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O Cabeleira

Edición BooksWhale en portugués de Franklin Távora

Romance regionalista brasileiro sobre cangaço, violência, sertão, destino e formação social.

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Introducción del libro

O Cabeleira

O Cabeleira é uma obra importante do regionalismo brasileiro, voltada ao sertão nordestino, à criminalidade, à memória popular e às tensões entre ambiente e moral. Esta edição preserva o texto em português.

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Esta edición se basa en un texto de dominio público y fue preparada por BooksWhale para lectura digital.

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Franklin Távora morreu em 1888, e O Cabeleira foi publicado em 1876. Essas datas sustentam o domínio público desta edição original em português.

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O Cabeleira

Franklin Távora

Ao leitor

Meu amigo,

A casa, onde moro, está situada ao lado de uma rua de bambús, em um dos cantinhos mais amenos da bacia de Botafogo.

Vejo daqui uma grande parte da bahia, os morros circumstantes, cravando seus cumes nas nuvens, o céo de opalo, o mar de anil.

Infelizmente este bello espectaculo não é immutavel.

De subito o céo se torna brusco, e só descubro cabeços fumegantes em torno de mim; ribomba o trovão nos pincaros alcantilados; a chuva fustiga as palmeiras e casuarinas; a ventania brame no bambuzal; a casa estala.

Parece que tudo vai derruir-se.

Estas tormentas duram horas, noites, dias inteiros, e reproduzem-se com mais ou menos frequencia.

Quando ellas têm passado de todo, o céo mostra-se mais puro e bello, o mar mais azul, as arvores mais verdes; a viração tem mais doçura, as flores mais deliciosos aromas.

Pela face das pedreiras correm listrões d’agua prateada, que reflectem a luz do sol, formando brilhantes matizes.

Coberta de frescas louçanias, a natureza sorri com suave gentileza depois de haver esbravejado e chorado como uma criança.

É tempo de cumprir a promessa extorquida pela amizade, que não attendeu ás mais legitimas escusas. Essa natureza brilhante e movel estava a cada instante convidando o meu desanimo a romper o silencio a que vivo recolhido desde que cheguei do extremo-norte do imperio.

Depois de cêrca de dous annos de hesitações, dispuz-me enfim a escrever estas pallidas linhas — notas dissonantes de uma musa solitaria, que no retiro, onde se refugiou com os desenganos da vida, não póde esquecer-se da patria, anjo das suas esperanças e das suas tristezas.

Tive porém que melhor seria leres umas centenas de paginas na estampa, que traduzires um volumoso in-folio , inçado de tantas emendas e entrelinhas que a mim mesmo custa ás vezes decifral-as, pela razão de que tudo aqui se escreveu sem ordem, sem arte, sem se attender a ideal, por aproveitar momentos vagos e incertos de uma penna que pertence ao estado e á familia.

Por isso, em lugar de uma carta receberás nessa encantadora Genebra, onde te delicias com a memoria de Rousseau, Stael, Voltaire, Calvino — astros immortaes, que rutilarão perpetuamente no firmamento da civilisação, um livro hoje, outro talvez amanhã, e alguns mais successivamente, até que me tenha libertado da obrigação, que me impuzeste, conforme o permittirem as minhas forças diminuidas pelo meu afastamento das cousas litterarias de nossa terra.

Inicio esta serie de composições litterarias, para não dizer estudos historicos, com o Cabelleira , que pertence a Pernambuco, objecto de legitimo orgulho para ti, e de profunda admiração para todos os que têm a fortuna de conhecer essa refulgente estrella da constellação brazileira. Taes estudos, meu amigo, não se limitarão sómente aos typos notaveis e aos costumes da grande e gloriosa provincia, onde tiveste o berço.

Pará e Amazonas, que não me são de todo desconhecidas; Ceará, torrão do meu nascimento; todo o norte emfim, si Deus me ajudar, virá a figurar nestes escriptos, que não se destinam a alcançar outro fim senão mostrar aos que não a conhecem, ou por falso juizo a desprezam, a rica mina das tradições e chronicas das nossas provincias septentrionaes.

