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Literatura

O Romance de um Homem Rico

Edición BooksWhale en portugués de Camilo Castelo Branco

A Portuguese romantic novel of wealth, conscience, suffering, religious feeling, and moral redemption.

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Introducción del libro

O Romance de um Homem Rico

O Romance de um Homem Rico follows Álvaro Teixeira de Macedo through family secrecy, inheritance, love, remorse, and spiritual trial. Camilo Castelo Branco combines melodrama, social observation, religious meditation, and emotional intensity in a characteristic nineteenth-century Portuguese narrative.

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Camilo Castelo Branco died in 1890, and this Portuguese novel was published in the nineteenth century. The restored text uses Project Gutenberg public-domain transcription of the Portuguese edition.

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O Romance de um Homem Rico

PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO

Capítulo de vista previaEste foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticinio, queVista previa

Este foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticinio, que

Capítulo de vista previaaventuro sobre o meu futuro de escriptor, me sahe exacto, este romanceVista previa

prevalecerá a quantos a minha imaginação já desluzida, e como á força, der de si. Com tristeza sincera confesso que no que fui já mal me reconheço. As rugas da fronte empecem ao coar d'aquella flamma, que

Índice

Dentro de esta edición

  1. 01Full text
  2. 02Este foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticinio, que
  3. 03aventuro sobre o meu futuro de escriptor, me sahe exacto, este romance
  4. 04me aquentava a phantasia, e dentro me alumiava, como em lampada magica,
  5. 05lances da vida exterior, uns de riso, outros de lagrimas. E eu entrava
  6. 06modestia de vaidade, podia chamar-lhe feliz capacidade para engenhar
  7. 07sabia gastar melhor e mais aproveitados.
  8. 08esfriada e dorida sobre o papel em que escrevo? Acabou-se como tudo que
  9. 09principia, e mais depressa que o deperecer commum das faculdades
  10. 10glacial da desfortuna.
  11. 11solitarias? Devo suppor que vim apparelhado para os maximos infortunios,
  12. 12quando o experimental-os levemente me incommoda, e o relembral-os me
  13. 13deve antes ser pena de ver murcharem-se as chimeras que me infloravam de
  14. 14padre Alvaro d'este romance, e Maria da Gloria e Leonor, e a santa de
  15. 15E eu tenho saudades d'elles, e das noites em que os via sentados em
  16. 16Bellas, 19 de Maio de 1863.
  17. 17CAMILLO CASTELLO BRANCO.
  18. 18parecem miserias da fortuna,
  19. 19ancias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima
  20. 20d'isto, o meu dorido amor a quantos sitios guardavam para a minha
  21. 21Entrei n'uma das mais flacidas carruagens do comboi.
  22. 22Vejam a egoista e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma
  23. 23padecia tanto, se dispensou a ignobil materia dos regalos das almofadas!
  24. 24A angustia lamentosa de Lamartine era sincera; creio: mas em que
  25. 25recamaras de asiatica opulencia se lamentava elle! Que requintes de luxo
  26. 26infloravam ao poeta de Elvira a dupla existencia, quando elle escrevia:
  27. 27Endorme le Malheur,
  28. 28E Petrarcha, tanto anno a chorar sonetos, aposentado no palacio d'um
  29. 29doge, rodeado de servos, e d'amigos, e de admiradores, n'aquella
