
- 329Estava Alvaro a ponto de sahir do gabinete de seu pae, e, como levado de
- 330providencial impulso, retrocedeu, e disse:
- 331Foi o primeiro gesto de enfado que viu Alvaro no rosto d'elle, sempre de
- 332riso e meiguice.
- 333Tornou Alvaro para o collegio, e contou innocentemente a um dos mestres,
- 334que mais seu amigo era, o que passara com a ama e com o pae. Ficou o
- 335mestre admirado do acontecimento, e entendeu de si para si que Alvaro
- 336communicadas aos nove annos do collegial, e calou-se com ellas o mestre.
- 337Maravilhava o pae e os mestres com o seu adiantamento, e cuidado em
- 338mestres e do pae, o mais descurioso e desleixado do estudo era Alvaro;
- 339mas tambem, ao mesmo tempo, o mais triste e recolhido dos seus
- 340condiscipulos.
- 341Manoel Teixeira, informado d'isto, sentiu a tristeza do filho e deu
- 342gloriava de procrear um talento. O que elle desejava era dar-lhe um
- 343verniz de boa sociedade, e habilital-o para casar com uma sobrinha sua,
- 344morgada rica, da linha paterna, menina que teria dez annos n'esse tempo.
- 345Entrava n'isto por muito o orgulho do bastardo, que pelos degraus da
- 346riqueza conseguira hombrear com os filhos legitimos de seu pae, e
- 347acudir-lhes, por orgulho tambem, nas crises fidalgas em que se elles
- 348condiscipulos, de quem o separar-se lhe seria muito penoso.
- 349os professores, aquelle que muito o estimava e conversava, tinha-o em
- 350conta de homem, e como a homem lhe fallava. Por vezes, em intima
- 351mestre desconhecer a origem da melancolia do discipulo!?
- 352sua ignorancia dos nove annos, quando o senhor me pedia esclarecimentos
- 353de ser manchada. Creio que me comprehende...
- 354sacramento aos paes de seus filhos. Agora de certo me entendeu.
- 355Alvaro fez um gesto afirmativo, e disse:
- 356se as julgasse d'alguma utilidade, ha mais de dous annos. Vou agora
- 357Deus que se esconda n'esse amor; e a minha consciencia manda-me fallar.
- 358Seu pae casou ha quatorze annos com uma senhora de rara formosura e
- 359destino imprevisto.
- 360Continuou o mestre:
- 361da companhia de seu pae, para, volvidos alguns dias, entrar n'um
- 362pundonor, se o senhor Alvaro, em vez de doze, tivesse vinte e quatro
- 363Foram as breves e ultimas palavras que o mestre lhe disse a tal
- 364respeito.
- 365reaes da desnudez dos vicios imaginarios, eram causa a serem de todo o
- 366convento, de modo que seu pae a tinha em conta de morta, e queria que
- 367seu filho assim a julgasse.
- 368Foi Alvaro, de vontade sua, passar alguns dias a casa. Fez especie em
- 369de seu filho, as melhoras do pequeno. De feito, Alvaro estava
- 370e encaminhada ao ponto de lhe dizer:
- 371Eufemia quiz fugir; Alvaro susteve-a pela saia, e acrescentou:
- 372lembre de que o senhor Alvaro me disse taes palavras!...
- 373N'um dos proximos dias, Manoel Teixeira de Macedo, tinha sahido
- 374esquecera.
- 375Alvaro entrou no escriptorio, e reflectindo disse entre si:
- 376E diz elle no seu livro, por estas ou consentaneas palavras, que ouvira
- 377a fazer. Viu uma caixa de velludo encarnado, com fechos de prata. Abriu
- 378a caixa: era um retrato de mulher, sobre marfim.
- 379Entrou de golpe Eufemia no gabinete particular de seu amo, e, como visse
- 380junto d'elle, dizendo:
- 381Eufemia, apenas lhe relanceou os olhos, exclamou:
- 382Eufemia espantou-se e assustou-se da gravidade inabalavel d'aquella
- 383resposta.
- 384Alvaro sahiu, depois que repoz o retrato no seu lugar, com tal cautela,
- 385Eufemia oscillou ainda; mas, obrigada por um gesto de justa severidade
- 386convento...
- 387Eufemia?
- 388diga o resto...
- 389Eufemia sahiu da beira de Alvaro, e foi, a correr como douda,
- 390refugiar-se no seu quarto, e pedir a Deus que trouxesse depressa o
- 391Alvaro dirigiu-se placidamente ao gabinete, abriu de novo a gaveta, e
- 392a boceta do retrato. A tempo foi isto que se ouviu o toque conhecido da
- 393gabinete.
- 394Manoel Teixeira trazia o pensamento na chave esquecida. Apenas entrou no
- 395suspeitou levemente da curiosidade do filho, nem dos criados, que, salvo
- 396Eufemia, nunca entravam n'aquella recamara.
- 397Alvaro, a hora segura da noite, quando todos estavam recolhidos,
- 398se as houvesse recebido da primeira mulher amada, n'aquelles dias de
- 399santo amor, de luz celestial, e de flores sem espinhos, em que tudo nos
- 400crescendo de ponto, segundo o silencio desprezador com que as cartas de
- 401Maria da Gloria eram recebidas. Na ultima, que leu Alvaro, dizia ella
- 402desamparasse. Terminava emprazando o seu algoz, e protestando pela sua
- 403innocencia, diante de Deus.
- 404D'aqui passou Alvaro a ter com Eufemia este dialogo:
- 405porque pensa que estou no collegio.
- 406sendo a mais forte de todas esta:
- 407descobrisse.
- 408Foi Alvaro ao collegio, e contou ao seu mestre predilecto a ida a
- 409prometteu por sua parte mentir piamente ao pae, caso acertasse de
- 410encontrar-se com elle. Aos outros professores disse Alvaro que ia passar
- 411Na madrugada do proximo dia, sahiu de Lisboa, o filho de Maria da
- 412Gloria.
- 413II
- 414Maria da Gloria, depois que leu em tremuras uma carta que recebera do
- 415E leu Maria uma carta em que a sua criada lhe contava miudamente as
- 416para que eu sentisse o immenso prazer d'esta noticia! Fallai, meu divino
- 417para receber dignamente a vossa misericordia, e o amor de seu filho!
- 418resgatar, pelo amor do filho, e talvez pelo remorso do pae.
- 419Esta nova correu logo os dormitorios, e todas as freiras se alegraram,
- 420porque Maria da Gloria era amada de todas, e respeitada das mais
- 421seu quarto, a dar-lhe os parabens, como se no animo das mais virtuosas
- 422annos de sua vida.
- 423criada. Eram paginas sobre paginas levantadas em amor e jubilo, como um
- 424tanto amor, onze annos retraindo, e sem desafogo no proprio seio da
- 425Passaram tres dias n'esta abrazada ancia de outras noticias. Ao quarto,
- 426tanto. Sossobrou-a o transporte de alegria; e as formidaveis angustias
- 427nunca poderam tanto. Quizeram as amigas, e sobre todas a inseparavel
- 428timidas senhoras se arreceiavam mais da felicidade imprevista, que das
- 429Maria cahiu de cama; e, ao terceiro dia, depois da ultima carta,
- 430successos que a phantasia escaldada lhe antepunha. A bondosa abbadessa,
- 431a fim de socegal-a, promettia-lhe, chegando o menino, abrir-lhe a
- 432portaria, contra o estatuido na regra benedictina, e dar-lhe quarto ao
- 433monjas, e para a festa da chegada se apostavam todas, com offertas e
- 434solemnissimo dia do patriarcha, cujas filhas eram.
- 435maiores talentos de Portugal, o inimitavel poeta Antonio Feliciano de
- 436juvenil poeta!
- 437Maria da Gloria, ao dizerem-lhe que entrara o filho no pateo do
- 438delicado o tiraria a limpo.
- 439Chegou Alvaro ao pateo do mosteiro.
- 440lhes davam os fatos em duplicado para se vestir, chilreando
- 441ouvissem de longe o rangido de botas nos sonoros corredores dos
- 442com a madre que estava de semana no encargo de acompanhar os
- 443quer n'aquelle tempo, a frequencia das grades monasticas era uso e moda
- 444das boas familias, Alvaro nunca vira freiras, e julgava d'ellas pelas
- 445que via macilentas e magras nos retabulos das igrejas.
- 446agruparam-se no corredor a um lado da porta, abrindo passagem ao hospede
- 447de sofregos beijos, e, a rapidos intervallos, o afastava de si e
- 448contemplava com olhar frenetico, e tregeitos convulsivos como os da
- 449loucura.
- 450riqueza! tenho vivido em tormentos de onze annos para este instante...
- 451Deixem-me desabafar, que a felicidade suffoca-me...
- 452como elle, n'aquelles annos, poderia imaginar um anjo. A mulher, que
- 453alli via, era magra, livida, e com as rugas da velhice precoce nos
- 454conservava a infeliz aos trinta e quatro annos, idade em que o toque
- 455Maria da Gloria debulhou-se em lagrimas, e rompeu em gritos. Todas as
- 456do leito, tomou-a para si, e submetteu o hombro ao rosto pendido e
- 457gotejante de suor.
- 458A prelada mandou sahir as religiosas, que pejavam o quarto mal arejado.
- 459A discreta abbadessa tambem sahiu, cerrando a porta.
- 460sobejavam recursos para as mal denominadas regalias do convento.
- 461aceio de adornos, uma livraria, que tomava um dos quatro lados, e alguns
- 462olhos por sobre os papeis espalhados n'ella. Entre estes estava aberta a
- 463a delicadeza de furtar os olhos ao estimulo da curiosidade. Leu a carta,
- 464repellida da casa, onde estava o filho da martyr, e ella, a alma unica
- 465temperassem as desesperadas saudades.
- 466Maria da Gloria, vestida em desalinho, entrou no quarto, onde Alvaro
- 467estava.
- 468Sentou-se n'uma cadeira de espaldar, e achegou de si o filho, que
- 469parecia tomado de melancolico espasmo.
- 470entristece?
- 471Maria empallideceu, e balbuciou por entre beijos, em que parece que
- 472comprehenderes a calumnia de que sou victima.
- 473Diz a Eufemia que elle fora muito seu amigo, e o meu mestre de inglez
- 474annos?
- 475pae?
- 476foram chamados a jantar em casa da abbadessa.
- 477prelada ao filho da senhora, querida de todas. Alvaro ficou sentado
- 478soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, impressionara fundamente o
- 479animo de algumas senhoras para quem a innocencia de Maria da Gloria era
- 480uma piedosa hypothese. Durante o jantar, a santa, que n'esta conta era
- 481tida e assim denominada a decrepita monja, fallou algumas vezes com
- 482queixando-se de que a sua vinda fosse o prognostico de ella ser
- 483A este dito, respondeu Maria da Gloria que a vinda do seu filho era uma
- 484sua dignidade de esposa.
- 485espirito divino que lhe fallava. Deu-se um religioso silencio, tal que
- 486Estas foram as palavras de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor:
- 487Maria da Gloria mandou o filho beijar o habito da religiosa. Alvaro foi,
- 488da postura humilde, e, assentando os dedos afilados sobre as faces
- 489labios lhe abrisse Deus um sorriso de sua misericordia:
- 490em que Deus o mandou chegar.
- 491volveram os risos e os gracejos depois que, findo o jantar, a santa se
- 492retirou encostada a duas religiosas, que haviam sido suas discipulas de
- 493noviciado, e contavam para mais de setenta annos.
- 494Duas horas depois do jantar, foi Maria da Gloria com seu filho visitar
- 495fez signal de ficarem.
- 496senhora--disse Maria da Gloria, beijando-lhe o escapulario.
- 497demorar-se muito...
- 498Vieram-lhes ao encontro nos dormitorios, na claustra, na cerca, as
- 499duvidava. Recebia os parabens como se a promessa lhe descesse
- 500tanto. Fez-se um mundo novo n'aquelle espirito. As aves da floresta
- 501entoavam por ella louvores a Deus. As flores dos taboleiros recendiam os
- 502aspecto triste e de ferro com que se mostra a olhos marejados de
- 503Nazareth o annuncio da sua maternidade!
- 504Fugiam as horas do dia. As do silencio, na breve noite que se seguiu,
- 505acalentava-o depois, como douda de felicidade com lembrar-se do amor com
- 506que o velara no seu primeiro anno.
- 507acordar o filho.
- 508Resolveu-a um recado de soror Joanna; mandava dizer que estava esperando
- 509o menino, e que fosse, porque eram horas de coro. As palavras da santa
- 510deram-lhe alma para o trance.
- 511penitente--continuou acariciando Maria--notae bem o que vos digo.
- 512Entendeis, Maria?
- 513incapaz de desobedecer-lhe.
- 514Deus, meus filhos.
- 515III
- 516milagres: antevia unicamente, com os olhos de sua virtuosissima alma, as
- 517faz.
- 518direi que amava, mas estimava grandemente seu marido, mais velho que
- 519commerciante laborioso, sympathisou com o incansavel bastardo do
- 520dous annos; e, como deixasse o seu negocio na India entregue a
- 521caixeiros, accelerou o casamento com o duplo fim de desapressar-se de
- 522Na ausencia de seu marido, a vida de Maria da Gloria era o amor de
- 523Defrontava com a sua casa um cavalheiro de annos adiantados, quarenta
- 524teria, mas sobravam-lhe qualidades para ser presado. Umas dava-lh'as a
- 525aquelle o nome do cavalheiro, que foi depois intendente geral da
- 526desterro, se bem que exilado pelo illegitimo soberano a quem
- 527honradamente servira.
