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Viriatho: Narrativa epo-historica
Edizione BooksWhale in portoghese di Teófilo Braga
Teófilo Braga recria a resistência de Viriato ao poder romano numa narrativa que aproxima memória histórica e imaginação literária.
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Introduzione al libro
Viriatho: Narrativa epo-historica
A figura de Viriato conduz esta narrativa de Teófilo Braga sobre a resistência lusitana à expansão de Roma. O autor combina matéria histórica e desenvolvimento literário, acompanhando conflitos de poder, fidelidade e identidade coletiva. O texto português apresenta o passado como espaço de ação e de memória, dando forma narrativa às relações entre liderança, comunidade e luta pela independência.
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Teófilo Braga morreu em 1924. A edição parte do original português em domínio público disponível no Project Gutenberg; esta base não abrange acréscimos editoriais nem ilustrações posteriores.
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Viriatho: Narrativa epo-historica
Teófilo Braga
Capitolo in anteprimaIntroduçãoAnteprima
A Alma portugueza caracterisa-se pelas manifestações seculares persistentes do typo anthropologico e ethnico, que se mantêm desde as incursões dos Celtas e luctas contra a conquista dos Romanos até á resistencia diante das invasões da orgia militar napoleonica. São as suas feições:
A tenacidade e indomavel coragem diante das maiores calamidades, com a facil adaptação a todos os meios cosmicos, pondo em evidencia o seu genio e acção colonisadora;
Uma profunda sentimentalidade, obedecendo aos impulsos que a levam ás aventuras heroicas, e á idealisação affectiva, em que o Amor é sempre um caso de vida ou de morte;
Capacidade especulativa prompta para a apercepção de todas as doutrinas scientificas e philosophicas, como o revelam Pedro Julião (Hispano), na Edade Media, Francisco Sanches, Garcia d'Orta, Pedro Nunes e os Gouvêas, na Renascença;
Um genio esthetico, synthetisando o ideal moderno da Civilisação occidental, como em Camões, reconhecido por Alexandre de Humboldt como o Homero das linguas vivas.
O cantor das grandes Navegações foi quem teve a mais alta comprehensão do genio nacional; a ALMA PORTUGUEZA achou no seu Poema a incarnação completa. Quando Camões descreve nos Lusiadas, geographica e historicamente Portugal, referindo-se á tradição da antiga Lusitania, relembra o vulto que symbolisa a sua vitalidade resistente, diante da incorporação romana da peninsula hispanica:
Eis aqui, quasi cume da cabeça Da Europa toda, o reino Lusitano, Onde a terra se acaba, e o Mar começa, E onde Phebo repousa no Oceano.
Esta é a ditosa Patria minha amada, Esta foi Lusitania...................
D'esta o PASTOR nasceu, que no seu nome Se vê que de homem forte os feitos teve; Cuja fama ninguem virá que dome, Pois a grande de Roma não se atreve.
(Cant. III, st. XX a XXII.)
Deixo ... atraz a fama antiga Que co'a Gente de Rómulo alcançaram, Quando com VIRIATHO na inimiga Guerra romana tanto se afamaram. Tambem deixo a memoria, que os obriga A grande nome, quando a levantaram Um por seu Capitão, que, peregrino, Fingiu na Cerva espirito divino.
(Cant. I, st. XXVI.)
No tempo do grande épico ainda se não tinha perdido o conhecimento da relação de continuidade historica entre Portugal e a antiga Lusitania, mais vasta e por isso mais violentamente retalhada pela administração imperial romana. Esse conhecimento, embora confundido com as lendas syncreticas dos falsos Chronicões, influiu na consciencia do nosso individualismo ethnico e nacional. O esforço de desnacionalisação de Portugal pela politica da unificação iberica, veiu até reflectir-se nos proprios historiadores patrios, levando-os a considerar Portugal uma formação recente, adventicia, sem individualidade, e a Lusitania quasi como uma ficção banal dos eruditos da Renascença! Mas o caracter persistente do typo portuguez, a resistencia tenaz contra todos os conflictos da natureza e pressões da vida, que tanto o distingue entre os povos modernos, é a prova manifesta da raça lusitana como a descreveram os geographos gregos e romanos. Nas luctas pela liberdade territorial a Lusitania deixou nos historiadores greco-latinos o ecco da sua resistencia indomavel, sobretudo no Cyclo das Guerras viriathinas, que se reaccenderam ainda sob o commando de Sertorio.