  30. 30feiticeira Veneza, tudo a expensas da republica!
  31. 31E todos os outros mestres de bardos melancolicos?
  32. 32Eu ia a scismar n'isto, quando me deu na vista um homem, companheiro de
  33. 33correspondesse, de abstrahido que ia a pensar no corpo e na alma, cousas
  34. 34Agostinho, e melhor ainda, em Xavier de Maistre; no primeiro, quando se
  35. 35cousas, e muitas outras.
  36. 36companheiro. Dava-se logo a conhecer por tal n'aquelle apostolico
  37. 37Agradeci o agradavel consentimento, e offereci-lhe a minha charuteira,
  38. 38Recahi no meu lethargo. Agora era diversa a these: meditava n'esta
  39. 39palavra MORAL, e n'esta outra virtude, e lembrou-me Bruto. Todos sabem
  40. 40que Bruto, no ultimo instante de vida, dissera que a virtude era apenas
  41. 41do heroico inimigo dos tyrannos.
  42. 42intelligente: como que estou vendo por elle uma boa alma.
  43. 43Fitei os olhos suaves do sacerdote. Estava elle com os dedos
  44. 44a mais artistica e significativa de paz, e conformidade vencedora dos
  45. 45maus e dos males da vida.
  46. 46convencional, e timorato do escarneo dos insultadores! O contentamento
  47. 47interior d'aquelle homem, revendo-lhe ao rosto, em suave tristeza,
  48. 48feliz?
  49. 49Sahiu-se o padre do seu absorvimento, e disse-me:
  50. 50e outras, que se embebem d'ellas. A saudade do objecto, existente a
  51. 51em espirito ao lugar onde as amamos, e conversal-as na linguagem das
  52. 52lagrimas...
  53. 53longas e ossudas sobre o peito.
  54. 54linguagem e semblante. Eu sou assim com todos os homens, se me elles
  55. 55em que me sinto bem. Estou alli como encasado n'aquellas paredes
  56. 56abaladas que parecem estar-me dizendo todos os dias: quando cahiremos
  57. 57Abriu um sorriso de extrema tristeza, e ajuntou:
  58. 58Canavial, e procure o padre Alvaro Teixeira. Raras horas no anno estou
  59. 59se algum visinho lhe disser que o pobre presbytero passou a morar
  60. 60Disse isto o padre sem o menor tregeito beatifico. N'aquellas palavras
  61. 61mas, ainda que muito longe fosse, eu iria passar uma hora com o homem
  62. 62raciocinio; ao passo que frequentemente as melhores qualidades do homem,
  63. 63primeiro encontro.
  64. 64Disse-lhe o meu nome. O padre repetiu-o tres vezes pausadamente, syllaba
  65. 65por syllaba, e depois exclamou de repente:
  66. 66cito o titulo: O CLERO E O SENHOR A. HERCULANO.
  67. 67paginas da minha infancia litteraria, felizmente esquecidas...
  68. 68podendo hombrear com o historiador doutissimo no solio da sciencia, e
  69. 69sobejavam conselhos aos parciaes do clero, que porfiavam em levar
  70. 70N'esta esteira foi navegando o padre, a todo o panno da sua muita
  71. 71levita, e eu de melhor vontade os dispenso de ouvir-lh'as, mesmo porque
  72. 72Merece chronica um episodio de instantes que se deu entre mim e o
  73. 73mau conceito. Isto prova que bem avisado andou o governo, collocando o
  74. 74intelligente belga, no lugar onde podia fazer tolices algum portuguez
  75. 75ainda assim a boa escolha.
  76. 76renascem para chorar commigo. Um poeta diria e pensaria isto. Quando
  77. 77depois, acerto de encontrar-me com a madresilva, com a margarita, com a
  78. 78se ri d'esta palavra na boca de um velho, que cahiria extenuado se
  79. 79maravilha da fabula: rompa n'aquella pedra a fonte da juventude do corpo
  80. 80annos me faz?
  81. 81Contemplei-o com assombro e piedade. Quarenta e seis annos aquelle
  82. 82vincos da testa escalvada encruzados e fundos, travando-se em miuda
