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Literatura
Diva
Edición BooksWhale en portugués de José de Alencar
Um romance urbano de José de Alencar sobre orgulho, desejo, máscara social e amor.
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Introducción del libro
Diva
Diva acompanha Emília, figura fascinante e difícil, em um jogo de sentimentos, aparência e transformação. José de Alencar explora o romance urbano brasileiro com elegância psicológica e atenção às tensões da sociedade imperial.
Edición BooksWhale
Cómo se preparó esta edición
Esta edición se basa en un texto de dominio público y fue preparada por BooksWhale para lectura digital.
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Por qué puede compartirse
José de Alencar morreu em 1877, e Diva foi publicado pela primeira vez em 1864; essas datas sustentam a base de domínio público desta edição no idioma original.
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Diva
José de Alencar
Capítulo de vista previaG. M:Vista previa
Envio-lhe outro perfil de mulher, tirado ao vivo, como o primeiro. Deste, a senhora pode sem escrúpulo permitir a leitura à sua neta.
É natural que deseje conhecer a origem deste livro; previno pois sua pergunta.
Foi em março de 1856. Havia dois meses que eu tinha perdido a minha Lúcia; ela enchera tanto a vida para mim, que partindo-se deixou-me isolado neste mundo indiferente. Senti a necessidade de dar ao calor da família uma nova têmpera à minha alma usada pela dor.
Parti para o Recife. A bordo encontrei o Dr. Amaral, que vira algumas vezes nas melhores salas da corte. Formado em medicina, havia um ano apenas, com uma vocação decidida e um talento superior para essa nobre ciência, ele ia a Paris fazer na capital da Europa, que é também o primeiro hospital do mundo, o estádio quase obrigatório dos jovens médicos brasileiros.
Amaral, moço de vinte e três anos, era uma natureza crioula de sangue europeu, plácida e
serena, mas não fria; porque sentia-se em torno dela o doce e calmo calor das paixões em repouso. Minha alma magoada devia pois achar, nesse contato brando e suave, a delícia do corpo alquebrado, recostando-se em leito macio e fresco.
Quanto a mim, Lúcia desenvolvera com tanto vigor em meu coração as potências do amor, que cercava-me uma como atmosfera amante, uma evaporação do sentimento que exuberava. Havia em meu coração tal riqueza de afeto que chegava para distribuir a tudo quanto eu via, e sobejava-me ainda.
Essa virtude amante, que eu tinha em toda a minha pessoa, exerceu sobre meu companheiro de viagem influência igual à que produzira em mim sua grande serenidade. Ele fora um repouso para minha alma; eu fui um estímulo para a sua.
Sucedeu o que era natural. Desde a primeira noite passada a bordo, fomos amigos. Essa amizade nascera na véspera, mas já era velha no dia seguinte. As confidências a impregnaram logo de um aroma de nossa mútua infância.
Separamo-nos em Pernambuco, apesar das instâncias de Amaral para que eu o acompanhasse à Europa. Durante dois anos, nos carteamos com uma pontualidade e abundância de coração dignas de namorados. Em sua volta esteve comigo no Recife; escrevi-lhe ainda para o Rio; mas pouco tempo depois minhas cartas ficaram sem resposta, e nossa correspondência foi interrompida.
Decorreram meses.
Um belo dia recebi pelo seguro uma carta de Amaral; envolvia um volumoso manuscrito, e dizia:
"Adivinho que estás muito queixoso de mim, e não tens razão.
Há tempos me escreveste, pedindo-me notícias de minha vida íntima: desde então comecei a resposta, que só agora concluí: é a minha história numa carta. Foste meu confidente, Paulo, sem o saberes, a só lembrança da tua amizade bastou muitas vezes para consolar-me, quando eu derramava neste papel, como se fora o invólucro de teu coração, todo o pranto de minha alma."
O manuscrito é o que lhe envio agora, um retrato ao natural, a que a senhora dará, como ao outro, a graciosa moldura.
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Emília tinha quatorze anos quando a vi pela primeira vez.
Era uma menina muito feia, mas da fealdade núbil que promete à donzela esplendores de beleza.
Há meninas que se fazem mulheres como as rosas: passam de botão à flor: desabrocham. Outras saem das faixas como os colibris da gema: enquanto não emplumam são monstrinhos; depois tornam-se maravilhas ou primores.