Pela sua genial intuição teve Garrett a comprehensão d'este caracter resistente e soffredor da nossa raça lusitana: «Os Portuguezes são naturalmente soffredores e pacientes: muito arrochada hade ser a corda com que de mãos e pés os atam seus oppressores, antes que rompam em um só gemido os desgraçados. Um murmurio, uma queixa... nem talvez no cadafalso a soltarão! Vendem-nos os desleaes pegureiros de quem nos deixamos governar; vendem-nos, enxotam-nos para a feira a cajado e a latido e mordedella de seus mastins; e nós vamos e nem gememos. Se um clamor de queixumes, se uma voz de desconfiança acaso surde, aqui os clamores de rebeldes, os alcunhas de demagogos... e a nação (o rebanho, direi antes) que se resigna e soffre, e continua a caminhar para o exicio! Tal é, com as differenças de variados nomes e datas, a historia de Portugal quasi desde que a revolução ou restauração (restauração seria?) de 1640 fez da nação portugueza o patrimonio de meia duzia de familias privilegiadas e de seus satelites e parasitos.» (Carta de M. Scevola, 1830.)
Capitolo in anteprimaIAnteprima
No anno de DCIII da éra da fundação da Cidade de Roma, sendo Consules L. Licinio Lucullo e A. Postumio Albino, acontecimento inopinado suscitou nos espiritos um extraordinario alvorôço: O Senado fôra convocado repentinamente, com urgencia, sem ser pela fórmula usual de um Edito, mas pela peremptoria chamada nominal ordenada pelo velho e integerrimo Catão, denominado o Censor.
A gravidade do acontecimento forçára por certo o venerando presidente do Senado a simplificar essa fórmula da convocação? Algum grande crime perturbava ou ameaçava o governo da Republica! A curiosidade era immensa, e antecipadamente sabia-se que a voz austera de Marco Catão, o Censor, se ergueria no Senado contra o patricio o mais opulento dos romanos, que dispunha de riquezas bastantes para corromperem os juizes aos quaes se confiasse o seu julgamento.
Galba! era este o nome que soava de bocca em bocca, mais com inveja do que hostilidade, desde que o Tribuno do Povo Aulo Scribonio o citára para comparecer em justiça pelas depredações e carnificinas que praticára contra as Tribus e cidades tributarias da Lusitania, que como Provincia senatorial estava sob a égide da lealdade romana.
Era de um crime contra a magestade do Povo romano, que versava a accusação do Proconsul Servio Sulpicio Galba, ao qual fôra confiado o governo e administração da Hespanha Ulterior, essa parte occidental da peninsula em que se comprehendia a vasta Lusitania. Ninguem se atrevia a pôr em duvida a valentia do tribuno militar, que fôra á Hespanha com a missão especial de combater e submetter os Celtiberos; mas, sendo conhecida no mundo a gloria do Senado, que, vae para quatro seculos, dirige com um tino incomparavel as guerras de incorporação dos povos barbaros, como poderá consentir que no exercicio d'essa missão civilisadora lhe infamem a inviolavel auctoridade?
A voz de Catão ergueu-se no meio de um religioso silencio com a acuidade de um látego de fogo:
—Como velho octogenario, ninguem comprehende como eu o poder dos Costumes dos Antepassados representados hoje no Senado, como um tribunal permanente, de acção executiva, e com consciencia das necessidades publicas expostas pela palavra em discussão aberta. É d'esses Costumes dos Antepassados que deriva a Soberania com que nós todos aqui presentes, dando fórma á opinião publica, intervimos no organismo social de Roma. Diante de mim, e entre os trezentos membros aqui reunidos, vejo ainda os antigos chefes da Familia romana, os Patres, que pela edade fôram os Seniores, os quaes deram o nome a este Tribunal sacrosanto de Senado; tambem vejo os Conscripti, que a pouco e pouco fôram chamados a completarem o numero, que a morte ou a extincção das familias ia diminuindo. Emfim, aqui estamos constituidos tanto a Ordem senatorial como a Equestre, para deliberarmos sobre o que interessa á Republica. D'entre vós, uns exercem um poder temporario, e outros são inamoviveis desde que se reconheceram os seus serviços, e por sua vida incorruptivel são proclamados Censores. É pois no exercicio d'esta dignidade que eu fallo e conto ser ouvido, porque foi confiada á protecção da minha vigilancia essa uberrima provincia da Hespanha. Tendo eu, como Censor, cooperado sempre, todos os cinco annos, pela confecção do registo do Censo, na nomeação dos Senadores tirados dos antigos magistrados, raro será aqui o Senador que não deva á minha confiança a honra d'essa escolha confiada a Senadores consulares, a Senadores pretorianos, segundo as magistraturas, e cargos curues, em que se dignificaram. E tendo eu exercido este direito supremo dos Censores, compete-nos mais um, que é o da exclusão dos indignos do Senado...