  83. 83d'este homem, quando o involucro assim se fende e estala febra a febra!
  84. 84diante da tua paciencia!? Falla, falla, ensina-me a compor dos meus
  85. 85gemidos o hossana da victoria, sobre as agonias, que me vergam, quando
  86. 86adivinhaste um infeliz no homem, que deixou em tua memoria as vinte
  87. 87caminho da vida; aponta-lhe d'aqui o trilho menos escarpado da
  88. 88com o cilicio que revigora a alma; dulcifica-lh'a com o travor das
  89. 89tua essencia de anjo.
  90. 90das pessoas que foram commigo a visitar um palacio derrocado, ou as
  91. 91No convento de franciscanos, cerca de Vianna, reliquias santas em cujas
  92. 92comtemplativos, estava eu, por uma tarde de estio, com um amigo, que
  93. 93escrevera muito sobre a poesia da cruz. Subimos a um teso d'onde se
  94. 94avistavam descampadas e fertilissimas varzeas. A fronte do meu amigo
  95. 95pareceu-me alumiada do sacro lume do estro. Esperei, com reverente
  96. 96silencio, a estrophe inspirada pela soledade, e esmaltada dos matizes do
  97. 97sitio, que eram poesias feitas para um genio que as bem soubesse ler.
  98. 98beijo do sol, e disse:
  99. 99desbancar quantos luxos orientaes o Byron inventou para o seu
  100. 100do conde de Oeiras. Refugi com o pensamento d'este laivo sangrento da
  101. 101historia, e fui em cata de glorias aos seculos primeiros d'aquelle
  102. 102baluarte da nossa independencia de Castella e da mourisma. Enleavam-me
  103. 103carne assada e duas garrafas do Cartaxo, que era optimo vinho, e havia
  104. 104de saber-nos aqui que nem o nectar dos deuses.
  105. 105Ora, este poeta era amantissimo de ruinas, quando as poetava no seu
  106. 106gabinete, em artigos, a um tempo, de saudade do que fomos, e
  107. 107iconoclasta demolir os vetustos moimentos da nossa extincta grandeza.
  108. 108Outro caso:
  109. 109uma casa esburacada de balas, e aberta em largas fendas, desde o cerco
  110. 110de 1833. Por entre hervas e arbustos silvestres rompem algumas hastes
  111. 111descia com o sol a colher ao seu jardim os mais gentis enfeites do seus
  112. 112scismava n'isto, quando o meu amigo, author de idyllios que faziam amar
  113. 113tristeza, da qual nem todas as almas se magoam.
  114. 114pelo calor. Nas padieiras e cornijas amarelleciam fetos e outras
  115. 115agradavelmente tecida, que dissereis ser a natureza tanto mais de
  116. 116circumpostas eram ladrilhadas de tijolo azul e apainelado, figurando
  117. 117passagens mythologicas e campestres. No rebordo superior d'este
  118. 118senhores, refestelados nas suas cadeiras encouradas, vinham, do patim
  119. 119rinchando, escarvando, e folgando em airosas upas.
  120. 120Subimos a escadaria do patim, e entramos n'uma sala pouco alumiada e
  121. 121muito extensa. De relance vi que o tecto era de castanho e profundo, com
  122. 122centro. D'este pendia uma corrente de arame e um grande lampadario,
  123. 123castanho, de altissimo respaldo, com a pintura duplicada a ocre das
  124. 124armas do tecto.
  125. 125tinham tecto, nem portas, nem pavimento. Na extrema do corredor estava
  126. 126camandulas, e estas no fuso, e este no fiado.
  127. 127foi imbelinhar!
  128. 128inutilisados n'uma grossa pitada de simonte, que resfolegou, em quando
  129. 129o padre pacientemente desenredava a cambulhada.
  130. 130residencia do locatario. Era uma sala, e dous quartos contiguos. N'um
  131. 131d'estes estava a cama e livraria do padre; o outro era devoluto para
  132. 132espaldar alto e douraduras floreadas, mesas lisas orladas de embrechados
