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Literatura
Dona Branca
Edición BooksWhale en portugués de Almeida Garrett
Um poema narrativo romântico de Garrett, entre lenda, imaginação histórica e identidade portuguesa.
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Introducción del libro
Dona Branca
Dona Branca é uma obra importante do romantismo português, na qual Almeida Garrett trabalha lenda, memória nacional, imaginação histórica e linguagem poética. Esta edição portuguesa original é indicada para leitores de poesia, romantismo e literatura de Portugal.
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Almeida Garrett morreu em 1854 e Dona Branca foi publicado em 1826; estas datas confirmam o domínio público desta edição portuguesa original.
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Dona Branca
Almeida Garrett
CANTO PRIMEIRO
I
Áureos numes d'Ascreui, ficções risonhas Da culta Grécia amável , crença linda De Vénus bella, Yenus mãe d' Amores Brincões, travessos; — do magano Jove, Que do septimo ceu atraz das moças Vem andar a correr por este mundo , Já niveo touro, já dourada chuva, Já quanto mais lhe apraz ; — de Baccho alegre.
Do louro Apollo , e das formosas nove Gastas irmans que nos vergéis do Pindo Tecem aos sons da lyra eternos carmes;
Gentil religião, teu culto abjuro, Tuas aras profanas renuncio:
Professei outra fé, sigo outro rito, E para novo altar meus hymnos canto.
II
Não rias, bom philosopho Duarte^, Da minha conversão, sincera é ella^ Disse adeus ás licções do paganismo, E christão vate christãos versos faço. — Irão meus versos ao retiro mystico, Adonde te escondeste, procurar-te;
E ao levantar da névoa matutina Te hãode acordar para contar-te a historia Dos bons tempos que foram. — Ouve, escula O alahude romântico, ouve as coplas Do amigo trovador : á nossa terra Vamos, amigo, vamos co'estes sonhos Imbalar as saudades, e dar folga Ás anciãs d'alma co'as ficções do ingenho
III
«Em hora boa saia a nova esposa «Por caminho de flores! Saia a bella,
CANTO I 3
«A casta filha de Sion sagrada «Para os paços magnificos do esposo! «Choremos nós, queella se vai, choremos, «Que nos deixa e se vai : outro rebanho «A apascentar caminha em prados novos; «De outras ovelhas cuidará solícita, «Que não de nós: sua coroa mystica «Outras mãos tecerão da rosa agreste, «Do lirio das campinas para a frente «Da pastora sagrada: o bago sancto «D'outro redil defenderá a entrada. «Em hora boa saia a nova esposa «Por caminho de ílôres! Saia a bella, «A casta filha de Sion sagrada «Para os paços magniíicos do esposo!»
IV
Aberta estava a porta do mosteiro , E as virgens do Senhor este cantavam Hymno de saudosa despedida Á sua joven prelada que ora as deixa.
Formosa e em viço de florentes annos A real Branca, de Lorvão senhora, AUi despiu do século as grandezas Na solidão do claustro : o nobre Affonso
4 D. BRA^^GA
Yiii com iagrymas pias — não de mágoa, Trocar a linda filha a régia purpura Pela estamenha austera. Moça e bella O báculo impunhou, e o regeu digna De seu sancto mister. A mais subido, Mais alto grau na hyerarchia a chama Agora seu avô , essoutro Affonso*, O sábio, o imperador, o rei poeta Que as musas poz no sólio co'a virtude E com ellas reinou, rei cavalheiro, .
Poeta portuguez, que em nossa iingua, Mais estreme da arábiga aspereza, Mais goda e mais romana, preferia Suas régias canções cantar do soho.
Como a sangue que é seu, e amada filha De Beatriz muito amada, lhe queria O bom do imperador á joven Branca:
Abbadeça a fez d'Holgas ; a buscá-la Vieram seus vassallos; e ora parte Em pomposo cortejo a tomar posse De seus grandes > riquíssimos domínios.
Y Cavalleiros cincoenta armados d'aço Lúcidas cotas, duras mallias vestem:
CANTO I 5
Alva cruz nos broqueis; e alvo pennacho No elmo brilhante fluctuanclo ondeia.
Alta a viseira está, mas baixos olhos O respeito lhes põe ; não íita ousada A vista do guerreiro as virgens sanctas Que o véo do templo separou do mundo, Vassallos estes são que as férteis várzeas De Burgos téem, e d'Holgas ao mosteiro Preito e homenagem dão^ : custou-UVarmados A entrar assim por terras portuguezas ;
Com muito campeão romperam lanças , E em pontes e castellos de senhores Houveram que brigar; nem lhes valeram Salvos-conductos do valente Affonso , Que o Portuguez cioso não tolera O rival Castelhano em terra sua.
