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Literatura

Histórias sem Data

Edição BooksWhale em português por Machado de Assis

Contos machadianos de ironia, ambiguidade psicológica, vida social e surpresa moral.

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Introdução do livro

Histórias sem Data

Histórias sem Data reúne contos em que Machado de Assis trabalha com narradores oblíquos, relações sociais, vaidade, desejo e pequenas armadilhas de consciência. A coleção é uma porta excelente para a ficção curta brasileira e sua ironia psicológica.

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Esta edição se baseia em um texto em domínio público e foi preparada pela BooksWhale para leitura digital.

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Histórias sem Data is a public-domain work: the author died in 1908, and the text was first published in 1884. This edition uses the original Portuguese text.

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Capítulo de préviaHistórias sem DataLer prévia

A EGREJA DO DIABO

CAPITULO I

DE UMA IDÉA MIRIFICA

Conta um velho manuscripto benedictino que o Diabo, em certo dia, teve a

idéa de fundar uma egreja. Embora os seus lucros fossem continuos e

grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde

seculos, sem organisação, sem regras, sem canones, sem ritual, sem nada.

Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e

obsequios humanos. Nada fixo, nada regular. Porque não teria elle a sua

egreja? Uma egreja do Diabo era o meio efficaz de combater as outras

religiões, e destruil-as de uma vez.

--Vá, pois, uma egreja, concluiu elle. Escriptura contra Escriptura,

breviario contra breviario. Terei a minha missa, com vinho e pão á

farta, as minhas predicas, bullas, novenas e todo o demais apparelho

ecclesiastico. O meu credo será o nucleo universal dos espiritos, a

minha egreja uma tenda de Abrahão. E depois, emquanto as outras

religiões se combatem e se dividem, a minha egreja será unica; não

acharei diante de mim, nem Mahomet, nem Luthero. Ha muitos modos de

affirmar; ha só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um

gesto magnifico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus

para communicar-lhe a idéa, e desafial-o; levantou os olhos, accesos de

odio, asperos de vingança, e disse comsigo:--Vamos, é tempo. E rapido,

batendo as azas, com tal estrondo que abalou todas as provincias do

abysmo, arrancou da sombra para o infinito azul.

CAPITULO II

ENTRE DEUS E DIABO

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os seraphins que

engrinaldavam o recem chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se

estar á entrada com os olhos no Senhor.

--Que me queres tu? perguntou este.

--Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por

todos os Faustos do seculo e dos seculos.

--Explica-te.

--Senhor, a explicação é facil; mas permitti que vos diga: recolhei

primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor logar, mandai que as mais

afinadas citharas e alaúdes o recebam com os mais divinos córos...

--Sabes o que elle fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de

doçura.

--Não, mas provavelmente é dos ultimos que virão ter comvosco. Não tarda

muito que o céu fique semelhante a uma casa vasia, por causa do preço,

que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou

fundar uma egreja. Estou cançado da minha desorganisação, do meu reinado

casual e adventicio. É tempo de obter a victoria final e completa. E

então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não accuseis de

dissimulação... Boa idéa, não vos parece?

--Vieste dizel-a, não legitimal-a, advertiu o Senhor.

--Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor proprio gosta de ouvir o

applauso dos mestres. Verdade é que n'este caso seria o applauso de um

mestre vencido, e uma tal exigencia... Senhor, desço a terra; vou largar

a minha pedra fundamental.

--Vai.

--Quereis que venha annunciar-vos o remate da obra?

--Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cançado ha

tanto da tua desorganisação, só agora pensaste em fundar uma egreja?

Diabo sorriu com certo ar de escarneo e triumpho. Tinha alguma idéa

cruel no espirito, algum reparo picante no alforge da memoria, qualquer

cousa que, n'esse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao

proprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

--Só agora conclui uma observação, começada desde alguns seculos, e é

que as virtudes, filhas do céu, são em grande numero comparaveis a

rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu

proponho-me a puxal-as por essa franja, e trazel-as todas para minha

egreja; atraz d'ellas virão as de seda pura...

Capítulo de préviaIPrévia

Não, não se descreve a consternação que produziu em todo o Engenho

Velho, e particularmente no coração dos amigos, a morte de Joaquim

Fidelis. Nada mais inesperado. Era robusto, tinha saude de ferro, e

ainda na vespera fôra a um baile, onde todos o viram conversado e

alegre. Chegou a dansar, a pedido de uma senhora sexagenaria, viuva de

um amigo d'elle, que lhe tomou do braço, e lhe disse:

--Venha cá, venha cá, vamos mostrar a estes criançolas como é que os

velhos são capazes de desbancar tudo.