  133. 133reluzentes matizes de escarlate e azul. Das paredes, cintadas de
  134. 134desterro, adornavam, a grandes intervallos, as quatro paredes da sala,
  135. 135cuja limpeza abonava o cuidado da senhora Eufemia.
  136. 136examinar os contornos da casa. Vi em baixo uma pequena parte d'um grande
  137. 137jardim cultivado e retalhado por meandros de murta e alecrim. O restante
  138. 138estava abandonado. Feixes de herva myrrada afogavam um cysne de
  139. 139copa e muita grossura de troncos formavam, emmaranhando-se, a enorme
  140. 140entrevi um paul, reliquias do que devera ter sido um vistoso lago.
  141. 141Defronte, a duzentos passos, vi uma casa nobre, toda ladrilhada de
  142. 142armas, retocadas de novo, no triangulo em que remata o frontal do
  143. 143edificio.
  144. 144dos que foram donos d'esta em que vivo...
  145. 145olhar para uma das janellas do palacete. Dava a cuidar, pela insistencia
  146. 146com que fitava a janella, que devia alguem apparecer alli; mas tanto
  147. 147aquella, como todas as mais, estavam fechadas, e nenhum signal de vida,
  148. 148Como de golpe, sahiu o padre do seu transporte, e, voltando-se risonho
  149. 149para mim, disse:
  150. 150lhe dou. Venha d'ahi.
  151. 151Segui-o ao quarto visinho, onde estava a senhora Eufemia toda azafamada
  152. 152fina e alvissima toalha. Na parede estavam doze estampas enquadradas em
  153. 153lagrimas...
  154. 154desventurados n'este mundo!--acrescentei eu, enlevado no meu rapto de
  155. 155brutal entre o forte e o fraco, entre a creatura manietada, desvalida,
  156. 156sua impavidez, e soberba. Mal d'aquelle, que foge o mundo, e se
  157. 157homem, desfavorecido dos acasos de que depende a felicidade, o bem, e a
  158. 158contingencias, meramente casuaes, d'esta vida. Offerece-se-me cuidar que
  159. 159desprezo ou mofa, vendo quam dissaboridos e minguados passam os dias do
  160. 160d'este fatuo dos seus bens exteriores, quando a roda do acaso desandar.
  161. 161alto, entendesse que o salvar-se estava em ser revessado contra os
  162. 162Senhor dos mundos se amercie dos seus reptis, occasionando-lhes um dos
  163. 163absolvidos por sua consciencia, refrigeram-se, convalescem, e saram no
  164. 164com ella, e deixem a arena aos vencedores lacerados de uma hora, e aos
  165. 165vencidos manietados da hora seguinte. Dito isto, meu amigo, pergunto-lhe
  166. 166respondesse consoante mandava a cortezia, fomos para a mesa, que era
  167. 167soleiras de duas portas.
  168. 168pradera, hijo mio, por que hay en
  169. 169ella cosas mas dignas de tu
  170. 170pradera su belleza; las miradas
  171. 171de Dios animabam la claridad del
  172. 172bosque, hijo mio, porque tus oidos
  173. 173nutrir em colmeia copiosa, como era aquella, do mel que ao depois
  174. 174delicadamente a minha companhia, e se fechava em seu quarto. Na terceira
  175. 175immoveis e fitos na casa fronteira do negociante de Lisboa.
  176. 176casa, e vi, como sempre, as janellas hermeticamente fechadas. Estive
  177. 177me culpe a mim, condemne a sua affectuosa convivencia, e o mundo tambem
  178. 178mim.
  179. 179Lembrou-me meu pai, cuja face eu beijei no esquife ha vinte e sete
  180. 180annos. As ultimas palavras amoraveis d'um homem de cabellos brancos, meu
  181. 181e retirou com ordem de nos trazer alli o jantar.
  182. 182D'aquella eminencia iam os olhos a muito longe buscar a suave melancolia
  183. 183que levanta o espirito. Enlevavam as lezirias com as suas manadas de