Era Emília um colibri implume; por conseguinte um monstrinho.
Seu crescimento fora muito rápido; tinha já altura de mulher em talhe de criança. Daí uma excessiva magreza: quanta seiva acumulava aquele organismo era consumida no desenvolvimento precoce da estatura.
Ninguém caracterizava com mais propriedade esse defeito de Emília do que a menina Júlia, sua prima. Quando as duas se agastavam, o que
era freqüente, Júlia a chamava de esguicho de gente.
Não parava aí a fealdade da pobre Emília. A óssea estrutura do talhe tinha nas espáduas, no peito e nos cotovelos, agudas saliências, que davam ao corpo uma aspereza hirta. Era uma boneca, desconjuntada amiúdo pelo gesto ao mesmo tempo brusco e tímido.
Como ela trazia a cabeça constantemente baixa, a parte inferior do rosto ficava na sombra. A barba fugia-lhe pelo pescoço fino e longo; faces, não as tinha; a testa era comprimida sob as pastas batidas do cabelo, que repuxavam duas tranças compridas e espessas.
Restava apenas uma nesga de fisionomia para os olhos, o nariz e a boca. Esta rasgava a maxila de uma orelha à outra. O nariz romano seria bonito em outro semblante mais regular. Os olhos negros e desmedidamente grandes afundavam na penumbra do sobrolho sempre carregado, como buracos, pelas órbitas.
A respeito do trajo, que é segunda epiderme da mulher e pétalas dessa flor animada, o da menina correspondia a seu físico.
Compunha-se ele de um vestido liso e escorrido, que fechava o corpo como uma bainha desde a garganta até os punhos e tornozelos; de um lenço enrolado no pescoço; e de umas calças largas, que arrastavam, escondendo quase toda a botina.
Emília ainda assim não parecia satisfeita. Estava constantemente a encolher-se, fazendo trejeitos
para mergulhar o resto do pescoço e o queixo no talho do vestido, e sumir as mãos no punho das mangas. Caminhando, dobrava as curvas a fim de tornar comprida a saia curta; sentada, metia os pés por baixo da cadeira.
Tinha um cuidado extremo em puxar para a frente as longas tranças do cabelo, que andavam sempre a dançar-lhe, como antolhos pelo rosto. Se lhe falava alguma pessoa de intimidade da família, não lhe voltava as costas como fazia com os estranhos; mas sentia logo uma necessidade invencível de coçar a cabeça, acompanhada por um repuxamento dos ombros. Eram modos de atravessar o braço diante do rosto e furtar o queixo, escondendo assim o que lhe restava de fisionomia.
Muitas vezes o Sr. Duarte zombava com terna ironia desses biocos da filha:
— Deixa estar, Mila!... dizia ele abraçando-a. — Vou mandar fazer para ti um saco de lã com dois buracos no lugar dos olhos.
Tal era Emília aos quatorze anos.
Entretanto, quem soubera a anatomia viva da beleza, conhecera que havia nessa menina feia e desengraçada o arcabouço de uma soberba mulher. O esqueleto ali estava: só carecia da encarnação.
Ainda me lembro da cólera infantil de Emília, quando, a primeira vez que estive com ela, eu a perseguia de longe chamando-a:
— Minha noiva!
— Feio!... dizia-me então.
E pronunciava essa palavra como se ela simbolizasse a maior injúria possível.
Começara o verão de 1855.
Uma manhã apareceu Geraldo em minha casa. Entrou, conforme o seu costume, estrepitosamente, e cantarolando não sei que ária do seu repertório italiano.
Índice
Dentro de esta edición
- 01Full text
- 02G. M:
- 03P.
- 04V. S. um médico de sua confiança, habituado a tratar na família.
- 05D. Leocádia dormitava extenuada à cabeceira do leito. Emília não dava mais acordo de si.
- 06D. Leocádia abriu os olhos:
- 07D. Leocádia passou nessa ocasião.
- 08D. Matilde fez com o leque um aceno à filha:
- 09D. Leocádia veio receber-me.
- 10D. Leocádia saíra um instante.
- 11D. Leocádia entrava. Despedi-me e parti.
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