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Literatura
Cartas Portuguesas
Edição BooksWhale em português por Mariana Alcoforado
Cinco cartas apaixonadas sobre ausência, abandono, desejo, memória e sofrimento amoroso.
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Introdução do livro
Cartas Portuguesas
Cartas Portuguesas apresenta uma das vozes amorosas mais célebres da literatura europeia: intensa, ferida e retoricamente poderosa. A obra circulou desde o século XVII como clássico de paixão, abandono, saudade e escrita epistolar.
Edição BooksWhale
Como esta edição foi preparada
Esta edição se baseia em um texto em domínio público e foi preparada pela BooksWhale para leitura digital.
Base de domínio público
Por que pode ser compartilhada
Cartas Portuguesas foi publicado no século XVII e pertence ao corpus literário antigo associado à tradição luso-francesa. A antiguidade da obra sustenta a base de domínio público desta edição portuguesa.
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Cartas Portuguesas
Mariana Alcoforado
Capítulo de préviaCARTA PRIMEIRAPrévia
CARTAS DE AMOR
Capítulo de préviaIPrévia
Considera, meu Amor, quam excessivo foi o teu descuido de prever o que havia de suceder-nos!
Ah, infeliz! foste enganado, e me traíste, por lisonjeiras esperanças mentirosas.
Uma afeição sôbre que tinhas fundado tantos projectos deleitosos, e da qual te prometias infinito prazer, põe-te agora numa desesperação mortal, sómente comparável em crueldade à da ausência, que é dela causa.
E há-de esta ausência, para a qual ainda a minha dôr, por mais engenhosa que seja, não soube achar nome assaz funesto, ¿há-de ela privar-me de contemplar aqueles olhos em que divizava tanto amor, e que me faziam conhecer afectos, que enchiam meu peito de alegria, que eram tudo para mim, tudo supriam, e enfim me satisfaziam?
Ai de mim! os meus ficaram privados da única luz que os animava, só lhes restam lágrimas; nem eu lhes dou outro exercício senão o de chorar continuamente, desde o instante que soube estares resolvido a uma separação, para mim tam insofrível, que em breve tempo me acabará.
Parece-me, porém, que de algum modo me afeiçôo a infortúnios, dos quais és a única causa.
Dediquei-te a minha vida apenas te vi, e sinto algum gôsto em fazer-te dela sacrifício.
Milhares de vezes no dia a ti envio meus suspiros, que te procuram por tôda a parte, e não me trazem outra recompensa de tantas inquietações, mais do que um aviso, por demasia sincero, da minha má Fortuna, a qual cruamente não consente que eu me lisonjeie, mas repete-me a cada instante: «Cessa, cessa, ó Mariana desditosa, de consumir-te em vão, e de procurar um amante que jàmais tornarás a ver, que passou os mares para fugir de ti, que vive em França entregue ás suas delícias, e que nem um só momento cuida nas tuas mágoas, que te dispensa de todos êsses transportes, e não sabe agradecer-tos…»
Mas não, eu não posso resolver-me a formar de ti um conceito tam afrontoso, e tenho nímio interêsse em justificar-te. Não quero mesmo imaginar que te esqueceste de mim.
¿E não sou eu já assaz desaventurada, sem que ainda me deixe atormentar por falsas suspeitas?
¿Para que fazer esforços para apagar da memória todos os desvelos, com que anelaste a dar-me provas do teu amor?
Ah! todos êstes desvelos tanto me encantaram, que eu seria uma ingrata, se não te amasse com o mesmo arrebatamento a que me impelia a minha paixão, quando gozava dêsses testemunhos que me davas reciprocamente da tua.
¿Como é possivel que lembranças de momentos tam agradáveis se tornassem tam crueis? ¿E que hajam de necessidade, em despeito da sua própria natureza, servir sómente para tiranizar o meu coração?
Ai de mim! A tua última carta o reduziu a um estado miserando; as suas palpitações foram tam sensíveis, que pareciam-me como esforços para separar-se de mim, e reünir-se a ti.
Fiquei tam abatida destas comoções violentas, que caí em um desmaio por mais de três horas, perdidos os sentidos…
Lutava assim contra a vida que não queria recobrar, pois devo perdê-la por ti, já que não posso conservá-la para ti…
Enfim, tornei de mau grado a ver a luz…
Comprazia-me o sentir que morria de amor… e demais estimava cessar para sempre de sofrer as angústias de um coração, despedaçado pela dôr da tua ausência.
Depois dêste acidente, padeci muitas e diversas indisposições; ¿mas como posso eu existir sem males, enquanto não torno a ver-te?
Sei suportá-los sem murmurar, porque de ti provêm.
Como? ¿É essa a retribuição que me dás por haver-te amado com tam extremada ternura?
Sumário
Nesta edição
- 01Full text
- 02CARTA PRIMEIRA
- 03I
- 04CARTA SEGUNDA
- 05II
- 06CARTA TERCEIRA
- 07III
- 08CARTA QUARTA
- 09IV
- 10CARTA QUINTA E ÚLTIMA
- 11V
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