  184. 184gado, os grupos alvejantes de casas, as granjas dispersas na esplainada,
  185. 185os pomares de laranja, os olivedos, e o rumorejo confuso e indistincto
  186. 186das aves, dos regatos, do brando ramalhar das arvores, e da toada de
  187. 187nosso outeirinho. Estavam entre as arvores umas pedras musgosas
  188. 188com seus encostos. O padre sentou-se na menos commoda, e disse-me:
  189. 189meus raros hospedes. Esse alamo, a que o senhor encosta o hombro,
  190. 190plantei-o eu em 8 de Junho de 1832. Tem vinte e dous annos.
  191. 191Obrigava-me a discreto silencio a brevidade da resposta, e o
  192. 192cenobitas, moradores das brenhas, estomagos fortalecidos por fructos
  193. 193Theocrito, Columella, e outros amantes da natureza e do leite. Se o
  194. 194instante a instante fez-se noite n'aquelle aspecto, um quarto de hora
  195. 195antes claro e aberto ao contentamento interior.
  196. 196trabalhando por reprimir as lagrimas.
  197. 197replicar, nem consolar.
  198. 198tirando o padre do fundo do cabaz dous livros: um era o breviario da sua
  199. 199reza, o outro era um romance... Um romance! e, de mais, um romance
  200. 200Espirito Santo!...
  201. 201Acceitei o livro, e li, no prefacio, estas linhas:
  202. 202nimiamente escrupulosas, acaso espavoridas pelo equivoco titulo que ella
  203. 203pessoas, convidadas justamente pelo titulo que repelle as outras, essas,
  204. 204brevemente podiam ensinar-me o enredo da historia. Comprehendi-a toda em
  205. 205espectaculo das agonias d'um naufragio fosse causa a gelar de terror os
  206. 206o padre--Se o senhor tivesse em mim um amigo, capaz de escrever com
  207. 207desculpem?--atalhei eu.
  208. 208as veredas muito differentes.
  209. 209alguma pergunta melindrosa, o padre, erguendo a face inflammada, com a
  210. 210luz dos olhos estranhamente viva, disse n'um impeto de espirito:
  211. 211letras, e continuou depois d'este theor:
  212. 212d'este desafogo. Digo-a a cada noite que Deus manda com os seus
  213. 213natural este desejo de infelizes que se querem lastimados na sua dor.
  214. 214Esse mesmo desejo tenho submettido ao jugo de todos os outros. Nunca
  215. 215fallei do homem que foi aos que a mera curiosidade tem aqui trazido a
  216. 216cabedal que fazem da sua mesma dignidade. Outros avelhentou-os o mesmo
  217. 217e outros erram sem vontade. Na sociedade, em que elles medraram e se
  218. 218acreditaram, sou e devo ser aquillo que de mim pensam: um exquisito, que
  219. 219se goza das suas singularidades; ou um martyr excruciado por sua infeliz
  220. 220porque a hypocrisia tem n'este mundo a sua ganancia, e elles bem sabem
  221. 221que eu nada tenho ganhado, nem solicitado. Isto, que vou dizendo, tem
  222. 222piedosos com as almas remissas e afrouxadas na trabalhosa fabrica das
  223. 223o menos previdente dos tres a quem o Senhor distribuiu os talentos? O
  224. 224dizer a gente illuminada, segundo o tempo, d'um homem, que foi abastado,
  225. 225voltar a si com artes infalliveis o bom rosto da fortuna, e nem sequer
  226. 226escassamente soltou uma palavra de queixume contra os ingratos?
  227. 227escolhidos de Deus, um exemplo, e uma gloria da especie humana.
  228. 228tive alguns annos de homem social e amoldado ao feitio vulgar. Pois
  229. 229Jantamos.
  230. 230os heroes dos meus romances. Eu tenho a sinceridade de fazer comer, com
  231. 231santos, como o padre Alvaro.
  232. 232ECCLES.--12. 5.
  233. 233Na tarde d'aquelle dia chamou-me o padre para junto de si, diante da