- 528pilar das virtudes sociaes, sem absoluta dependencia dos preceitos
- 529virtude, sem penitenciar o corpo nem a alma.
- 530Mandam-me, talvez, cancellar o periodo em que ficam elogiadas as
- 531d'estas, e tenta corrigil-as desde a raiz.
- 532Outra passagem:
- 533implicancia das suas excellentes qualidades:
- 534matal-o. Amou pelos olhos Maria da Gloria; mas as mil avenidas da sua
- 535alma tinham sido escaladas pelo amor. Amou a formosa porque era formosa.
- 536Escreveu uma, duas, seis cartas, longas e eloquentes como devia
- 537homem corrido e allucinado:
- 538A mulher pura chamou o criado, que lhe entregara as cartas, por
- 539da Gloria fez-lhe um gesto severo de silencio, e mandou-o descer no
- 540rasto de quem lhe comprara a fidelidade. Vacillou em despedir a criada.
- 541Teixeira. Senhor d'uma mulher bella, e virtuosa, e meiga; pae d'um
- 542comprar a ouro; estimado de uns sinceramente, e lisongeado por outros;
- 543mundo?
- 544Uma tarde, entrou no quarto de sua esposa Manoel Teixeira, e disse-lhe,
- 545rosto.
- 546Sahiu Manoel Teixeira, porque n'este ponto entrou Eufemia com o menino.
- 547Maria seguiu-o, e entrou com elle n'uma sala.
- 548contar-lhe o acontecimento.
- 549ia a fallar, quando lhe elle voltou de golpe as costas, e sahiu.
- 550os innocentes sejam condemnados em muitas instancias, antes de serem
- 551citados ao seu tribunal supremo, e--n'isto vai muito a dizer--parece que
- 552Consultem-se, pois, os theologos.
- 553Mattos de sua casa, uma vez pelo menos, em quanto o seu protector
- 554segundo pae fosse deshonrado por uma mulher indigna. E taes cousas disse
- 555Decorridas estas, convidou-a a dar um passeio de carruagem ao campo.
- 556digamos maldade.
- 557Fora de portas estava uma liteira, uma mulher sobre umas andilhas, e
- 558Maria sahiu machinalmente.
- 559deixarem. Adeus.
- 560A criada tinha apeado. Maria da Gloria foi transportada quasi sem
- 561conflicto.
- 562Deixemos ir aquella martyr, e esperemos em Deus.
- 563conta de todo o contheudo n'ella. Eufemia e o menino foram recebidos em
- 564casa de uma familia, e d'ahi levados para outro domicilio, onde os
- 565Dizia-se que a criminosa esposa do desditoso fora encerrada n'um
- 566convento de Hespanha; que os remorsos a matariam alli; que o extremoso
- 567marido estava a ponto de enlouquecer; que os seus amigos desvelavam as
- 568de evangelhos.
- 569estava em Barcellos, sua terra natal, convalescendo da enfermidade do
- 570capital, ouviu a historia, e deliberou-se nobremente a procurar Manoel
- 571Teixeira, e contar-lhe a innocencia de sua mulher, confessando a propria
- 572viajar pela Italia, com o filho aos peitos da ama, e comprara uma quinta
- 573nos arrabaldes de Napoles.
- 574successos o perturbasse no exercicio dos seus altos cargos. Imaginava
- 575Maria da Gloria em Hespanha, e, por decoro seu e d'ella nunca inquiriu o
- 576filhinhos, que aposentou em Lisboa n'um palacete de Belem. Consola,
- 577trazia sempre sobre os joelhos, na carruagem, e offerecia aos carinhos
- 578de todos os seus amigos.
- 579blasphema dos degraus do altar, sentiu-se morrer em agonias atrozes
- 580Deus, por que era de Deus um anjo, que ella via ao seu lado, envolvido
- 581no habito de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor.
- 582cartas que Eufemia lhe escrevia de Napoles. Logo que as recebeu de
- 583Lisboa, escreveu a seu marido muitas cartas, que elle lia commovido.
- 584filho, antes de ser chamada com o pae ao tribunal de Deus.
- 585IV
- 586petitis, credite quia accipietis, et
- 587Eu vos affirmo que todas as cousas,
- 588S. MARC. 11. 24.
- 589Em 1825, era empregado, em qualidade de aguazil, na intendencia geral da
- 590importantes segredos d'aquella magistratura.
- 591Manoel Teixeira de Macedo, como suspeito partidario de D. Carlota
- 592Cahiu a proposito fallar da graciosa napolitana, que vivia
- 593ostentosamente em Belem, e da esposa, que fora encarcerada n'um mosteiro
- 594de Hespanha.
- 595Gloria tinha sido entregue na raia a pessoas encarregadas de
- 596conduzirem-na ao convento hespanhol.
- 597reservadamente esclarecimentos acerca de Maria da Gloria, entrada no seu
- 598mosteiro em 1817. Soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor era a tia de
- 599Escreveu de novo o magistrado a sua tia, confirmando a conta em que ella
- 600Soror Joanna contrariou o plano judiciario de seu sobrinho, dizendo que
- 601Maria da Gloria a carta em que lhe era dada a noticia da ida de Alvaro.
- 602rosto sereno da santa, eram inexhauriveis durante aquellas horas do
- 603ellas, rezavam ferventemente.
- 604Dizem que Soror Joanna estava no coro, a tempo que chegou a noticia da
- 605vinda de Alvaro, e que, sem ninguem lh'a ter communicado, rompera em
- 606sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me casos da natureza
- 607Dispensa o leitor que lhe refresquem a memoria dos successos decorridos
- 608com Soror Joanna, durante as vinte e quatro horas de visita de Alvaro a
- 609naturalmente, depois da troca das cartas antecedentes, entre a freira e
- 610cegos d'aquella celestial claridade a que as almas escolhidas a si se
- 611nem devo duvidar das lavadas entranhas e clara fama dos meus leitores.
- 612Ao terceiro dia da sua supposta ida para o collegio, o morgado dos
- 613se disse, d'aquelle fidalgo de antiga linhagem.
- 614pozera o bastardo o fito de sua vaidade, e o legitimo o da sua
- 615lhe emprestava quantias avultadas, cobrava titulo d'ellas, armas de
- 616Leonor perguntou logo por seu primo, ao subir a escada. Manoel Teixeira
- 617era Brito e Macedo. Manoel Teixeira gostou da censura, e disse que o
- 618aturar as fadigas da cavallaria. Redarguiu o morgado que era uso na
- 619Se outrem o dissesse, era epigramma de certo.
- 620alguns primos e primas.
- 621Foram Manoel Teixeira e a sobrinha ao collegio com o intento de
- 622que foi o surprehendido.
- 623apparecer-lhe de repente com a prima.
- 624dos Olivaes--tornou o director.
- 625Teixeira, interrogando o mestre de inglez.
- 626estabelecimento.
- 627suppunhamos nos Olivaes: se seu filho mentiu, castigue-o vossa senhoria,
- 628Manoel Teixeira sahiu de maneira aturdido que deixaria a sobrinha, se o
- 629Eufemia, desconfiada do que havia de succeder, logo que viu Leonor sahir
- 630clamorosa de seu amo chamando o filho.
- 631Acudiram os criados todos, menos ella. Leonor foi ao quarto de Eufemia,
- 632e achou-a em desmaios. Tornou ao tio, contando lhe o estado em que
- 633deixava a pobre ama.
- 634N'estas aperturas, soou a campainha, e annunciou-se o professor de
- 635inglez, que pedia fallar particularmente com o dono da casa. Manoel
- 636Teixeira reanimou-se.
- 637rosto.
- 638presado.
- 639soubesse. Ha quatro dias que elle disse ao director do collegio que ia
- 640a meu filho?
- 641muito servir os nobres sentimentos do filho de vossa senhoria.
- 642ironicamente o negociante--Quer-me mais alguma cousa?
- 643E, dizendo, tirou d'uma carteira dinheiro em papel, que estendeu sobre a
- 644banca a que Manoel Teixeira encostava o cotovelo direito.
- 645Na garganta do negociante ficou afogada uma insolencia.
- 646Era simples: logo que o filho chegasse, mandal-o para Inglaterra,
- 647demoral-o annos n'um collegio, interceptar-lhe a correspondencia com a
- 648fosse elle evadir-se ao castigo premeditado.
- 649ter feito ao menino; e, como balbuciasse nas respostas, foi despedida, e
- 650seu filho. Sahiu a pobre mulher, e escreveu a sua ama; esta carta,
- 651criadas de Maria da Gloria.
- 652quando se lhe deu parte de um menino, que era portador de uma carta de
- 653fim da leitura, tomou-o para si, beijou-o, e disse-lhe com muita
- 654meiguice:
- 655levou!... Ora deixe estar, que ha-de ser muito feliz com ella... Espere
- 656Voltando, tocou uma campainha. Appareceu, afastando o reposteiro, o
- 657Limoeiro--disse o intendente--Agora vamos, menino.
- 658Maria da Gloria.
- 659V
- 660fallecem termos com que digamos ao justo o esgar de surpreza com impetos
- 661Gloria, vendo entrar seu filho ao lado do amante de sua mulher!
- 662se ia demorando, quando a sala immediata se abriu, e o escudeiro veio
- 663demorava.
- 664do menino, e dizia-lhe:
- 665vagava como allucinado o negociante, remettendo contra a porta que o
- 666separava da sala em que era esperado, e recuando com o gesto cada vez
- 667tirou d'um estojo uma pistola de dous tiros, accommodou-a na algibeira
- 668do chambre de cachemira, e entrou na sala com sinistra serenidade.
- 669pavimento que se interpunha aos dous.
- 670commerciante, relanceando os olhos fuzilantes sobre Alvaro.
- 671significa um successo extraordinario movido por um impulso tambem
- 672extraordinario.
- 673casa.
- 674Um criado cortou a resposta, dizendo que um meirinho que acompanhava um
- 675preso entre soldados queria fallar a sua excellencia.
- 676Manoel Teixeira ergueu os hombros, e disse enleiado das estupendas
- 677occorrencias:
- 678India, e eu cuidei miseravelmente que a esposa fiel deixaria de o ser na
- 679ausencia de seu marido. Havia na sua casa um criado, que adivinhara as
- 680mais cinco cartas instando pela resposta da primeira. Sua esposa nunca
- 681me respondeu. Um dia, fui animado pelo meu confidente a entrar
- 682furtivamente em casa de sua esposa, e esperal-a na passagem do seu
- 683de sua casa, cuidando que me era sobejo castigo o despreso com que fui
- 684expulso por um ligeiro aceno de mulher. Momentos depois, o criado era
- 685despedido tambem, e a esposa sem macula ficou pensando que Deus
- 686o feixo da porta, e disse ao meirinho:
- 687preso.
- 688preso.
- 689em casa de vossa senhoria.
- 690Teixeira.
- 691Levanta-te, e responde. Entregaste alguma vez cartas minhas a tua ama,
- 692esposa d'este senhor?
- 693accento:
- 694Maria da Gloria?
- 695lugar onde ella havia de passar?
- 696mas quem me aconselhou foi um logista, que tinha sido caixeiro de vossa
- 697Manoel Teixeira, como se espertasse d'um sonho vertiginoso, engatilhava
- 698a pistola, visando com olhos convulsivos e escarlates de sangue o peito
- 699do preso.
- 700vale onze annos de lagrimas.
- 701almas apaixonadas da terrivel sublimidade da angustia, tirou da
- 702algibeira uma carta, que leu com voz solemne, cava, e pungitiva por seu
- 703tremor nervoso:
- 704que has-de convencer o pae d'esse menino da innocencia d'esta santa.
- 705testemunha dos remorsos do marido. Vai, meu sobrinho, vai, guiado por
- 706infeliz marido; infeliz, sim, porque eu tenho uma quasi certeza de que
- 707creaturas escolhidas. Eu espero com ancia que me digas o que o meu
- 708perco a companhia do anjo d'esta communidade; mas ganho-a para a sua
- 709felicidade, e onde quer que ella esteja dar-me-ha sempre o mais doce dos
- 710nada, porque as minhas muitas enfermidades, bemdito seja Nosso Senhor
- 711sobrinho da minha alma. Escreve-me na volta do correio. Deus te guarde.
- 712Tua tia muito amiga.
- 713de Mattos, e disse:
- 714era desculpa, nem a impossibilidade do delicto innocencia.
- 715E este sentimento adivinhava o de Manoel Teixeira. Qualquer que fosse a
- 716isso bastante para que o homem compadecido offerecesse a sua amisade a
- 717familia, embora o effeito da tentativa criminosa fosse apenas a
- 718grande alegria a evidencia da lealdade de sua mulher; sentia-se como
- 719rehabilitado perante sua propria consciencia. N'isto vae muito para a
- 720d'estas culpas. O arrependimento inventa carinhos novos; e a innocente
- 721invulneravel da mulher mais depure o quilate da sua virtude, encarecendo
- 722poder, sem desaire, recusar-lhe a sua.
- 723semblante do intendente.