Capítulo de vista previaPart 2Vista previa
XX
Mas já cuidoso o rigido Soeiro Co'a delonga do enviado reverendo , Começa de assombrar-se-lhe a consciência Na ideia de quebrar o mandamento Cardeal dos preceitos bernardescos.
Já entre a comitiva mal disposta A acceder aos escrúpulos do frade Murmuravam alguns: e só continha O respeito da infante, que assanhada Não rompesse a questão entre os dois máximos Poderes que este mimdo entre si regem . . .
XXI
Eia! cobrae alento, ânimos fortes, Que, vedes, Lopo traz a medicina Para escrúpulos, fomes, e temores De mal passadas noites, magras ceias E o mais que agora em vossas almas pesa, — «Tremenda, padre ; e viva san' Bernardo ! »
Gritava já de longe , esbaforido Do galope em que vem. — «Viva a tremenda!»
Soeiro volve; e vivas lhe respondem Da companhia alegre co'a mensagem.
Dobra-se o passo; cada qual se apressa, Com olhos e alma no tinello*'^bento.
Branca, a formosa Branca de annos tenros Á tutoria monachal affeita, E sem vontade sua onde é senhora , Vai onde a levam , e rezando sempre , Começa uma novena e três rosários Que nos p'rigos da estrada promettêra A não sei quantos sanctos milagrosos, Se á poisada esta noite a salvo chega.
XXII
Correi, correi, ó nobres cavalleiros, Correi, correi; san' Bento vos espera Com farta ceia e regaladas camas.
CANTO I 23
Porém, como os escrúpulos cessaram Do rígido Soeiro? como pôde O destro enviado congraçar diff renças De monges brancos e de negros monges? — Fácil não foi; travada houve disputa;
E a não ser o abbade , homem prudente , Que o bago regedor metteu em meio Da renhida contenda, hoje ao sereno Ficaras, linda Branca delicada;
E de tuas faces as purpúreas rosas Ámanhan desbotadas não dariam Inveja e zelos aos rubis da aurora.
Esses olhos tão puros, d'onde mana Doce arroio de luz celeste e meiga , Olhos , por quem amor dera o seu throno , Dera um ceu de prazer e de ventura, Se outro ceu, se outro amor já não tomara Para si todo, todo esse thesoiro;
Esses olhos pesados do relento , Morna a luz, sem fulgor, do novo dia Não brilhariam matutinos raios:
Qual soe brilhar no ceu a estrêlla d'alva, Precursora do sol — tão radiante.
Tão majestosa não, porém mais bella.
D. BRA^'CA
XXIII
Eis os repiques nas sonoras grympas;
Eis as tochas, e os cânticos: — «Bem vinda (íA filha de Sion, bem vinda seja «A progénie dos reis, a casta esposa «Eleita do Senhor. São os seus olhos «Como os da pomba quando em terno arrulho «Anceia. . .» — Os padres bentos o cantavam, Não sou eu que o inventei: — e outras mais coisas Excitantes imagens das dehcias Conjugaes d'ahna : hymno exemplar e sancto, Extraindo do cântico dos cânticos. ^^
CANTO SEGUNDO
I
Lm formosura! oh doce incanto d' olhos, InlèTO d'ahna, paracjiiè no mundo Te debuxou a mão da natureza?
Que vieste fazer do ceu á ten^a Ornato de anjos, divinal revérbero Da face do Creador? — A luz da estrèlla No firmamento azul , o alvor da lua Frouxo-brilhante , e bello como a face Da virgem cjue suspira por amores Vagos, que em peito infante lhe despontam;
O surrir mei^o da rosada aurora
26 D. BRA^ÍCA
Que vem o dia annimciar com flores Roxas, colhidas nos jardins do oriente;
E o sol, orbe de luz no ceu, radiante, Olho, imagem de Deus, clarão e vida.
Ser, existência propagando eterno Por innumeros orbes suspendidos No espaço , . . oh! formosuras são condignas Do edifício magnífico do mundo.
De taes incautos adornou sua obra A mão que tudo fez. — A majestosa Architectura do orbe foi traçada Assim, n'um grande rasgo de belleza Simples, sublime e grave como a ideia Que o concebeu no seio á eternidade.
Capítulo de vista previaPart 3Vista previa
E em gritaria tal ninguém se mtende.
Quando um Jeigo a correr esbaforido Vem a aritar: «Misericórdia! acudam. . .
CANTOU 43
Misericórdia! Moiros no conYento.)^ — «Moiros! repete imisona a caterva;
E os berros de Soeiro , os argumentos De Gilvaz, as risadas dos coristas, Tudo parou n'um gélido silencio.