  234. 234mesa em que escrevia. Abriu uma das quatro gavetas da escrivaninha, e
  235. 235alguma outra cobertura.
  236. 236minha reverencia houvesse menos ceremonia de ritual e mais religiosa
  237. 237livro. Na primeira pagina, li este dictame de Isaias:
  238. 238Quer dizer:
  239. 239ENTRA NA SEPULTURA, E SOME-TE NA TERHA D'ESSA
  240. 240COVA.
  241. 241E mais abaixo o verso do psalmo 117:
  242. 242palavras eram as mais expressivas, e respondiam fielmente ao pensamento.
  243. 243a do sol me dispensava da outra.
  244. 244entendera por idolatria.
  245. 245nem promenores. Era tudo claro e minudencioso como historia escripta de
  246. 246consciencia em Deus.
  247. 247Diga-me agora: que aproveitou?
  248. 248dizer mais singelamente o resumo de tudo que leu, nem lhe darei,
  249. 249ninguem o vulga aos respeitos publicos. E que vai n'isso? Basta-me Deus.
  250. 250Veio a senhora Eufemia cortar-me a resposta. Trazia ella uma carta
  251. 251havia dado pulso de ferro para sofrear os impetos do sangue.
  252. 252ruinas, mais contente voltarei.
  253. 253ser-me-ia dolorosa.
  254. 254Separamo-nos no Rocio, onde apeamos do carro que nos transportou de
  255. 255Santa Apolonia. O padre disse-me a sua pousada, e eu fui para a minha
  256. 256hospedaria. Procurei-o no dia seguinte: estava elle a ponto de sahir
  257. 257leitor o que elle ia fazer duas vezes em cada dia ao convento de Santa
  258. 258Martha.
  259. 259pateo do convento, e d'alli a sua casa. N'este breve termo, o semblante
  260. 260do homem das dores declinou rapidamente para a lividez e magreza
  261. 261da sege a uma grade, onde o esperava uma senhora muito idosa, de
  262. 262veneravel aspecto, a quem o padre chamou prioreza. De relance, vi que
  263. 263na grade.
  264. 264Sahi logo com o boleeiro, que me ajudara a amparar o meu amigo; mas
  265. 265Ao toque de Ave-Marias fui chamado pela porteira do convento, e esta me
  266. 266disse que o senhor padre Alvaro me pedia a esmola de lhe ir dar o meu
  267. 267encruzadas sobre o seio, e as palpebras descidas como se quizesse
  268. 268Parou a sege.
  269. 269Saltei para amparar o padre na descida.
  270. 270andar, e dizer ao dono da casa, que tenha a paciencia de vir aqui
  271. 271fallar-me.
  272. 272Subi, e desceu commigo o dono da casa, ao qual o padre disse o seguinte:
  273. 273avisinhando das minhas ruinas como o reptil, ferido de morte, da
  274. 274Voltou-se para mim, e disse-me:
  275. 275poder fazer sem custo.
  276. 276consolados por ninguem.
  277. 277Levei-lhe a resposta affirmativa, e a sege partiu, a passo rapido.
  278. 278Fiquei conversando com o amigo do padre.
  279. 279n'este mundo.
  280. 280E ficamos concertados a mandar no dia seguinte saber novas do nosso
  281. 281amigo.
  282. 282voltara sem resposta, ou promessa de responder, quando podesse.
  283. 283procurou para me dizer que a velha Eufemia lhe escrevera, dizendo-lhe
  284. 284que o seu amo estava em perigo de vida. D'alli partimos no mesmo ponto
  285. 285sorriso, e estas palavras pausadamente pronunciadas:
  286. 286Francisco de Sales ou Vicente de Paula...
  287. 287padre Alvaro--disse-lhe eu.
  288. 288Estas vozes extenuaram-no como se fossem um desafogo vehemente. O meu
  289. 289companheiro disse abundancia de palavras que, a seu juizo, deviam
  290. 290perdoavel verbosidade de um, e ao recolhimento offegante do outro.
  291. 291Fallou-se em ir buscar medicos a Lisboa. O padre sorriu-se, encarando no
  292. 292amigo, que propozera a consulta.