- 724Trinta e quatro annos depois, o padre Alvaro Teixeira, apontando o
- 725Foram estas as palavras do homem virtuoso, ao despedir-se de Manoel
- 726expansiva de amigo.
- 727VI
- 728N'um dos ultimos dias de setembro de 1825, amanheceram embandeiradas as
- 729de milicias, aquella um desembargador, uma um camponio, outra um
- 730Estas folias celebravam um abbadessado, em que devia ser reeleita pela
- 731sujeitos bem postos sobre as suas cavalgaduras, e de semblantes
- 732destinos alli vinham a cumprir: eram os poetas. D'estes, uns vinham por
- 733convite, outros espontaneos, ou esporeados pelo furor metrico. Uns
- 734celebrado Ferro; de Braga dous conegos em Apollo, e alguns abbades
- 735conhecido Mesquita, cujo nome se laureara entre os contemporaneos da
- 736Universidade.
- 737Quanto pode de Athenas desejar-se,
- 738Tudo o soberbo Apollo aqui reserva;
- 739Do bacharo, e do sempre verde louro.
- 740hospedavam lautamente os seus poetas das mais raras gulosinas e
- 741trouxe comsigo o segredo de civilisar pela fome, e de restaurar
- 742direitos, violando-os.
- 743A noite illuminaram se as janellas, e os postigos, e os frisos das
- 744da abbadessa, primeiro aos vates e seus amigos, depois aos notaveis
- 745dadivosa das mais recheadas cestinhas de bolos e garrafas do vinho
- 746prelada a paphia deusa, e decima musa. Tudo isto ia intervallado por
- 747peito em colloquios rimados de tanto amor que o proprio patriarcha S.
- 748santidade e bom siso.
- 749dizel-o um dos proprios inspirados.
- 750Era este o abbade Mormo, de Villa Real, inimigo do seu patricio
- 751mal-feridos de estocadas metricas, e desafiados para o outeiro proximo.
- 752Mesquita era filho d'um cortador de carnes, e gastara muitos milhares de
- 753cruzados para conseguir cartas de bacharel, que a estulticia do tempo
- 754abbade.
- 755O doutor Mesquita foi vexado do demonio da satyra mais cedo que o seu
- 756Escoucinha, espirra, e rincha,
- 757Ouvindo ornear o pechincha,
- 758O abbade sujo e devasso, etc.
- 759A isto o concitavam as gargalhadas de alguns seus contemporaneos; e a
- 760O abbade Mormo ergueu-se de sobre uma alfombra de relva onde parecia
- 761sopitado, e bateu as palmas, apenas soou o mote.
- 762Boas noites! vou-me embora;
- 763Nem me apraz soffrer o mono,
- 764Oh! quanto melhor lhe fora
- 765Ter as facas amoladas,
- 766E ir cortar as colladas
- 767No outeiro sanguinoso,
- 768Em quanto eu louvo ditoso
- 769podia com o adversario; mas sobravam-lhe alli admiradores que o
- 770defenderam, immolando-lhe o nariz contuso de Mesquita. Acudiram os
- 771amigos do doutor, e a briga assanhou-se entre os dous partidos a ponto
- 772com o riso as monjas velhas. As criadas estendiam as bugias e lanternas
- 773apagassem as luzes, e mandou tocar a silencio. Meia hora depois, os
- 774conventual, e passaram o restante da noite em regalado somno, excepto os
- 775dous conegos bracarenses, que d'alli se partiram logo para suas casas
- 776clamyde grega, e os cabellos descompostos, improvisou um soneto, que
- 777Transfigura em cajadas os cajados
- 778Que pozeram em fuga os desalmados
- 779conta da desordem, e do receio que se ella repetisse. Conjuraram muitas
- 780diligencias de algumas senhoras, que muito podiam com elles.
- 781vates, salvo Maria da Gloria que passava a noite no quarto de soror
- 782Joanna, recontando-lhe pormenores da sua feliz infancia, e tristonha
- 783supplica:
- 784pergunto a mim mesma que virtudes novas tenho eu agora para merecer que
- 785como tenho sido.
- 786estava sentada, e conseguiu-o coadjuvada por Maria da Gloria. Esta, sem
- 787convite da santa, ajoelhou tambem, e ouviu da freira estas brandas
- 788palavras:
- 789queixe. Job tinha uma pedra por leito, e outra com que se alliviava da
- 790tirou do ventre materno. A misericordia divina perdoou-lhe ao tom
- 791Afervore-sa e rese commigo.
- 792disse:
- 793crucificado.
- 794na freira.
- 795Soror Joanna sorriu e disse:
- 796comprehende.
- 797tremiam de modo, que ella chamou Cecilia para se amparar.
- 798pessoas a apear dos cavallos, e umas senhoras saltaram das liteiras, e
- 799seio misericordioso do Senhor.
- 800Novos estrondos se aproximaram do quarto, e logo entraram tres senhoras
- 801sobrinha de Manoel Teixeira. Com estas senhoras vinha tambem Alvaro, a
- 802humildade: era a criada Eufemia.
- 803As senhoras cercaram Maria da Gloria, chamando-a todas, e perguntando
- 804cada uma se a conhecia ainda. Leonor dizia-lhe que era a sua sobrinha.
- 805Alvaro dava-lhe aquelle doce nome, a cujo som toda ella se estremecia.
- 806Eufemia, essa, obscura a um canto do quarto, estava como esperando que
- 807sua ama a chamasse.
- 808passagem.
- 809Maria da Gloria abrira os olhos apavorados, relanceando-os por todos
- 810com tamanho impeto, que foi preciso ampararem o grupo as senhoras mais
- 811chegadas. Leonor acudiu de novo dizendo quem era. Maria fitou-a com
- 812amor, e disse-lhe:
- 813conhecia.
- 814deixa envelhecer... E a mim conhecerme-hiam?
- 815seu proprio assombro.
- 816esbeltas matronas, sahidas das liteiras, e sentiram intumecida a veia da
- 817perguntar aos proprios maridos que senhoras eram aquellas, e por ordem
- 818afoguearam os filhos de Apollo, e em cada labio borbulhou uma estrophe
- 819que se machinava um fogo preso de odes, disse em voz alta, que dava uma
- 820correlativas.
- 821Com estas e outras facecias mantiveram os poetas o outeiro animado,
- 822curiosidade.
- 823Ficou de memoria a primeira quadra de um soneto declamado n'esse
- 824intervallo pelo doutor Ferro:
- 825Seja um vulto qualquer... uma garrafa!
- 826VII
- 827Manoel Teixeira esperava encostado a uma columna do portico. Os amigos
- 828receiavam o effeito do abalo que a primeira vista de Maria da Gloria
- 829devia fazer-lhe.
- 830differente d'aquella gentil dama, que era Maria da Gloria ha onze annos.
- 831No ar do convento dizem os santos que as almas respiram regaladamente;
- 832esquerdo de Alvaro. A luz, que as alumiava, era de tochas de cera, ao
- 833affectuoso sorriso:
- 834nem mesmo aos maridos penitentes.
- 835dobrara o joelho diante d'ella.
- 836lagrimas e gemidos.
- 837e o mesmo fez ao cunhado, que a saudou com esta tirada de palaciano e
- 838enamorado de todas as palacianas:
- 839marqueza bem conservada, e soubera que a marqueza repetira em ar de
- 840bella como foi.
- 841Maria da Gloria riu-se, e as senhoras de Lisboa com ella, mas
- 842delicadamente. Ao mesmo tempo espirraram de um grupo uns frouxos de
- 843bravia, como a abbadessa lhes chamava, que traziam o mosteiro em
- 844perguntou-lhe se o menino ficava.
- 845consentir, podem tambem ficar. O patriarcha S. Bento tudo tolera hoje,
- 846vamos com Deus.
- 847Fecharam-se as portas. Maria passou a noite de vigilia, com o seu leito
- 848rodeado das antigas amigas, das freiras mais da sua alma, e do filho
- 849acariciado, que adormecera com a fronte encostada ao travesseiro de sua
- 850d'algum leitor.
- 851Diz elle:
- 852occasionadas pelo encontro de Maria da Gloria e Manoel Teixeira. Fiquei
- 853logrado. Nenhum d'elles disse cousa que fizesse chorar, nem escassamente
- 854era que devia ostentar os thesouros do seu estilo lamuriante. Nem um
- 855aprendiz de romances deixava, pelo menos, de tirar do peito do marido
- 856em cinco minutos. Que ella perdoasse, isso sobre ser justo, era
- 857dramatico; todavia, a palavra misericordiosa devia fugir-lhe do
- 858novella, e a venderem-se mais alguns milhares de volumes. Escrever as
- 859ou leu, ou lhe contaram?! E como dizerem que o theatro deve ser a
- 860assim?! Deixar o author correr glacialmente aquella scena da portaria do
- 861convento! Ainda agora podiam estar os conjuges a dissertar a respeito
- 862entre Manoel Teixeira e sua esposa, se commovessem, porque lhes viram
- 863levantam os romancistas da moda. Fique-lhe, pois, de memoria esta
- 864Respondendo, digo ao leitor sisudo que me conformo com o seu parecer, e
- 865molestia: quando muito, para aformosentar a morte com um nome bemquisto
- 866dos poetas, e dos leitores sentimentaes, tenho denominado tisica
- 867nos meus ultimos romances, nem mulher alguma perdida tem sido
- 868verdade, embora a verdade seja descorada e dissaborida aos amigos das
- 869Quem me dera a mim para um dos meus livros uma sombra do renome
- 870d'aquelle romance! Quantos milhares de romances, decantados uma hora,
- 871pensa o leitor que a voragem do esquecimento enguliu, desde que a
- 872obrinha do grande naturalista recebe o tributo de lagrimas, que
- 873N'este genero de escriptos, o sello da perpetuidade grava-o a natureza.
- 874rudezas de alguns raros, que me trazem entre os dentes da sua critica,
- 875Respondi, e volto ao outeiro.
- 876musas roufenhas da friagem matinal. As damas lisbonenses, captivas da
- 877novidade do outeiro, nem se deitaram, e com Leonor andaram, de grade em
- 878grade, pedindo que lhes ensinassem a dar motes. Notaram as freiras que
- 879particularmente a menina, se o verso que lhe davam era para assumpto
- 880proferindo eom certo requebro as palavras do verso. O pae, que andava,
- 881como dissemos, entre os poetas, regosijava-se de ouvir a voz da filha, e
- 882como tal a apresentava aos trovadores embellecados da voz argentina e
- 883insinuante, que ella tinha. D'estes, o mais verde em annos, e mais verde
- 884convertendo-os em madrigaes. Leonor estava encantada de ouvir o seu
- 885Disseram-lhe que era um filho segundo de uma nobre casa de Villa do
- 886amorosos sonetos. Viu-o, e ouviu-o em prosa, e achou-o na sympathia
- 887igual ao poeta. Disse-lhe de entre as grades um adeus affectuoso, e foi
- 888aos quatorze annos.
- 889VIII
- 890Nunca velhaco algum mais destro fora.
- 891PLAUTO.
- 892sahiram com Alvaro para o recinto exterior da grade mais ampla do
- 893mosteiro. Ahi eram esperadas pelos cavalheiros, tirando Manoel Teixeira,
- 894a seu marido estas linhas:
- 895trouxeram a esta casa. Sobeja e inutilmente te fallei da minha
- 896Providencia escuta os innocentes e os criminosos.
- 897disse-lhe:
- 898em mulher que padeceu tanto! Pergunta-me se eu posso amar meu filho, e
- 899mais nada. E que mais queres tu de mim, Manoel?
- 900sem lagrimas--Esqueces o meu pedido?
- 901Manoel Teixeira obedeceu a sua mulher e contemplou-a em silencio, a
- 902agonia mortal, tormento sem nome, nem remedio, quando a piedade recusa
- 903abrir-lhe o espiraculo das lagrimas. Que via elle? As reliquias d'uma
- 904grande formosura, os cabellos brancos, as palpebras roxas, as rugas
- 905ser esta a pergunta que elle a si se fez, quando o choro lhe borbulhou
- 906dos olhos. Que fizera elle? Vivera em toda a parte a vida exterior da
- 907de Paris. Em quanto a esposa pura d'alli pedia uma visita de seu filha
- 908unicamente, e deixava ao pae o gozo inteiro das regalias do seu
- 909patrimonio d'ella, quem era aquella mulher que, fatigada de felicidade,
- 910se reclinava na espaldar-setim das suas carruagens, e se aborrecia do
- 911depressa mitigar as saudades da esposa com as venaes caricias da
- 912grangeado pelo incansavel lavor d'um pae, que a si tirava o que lhe
- 913Devia ser este o affligido meditar do negociante, ou maiores seriam suas
- 914Acudiu Maria a erguel-o, e disse-lhe:
- 915Vamos sahir, que me sinta aqui sem ar. Vamos experimentar as minhas
- 916que eu vejo, ha onze annos, da minha cella.
- 917Manoel Teixeira recobrou vigor dos alentos e sorrisos de sua mulher.
- 918me disseres que sim... De resto... como poderias tu ser feliz, se ha
- 919Deus!...
- 920Teixeira sentiu o golpe involuntario d'estas palavras, e murmurou:
- 921Deus!...
- 922As familias, reunidas na grade, sabendo que os esposos tinham sahido do
- 923sua felicidade.