Gomo n'harpa festiva os sons alegi^es Do trovador que feriu setta imiga, Quando animava co'as canções di\1nas As danças dos zagaes no ílóreo prado :
Mas o cruel archeiro d'alta torre O mirou certo ao coração, e fria Pára a mão, que as vibrou, sonoras cordas.
XIV
Moiros! . . . Com olhos fixos e pasmados, De susto e medo atónitos se inçaram Uns aos outros, e como que perguntam Em seu mudo fallar: «O que faremos?»
Dos cavalleiros a mor parte dorme;
E os que velavam co'a funcção nocturna Da orgia monachal, tomados súbito De terror imprevisto, acovardados.
Sem ânimo, sem força, irresolutos, Em pavor frio como os outros gelam. «Que faremos?» — «As armas!» gritou Xuno: «Animo! ás armas, e segui-me todos, Que eu. . . » — Não bem proferira estas palavras, Tremendo Allá soou pelas abobedas -^ Agudas do comprido dormitório, E os alfanges nas trevas scintiliaram Mal acclaradas das nocturnas lâmpadas.
Luziram finas pedras nos doirados Broches d'alvos turbantes. — Allá sôa. . .
E os frades , o doutor e os cavalleiros Se viram n'um instante sobre os peitos Apontadas as duras cimitarras, Cru terror de Ghristãos. — Nem um suspiro, Nem um ai: mãos atraz, e um nó valente De rijo esparto — Nuno só, que em tanta Desordem conservou cordura e alma, Das mãos do frade toma a cruz que guiava A procissão burlesca , e a golpes vivos Co'a bandeira da fé a infiéis combate.
Sobre elle alfanges cento a golpes chovem Lhe descarregam ponderosas hachas, Mas o intrépido Nuno a um lado e outro Fere, estrue, defende-se, e derruba Inerme e só ao Ismaelita armado.
CANTOU 45
Não lhe com])orta o generoso peito Perder, sem disjjutar, a liberdade, E antes a yida, que a honra, barateia.
Caminho se abre entre as cerradas turmas Das moiriscas espadas . . . Espantado De tanto esforço , e como que vencido D'um poder sup'rior, recua o Moiro;
E o intrépido mancebo, defendendo-se, Retirando-se , emfim a escada alcança.
Cum desesp'rado golpe e furibundo Aterra os que mais próximos o seguem;
A pulos desce, atravessou a crasta, ^^"^ — Gomo sulco de luz na tempestade.
Que as nuvens rasga, e some-se — na cerca Entre árvores e o escuro desparece. — «Deixae-o : » disse entre os infiéis um d'elles Que o nobre ad'man, o rico dos vestidos, E o respeito que os outros lhe catavam Seu chefe mostra ser: «quem tão valente Assim defende a liberdade e a vida, É digno de as gosar: ninguém o siga.»
46 D. BRA^^CA
XV
Quem é este inimigo generoso, Que alma tão nobre em peito infiel incerra ?
Quem é este guerreiro musulmano, Quem tão gentil, tão majestoso hrillia Nas pictiirescas árabes alfaias Que o talhe heróico, o altivo porte, a graça Esbelta, de marcial belleza arreiam?
Branca emtôrno da fronte em tresdobradas Voltas o cinge estofa resplendente Gomo a neve nos picos annuviados Da serra das Estrellas. Puras virgens A deduziram em lidados fusos, De Alvor nos verdes plainos, e a teceram Ao som das namoradas cantilenas Dos romances do Oriente, que as memórias Contam d'avós nas terras apartadas, D'onde vieram ao reclamo tredo Do vingativo pae pela offendida Honra da loura virgem. ^^—Incurvadas Em demi-lunar círculo rebrilham A esmeralda da cor dos verdes campos E a saphyra que o azul do ceu reflecte,
CAXTO II 47
E as amethystas roxas como a humilde Violeta modesta , que se esconde Do sol creador na flórea primavera.
Olhos negros —tão negros como as tranças Que, ao destoucar-se, a noite esparze longas Pelas ebúrneas costas — vivo lume, E o fogo da progénie do deserto Do rosto baço, como tochas, lançam Accesas no aguçado minarete Á hora das preces, na mesquita. Baço, Baço é o rosto — que o sol crestou as faces, Ha longas gerações, da raça altiva Dos filhos do ermo, — porém bello, e cheio De animada expressão; e o vivo realçam Carmim das faces crespos fios d^evano.
Índice
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- 02Part 2
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- 04Part 4
- 05Part 5
- 06Part 6
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- 08Part 8
- 09Part 9
- 10Part 10
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