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Literatura
Autos e farsas de Gil Vicente
Edición BooksWhale en portugués de Gil Vicente
Seleção de três peças de Gil Vicente, reunindo sátira social, teatro alegórico, casamento, tentação, crítica de costumes e religiosidade portuguesa.
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Introducción del libro
Autos e farsas de Gil Vicente
Autos e farsas de Gil Vicente reúne Auto da Índia, Farsa de Inês Pereira e Auto da Alma em uma edição portuguesa de domínio público. A coletânea apresenta a sátira social, a imaginação alegórica, a crítica dos costumes, o tema do casamento e a religiosidade teatral que fizeram de Gil Vicente uma figura central do teatro português.
Edición BooksWhale
Cómo se preparó esta edición
Esta edición se basa en un texto de dominio público y fue preparada por BooksWhale para lectura digital.
Base de dominio público
Por qué puede compartirse
Os autos e farsas reunidos nesta edição foram compostos e publicados no século XVI. Os textos selecionados pertencem ao domínio público e foram preparados para a edição BooksWhale.
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Autos e farsas de Gil Vicente
Gil Vicente
Auto da Índia
À Farsa seguinte chamam Auto da Índia. Foi fundada sobre que ũa mulher, estando já embarcado pera a Índia seu marido, lhe vieram dizer que estava desaviado
e que já não ia; e ela, de pesar, está chorando e fala-lhe ũa sua criada. Foi feita em Almada, representada à muito católica Rainha Dona Lianor. Era de 1509 anos. Entram nela estas figuras:
Ama (Constança), Moça, Castelhano (Juan de Zamora), Lemos, Marido.
Moça
Jesu! Jesu! que é ora isso?
É porque se parte a armada?
Ama
Olhade a mal estreada
!
Eu hei-de chorar por isso?
Moça
Por minh' alma que cuidei
e que sempre imaginei,
que choráveis por noss' amo.
Ama
Por qual demo ou por qual gamo
,
ali, má hora
, chorarei?
Como me leixa saudosa!
Toda eu fico amargurada!
Moça
Pois por que estais anojada?
Dizei-mo, por vida vossa.
Ama
Leixa-m', ora, eramá,
que dizem que não vai já.
Moça
Quem diz esse desconcerto
?
Ama
Dixeram-mo por mui certo
que é certo que fica cá.
O Concelos
me faz isto.
Moça
S'eles já estão em Restelo
,
como pode vir a pêlo?
Melhor veja eu Jesu Cristo,
isso é quem porcos há menos.
Ama
Certo é que bem pequenos
são meus desejos que fique.
Moça
A armada está muito a pique
.
Ama
Arreceio al de menos
.
Andei na má hora e nela
a amassar e biscoutar
,
pera o o demo levar
à sua negra canela,
e agora dizem que não.
Agasta-se-m'o coração,
que quero sair de mim.
Moça
Eu irei saber s'é assim.
Ama
Hajas a minha benção.
Vai Moça e fica a Ama dizendo:
Ama
A Santo António rogo eu
que nunca mo cá depare:
não sinto quem não s'enfare
de um Diabo Zebedeu.
:Dormirei, dormirei,
boas novas acharei.
São João no ermo estava,
e a passarinha cantava.
Deus me cumpra o que sonhei.
Cantando vem ela e leda
.
Moça
Dai-m' alvíssaras
, Senhora,
já vai lá de foz em fora
.
Ama
Dou-te ũa touca de seda.
Moça
Ou, quando ele vier,
dai-me do que vos trouxer.
Ama
Ali muitieramá!
Agora há-de tornar cá?
Que chegada e que prazer!
Moça (à parte)
Virtuosa está minha ama!
Do triste dele hei dó.
Ama
E que falas tu lá só?
Moça
Falo cá co’esta cama.
Ama
E essa cama, bem, que há?
Mostra-m'essa roca
cá:
siquer fiarei um fio.
Leixou-me
aquele fastio
sem ceitil
.
Moça (à parte)
Ali eramá!
Todas ficassem assi.
Leixou-lhe pera três anos
trigo, azeite, mel e panos.
Ama
Mau pesar veja eu de ti!
Tu cuidas que não t'entendo?
Moça
Que entendeis? ando dizendo
que quem assi fica sem nada,
coma vós, que é obrigada...
Já me vós is entendendo.
Ama
Ha ah ah ah ah ah!
Est'era bem graciosa,
quem se vê moça e fermosa
esperar pola irá má.