- 924Quando se ajuntaram, continuou o morgado dos Olivaes:
- 925Riram todos, porque de todos era sabido o projecto de matrimonio entre
- 926os dous primos.
- 927perdeu a noite, e perderia a vida, se elle lhe promettesse uma
- 928eternidade de sonetos.
- 929versos, meu filho?
- 930tu ser freira para gozares as delicias d'um outeiro de tres em tres
- 931annos?
- 932convento! Antes morte que tal sorte!
- 933calumniavam.
- 934defendia encarecendo a felicidade dos mosteiros, quando reina a paz no
- 935e Leonor, estremecendo, exclamou:
- 936deixal-a fallar.
- 937Miguel de Sotto-Mayor tinha chegado ao grupo, e cortejou-o com
- 938poetas portuguezes!...
- 939minhas poesias incultas e sem mais merito que o da natureza.
- 940O poeta foi indo no grupo, respondendo com frivolidades a outras do
- 941penetrante dos olhos de Leonor, que parecia embevecida nas palavras
- 942d'elle.
- 943Esmerou-se a communidade em lauto e primoroso banquete n'aquelle dia. A
- 944amplamente a regra da ordem, admittindo as familias de Lisboa a jantarem
- 945lhes comiam.
- 946Os hospedes do convento sahiram ao cahir da tarde para o cruzeiro do
- 947pateo. Era um formoso intardecer de estio o d'aquelle dia de Setembro.
- 948melancolica senhora respondia:
- 949mais tarde, nunca sahiria d'aqui.
- 950Manoel Teixeira ouvira estas palavras, e interrompeu-as com muita
- 951amargura:
- 952a conformidade, e o amor d'este menino.
- 953Ao diante veremos que nobres e singulares espiritos eram os de Maria da
- 954Gloria.
- 955Estamos na ultima noite de outeiro. A partida das familias para Lisboa
- 956foi marcada para as quatro horas da seguinte madrugada. Os poetas
- 957galhardamente se tiraram da dificuldade. Bons tempos aquelles em que a
- 958poesia era inimiga do somno!
- 959Quem de certo nunca bocejou foi Leonor. O vate de Villa do Conde
- 960soneto, impetuosa e energica; na decima, toda em flores e maviosidades.
- 961O Ferro ouvira-lhe alguns versos de relance, e cantou-o assim n'um
- 962A pomba enamorada e toda secia!
- 963Cuidado! que a virtude soffre um tombo,
- 964E vamos ter alguma peripecia!
- 965Miguel de Sotto-Mayor, posto em riso pelas chufas da plebe, azedou-se
- 966contra o repentista portuense, e quiz desafial-o. Intercederam as
- 967senhoras religiosas, conscias do conflicto, e Leonor pediu com ellas,
- 968Ora o Ferro, que fingira escassamente entender que o desafiavam,
- 969apasiguada a sanha do trovador de Villa do Conde, deu mostra da sua
- 970impenitencia n'um soneto de cujos tercetos resta memoria:
- 971Matarem-me por causa d'um remoque!...
- 972Se me elle ao ventre aponta o agudo estoque,
- 973Que diluvio de vinho e de pasteis!
- 974roda das senhoras, e sumir-se entre as criadas, que conversavam em prosa
- 975com os seus conhecidos, em janellas afastadas dos pontos concorridos.
- 976tambem do local dos seus triumphos, dando a desconfiar de que sahira
- 977estomagado das facecias do doutor Ferro. As criadas convisinhas de
- 978Leonor ouviram este breve dialogo entre a menina e o poeta:
- 979ter visto, Leonor!
- 980saudades. Jurai-me um eterno amor! Promettei escrever ao infeliz poeta,
- 981primo?
- 982muitas freiras. Maria da Gloria tinha entrado no quarto de soror Joanna
- 983da religiosa e de Cecilia. Voltara a si, rompendo em gemidos, como se a
- 984menino. A santa, simulando coragem, impunha-lhe o dever de demudar o
- 985phrenesi o filho, cobrou animo para trocar por elle a amisade angelica
- 986d'aquellas senhoras.
- 987encontraram soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor. Findos os psalmos,
- 988a santa ergueu a sua voz, sempre ouvida como a palavra d'um anjo, e
- 989disse:
- 990os mysteriosos juizos de Deus lh'as reservam.
- 991Meyrinho moor saude. Sabede, que a abadessa do de Vairam mi envyou dizer
- 992veem a este moesteyro comer as turas e albergar i desmesuradamente, e
- 993con mays ca he contheudo no meu Degredo, de guisa que ela e as outras
- 994moesteyro; isto non tenho eu por bem, se asi he; por que vos mando que
- 995me tornaria eu porem, e faryavos coreger de vossa cassa todos danos,
- 996IX
- 997Em breves termos darei conta do viver de cinco annos em casa de Manoel
- 998Teixeira de Macedo. Seria talvez do agrado do leitor a historia
- 999minudenciosa dos menores actos, que naturalmente se encadearam para
- 1000engano. As primaveras da alma, se a aza negra d'uma tormenta as esfolha,
- 1001nunca mais reverdecem; e os algozes, que afiam o gume de seu orgulho
- 1002chaga abrem de remorso que nem o balsamo do arrependimento a cerra.
- 1003Maria da Gloria, ao entrar em casa de seu marido, lhe disse a elle, sem
- 1004testemunhas:
- 1005habitos. Continua a ser o que eras antes de me ir buscar para a tua
- 1006companhia. Nada te pergunto do teu passado, nem quero que m'o digas:
- 1007basta que eu o tenha ouvido da malevola curiosidade de pessoas, que,
- 1008ainda ha quinze dias, te absolviam a ti para me infamarem a mim. Isto
- 1009bastaria para eu odiar o mundo, e presar viver em odio d'elle. A tua
- 1010depender o teu bem-estar. Disseste-me que eras, em tua casa, meramente
- 1011conhecel-a nos extremos com que ama teu filho, e na estima respeitosa
- 1012com que ha doze annos te presava. A mesma te sou hoje e serei sempre.
- 1013E cumpriu religiosamente.
- 1014Aquella italiana do palacio de Belem achou-se de repente augmentada em
- 1015riqueza; mas a riqueza era o ultimo saldo de contas. O millionario
- 1016dera-lhe, com o dinheiro, o conselho de retirar-se a Napoles com os dous
- 1017filhos. A cantora ficou com o dinheiro, e devolveu-lhe o conselho. Se
- 1018ostentou-se redobrando a magnificencia da napolitana. Quiz Manoel
- 1019e amigo as lagrimas de alegria.
- 1020sabia era muito pouco comparativamente ao que ella me ensina. Disse-me
- 1021o ar sombrio de meu pae. Falla-lhe com brandura e contentamento a ella;
- 1022involuntariamente o mortifica com os signaes do sofrimento a que elle a
- 1023aos effeitos dos padecimentos passados...
- 1024policia a Manoel Teixeira.
- 1025Em 1830, o negociante abandonou inteiramente o trafico commercial.
- 1026estado era relativamente limitado. As antigas equipagens tinham sido
- 1027reduzidas ao indispensavel. Maria da Gloria apenas ia com seu filho aos
- 1028era a sua constante companhia. As antigas amisades de sua casa retiraram
- 1029ofendidas do ar ceremonioso e reservado com que eram recebidas, e mais
- 1030bem-vindas palavras ao quarto de Maria da Gloria eram as cartas de
- 1031religiosas, a quem ella respondia sempre. As de soror Joanna cessaram ao
- 1032Manoel Teixeira peorava de dia para dia. A medicina aconselhou-lhe os
- 1033ares de Italia, depois um passeio recreativo pela Europa. Perguntou a
- 1034sua mulher se o acompanhava, e ella respondeu que a magoava a pergunta,
- 1035vontade. Lembrou-se o pae de Alvaro levar tambem Leonor. Maria approvou
- 1036sequer por condescendencia contrafez o desgosto de tal viagem. Disse que
- 1037desculpas que dispensassem a filha.
- 1038Maria da Gloria, como adivinhasse a tristeza do filho, fallou-lhe assim:
- 1039Alvaro corou, e balbuciou.
- 1040Maria proseguiu:
- 1041diante de teus olhos? A chave das maravilhas d'este mundo ha-de dar-t'as
- 1042primoroso. Esquece Leonor, filho. Faz de conta que viste uma vibora
- 1043confessar-se. Estas linhas escriptas de Alvaro a Leonor dizem mais:
- 1044ao nosso amor, Deus sabe os motivos, que tens para ficar. Lembra-te de
- 1045No dia seguinte, veio o morgado e a filha a Lisboa.
- 1046Brito a Maria da Gloria--A mana lembra-se d'aquelle poeta, chamado
- 1047Miguel de Sotto-Mayor?
- 1048respondeu que viera a Lisboa, e andava visitando os arrabaldes. E o caso
- 1049Maria da Gloria.
- 1050prima...
- 1051atoucinhados como o author.
- 1052poderei, lendo os teus versos, tomar gosto pela poesia.
- 1053poeta de Villa do Conde, e concluiu d'elle para a visita aos Olivaes.
- 1054Apenas nascido, o abutre do ciume recurvou-lhe as garras no seio. A
- 1055pelos afagos d'elle.
- 1056d'elle.
- 1057corada por um suave sorriso de artificio.
- 1058por estas palavras no seio d'ella:
- 1059Gloria--Lembre-te isto sempre, meu filho.
- 1060Sahiram para Veneza.
- 1061X
- 1062Miguel de Sotto-Mayor, decorridos dous dias, appareceu nos Olivaes, de
- 1063volta de Sacavem, e Villa-Franca, para acceitar a honrosa hospedagem de
- 1064digo com respeito ao morgado.
- 1065Leonor sabia que Miguel de Sotto-Mayor alli vinha. O juramento, feito em
- 1066dezenove. Recebera sempre cartas, e respondera a todas do seu poeta, na
- 1067escrupulisavam em murmurar do proximo. Fora elle academico, duas vezes
- 1068riscado por contumaz na desordem e outros effeitos da vinolencia. Este
- 1069vicio dominava-o no seio da familia, e desafogava por maus tratos e
- 1070impossivel nascer em Villa do Conde o Byron de Portugal. Em verdade, as
- 1071Em 1828, morrera o morgado, e succedera Miguel no vinculo, onerado de
- 1072aos maus: gente van dos seus juizos que quer com olhos do rosto abranger
- 1073o infinito dos juizos divinos.
- 1074Constituido senhor da casa, vieram de seu os desperdicios, com o nome de
- 1075sua. Os sustentaculos d'esta dignidade estavam na estrebaria: eram-os
- 1076arrogantes cavallos, que escouceavam os velhos machos de seu pae.
- 1077Posto que Miguel de Sotto-Mayor mantivesse correspondencia com Leonor de
- 1078passatempo, e outras calculo. Em quanto filho segundo, convinha lhe o
- 1079sabia ao certo o valor da morgada dos Olivaes. Depois que succedeu no
- 1080N'estas tentativas, malbaratou novos empenhos levantados sobre a casa, e
- 1081em menos de dous annos--eram-lhe escassos para viver limpamente os
- 1082rendimentos d'ella.
- 1083Tinham assentado n'isto, quando Miguel de Sotto-Mayor, explorando o
- 1084consequencias d'ella.
- 1085se faz recommendavel pelos dous cavallos e lacaio. Ahi, primeiro,
- 1086desenrola o hospede os pergaminhos da sua linhagem, e diz quantos reis
- 1087pintura.
- 1088nobreza ao ouro das classes mecanicas. Sotto-Mayor verberava os indignos
- 1089herdeiros d'um castello avoengueiro, que o arrazavam para erguerem pala
- 1090perguntou o de Villa do Conde se era irrevogavel o plano de tal
- 1091casamento, descrevendo o mau estado da sua casa, e a necessidade de
- 1092conforme nos seus calculos, e no conhecimento do seu desvaliado dote.
- 1093traziam planos de completarem sua ruina.
- 1094Miguel de Sotto-Mayor mandou apparelhar os cavallos, esperou no pateo
- 1095por que hei-de fazer contas com elle, quando for seu genro.
- 1096para Lisboa, e deu-a em guarda a parentes, que lhe vigiavam as minimas
- 1097das Commendadeiras, e esperar alli que seu primo voltasse da viagem para
- 1098Miguel de Sotto-Mayor, abonado e recommendado por cartas que apresentou
- 1099pretendente, e foi em pessoa ao convento para despersuadir a filha
- 1100do ministro, havia de ser o herdeiro dos centenares de contos de seu pae
- 1101tentativa que os muros e grades do convento. Apesar de sua ousadia, o de
- 1102Villa do Conde receiou que o Limoeiro lhe embargasse o passo. A
- 1103delineado o plano por cartas a Leonor, sahiu de Lisboa.