Joaquim Fidelis protestou sorrindo; mas obedeceu e dansou. Eram duas

horas quando sahiu, embrulhando os seus sessenta annos n'uma capa

grossa,--estavamos em junho de 1879--mettendo a calva na carapuça,

accendendo um charuto, e entrando lepidamente no carro.

No carro é possivel que conchilasse; mas, em casa, máu grado a hora e o

grande peso das palpebras, ainda foi a secretária, abriu uma gaveta,

tirou um de muitos folhetos manuscriptos,--e escreveu durante tres ou

quatro minutos umas dez ou onze linhas. As ultimas palavras eram estas:

«Em summa, baile chinfrim; uma velha gaiteira obrigou-me a dansar uma

quadrilha; á porta um crioulo pediu-me as festas. Chinfrim!» Guardou o

folheto, despiu-se, metteu-se na cama, dormiu e morreu.

Sim, a noticia consternou a todo o bairro. Tão amado que elle era, com

os modos bonitos que tinha, sabendo conversar com toda a gente,

instruido com os instruidos, ignorante com os ignorantes, rapaz com os

rapazes, e até moça com as moças. E depois, muito serviçal, prompto a

escrever cartas, a fallar a amigos, a concertar brigas, a emprestar

dinheiro. Em casa d'elle reuniam-se á noite alguns intimos da

visinhança, e ás vezes de outros bairros; jogavam o voltarete ou o

_whist_, fallavam de politica. Joaquim Fidelis tinha sido deputado até á

dissolução da camara pelo marquez de Olinda, em 1863. Não conseguindo

ser reeleito, abandonou a vida publica. Era conservador, nome que a

muito custo admittiu, por lhe parecer gallicismo politico. _Saquarema_ é

o que elle gostava de ser chamado. Mas abriu mão de tudo; parece até que

nos ultimos tempos desligou-se do proprio partido, e afinal da mesma

opinião. Ha razões para crêr que, de certa data em diante, foi um

profundo sceptico, e nada mais.

Era rico e lettrado. Formára-se em direito no anno de 1842. Agora não

fazia nada e lia muito. Não tinha mulheres em casa. Viuvo desde a

primeira invasão da febre amarella, recusou contrahir segundas nupcias,

com grande magoa de tres ou quatro damas, que nutriram essa esperança

durante algum tempo. Uma d'ellas chegou a prorogar perfidamente os seus

bellos cachos de 1845 até meiados do segundo neto; outra, mais moça e

tambem viuva, pensou retel-o com algumas concessões, tão generosas quão

irreparaveis. «Minha querida Leocadia, dizia elle nas occasiões em que

ella insinuava a solução conjugal, por que não continuaremos assim

mesmo? O mysterio é o encanto da vida.» Morava com um sobrinho, o

Benjamim, filho de uma irmã, orphão desde tenra idade. Joaquim Fidelis

deu-lhe educação e fel-o estudar, até obter diploma de bacharel em

sciencias juridicas, no anno de 1877.

Benjamim ficou atordoado. Não podia acabar de crer na morte do tio.

Correu ao quarto, achou o cadaver na cama, frio, olhos abertos, e um

leve arregaço ironico ao canto esquerdo da boca. Chorou muito e muito.

Não perdia um simples parente, mas um pai, um pai terno, dedicado, um

coração unico. Benjamim enxugou, emfim, as lagrimas; e, porque lhe

fizesse mal ver os olhos abertos do morto, e principalmente o labio

arregaçado, concertou-lhe ambas as cousas. A morte recebeu assim a

expressão tragica; mas a originalidade da mascara perdeu-se.

--Não me digam isto! bradava d'ahi a pouco um dos visinhos, Diogo

Capítulo de préviaIIPrévia

A missa do setimo dia reuniu-os na igreja. Acabada a missa, os cinco

amigos acompanharam á casa o sobrinho do morto. Benjamim convidou-os a

almoçar.

--Espero que os amigos do tio Joaquim serão tambem meus amigos, disse

elle.