I se vai ele a pescar
meia légua polo mar,
isto bem o sabes tu,
quanto mais a Calecu
:
quem há tanto d'esperar?
Melhor, Senhor, sé tu comigo.
À hora de minha morte,
qu'eu faça tão peca sorte.
Guarde-me Deus de tal p'rigo.
O certo é dar a prazer.
Pera que é envelhecer
esperando polo vento?
Quant'eu por mui nécia sento
a que o contrário fizer.
Partem em Maio daqui,
quando o sangue novo atiça:
parece-te que é justiça?
Melhor vivas tu amém,
e eu contigo também.
Quem sobe por essa escada?
Castelhano
Paz sea n' esta posada.
Ama
Vós sois? Cuidei que era alguém.
Castelhano
A según esso, soy yo nada.
Ama
Bem, que vinda foi ora esta?
Castelhano
Vengo aquí en busca mía,
que me perdí en aquel día
que os vi hermosa
y honesta
y nunca más me topé.
Capítulo de vista previaARGUMENTOVista previa
Assi como foi cousa muito necessária haver nos caminhos estalagens, pera repouso e refeição dos cansados caminhantes, assi foi cousa conveniente que nesta caminhante vida houvesse uma estalajadeira, pera refeição e descanso das almas que vão caminhantes pera a eternal morada de Deus. Esta estalajadeira das almas é a Madre Santa Igreja, a mesa é o altar, os manjares as insígnias da Paixão. E desta perfiguração trata a obra seguinte.
Figuras: Alma, Anjo Custódio, Igreja, Santo Agostinho, Santo Ambrósio, S. Jerónimo, S. Tomás, Dous Diabos.
Este Auto presente foi feito à muito devota Rainha D. Leonor e representado ao mui poderoso e nobre Rei Dom Emanuel, seu irmão, por seu mandado, na cidade de Lisboa, nos Paços da Ribeira, em a noite de Endoenças. Era do Senhor de 1518.
Está posta uma mesa com uma cadeira. Vem a Madre Santa Igreja com seus quatro doutores: S. Tomás, S. Jerónimo, Santo Ambrósio e Santo Agostinho. E diz Agostinho:
Capítulo de vista previaAGOSTINHOVista previa
Necessário foi, amigos, que nesta triste carreira desta vida, pera os mui p'rigosos p'rigos dos imigos, houvesse alguma maneira de guarida. Porque a humana transitória natureza vai cansada em várias calmas; nesta carreira da glória meritória, foi necessário pousada pera as almas.
Pousada com mantimentos, mesa posta em clara luz, sempre esperando com dobrados mantimentos dos tormentos que o Filho de Deus, na Cruz, comprou, penando. Sua morte foi avença, dando, por dar-nos paraíso, a sua vida apreçada, sem detença, por sentença, julgada a paga em proviso, e recebida.
A Sua mortal empresa foi santa estalajadeira Igreja Madre: consolar à sua despesa, nesta mesa, qualquer alma caminheira, com o Padre e o Anjo Custódio aio. Alma que lhe é encomendada, se enfraquece e lhe vai tomando raio de desmaio, se chegando a esta pousada, se guarece.
Vem o Anjo Custódio, com a Alma, e diz:
Índice
Dentro de esta edición
- 01Full text
- 02ARGUMENTO
- 03AGOSTINHO
- 04ANJO
- 05ALMA
- 06ANJO
- 07DIABO
- 08ALMA
- 09DIABO
- 10ANJO
- 11DIABO
- 12ANJO
- 13ALMA
- 14ANJO
- 15ALMA
- 16DIABO
- 17ALMA
- 18ANJO
- 19ALMA
- 20ANJO
- 21ALMA
- 22ANJO
- 23ALMA
- 24ANJO
- 25DIABO
- 26ALMA
- 27ANJO
- 28IGREJA
- 29ALMA
- 30IGREJA
- 31ALMA
- 32IGREJA
- 33ALMA
- 34AGOSTINHO
- 35IGREJA
- 36AMBRÓSIO
- 37JERÓNIMO
- 38AGOSTINHO
- 39IGREJA
- 40AGOSTINHO
- 41IGREJA
- 42JERÓNIMO
- 43JERÓNIMO
- 44IGREJA
- 45JERÓNIMO
- 46AGOSTINHO
- 47IGREJA
- 48JERÓNIMO
- 49ALMA
- 50AGOSTINHO
- 51LAUS DEO
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