- 1104perdoa a innocente volubilidade d'uma menina, engodada por um homem
- 1105succedido estes episodios trinta vezes, e raras sahem d'elles com a sua
- 1106Replicava a tudo isto Leonor instando por sahir do mosteiro, e
- 1107digna de desculpa. A passo igual cresciam as suspeitas, e o morgado
- 1108do descredito, abstinha-se de os aventar primeiro. Pareceu-lhe heroica e
- 1109byroniana a fuga da morgada. Deu-se pressa em chegar a Lisboa, avisando
- 1110depois que chegava a Lisboa, era preso por malhado, e conduzido ao
- 1111Olivaes, e, conscio d'ella, deu-lhe o nome que ella devia ter;
- 1112chamou-lhe infamia. Contra vontade do intendente geral da policia, chefe
- 1113Mattos: adoptou o conselho de sahir de Portugal por algum tempo, unica
- 1114Mattos, suspeito liberal por este e semelhantes actos de consciencia
- 1115Por esses dias, recebeu Leonor esta carta de Alvaro:
- 1116escrever-te estas linhas. Estava tudo prompto para a partida, quando meu
- 1117nunca desamparou o leito do infeliz, que parecia contar os instantes de
- 1118cada dia:--Que tristeza! contemplar-vos, amar-vos tanto, e ter n'esta
- 1119agonia a certeza de que hei-de deixar-vos breve! Viver sem ti os
- 1120melhores annos da vida, minha querida esposa, e chamar-te para mim,
- 1121Maria, que me deixe viver tres annos por amor de ti e d'este filho,
- 1122por todos que te injuriaram, e te mataram, primeiro que a meu pae...
- 1123Portugal. Adeus, minha querida Leonor. Chora uma lagrima, que t'a
- 1124merecem os infelizes que mais te amam n'este total desamparo, de amigos.
- 1125violento de Miguel de Sotto-Mayor.
- 1126phreneticos da morgada.
- 1127XI
- 1128qu'elle remerciait tous les
- 1129soirs, de son esprit, et qu'elle le
- 1130depois da morte de seu marido, chegou a Lisboa. O pae, temendo que a
- 1131Olivaes, e cuidou em amaciar-lhe a braveza com os antigos carinhos e
- 1132Alvaro, no dia immediato ao da sua chegada, recebeu recado urgente de
- 1133sobre este designio de seu pae?
- 1134lagrimas que viu na face de um velho, e por ellas lhe rogo que, em meu
- 1135que lhe matei a felicidade de toda a vida.
- 1136perdoou.
- 1137d'ellas, contou o successo, e fez de joelhos a supplica. Maria da Gloria
- 1138que eu perdoo a quantos me fizeram mal; e a este, que peccou, e se
- 1139accrescentou em voz alta:
- 1140sobrinho era pobre, e morreria pobre. Disse-m'o em elogio da sua
- 1141felicidade; mas restituiu-t'a para o amor.
- 1142apontando para um grande painel, disse:
- 1143Agradeceu Alvaro a dadiva, e ajudou a deslocar o quadro, para o levar
- 1144comsigo. Foi esse mesmo o que eu vi nas ruinas dos Olivaes.
- 1145propheta do seu repouso. Finou-se com pouco tempo de desterro. A sua
- 1146ultima carta ao filho de Maria da Gloria era uma reminiscencia dorida
- 1147que a virtude e a paz d'uma mulher se despenhavam com a honra d'elle.
- 1148Esta carta denotava desconcerto de espirito; e, por ser a ultima, de
- 1149perto se seguiu o apagar-se aquella grande luz, que de mais, no entender
- 1150dos magnates e dos aulicos, alumiava a ignominia e a protervia
- 1151paternaes, e segura base para o amar e respeitar no futuro com o amor e
- 1152espirito de Maria da Gloria.
- 1153soledade com seu filho era tudo o que lhe restava bom e acceitavel
- 1154n'este mundo. Leonor, algum tanto desvanecida de Miguel de Sotto-Mayor,
- 1155industriada por amigas e parentas, mostrou affavel sombra ao primo, por
- 1156entre uns gestos de tristeza insinuante. Dizia ella que um anno de vida
- 1157phantasiando-a com elle na vida do campo, na ausencia dos esplendores
- 1158ou encarecendo-lhe as virtudes do filho, ou pedindo-lhe conselhos para o
- 1159igualar em merecimentos.
- 1160Gloria ouvia a sobrinha, notando-lhe a sagacidade, em que fora
- 1161industriada pelo pae ambicioso, e pelas mulheres da roda illustre,
- 1162tivesse dezoito annos, nada pedia nem acceitava dos grandes haveres de
- 1163tantos desgostos e vexames com o seu proceder. Esta, que os principiava
- 1164a sentir em certas faltas que a superabundancia sem regimen faz
- 1165da tia.
- 1166as duas ultimas. Tinham estas referencia aos oito annos de sua idade, e
- 1167Leonor depoz o manuscripto, e disse triste:
- 1168Leonor, sem demora de pensar, continuou assim a escripta:
- 1169vejo sempre; mas esquecel-a-hei quando a mulher, que vagamente me falla
- 1170Alvaro leu, fitou os olhos em sua prima, e disse:
- 1171dizendo, beijou-lhe a face e retirou-se.
- 1172Ai! Maria da Gloria, como has-de tu combater o veneno corrosivo
- 1173d'aquelle beijo?!
- 1174promessas do espirito!
- 1175XII
- 1176Viu Maria da Gloria seu filho amargurado, e mysterioso. Notou igualmente
- 1177a ausencia prolongada de Leonor e do cunhado. Industriosamente, se fazia
- 1178e disse:
- 1179alli tua prima, durante oito mezes.
- 1180Maria abriu a gaveta d'uma escrivaninha, e mostrou a Alvaro uma carta,
- 1181recentemente recebida, de uma senhora, sua amiga de collegio, que a
- 1182carta. Era isto o prologo de miuda noticia de todos os actos de Leonor,
- 1183provam mais, arrependimento ou astucia? A culpa arrepende-se,
- 1184com vehemencia e magestade:
- 1185minhas contas com o infortunio estejam saldadas, casa embora com Leonor.
- 1186lagrimas.
- 1187querido Alvaro... Fazes-me a vontade?... Olha... estuda dous annos o
- 1188caracter de Leonor, espera-lhe o desenvolvimento que ella ha-de ter
- 1189n'este praso; e, se, decorridos dous annos, a vires igual, toda
- 1190lhe dar a ella.
- 1191estava na alma. A carta da commendadeira estava ainda alli sobre a
- 1192Coincidiu com estes successos a vinda do morgado dos Olivaes, a convidar
- 1193palavra resabiada de despeito, nem o semblante de Maria denotou
- 1194Duas noites mal dormidas, um defluxo, uma dispepsia, sombream o aspecto
- 1195das cores morbidas de uma certa tristeza, que fica bem. Pode ser, e de
- 1196atmospherico, da insomnia, e do alimento indigesto; mas a critica de
- 1197Se aos trinta e aos quarenta annos ha muita gente que se prende ao visco
- 1198d'esta armadilha, que fariam os dezoito annos de Alvaro Teixeira?
- 1199Sinceramente acreditou que sua prima padecia as dores do arrependimento
- 1200congelasse subito.
- 1201primo.
- 1202serenamente Alvaro.
- 1203Purifiquei a minha alma das manchas que me deixou a indiscreta
- 1204aos treze annos. Aqui tens o que fiz no convento das commendadeiras,
- 1205Alvaro. Quando alguma mulher virtuosa te fizer semelhante pergunta,
- 1206Retirava-se; mas Alvaro susteve-a, e disse-lhe com muita ternura:
- 1207seu rir das minhas loucuras era como atirar lama ao rosto de quem
- 1208Alvaro ficou n'aquella janella com os olhos sempre fitos na mesma
- 1209estrella. Era alli que elle a via e ouvia, vinte e nove annos depois,
- 1210de compadecer-se nas dores alheias!
- 1211de victima contente do seu martyrio. Depois dos applausos, sentou-se
- 1212ausencia?!
- 1213vaidade da sua virtude soffredora, e seria intolerante commigo.
- 1214Alvaro--Eu queria que te ella amasse como a mim, e sei que tu o
- 1215perdoam nem sabem os amargos descontos da leviandade... E de
- 1216foi o meu? Em que perdi? que desaire pratiquei de que deva
- 1217envergonhar-se meu futuro marido, ou minha futura sogra?
- 1218Alvaro ia responder, quando viu o rosto inflammado e o olhar sinistro de
- 1219artificio, e mostrando-se em toda a sua deformidade e nudez. A menina
- 1220estorcia-se na cadeira, o arquejava de modo que lhe rangiam os
- 1221incommodada.
- 1222sobre o que dizia respeito a ella, e o conflicto do collete.
- 1223dous annos, e vagar para estudal-a.
- 1224Decorreram oito mezes, sem, que Alvaro descobrisse sensiveis
- 1225desigualdades no amor de sua prima. Se a encontrava triste, a si se dava
- 1226conta d'aquella tristeza, attribuindo-a ao fastio de esperar na
- 1227incerteza. Se lhe ella respondia com enfado agora, a arte corrigia logo
- 1228obteve-o. Este resultado esfriou a actividade do morgado, e comprazeu a
- 1229Leonor.
- 1230visitar algumas das suas amigas que ainda viviam, orar de joelhos sobre
- 1231prelada um aviso regio que concedia a Cecilia viver fora do mosteiro por
- 1232tempo indeterminado na convivencia de Maria da Gloria.
- 1233Uma freira de Villa do Conde, amiga da familia Sotto-Mayor, fallando de
- 1234poetas, disse que Miguel tinha escripto aos parentes, da ilha Terceira,
- 1235olhos de Leonor, e viu-a muito attenta e excitada com a noticia.
- 1236satisfeito.
- 1237pedra musgosa em que me eu sentei com o padre em 1859. Levava Alvaro um
- 1238sarmentos da arvore fez duas grinaldas com arte entretecidas, e as
- 1239Finda esta bucolica, Leonor olhou para o interior de sua consciencia e
- 1240tomar como escarneo e mentira o que para Alvaro estava sendo
- 1241apertando ao seio a incomprehensivel mulher.
- 1242sei o que quero, nem o que digo!... Talvez que o mais acertado fosse
- 1243desejar a morte...
- 1244os esperavam Maria da Gloria e Cecilia.
- 1245Quando, alta noite, Alvaro ia contando na carruagem a mysteriosa scena
- 1246do bosque, Maria sahiu d'um recolhimento profundo, e disse:
- 1247ainda nada, meu pobre filho!... Espero que a Providencia te abra os
- 1248XIII
- 1249um dos sete mil e quinhentos, e soubera validar-se em intelligencia e
- 1250Sabia Sotto-Mayor que as suas cartas, enviadas do estrangeiro, nunca
- 1251Portugal, aproveitou a desordem dos espiritos, e expediu aos Olivaes um
- 1252caminheiro sagaz com carta a Leonor, prevenindo-a da sua chegada, caso
- 1253pernoitou na propria casa de Leonor, disse aos criados que vira
- 1254sua filha. Em quanto aquelle, praguejando contra malhados e
- 1255agourando-lhes derrota inteira em quinze dias, passeava na sala
- 1256A sobresaltada menina sahiu da sala, e leu a longa carta com arrebatada
- 1257Miguel, exhaurida a linguagem maviosa do amor, fallava da sua
- 1258infiel aos juramentos.
- 1259Respondeu Leonor contando-lhe mentidamente o assedio em que seu
- 1260vira.
- 1261estrada real, e o confidente, espiando hora propicia, entregara a carta,
- 1262e planeara o momento da fuga.
- 1263Era no ultimo dia de Julho d'aquelle anno de 1832.
- 1264e foram gozar a fresca da noite nos Olivaes, com o intento de levarem
- 1265Leonor, no dia seguinte, ao valle de Santarem, onde a viuva tinha um
- 1266A inesperada visita conturbou Leonor. Era aquella a noite da fuga, e o
- 1267sombra de desistencia.
- 1268lua!...
- 1269E Alvaro replicou:
- 1270Foram. A superficie do lago estava em verdade encantadora. A bacia era
- 1271saltitavam uns insectos cujas azas reluziam douradas pelo luar. A
- 1272cada circulo uma zona de prata.
- 1273deves sentir agora!...
- 1274Tudo isto diz melhor o que sentimos do que a pobre linguagem do homem...
- 1275o amor eloquente de Alvaro, que n'aquella noite fora mais que nunca
- 1276eloquente; e amante.
- 1277Soaram os tres quartos depois das onze.
- 1278capuz?
- 1279Apenas Alvaro desappareceu no fundo da rua fechada de murtas, Leonor
- 1280d'este passeio, desceu por degraus a um pomar de laranja, e tirou da
- 1281emplumado. D'alli seguiu rente com o muro da quinta, e abriu uma pequena
- 1282poucos passos, estavam as cavalgaduras, e o caminho franco para celerada
- 1283fugida.
- 1284Alvaro tinha pedido a capa com aquella pressa do amor que nas menores
- 1285cousas se desvela e impacienta. O morgado acudiu perguntando o que tinha
- 1286Quando abordaram o lago, ouviram Alvaro chamar Leonor.
- 1287fosquinhas!...
- 1288Gloria.
- 1289dando gargalhadas do seu logro, e da esperteza da menina.
- 1290ella no laranjal.
- 1291E foi com o sobrinho pelo caminho, que ella seguira. Correram o pomar, e
- 1292viram aberta uma janella.
- 1293Tentou saltar ao caminho; mas o instincto do rheumatismo da perna
- 1294os servos; mas ninguem o ouviu: dormiam todos. Chegavam n'este conflicto
- 1295acharam Alvaro encostado ao tanque, como se fora uma estatua de adorno.
- 1296aqui?!... Deixe-me ver se esta agonia acaba commigo.