Depois de alguns mezes de ausencia, tornei a ver o Recife, esplendida visão de teus sonhos nostalgicos. Lamento que, havendo sido transportado muito novo ainda ao velho mundo, não guardes dessa visão a menor lembrança, fugitiva embora. Genebra com o Mont-blanc coberto de neves e gêlos eternos; o lago immenso, que a um sem-numero de poetas tem inspirado maviosos e immortaes cantos; o Rhodano que, ao dizer de um viajante nacional, foge apressado, resmungando com voz medonha em procura de hospitalidade no Mediterraneo, não póde ter a belleza dessa elegante e risonha cidade, que surge d’entre mangues verdejantes, aguas limpidas, pontes soberbas, e se estende por sobre vasta planicie, obrigando os matos a se afastarem de dia em dia ao occidente para ter espaço onde alongue de improviso suas novas ruas, suas estradas, seus trilhos, testemunhos de sua prosperidade material, commercial e agricola ; onde funde novas escolas e erija novos templos, testemunhos de sua civilisação e grandeza moral.

Capítulo de vista previaIVista previa

A historia de Pernambuco offerece-nos exemplos de heroismo e grandeza moral que podem figurar nos fastos dos maiores povos da antiguidade sem desdoural-os. Não são estes os unicos exemplos que despertam nossa attenção sempre que estudamos o passado desta illustre provincia, berço tradicional da liberdade brazileira. Merecem-nos particular meditação, ao lado dos que ahi se mostram dignos da gratidão da patria pelos nobres feitos com que a magnificaram, alguns vultos infelizes, em quem hoje venerariamos talvez modelos de altas e varonis virtudes, si certas circumstancias de tempo e lugar, que decidem dos destinos das nações e até da humanidade, não pudessem desnaturar os homens, tornando-os açoites das gerações coévas e algozes de si mesmos. Entra neste numero o protogonista da presente narrativa, o qual se celebrizou na carreira do crime, menos por maldade natural, do que pela crassa ignorancia que em seu tempo agrilhoava os bons instinctos e deixava soltas as paixões cannibaes. Autorizam-nos a formar este juizo do Cabelleira a tradição oral, os versos dos trovadores e algumas linhas da historia que trouxeram seu nome aos nossos dias envolto em uma grande lição.

Á sua audacia e atrocidades deve seu renome este heróe legendario para o qual não achamos par nas chronicas provinciaes. Durante muitos annos, ouvindo suas mãis ou suas aias cantarem as trovas commemorativas da vida e morte desse como Cid, ou Robin-Hood pernambucano, os meninos tomados de pavor, adormeceram mais depressa, do que si lhes contassem as proezas do lobishomem

ou a historia do negro do surrão muito em voga entre o povo naquelles tempos.

Com a simplicidade irreprehensivel que é o primeiro ornamento das concepções do espirito popular, habilitam-nos esses trovadores a ajuizarmos do famoso valentão pela seguinte letra:

Fecha a porta, gente,

Cabelleira ahi vem,

Matando mulheres,

Meninos tambem.

O Cabelleira chamava-se José Gomes, e era filho de um mameluco por nome Joaquim Gomes, sujeito de más entranhas, dado á pratica dos mais hediondos crimes.

De parceria com um pardo de nome Theodosio que primou na astucia e nos inventos para se apossar do que lhe não pertencia, percorriam José e Joaquim o vasto perimetro da provincia em todas as direcções, deixando a sua passagem assignalada pelo roubo, pelo incendio, pela carnificina.

Um dia assentaram dar um assalto á propria villa do Recife.

As populações do interior, em sua maioria destituidas de bens da fortuna, e então muito mais espalhadas do que actualmente, pouco tinham já com que cevar a voracidade dos tres aventureiros a quem desde muito pagavam um triplo imposto consistente em viveres, dinheiro e sangue. O assalto foi resolvido em secreto conciliabulo dentro nas matas de Páo-d’alho onde mais de uma vez se haviam reunido para concertos identicos.

Na mesma hora aperceberam-se para a temeraria tentativa, e, com o arrojo que lhes era natural, puzeram-se a caminho contando de ante-mão com o feliz successo em que tinham posto a mira.

Á noticia da sua approximação a maior parte dos moradores, deixando os povoados, então muito fracos por não terem ainda a densidão que só um seculo depois tornou alguns delles respeitaveis, emigrou para os matos, unico abrigo com que lhes era permittido contar, embora se achassem a poucas leguas do Recife; taes houve que, não tendo tempo ou recursos para fugir aos crueis visitantes, lhes deram hospedagem como meio de não incorrerem no seu desagrado.

Ao declinar do dia seguinte eram elles na Estancia. Sentaram-se no adro da capella de taipa que fôra ahi levantada por Henrique Dias, para recordar aos vindouros que nesse lugar tivera elle o seu posto militar pelas guerras da restauração. Esse posto era d’entre todos o que ficava mais vizinho ao inimigo.