  293. 293tudo da misericordia Divina.
  294. 294fechassemos a janella.
  295. 295Pernoitamos ao seu lado, e vimol-o dormir duas horas serenamente.
  296. 296Palpei-lhe o pulso, e senti-o refrigerado e sem ponta de febre. Cobrei
  297. 297compadecido:
  298. 298Fui dar as ordens, e voltei ao quarto, d'onde sahi, quando entrou o
  299. 299prior.
  300. 300desfallecimentos e agonias passageiras do enfermo. A criada chorava alto
  301. 301a cada accidente, e eu via, no semblante contrahido do meu amigo, quanto
  302. 302respondeu-me:
  303. 303Curvei-me diante d'esta dor, e adivinhei as angustias d'aquella mulher
  304. 304reptil, nem quando despega da arvore a folha secca.
  305. 305murmurando vozes imperceptiveis.
  306. 306As onze horas da noite, estremeceu o agonisante na cadeira, e estirou os
  307. 307Soaram as doze horas n'um relogio de parede. O padre parecia contal-as,
  308. 308por um movimento nervoso dos labios. Tinha cahido a ultima pancada, e
  309. 309elle disse:
  310. 310cadeira, e suspirou. Cuidei que elle ia adormecer, quando vi calarem-lhe
  311. 311Era aquelle glacial dormir, que espera novo dia annunciado pelo anjo do
  312. 312ultimo juizo.
  313. 313Ajoelhei de novo, e disse:
  314. 314I
  315. 315n'est pas ici un vain spectacle d'art et
  316. 316et des yeux. Non, c'est un acte de foi,
  317. 317Alvaro Teixeira de Macedo nasceu, em Lisboa, no anno de 1813.
  318. 318companheiros aquella dulcissima palavra, como grande parte e incentivo
  319. 319Alvaro devia acreditar que a sua tinha morrido; mas ninguem lh'o
  320. 320Estava de ferias em casa, e tinha nove annos, quando perguntou a
  321. 321esperteza de Alvaro.
  322. 322perguntas.
  323. 323suas.
  324. 324sentado nos joelhos de seu pae, que lhe anediava os cabellos, e aparava
  325. 325as unhas.
  326. 326morreu?
  327. 327Manoel Teixeira ficou por um pouco tempo suspenso; mas continuou a
  328. 328concernentes ao collegio.
  329. 329Estava Alvaro a ponto de sahir do gabinete de seu pae, e, como levado de
  330. 330providencial impulso, retrocedeu, e disse:
  331. 331Foi o primeiro gesto de enfado que viu Alvaro no rosto d'elle, sempre de
  332. 332riso e meiguice.
  333. 333Tornou Alvaro para o collegio, e contou innocentemente a um dos mestres,
  334. 334que mais seu amigo era, o que passara com a ama e com o pae. Ficou o
  335. 335mestre admirado do acontecimento, e entendeu de si para si que Alvaro
  336. 336communicadas aos nove annos do collegial, e calou-se com ellas o mestre.
  337. 337Maravilhava o pae e os mestres com o seu adiantamento, e cuidado em
  338. 338mestres e do pae, o mais descurioso e desleixado do estudo era Alvaro;
  339. 339mas tambem, ao mesmo tempo, o mais triste e recolhido dos seus
  340. 340condiscipulos.
  341. 341Manoel Teixeira, informado d'isto, sentiu a tristeza do filho e deu
  342. 342gloriava de procrear um talento. O que elle desejava era dar-lhe um
  343. 343verniz de boa sociedade, e habilital-o para casar com uma sobrinha sua,
  344. 344morgada rica, da linha paterna, menina que teria dez annos n'esse tempo.
  345. 345Entrava n'isto por muito o orgulho do bastardo, que pelos degraus da
  346. 346riqueza conseguira hombrear com os filhos legitimos de seu pae, e
  347. 347acudir-lhes, por orgulho tambem, nas crises fidalgas em que se elles
  348. 348condiscipulos, de quem o separar-se lhe seria muito penoso.
  349. 349os professores, aquelle que muito o estimava e conversava, tinha-o em
  350. 350conta de homem, e como a homem lhe fallava. Por vezes, em intima