- 1297Maria da Gloria sentou-se ao lado do filho, invocou a alma da santa de
- 1298quando no palacete se levantou grande rumor de vozes, de portas, e de
- 1299passos. O morgado mandara apparelhar cavallos, e destinou um criado para
- 1300a estrada de Lisboa, e outro para Villa Franca. Maria da Gloria disse a
- 1301ordem, ergueu-se, e disse chorando:
- 1302martyrio envergonham a fraqueza de quem succumbe... Hei-de viver, minha
- 1303Alvaro, perpassando certos sitios, parava, e contemplava-os alguns
- 1304instantes. Ao sahir do jardim, voltou-se de rosto para elle, e
- 1305articulou:
- 1306tivera tempo de estudar a topographia do terreno, e atravessai o por
- 1307tomou um hiate, e desembarcou a salvamento em Mathosinhos, quando a
- 1308esquadra de D. Miguel se estava batendo com a de almirante Sartorius,
- 1309defronte de Vigo, e a costa do Porto era de facil accesso.
- 1310Miguel de Sotto-Mayor foi surprehendido nos trabalhos do
- 1311entrincheiramento por Leonor, e apresentou-a como esposa aos seus
- 1312camaradas, attonitos da formosura d'ella. O titulo com que a apresentara
- 1313foi d'ahi a poucas horas confirmado pelo primeiro padre, que em sua
- 1314consciencia se julgou idoneo para supprir o consentimento paterno.
- 1315pendia d'elle a dignidade de Leonor, e o respeito de si proprio.
- 1316batalhas. Seria falsear a chronica affirmar que o poeta se achou muitas
- 1317vezes ao lado dos Garretts e Herculanos que mordiam o cartucho com tanta
- 1318especulativos, conseguiu empregar-se nas rodas intellectuaes d'aquelle
- 1319espirito, que chegou ao termo da guerra com as carnes intactas, e grande
- 1320dos valentes era sua filha.
- 1321Abriram-se as linhas, entrou o exercito libertador em Lisboa, e Miguel
- 1322um dos expedicionarios. Dias depois chegou a Lisboa Leonor, e procurou
- 1323noticias de seu pae. Soube que sahira dos Olivaes para uma quinta do
- 1324odios politicos.
- 1325tinham tido a temeridade de ficar em Lisboa, sem receio dos barbaros
- 1326invasores. Ir para Lisboa, quando toda a sua gente fugia, excepto ellas,
- 1327pareceu-lhe cousa de aproveitar, e foi.
- 1328Leonor recebeu-o com muito carinho; deu-lhe de seu marido uma conta que
- 1329invejariam anjos; ostentou felicidade nos menores incidentes da sua
- 1330gloriosa aventura; convenceu o pae de que o seu destino era aquelle, e
- 1331rematou pedindo-lhe novas de seu primo.
- 1332Pobre rapaz!...
- 1333pae. Uma mulher deixa muitas vezes de seguir o anjo do seu destino para
- 1334indole. A mulher sacrifica-se; e o homem, a quem se deu, passado tempo,
- 1335perfeitamente o envez do meu. O que seria eu agora com elle? Uma mulher
- 1336muito rica e muito enjoada da minha riqueza. Assim que sou? Uma esposa
- 1337comprar um capricho. E elle? Soffreu no seu orgulho, soffreria tambem no
- 1338outra. Ora aqui tem, meu pae!
- 1339tingindo umas mechas de cabello, que tinham passado do branco ao
- 1340escarlate.
- 1341XIV
- 1342Levantado o cerco de Lisboa, Miguel de Sotto-Mayor foi visitar as
- 1343herdades de seu sogro, e soube dos caseiros e feitores que os bens
- 1344os rendimentos de cincoenta annos, se os credores chamassem o morgado a
- 1345Leonor doeu-se do modo secco d'estas palavras, e respondeu:
- 1346aquella.
- 1347Convem saber que os haveres de Miguel de Sotto-Mayor em Villa do Conde
- 1348terra e dos foros haviam adiantado as rendas de alguns annos,
- 1349descontando n'ellas a perigosa hypothese de morrer o administrador do
- 1350vinculo, e apossar-se o legitimo successor dos bens desonerados.
- 1351Sotto-Mayor fez o que faziam todos os camaradas: pediu um emprego, e
- 1352ajuizou-se merecedor de tudo o que pedia. Deram-lhe uma prefeitura no
- 1353habilidade, e recursos para sustentar-se dignamente. Tornou para Lisboa,
- 1354requereu de novo, e foi recebido dos ministros com frieza, e esperado no
- 1355livro da secretaria.
- 1356Brito. O velho fidalgo abandonava os processos sem contestal-os. Os bens
- 1357livres foram penhorados, e os de vinculo obrigados pela renda. Ficou um
- 1358palacio em ruinas deshabitado desde o terremoto, os terrenos contiguos,
- 1359e uma quinta, bens hypothecados a Manoel Teixeira de Macedo, quando o
- 1360por um enlace matrimonial dos filhos ambos.
- 1361podesse deitar-se em tabuas suas: insinuaram Maria da Gloria a
- 1362senhorear-se do restante dos bens.. Esta, sem ouvir seu filho,
- 1363respondeu:
- 1364O palacete, onde nascera Leonor, passou ao dominio de um negociante, sob
- 1365Brito depositario d'ella.
- 1366N'estes termos, o espirito de Miguel de Sotto-Mayor passou da
- 1367enfreava as suas, com medo de irrital-o. O velho morgado deixou a
- 1368familia, e foi para Lisboa viver das sopas de parentes.
- 1369Aqui temos face a face estes dous infelizes. Afigura-se-nos que o severo
- 1370tem um cavallo, que o leva para longe do semblante amargurado e
- 1371escondem a ser observada pelos olhos iracundos de seu marido. No recesso
- 1372creremos na muita dor e muita saudade d'aquellas lagrimas, que Leonor
- 1373Alguma nova credora, a quem eu hei-de pagar a carruagem...
- 1374Era Eufemia, a ama de leite de Alvaro.
- 1375feliz?
- 1376trazer-lhe uma encommenda, e dizer a vossa excellencia que, nos fins dos
- 1377palpebras--que a pobre Leonor acceita a sua esmola, e lh'a agradece com
- 1378padeceu onze annos...
- 1379o castigo.
- 1380quando Alvaro entrava.
- 1381Alvaro--Acceitou a esmola!... Pobre mulher!... Deve estar mudada tambem
- 1382de rosto...
- 1383Fiz-te a vontade, Alvaro?
- 1384soccorro?
- 1385culpas estes punhados de ouro, Alvaro. Da antiga Leonor o que resta para
- 1386e de santos estimulos para a caridade, sem lucro de gloria, nem orgulho
- 1387ficou assim pensativa... e fallou n'outra cousa.
- 1388dos olhos como punhos.
- 1389estas perguntas.
- 1390olhos umas pisaduras que parecem de tisica...
- 1391Alvaro recolheu-se ao seu quarto, e escreveu algumas paginas d'uma
- 1392amava Leonor.
- 1393Aqui vai trasladado um fragmento:
- 1394na fronte os espinhos da coroa, que eu, a victima das tuas proprias
- 1395infancia! Com que alma podes tu olhar aquelle lago, aquelles bosques, e
- 1396gozas os tormentos da saudade; mas eu desejo morrer, e, a cada rebate do
- 1397assim. A mim me tem acoimado de paradoxal n'este meu sentir sobre a
- 1398enxovalhos de falsos affectos, com que a civilidade e a conveniencia
- 1399infamam aquelle divino dom da alma humana.
- 1400Miguel de Sotto-Mayor, recolhendo noite alta do seu passeio, achou
- 1401desfortuna domestica.
- 1402miseria. Eu espero a independencia, quando entrarem no ministerio outros
- 1403emprestimo.
- 1404estas horas, Miguel?
- 1405deve ser menos exigente, vive mais commigo.
- 1406involuntarios.
- 1407Houve grande reforma no viver da morgada dos Olivaes: cresceram os
- 1408criados; cuidou-se no aceio da casa; emparelhou-se outro cavallo, com o
- 1409quatro annos; a mesa era servida por criado de gravata branca; algumas
- 1410parentas de Lisboa reconheceram de novo os pergaminhos de Leonor; o
- 1411mil reis mensaes, entregues no principio de cada mez, davam que farte
- 1412para satisfazer as necessidades do luxo.
- 1413Maria da Gloria disse uma vez ao filho:
- 1414recebe de esmola.
- 1415filho--E de que te serve a ti a tua riqueza!? Tens vinte e tres annos, e
- 1416maravilha da sociedade? Queres tu viajar que eu vou comtigo, filho?
- 1417aprender lendo e pensando; tambem distrahem; mas, se ha magoas na minha
- 1418vida, e cuidemos em a dar com menos amarguras aos que soffrem mais que
- 1419XV
- 1420S. MATT.--7. 13.
- 1421A legua e meia distante dos Olivaes, morava, em antiquissimo, solar, o
- 1422morgado de Porto-Alvo, casado com sua sobrinha, filha segunda de uma
- 1423nobre casa de Alemquer.
- 1424Era mui gentil de sua pessoa a dama, e gozava de preclara fama de
- 1425familia, muito aparentada com sua mulher.
- 1426da sua vaidade, que ambas as cousas correm com o mesmo nome. Invectivou
- 1427a deslealdade de seu marido, e o impudor de sua prima de Porto-Alvo.
- 1428Sotto-Mayor recebeu com desagrado os ciumes de sua esposa, e
- 1429despresou-lh'os a ponto de amiudar os passeios a horas mortas.
- 1430Aguilhoada pela raiva congenial da sua indole, Leonor escreveu uma carta
- 1431anonyma ao morgado, prevenindo-o da deshonra, que lhe rodeava o palacio
- 1432de noite, e teria astucia de o visitar na camara nupcial.
- 1433incutira suspeitas, nem de si arguira leveza de espirito. Calou o aviso
- 1434como prudente, e sobreroldou as avenidas da sua casa como acautelado.
- 1435Era uma das seguintes noites disseram-lhe os vigias que, a distancia de
- 1436cem passos, parara um cavalleiro, e se estivera quieto contemplando as
- 1437janellas do palacio; e accrescentaram que, por volta d'uma hora,
- 1438d'alguns segundos.
- 1439tirou-as, e terriveis. Informou-se da janella em que os vigias avistaram
- 1440mulher tossir no leito, paredes meias com o seu, e ao mesmo tempo um
- 1441signal convencionado e mui subtil debaixo da sua janella. Ergueu-se de
- 1442golpe, passou ao quarto de sua mulher, e viu-a na cama; atravessou um
- 1443fora dado o signal. Quando entrava na sala, viu uma criada com um
- 1444A criada respondeu, e o morgado retirou-se ao seu quarto, tranquillo
- 1445como se houvesse descoberto que sua esposa era uma das virtudes
- 1446theologaes em pessoa, e pessoa que fingia dormir profundamente.
- 1447Decorreram tres noites depois d'esta.
- 1448Foram dias e noites de supplicio para Leonor. A consciencia gritava-lhe.
- 1449enfrear o seu ciume.
- 1450Na terceira noite, disse ella a Miguel de Sotto-Mayor, com caricia:
- 1451sobr'olho.
- 1452Freire.
- 1453dia morto.
- 1454da calumnia!... Como sabes que elle foi avisado?!
- 1455dobrar os joelhos diante d'elle.
- 1456Leonor, beijando-a na testa.
- 1457Porto-Alvo.
- 1458punhal, ergueu-se, tornou ao quarto da criada, fechou a porta, e guardou
- 1459ao modo de espanto com que a sobrinha lhe perguntou a causa de tal
- 1460Sotto-Mayor fazia galopar o ginete por uma quebrada de cujo topo se
- 1461avistava o signal.
- 1462examinar a um raio da lua o seu relogio, dous tiros simultaneos lhe
- 1463sobre o estribo esquerdo, viu o ensanguentado. Subiu as escadarias,
- 1464Leonor saltou do leito, e desceu ao pateo a examinar o sangue do
- 1465estribo. Fugiu, como seguida por um espectro; entrou no seu quarto com
- 1466os olhos esgazeados da demencia, e soltou estas pavorosas palavras:
- 1467D'alli em diante, o que ella dizia eram palavras sem nexo, e
- 1468blasphemias, acompanhadas de medonhos tregeitos.
- 1469estrada de Porto-Alvo, por alvitre de um que sabia os segredos de seu
- 1470amo.
- 1471Os segundos, a tres quartos de legua, ao voltar de uma charneca para um
- 1472atalho pedregoso, acharam o cadaver de Miguel de Sotto-Mayor. A
- 1473reconheceram. Camisa e collete cheiravam ainda a queimados: os tiros
- 1474pegaram ao sangue empastado do peito.
- 1475Volveu um dos criados a buscar a carruagem, que devia transportal-o para
- 1476Brito, chamou aos Olivaes algumas familias, a quem as desventuras de
- 1477Leonor tinham restituido a antiga estima. Curaram da sepultura, e a
- 1478e lavrou o auto. Proseguiu na devassa; mas era tudo escuro e
- 1479indecifravel. Entre os parentes da casa, que assistiram ao funeral,
- 1480estava o morgado de Porto-Alvo, de casaca preta e aspecto lagrimoso.
- 1481vista por todos, e perguntou:
- 1482Os circumstantes confirmaram a suspeita do morgado, e lastimaram-a
- 1483tambem.