Sentiu-se um vago rumor entre os trezentos membros da assembleia; Catão, quasi sem notar que o seu longo exordio já fatigava a attenção, proseguiu:
—É esse direito, que hoje me traz aqui, apoiado pela propria consciencia e pelo meu juramento. Eu bem sei que as attribuições dos Censores são constantemente diminuidas, e que virá tempo em que desapparecendo esta magistratura, irromperão as guerras civis. Deixemos o futuro, e perdoae as digressões proprias da provecta edade. Em gravissimas circumstancias, sabidas por nós todos, foi Servio Sulpicio Galba mandado á Hespanha como Pretor. E se a situação difficil reclamava todas as virtudes militares para a magestade de Roma se mantêr illeza, mais necessario era o espirito de uma intelligente politica, para perpetuar por bons tratados o que a espada nem sempre conseguiu. Galba deu primeiramente uma prova deploravel de militar incompleto, quando invadindo a Lusitania, perdeu sete mil e quinhentos legionarios, indo refugiar-se em uma situação ignobil em Carmona. Destemido, mas inconsiderado, é este homem por isso perigoso para a Republica. E ainda mais: é de um caracter falso, violando com descaro a palavra de um Tribuno, que vale tanto como um tratado escripto, rebaixando perante o mundo o poder romano sempre inquebrantavel, quando se trata de um dever moral. É certo que as trinta e seis cidades tributarias da Lusitania, sempre irrequietas e luctando pela sua autonomia e independencia local, tambem violaram o tratado concluido com Attilio, infestando as Colonias romanas, e as Cidades federadas e immunes, favorecidas com o regimen municipal. N'esta angustia, em que Roma tinha de impôr a sua auctoridade, bem comprehendera que já não devia empregar o systema da devastação; mas Galba, desgraçadamente não comprehendeu este pensamento governativo! Mandado á Hespanha, ahi chegou com um exercito cansado e exhausto; em vez de limitar-se á defeza immediata dos subditos romanos, encetou logo combates contra as tribus lusitanas, que nas suas emboscadas continuas, em assaltos repentinos o fôram estafando e enfraquecendo até encontrarem o momento azado em que se atreveram a dar-lhe uma batalha campal, em que ficaram trucidados sete mil legionarios. Os brios de Galba ficaram diminuidos perante a estupenda calamidade; Galba teve de collocar-se na defensiva, aproveitando a epoca das grandes invernias para se fechar cautelosamente nos quarteis de Conistorgis! As Aguias romanas, como bem diria ahi qualquer poeta satirico, estavam fechadas na capoeira.
Indice
In questa edizione
- 01Full text
- 02Introdução
- 03I
- 04II
- 05III
- 06IV
- 07V
- 08VI
- 09VII
- 10VIII
- 11IX
- 12X
- 13XI
- 14XII
- 15XIII
- 16XIV
- 17XV
- 18XVI
- 19XVII
- 20XVIII
- 21XIX
- 22XX
- 23XXI
- 24XXII
- 25XXIII
- 26XXIV
- 27XXV
- 28XXVI
- 29XXVII
- 30XXVIII
- 31XXIX
- 32XXX
- 33XXXI
- 34XXXII
- 35XXXIII
- 36XXXIV
- 37XXXV
- 38XXXVI
- 39XXXVII
- 40XXXVIII
- 41XXXIX
- 42XL
- 43XLI
- 44XLII
- 45XLIII
- 46XLIV
- 47XLV
- 48EPOPÊA DA LUSONIA
- 49XLVI
- 50XLVII
- 51XLVIII
- 52XLIX
- 53L
- 54LI
- 55LII
- 56LIII
- 57LIV
- 58ENDECHA FUNERAL
- 59LV
- 60LVI
- 61LVII
- 62LVIII
- 63LIX
- 64LX
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