Entraram, almoçaram. Ao almoço fallaram do morto; cada um contou uma

anecdota, um dito; eram unanimes no louvor e nas saudades. No fim do

almoço, como tivessem pedido uma lembrança do finado, passaram ao

gabinete, e escolheram á vontade, este uma canneta velha, aquelle uma

caixa de oculos, um folheto, um retalho qualquer intimo, Benjamim

sentia-se consolado. Communicou-lhes que pretendia conservar o gabinete

tal qual estava. Nem a secretária abrira ainda. Abriu-a então, e, com

elles, inventariou o conteudo de algumas gavetas. Cartas, papeis soltos,

programmas de concertos, menus de grandes jantares, tudo alli estava de

mistura e confusão. Entre outras cousas acharam alguns cadernos

manuscriptos, numerados e datados.

--Um diario! disse Benjamim.

Com effeito, era um diario das impressões do finado, especie de memorias

secretas, confidencias do homem a si mesmo. Grande foi a commoção dos

amigos; lêl-o era ainda conversal-o. Tão recto caracter! tão discreto

espirito! Benjamim começou a leitura; mas a voz embargou-se-lhe

depressa, e João Braz continuou-a.

O interesse do escripto adormeceu a dor do obito. Era um livro digno do

prelo. Muita observação politica e social, muita reflexão philosophica,

anecdotas de homens publicos, do Feijó, do Vasconcellos, outras

puramente galantes, nomes de senhoras, o da Leocadia, entre outros; um

repertorio de factos e commentarios. Cada um admirava o talento do

finado, as graças do estylo, o interesse da materia. Uns opinavam pela

impressão typographica; Benjamim dizia que sim, com a condição de

excluir alguma cousa, ou inconveniente ou demasiado particular. E

continuavam a ler, saltando pedaços e paginas, até que bateu meio-dia.

Levantaram-se todos; Diogo Villares ia já chegar á repartição fóra de

horas; João Braz e Elias tinham onde estar juntos. Galdino seguia para a

loja. O Fragoso precisava mudar a roupa preta, e acompanhar a mulher á

rua do Ouvidor. Concordaram em nova reunião para proseguir a leitura.

Certas particularidades tinham-lhes dado uma comichão de escandalo, e as

comichões coçam-se: é o que elles queriam fazer, lendo.

--Até amanhã, disseram.

--Até amanhã.

Uma vez só, Benjamim continuou a lêr o manuscripto. Entre outras cousas,

admirou o retrato da viuva Leocadia, obra-prima de paciencia e

semelhança, embora a data coincidisse com a dos amores. Era prova de uma

rara isenção de espirito. De resto, o finado era eximio nos retratos.

Desde 1873 ou 1874, os cadernos vinham cheios d'elles, uns de vivos,

outros de mortos, alguns de homens publicos, Paula Souza, Aureliano,

Olinda, etc. Eram curtos e substanciaes, ás vezes trez ou quatro rasgos

firmes, com tal fidelidade e perfeição, que a figura parecia

photographada. Benjamim ia lendo; de repente deu com o Diogo Villares. E

leu estas poucas linhas:

«DIOGO VILLARES.--Tenho-me referido muitas vezes a este amigo, e

fal-o-hei algumas outras mais, se elle me não matar de tedio, cousa em

que o reputo profissional. Pediu-me ha annos que lhe arranjasse um

emprego, e arranjei-lh'o. Não me avisou da moeda em que me pagaria. Que

singular gratidão! Chegou ao excesso de compor um soneto e publical-o.

Fallava-me do obsequio a cada passo, dava-me grandes nomes; emfim,

acabou. Mais tarde relacionámo-nos intimamente. Conheci-o então ainda

melhor. _C'est le genre ennuyeux._ Não é mau parceiro de voltarete.

Dizem-me que não deve nada a ninguem. Bom pai de familia. Estupido e

credulo. Com intervallo de quatro dias, já lhe ouvi dizer de um

ministerio que era excellente e detestavel:--differença dos

interlocutores. Ri muito e mal. Toda a gente, quando o vê pela primeira

vez, começa por suppol-o um varão grave; no segundo dia dá-lhe

Sumário

Nesta edição

  1. 01Histórias sem Data
  2. 02I
  3. 03II
  4. 04parte alguma. Outro collega nosso ouvira dizer que elle tinha uma casa
  5. 05I
  6. 06II
  7. 07III
  8. 08IV
  9. 09V
  10. 10I
  11. 11II
  12. 12III
  13. 13IV

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Histórias sem Data

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