- 1484devassa, que lhe quero gravar na testa um ferrete com sangue?
- 1485Leonor olhou de revez para quem lhe fazia a violencia, e viu Maria da
- 1486Gloria.
- 1487cavalheiros:
- 1488ella ao seu quarto, e haja ahi uma alma piedosa, que nos dispense de
- 1489cuidarmos do enterro d'esse infeliz. Vamos, Leonor.
- 1490XVI
- 1491Admoesto-te a que me compres o
- 1492meu ouro de fino quilate para te locupletares.
- 1493APOC. 3. 18.
- 1494Os primeiros dias de sua viuvez passou-os Leonor no seu quarto, e Maria
- 1495de sua numerosa parentela aporfiavam em mitigar-lhe as penas, desde que
- 1496aruspices, atarefados em prognosticar a vida alheia, que as segundas
- 1497nupcias da morgada pobre com o filho unico do banqueiro Macedo seriam
- 1498assassinado Miguel de Sotto-Mayor por ordem de Alvaro de Macedo. A
- 1499sociedade teve sempre d'estes carrascos, para assim dizer, encarregados
- 1500criada com um sorriso, e estas palavras:
- 1501Ficou Leonor com seu pae.
- 1502Dizer que a viuva se definhava de dia para dia, consumida de saudades do
- 1503purpura da juventude lhe retingiu as faces, e que o lindo oval do rosto
- 1504se recompoz. Leonor nunca mais foi bella, desde o primeiro dia que se
- 1505viu desmerecida aos olhos do marido pela mesma causa que a sociedade a
- 1506a seiva que as alindava.
- 1507theatros, e nos bailes, passado um anno. Apontaram-lhe os binoculos os
- 1508que hoje.
- 1509Em que pensava Alvaro? Como scismava elle em sua prima? Amava aquella
- 1510que era cinco annos depois. Nunca mais a vira, nem quizera ver. Desde
- 1511que pessoa descuriosa lhe disse, sem proposito, que a vira, muito outra
- 1512do que era, em casa da prima condessa de tal, e no theatro de S. Carlos,
- 1513Alvaro deixou de frequentar o theatro, local unico onde o levava a suave
- 1514tristeza da musica.
- 1515convidada para casa de sua tia. Alvaro respondeu:
- 1516encontrarmos.
- 1517dinheiro inutil, dinheiro que nunca me lembrou quando eu pensava em ser
- 1518prima.
- 1519que a expozesse a novas miserias?
- 1520contra a estrella fatal d'aquella infeliz.
- 1521Este dialogo foi interrompido por um recado de uma senhora que desejava
- 1522fallar a Alvaro.
- 1523senhora.
- 1524Viu elle uma dama trajada de preto, com semblante de quarenta annos
- 1525amargurados, e um complexo de adornos, que denotavam pobreza.
- 1526A italiana enxugava as lagrimas.
- 1527quanto a belleza me inflorava o vicio, aturdi-me nas pompas, e nos
- 1528eu envelheci, e de repente cahi dos ouropeis da minha opulencia ao
- 1529charco da miseria. Tirei do collegio os meus filhos: o mais velho era um
- 1530demonio, o outro um anjo. O anjo levou-m'o Deus um anno depois, quasi
- 1531elle estava no Limoeiro, preso por furto. Desfiz-me de quanto tinha para
- 1532as primeiras necessidades do meu uso, e consegui restituir o furto ao
- 1533alcancei empregar-se na alfandega, em lugar de bastante
- 1534d'elle em dous annos; eu julgava-me bemquista da sorte, e contava com o
- 1535valores que elle perdeu no jogo e dissipou na libertinagem. Ha quinze
- 1536por toda a vida.
- 1537salve, pagando o roubo, que sobe a muitos contos de reis. O que venho de
- 1538dos seus amigos para que a pena seja commutada em degredo perpetuo, sem
- 1539Alvaro ergueu'a mulher, que ajoelhara, e disse-lhe:
- 1540escada.
- 1541tinha ouvido tudo. Sahiu, como desapercebida ao encontro de Alvaro, e
- 1542disse-lhe risonha:
- 1543que sentes, Alvaro!
- 1544monossyllabos.
- 1545mulher que o mais novo era um anjo? Ahi tens... Foi como as arvores que
- 1546minha para levantares o dinheiro que quizeres. O teu fausto, segundo
- 1547Alvaro Teixeira foi encarregar o advogado de sua casa de solicitar o
- 1548O solicitador desanimou quando lhe disseram o avultado da quantia.
- 1549antiga locataria do palacio de Belem:
- 1550senhora sabe, tinha uma propriedade nos arrabaldes de Napoles, que eu
- 1551Alvaro--Permitta Deus que o filho de meu pae se regenere com as que lhe
- 1552vejo no rosto.
- 1553partiram para Italia. Vinte e dous annos depois, me disse aquelle santo
- 1554dos Olivaes que a antiga actriz morrera velha e feliz; que Julio de
- 1555Macedo conservava ainda a quinta, e honrava uma alta patente no exercito
- 1556d'aquelle homem e a velhice venturosa da amante de seu pae, elle me
- 1557respondeu:
- 1558XVII
- 1559avec celui de la farouche Judith serait
- 1560BALZAC.
- 1561Tinham decorrido dous annos depois da viuvez de Leonor. Na correnteza
- 1562legando simplesmente alguns rolos de pergaminhos e a memoria dos seus
- 1563fidalgo de Porto-Alvo morreu envenenado, consoante a fama dizia; e que
- 1564sua sobrinha passou a segundas nupcias com um primo de Alemquer, e vivia
- 1565ainda honrada e feliz em 1859. Achei tambem nota de que a criada,
- 1566confidente da morgada, dias depois do assassinio de Miguel de
- 1567claros vestigios de ter sido estrangulada. E de presumir que o fidalgo
- 1568atirasse ao Tejo com a unica testemunha do seu crime. Se o boato da
- 1569sua prima.
- 1570Transferiu-se para Lisboa a viuva e com ella o seu trem. Tomou um
- 1571disponibilidade, insinuando-se, a titulo de genio, entre as pessoas,
- 1572e communicou-as a Alvaro.
- 1573como ella.
- 1574concorrencia, e poz logo o dedo na chaga.
- 1575miseria, Leonor! Recobra a tua dignidade enxovalhada! Lembra-te das
- 1576tia, soltando estas palavras:
- 1577antes a certeza de que esta beneficencia pertencia exclusivamente a
- 1578vossa excellencia. Meu primo tem-me favorecido para me humilhar.
- 1579mais por entender que meu primo se regosijava a cada escaleira, que me
- 1580sua criada com a primeira esmola, cuidei que mais tarde acharia nos meus
- 1581espirito, essa nunca. Eu aceitava o ouro porque tinha um marido que me
- 1582nome que as sombras do infortunio empanavam, como se a arvore de tronco
- 1583proprios olhos. Depois de viuva, permaneci dous annos nas austeridades
- 1584que raros exemplos me tinham ensinado. Contrafiz a minha indole para bem
- 1585beijar a terra honrada pelas suas botas. Vim para Lisboa, depois de dous
- 1586a vida luxuosa de Lisboa. Quer minha tia saber como eu denomino este
- 1587Agora vamos ao ponto da sua inesperada visita. E certo que eu amo um
- 1588mulher nas minhas circumstancias. Eu hoje comprehendo melhor as
- 1589minha obscuridade. Se minha tia me vem dizer que retira a sua esmola,
- 1590Calou-se Leonor.
- 1591disse:
- 1592abatida, que ella desfitara a vista do magestoso aspecto de sua tia.
- 1593elle, escassamente referia alguns dos queixumes de Leonor, como a
- 1594do sofrimento, e a sympathia que a ligava ao homem, com quem desejava
- 1595casar-se.
- 1596Alvaro apparentou natural placidez, e, n'outro ensejo em que fallavam
- 1597sobre o mesmo motivo, disse:
- 1598seus parentes.
- 1599collegio, nos meus ultimos tempos.
- 1600Foi Alvaro ao collegio, e fallou largo tempo com o seu antigo amigo,
- 1601professor de inglez. Dias depois, procurou-o o mestre, e respondeu assim
- 1602ao encargo, que recebera:
- 1603amolar! Apenas lhe toquei no assumpto, accendeu o cachimbo, cobriu as
- 1604Disse-lhe eu que a viuva vivia da beneficencia dos seus parentes, e que
- 1605inconvenientes das suas parentas necessitadas.
- 1606isto?
- 1607vezes romantica.
- 1608philosophica, que tinha, como eu tenho, horror ao vacuo. Resta-me
- 1609mestre de inglez, disse:
- 1610e manifestamente se revelara Leonor, a elle e aos hospedes maravilhados.
- 1611Ao despedir-se do escriptor, disse-lhe ella:
- 1612com despeitado sorriso.
- 1613atreve a entrar nos juizos do espirito...
- 1614anciosa o dia seguinte.
- 1615minha vida, sacrifical-a-ia, minha senhora. O mesmo seria obrigal-a a
- 1616sei, tambem como vossa excellencia, que os seus muitos recursos procedem
- 1617da amisade d'uma tia millionaria, que vossa excellencia tem.
- 1618com estes recursos, e vossa senhoria, nas suas cartas, falla-me da
- 1619trabalho da intelligencia.
- 1620Todavia...
- 1621meus recursos?
- 1622tinha absolutamente nada que lhe segurasse a futura subsistencia, se
- 1623contrahisse segundas nupcias contra vontade dos seus parentes.
- 1624Leonor ergueu-se, sahiu da sala pisando com soberana arrogancia, e o
- 1625litterato ficou perplexo com os olhos cravados na porta por onde a vira
- 1626sahir.
- 1627Instantes depois, entrou um criado de farda, e disse ao cavalheiro:
- 1628Quando Eufemia entrou, estava a viuva vestida de preto, com o fato
- 1629senhora D. Leonor?! a menina tem febre!
- 1630e ao teu amo. Diz-lhes mais que venham tomar conta do que esta casa
- 1631honra pagar pouco, e ficar sem nada. Diz a meu primo que esta nobre
- 1632do punhal com que se mata a dignidade dos infelizes. Diz a meu primo que
- 1633virtuosos. Diz isto. Agora, vai, ou fica.
- 1634julgal-a demente. Os criados vieram; mas recuaram ante o olhar imperioso
- 1635Eufemia contou o succedido. Maria da Gloria chorou, e pediu a Deus que
- 1636serenamente repetirem-se os afrontamentos de sua prima, e parecia
- 1637XVIII
- 1638Non, non, j'en ai le pressentiment,
- 1639Leonor, apeando no pateo do palacete dos Olivaes, chamou o feitor, e
- 1640pediu a chave da casa da Luiza: por este nome era conhecida a casa que
- 1641firme abriu a porta, fechou-se dentro, abriu os dous postigos
- 1642velhos moveis, que Leonor lhe dera. O feitor, se bem que prohibido de a
- 1643seguir, teimou em vigial-a, suspeitoso do descuido em que a vira
- 1644vestida, e do desconcerto do rosto. Afoutou-se a pedir-lhe que abrisse a
- 1645herdeira.
- 1646verdadeiramente meu, disse ella; posso com este legado da minha Luiza
- 1647rondar as avenidas da casinha, Leonor deu-lhe dinheiro para lhe comprar
- 1648um jantar como costumava ser o de Luiza, e accrescentou:
- 1649O tom d'este dizer dava azo a que o mordomo ia tivesse em conta de
- 1650douda. Assim o creu, e mandou aviso a Maria da Gloria.
- 1651Alli passou o restante do dia. Ao trazerem-lhe o jantar, recebeu-o por
- 1652um dos postigos, e tomou d'elle o prato menos exquisito, uma pouca de
- 1653Luiza, e abriu alta noite as janellas porque sentiu aquelle especial e
- 1654De madrugada, abriu a porta, e sentou-se no unico degrau. Estava
- 1655abrazada em febre, e, a intervallos, deixava pender para o seio a
- 1656casa, recolheu-se e fechou a porta: era o feitor, que passara a noite
- 1657velando a casinha onde dormia a filha de seus amos.
- 1658aturdida, e trancou a porta, porque a fechadura tinha saltado aos
- 1659d'uma tesoura. Feita a experiencia e ensanguentado o dedo, escreveu no
- 1660perfeito juizo.
- 1661esquerdo. Como a cisura apenas revesse o sangue, ligou e comprimiu o
- 1662sentidos ao leito. Sondou-lhe o pulso, e achou-a viva. Mandou chamar o
- 1663pannos adhesivados e compressas.
- 1664De repente, deram passagem a alguem os muitos visinhos, que alli chamara
- 1665Teixeira.
- 1666mortal espasmo.
- 1667tesoura...--disse o feitor.
- 1668transportal-a.
- 1669respaldo, e, com duas cadeiras, formou-lhe apoio para o restante do
- 1670quanto as lagrimas lhe permittiam, e mandou seguir a carruagem para
- 1671Lisboa, a passo.
- 1672A meio caminho, Leonor reconheceu seu primo, e estremeceu. Fitou os
- 1673necessario para ires d'este teu inferno com a certeza de que eu te amei
- 1674sempre...
- 1675um sorriso, e murmurou:
- 1676E contemplou-a.