Eloquente testemunho da bravura do troço da gente preta a quem a patria reservou distincta menção nas maiores paginas da historia colonial.

Capítulo de vista previaIIVista previa

Por entre as victimas do terror que lutavam com as aguas do Capibaribe nas sombras da noite deslisou indifferente a canôa onde ia o Theodosio, assassino do soldado, que se atirára ao rio em busca dos delinquentes.

Theodosio, como os leitores hão de lembrar-se, viera só mas não voltava agora desacompanhado. José, taciturno e quieto, e Joaquim, rosnando como besta fera que indiscreto caçador irrita em escuso bosque, testemunhavam ao pé do cabra, sentados na pôpa do fugitivo lenho, com os bacamartes nas mãos, o espectaculo de afflicção e desespero; e, como si fizessem de caso pensado para denotarem a pouca conta em que tinham uma sociedade que elles dous unicamente acabavam de entregar em alguns minutos á perturbação e á dôr, pareciam affrontar com olhares insultuosos não sómente os homens mas tambem aquelle que ao fulgor das estrellas vê melhor do que os mortaes á luz do dia, e que das alturas, onde paira, distribue por todos a sua indefectivel justiça, tanto para premiar como para punir. Foi Deus o unico que conheceu os tres aventureiros, rompendo as aguas, o unico que em suas frontes manchadas do sangue e do opprobrio recente leu o passado que os condemnava e o futuro que por elles esperava para justiçal-os com a excessiva severidade que havemos de ver.

Os naufragos só trataram de salvar-se e fugir; qual se agarrasse aos mangues, então muito bastos e numerosos, que bordam o rio como ilhas de verdura, qual demandasse, a fim de escapar da inclemencia da corrente, os bancos de areia formados pelo fluxo e refluxo das marés. Ninguem cuidou mais no Cabelleira senão para se distanciar com horror crescente da sua sombra cruel, do seu vulto fatal e ominoso.

Achavam-se na ponte o pai e o filho, não para serem soccorridos, como foram, pelo companheiro, mas para protegerem a sua fuga, caso fosse elle descoberto antes de haver concluido o roubo que assentaram de praticar em um dos armazens. A denuncia do matuto transtornára esta combinação pela fórma que o leitor conhece, não impedindo porém que no essencial viesse ella a verificar-se, porque, ouvindo o trovão do alarido e fazendo conta que o conflicto fôra provocado pelos amigos como meio de concentrar em um só ponto as geraes attenções a fim de deixal-o ao abrigo de qualquer sorpresa, tratára Theodosio de aproveitar o tempo com a promptidão e pericia que lhe eram habituaes em semelhante genero de occupação.

Na extremidade de uma vara fôra acinte atado um ferro adunco para facilitar o escalamento. Prendêl-o na varanda do armazem, subir pela longa haste até a estiva, passar desta á janella, e saltar dentro fôra obra de um instante para o Theodosio. Em poucos minutos quinquilharias preciosas, armas de fogo, perfumarias, miudezas de toda sorte desceram por cordas em suas caixas ou pacotes para a canôa. As gavetas, primeiro que as vidraças foram violadas e revistadas, e o dinheiro que continham passára a povoar o bolso do atrevido roubador.

São tradicionaes os roubos que deste modo se praticaram na ponte do Recife por aquelles tempos e durante muitos annos depois.

Segundo contam os antigos, elles reproduziram-se no começo deste seculo com tanta frequencia, que os armazens ao principio com razão cubiçados pelos commerciantes, perderam de valor, e ficariam de todo depreciados si a policia, por uma rigorosa vigilancia que lhe faz honra, não houvesse impedido a continuação destes attentados.

Quando não houve mais objecto de preço que baldear, Theodosio desceu. Era tempo.

Ainda bem não tinha terminado o seu aereo trajecto, quando dous corpos surgiram d’entre ruidoso espumeiro produzido por violenta queda e passaram-se á embarcação. Eram Joaquim e José Gomes que se haviam atirado ao rio para escaparem á prisão, como vimos.

Índice

Dentro de esta edición

  1. 01Full text
  2. 02I
  3. 03II
  4. 04III
  5. 05IV
  6. 06V
  7. 07VI
  8. 08VII
  9. 09VIII
  10. 10IX
  11. 11X
  12. 12XI
  13. 13XII
  14. 14XIII
  15. 15XIV
  16. 16XV
  17. 17XVI
  18. 18XVII
  19. 19XVIII
  20. 20FIM

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