- 1677esplendido, d'aquella belleza viva e irrequieta, da exuberancia de vida
- 1678que lhe sahia aos olhos em faiscas e em risos expansivos aos labios,
- 1679restava a pelle cortada dos ardores da febre, os ossos descarnados, o
- 1680Leonor, e leval-a a um leito.
- 1681dous medicos. Do exame rapido que estes fizeram, concluiram por
- 1682elles.
- 1683da alma, que eu quero que ella me veja, e me julgue antes de morrer! Um
- 1684dizia um ao outro com o frio desdem da sciencia:
- 1685que Leonor perdera em sangue o que Alvaro perdera em sizo.
- 1686Maria da Gloria, a martyr sem treguas, andava repartida entre Deus, e o
- 1687filho, e Leonor. Invocava o Altissimo pedindo-lhe a vida da sobrinha,
- 1688que chamava e beijava, cuidando que o halito dos seus labios lhe coavam
- 1689Deus o salvamento da prima.
- 1690Leonor descerrou os olhos quebrantados, mas serenos. Reconheceu a tia e
- 1691e balbuciou:
- 1692tens penado!...
- 1693jamais a saude. Afrouxaram-lhe os musculos motores de todas as
- 1694intermittentes de paralysia em parte dos vasos sanguineos, que formam o
- 1695Italia. Leonor agradecia-lhes, com sinceras lagrimas de remorso, o amor
- 1696com que velavam os seus longos paroxismos, e dizia que a viagem a fazer
- 1697quarto, desafogava chorando, ou escrevendo paginas de muitissima
- 1698tristeza, mixto de saudade e desespero, saudade da Leonor da sua
- 1699bellezas da innocencia, quando a teve a fatidica Leonor? Ai! a belleza
- 1700bailes nem banquetes, mas com liberalidades de esmolas, levadas por
- 1701soccorrer alguns egressos, que corriam de noite as ruas de Lisboa,
- 1702rancorosos do velho odio civil.
- 1703sua tia: sahiram de Lisboa no estio, correram as provincias do norte, e
- 1704retrocedeu para Lisboa. Aqui, melhorou de aspecto, e transferiu a sua
- 1705residencia para a quinta do valle de Santarem.
- 1706de soffrer e chorar, pedindo a Deus que lhe tirasse a vida. Alvaro era
- 1707o consolador d'estes desconfortos, umas vezes rodeando-a de improficuas
- 1708juntas de medicos, outras abalando-lhe o espirito com alegres
- 1709seria desagradavel; experimentou, apesar d'ella, chamando alguns
- 1710vivem, com o que podia inventar o seu espirito attento a minorar as
- 1711amarguras da inconsolavel doente: inutil tudo, Leonor rogou a seu primo
- 1712estranhas; que a deixasse gozar os instantes de allivio na companhia
- 1713gente, a quem o espectaculo da dor enfada?! Cuidas tu que os move a
- 1714piedade d'este meu estado? Deixa de ser a candida alma, que tens sido,
- 1715meu primo! Estas familias, que vieram a um teu aceno, souberam que eu
- 1716vivia miseravel nos Olivaes, e encarregavam-se de exaltar a Providencia
- 1717Divina, dizendo que eu estava expiando; e, como o valerem-me seria
- 1718contrariar a vontade de Deus, abandonaram-me... Se me eu tivesse esvaido
- 1719de sangue n'aquella casinha, onde o nosso fatal anjo te encaminhou,
- 1720estes parentes, obrigados a fallarem de mim a quem lhes perguntasse a
- 1721curiosidade interesseira do mundo que te chamava, serias a esta hora
- 1722feliz!...
- 1723formosa, como a tinha amado, quando amava e esperava.
- 1724visses infamada, e perdida nos mais baixos sedimentos da sociedade,
- 1725passarias por ella, sem que o pejo te dissesse que era nobre estender-me
- 1726ao pisar os tapetes das tuas escadas, subiria estudando phrases de
- 1727particular e em publico, andarias feliz e convencido de tua honra. Muita
- 1728que lhe fallem. Os seus amigos, com medo de lhe ferirem o nobre
- 1729ostentar as exterioridades de jubilo, que eu muitas vezes senti, sendo
- 1730que mereces?
- 1731do seu carcere... n'aquelle tempo, Leonor, gozei horas de alegria
- 1732dias alegres... pallida luz, como a da lampada do sacrario ao
- 1733amanhecer... mas, aqui estou vendo os olhos, que me viram feliz... E tu,
- 1734Leonor, o teu espirito vive e falla... O melhor de ti era o sentimento
- 1735N'aquelle tempo...
- 1736XIX
- 1737Leonor, ao cabo de dous annos de padecer, difficultosamente sahia do
- 1738leito. A extrema fraqueza e tremor espasmodico das pernas seguiu-se a
- 1739paralysia, e a inteira inactividade. Se a tiravam do leito,
- 1740acontecia Maria ou Alvaro olharem-na com piedade, sorria ella, e dizia:
- 1741amaciou-se e restaurou a antiga alvura; volveram as cores purpurinas, e
- 1742contornou-se o oval do rosto. Eufemia esmerava-se em toucal-a, em quanto
- 1743ella, sorrindo, dizia:
- 1744Alvaro depunha muitas vezes o livro, com que sua prima se recreava, e
- 1745extasiava-se nos olhos d'ella; mas que amargura elle escondia n'aquelles
- 1746extasis!
- 1747Maria da Gloria chamou uma vez o filho ao seu quarto, e disse-lhe:
- 1748escondido de ti o unico segredo, que devia esconder--a sensivel
- 1749dizer o fim para que te chamei!...
- 1750final, depois que deres a mortalha a tua prima? E a ti quem te
- 1751Apresentou-se ao cardeal-patriarcha, e demorou-se algumas horas em
- 1752pratica secreta. Commetteu importantes encargos ao advogado de sua casa,
- 1753quem ouvira da enferma o terrivel segredo, obteve do medico a
- 1754Goldsmith. Reviam lagrimas suaves os olhos de ambas, quando Leonor lia o
- 1755com felizes e infelizes. Resulta da propria natureza do prazer e da
- 1756fizeste em Lisboa, Alvaro... Devia de parecer-te nova a cidade! Ha tres
- 1757algum tempo para negocios nossos.
- 1758primo! Pois tu deixas-nos por algum tempo!? E podes, Alvaro?
- 1759demora o mais que possa...
- 1760que a vejo reanimada!...
- 1761Nos tres dias consecutivos, Maria padeceu muito, e perguntou
- 1762quem as tivesse vivas e anciosas no espirito.
- 1763foi para Lisboa.
- 1764Ao termo de quatro dias, foi chamado por uma carta de Leonor, atribulada
- 1765morreria sem ver seu filho, com um ar de certeza e contentamento que
- 1766A tempo foram as cartas de estar cumprida a diligencia que o levara a
- 1767Lisboa. Sem respiro, transpoz Alvaro as doze leguas que o separavam de
- 1768Gloria, sem delirio nem fraqueza de espirito, horas antes da chegada do
- 1769filho, estava sempre dizendo, com sombra de jubilo, estas e outras
- 1770Bemdito seja o Senhor no improfundavel mysterio dos seus juizos!
- 1771encostada ao peito de Eufemia, e os olhos postos no crucifixo. Maria, ao
- 1772levas comtigo este meu esquife?
- 1773e disse ao padre:
- 1774vinha espantar-me da serenidade da moribunda.
- 1775Viatico.
- 1776vir da igreja acompanhando o Senhor. Maria fez um gesto de gostoso
- 1777assentimento.
- 1778Entrou o ostiario, e ao lado d'elle um outro sacerdote com as ambulas
- 1779dos santos-oleos.
- 1780Ouviu-se um ai agudo, e o nome de Alvaro proferido com espanto. Leonor
- 1781reconheceu-o, Maria descerrou as palpebras, e balbuciou:
- 1782leito, e disse:
- 1783Alvaro.
- 1784meu Deus! pede um raio da tua gloria para a alma da tua serva!
- 1785Ajoelharam todos. Maria commungou, e foi ungida. Terminada a ceremonia,
- 1786e desempedido o quarto, a moribunda acenou ao filho, que continuava de
- 1787joelhos. Alvaro foi, e curvou-se sobre o leito, applicando-lhe o ouvido
- 1788ainda quentes, era o calor do ultimo suspiro. Tomou-o Alvaro no
- 1789Fez-se o terror do silencio alli n'aquelle quarto. Ninguem se desafogou
- 1790XX
- 1791estes desafortunados dos prazeres reaes da vida!
- 1792Quando entardeceu o dia de contentamento para Maria da Gloria?
- 1793com que Deus acode e se amerceia dos que o confessam e chamam nas
- 1794viciado nos leva.
- 1795Se Alvaro foi feliz?! Perguntemos a Deus se os seus martyres correm
- 1796n'este mundo os estadios de suas dores, sem que a luz ineffavel de seus
- 1797Oito dias depois do trespasse de Maria da Gloria, padre Alvaro fallou a
- 1798sua prima, n'um tom de voz e magestade de postura, que denotava a
- 1799amortalhado.
- 1800convencer de que tudo se acabou para mim, menos a vida da alma e as
- 1801levantam da queda, chorando. Aqui tens o amigo da tua infancia, minha
- 1802paciencia merece, e me ensina a praticar. Deus perdoar-me-ia se te eu
- 1803agora contasse a longa historia, os longos trabalhos que me custou o
- 1804te dar um espectaculo de angustias, que eu de mim proprio forcejava por
- 1805casa em ruinas. Venho-te pedir que m'a cedas para os dias todos da minha
- 1806vida.
- 1807prazer em pedir-t'as.
- 1808levou a Deus a conta das nossas lagrimas.
- 1809sirva.
- 1810os olhos, e continuou:
- 1811proposito, dir-m'ohas, Leonor.
- 1812No proximo dia, sahiu Leonor com as suas criadas para Lisboa. O padre
- 1813Alvaro anticipou-se algumas horas, e foi em direitura ao convento de
- 1814N'esse mesmo dia, entrou Leonor de Brito no mosteiro de franciscanas, e
- 1815Deus.
- 1816de Leonor, e sahiu.
- 1817No mesmo dia, foi o padre para as ruinas dos Olivaes, onde Eufemia o
- 1818estava esperando. Em quanto fazia habitavel uma parte do edificio
- 1819alluido, viveu na casinha, onde encontrara Leonor esvaida de sangue.
- 1820decorou-a com parte dos moveis, que conhecia desde a sua infancia em
- 1821Os bens de fortuna de padre Alvaro Teixeira eram ainda grandes.
- 1822algumas religiosas necessitadas do convento d'ella. Para si tomou uma
- 1823pequena parte dos rendimentos de um capital, que doara a Eufemia. Dizia
- 1824N'este longo termo, quando alguem acertava de perguntar por aquelle
- 1825exquisito Alvaro Teixeira, os melhores informadores diziam em tom de
- 1826tal respeito o sacerdote me disse. Como ninguem soubesse atinar com a
- 1827os poetas achavam-no digno de ser cantado; mas ninguem cantou o heroe
- 1828obscuro: a piedade era assumpto mingoado para o estro ambicioso dos
- 1829amortalhado no seu habito.
- 1830que soffresse muito porque os seus quarenta e cinco annos eram a
- 1831decrepidez.
- 1832novo de extemporanea velhice, que divisava no rosto de Alvaro.
- 1833Algumas vezes supplicou-lhe que a deixasse ir estar com elle, algum
- 1834tempo, nas suas ruinas. Alvaro respondia que o seu pacto com ella era
- 1835Tinha o padre um amigo em Lisboa; era o seu mestre de inglez, aquelle
- 1836homem que assistiu commigo ao sublime espectaculo da morte do justo.
- 1837Accrescentado pelas liberalidades do sacerdote, o professor abandonara o
- 1838entre os homens uteis d'este paiz. Se elle tivesse passado, e se a
- 1839amigo digno de Alvaro Teixeira.
- 1840dictames d'aquella boca ungida das lagrimas que lhe sulcavam o rosto
- 1841venerando.
- 1842suas ruinas. N'aquella janella ouvira elle, em noite de baile, vinte e
- 1843Tambem se lembram da rapida sabida, que elle fez para Lisboa, ao
- 1844annunciarem-lhe a agonia de Leonor.
- 1845Eu fui ao convento de Santa Joanna, e perguntei a historia dos ultimos
- 1846instantes da entrevada. Disseram-me, debulhadas em pranto as religiosas,
- 1847que a morte de Leonor fora o remate de um colloquio com o espirito de
- 1848Maria da Gloria. E, como eu me detivesse em amiudar os pormenores d'este
- 1849vago dizer, tiveram as senhoras a bondade de me contar que o rosto de
- 1850inconciliaveis.
- 1851ella estava em agonia da morte?
- 1852nos apressamos a chamal-o.
- 1853para nos edificar--respondeu a prelada--O padre Alvaro chegou minutos
- 1854depois da hora que ella dissera.
- 1855anterior a trinta annos?
- 1856criadas lhe chamassem Magdalena.
- 1857Pensei na palavra, e puz ponto na minha curiosidade.
- 1858Alheado n'estes pensamentos ingratos e inconcludentes, ouvi uns sons de
- 1859igreja, ajoelhei, orei, e tudo comprehendi, encarando no retabulo de um
- 1860AMARGAMENTE.
- 1861FIM.
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