  351. 351mestre desconhecer a origem da melancolia do discipulo!?
  352. 352sua ignorancia dos nove annos, quando o senhor me pedia esclarecimentos
  353. 353de ser manchada. Creio que me comprehende...
  354. 354sacramento aos paes de seus filhos. Agora de certo me entendeu.
  355. 355Alvaro fez um gesto afirmativo, e disse:
  356. 356se as julgasse d'alguma utilidade, ha mais de dous annos. Vou agora
  357. 357Deus que se esconda n'esse amor; e a minha consciencia manda-me fallar.
  358. 358Seu pae casou ha quatorze annos com uma senhora de rara formosura e
  359. 359destino imprevisto.
  360. 360Continuou o mestre:
  361. 361da companhia de seu pae, para, volvidos alguns dias, entrar n'um
  362. 362pundonor, se o senhor Alvaro, em vez de doze, tivesse vinte e quatro
  363. 363Foram as breves e ultimas palavras que o mestre lhe disse a tal
  364. 364respeito.
  365. 365reaes da desnudez dos vicios imaginarios, eram causa a serem de todo o
  366. 366convento, de modo que seu pae a tinha em conta de morta, e queria que
  367. 367seu filho assim a julgasse.
  368. 368Foi Alvaro, de vontade sua, passar alguns dias a casa. Fez especie em
  369. 369de seu filho, as melhoras do pequeno. De feito, Alvaro estava
  370. 370e encaminhada ao ponto de lhe dizer:
  371. 371Eufemia quiz fugir; Alvaro susteve-a pela saia, e acrescentou:
  372. 372lembre de que o senhor Alvaro me disse taes palavras!...
  373. 373N'um dos proximos dias, Manoel Teixeira de Macedo, tinha sahido
  374. 374esquecera.
  375. 375Alvaro entrou no escriptorio, e reflectindo disse entre si:
  376. 376E diz elle no seu livro, por estas ou consentaneas palavras, que ouvira
  377. 377a fazer. Viu uma caixa de velludo encarnado, com fechos de prata. Abriu
  378. 378a caixa: era um retrato de mulher, sobre marfim.
  379. 379Entrou de golpe Eufemia no gabinete particular de seu amo, e, como visse
  380. 380junto d'elle, dizendo:
  381. 381Eufemia, apenas lhe relanceou os olhos, exclamou:
  382. 382Eufemia espantou-se e assustou-se da gravidade inabalavel d'aquella
  383. 383resposta.
  384. 384Alvaro sahiu, depois que repoz o retrato no seu lugar, com tal cautela,
  385. 385Eufemia oscillou ainda; mas, obrigada por um gesto de justa severidade
  386. 386convento...
  387. 387Eufemia?
  388. 388diga o resto...
  389. 389Eufemia sahiu da beira de Alvaro, e foi, a correr como douda,
  390. 390refugiar-se no seu quarto, e pedir a Deus que trouxesse depressa o
  391. 391Alvaro dirigiu-se placidamente ao gabinete, abriu de novo a gaveta, e
  392. 392a boceta do retrato. A tempo foi isto que se ouviu o toque conhecido da
  393. 393gabinete.
  394. 394Manoel Teixeira trazia o pensamento na chave esquecida. Apenas entrou no
  395. 395suspeitou levemente da curiosidade do filho, nem dos criados, que, salvo
  396. 396Eufemia, nunca entravam n'aquella recamara.
  397. 397Alvaro, a hora segura da noite, quando todos estavam recolhidos,
  398. 398se as houvesse recebido da primeira mulher amada, n'aquelles dias de
  399. 399santo amor, de luz celestial, e de flores sem espinhos, em que tudo nos
  400. 400crescendo de ponto, segundo o silencio desprezador com que as cartas de
  401. 401Maria da Gloria eram recebidas. Na ultima, que leu Alvaro, dizia ella
  402. 402desamparasse. Terminava emprazando o seu algoz, e protestando pela sua
  403. 403innocencia, diante de Deus.
  404. 404D'aqui passou Alvaro a ter com Eufemia este dialogo:
  405. 405porque pensa que estou no collegio.
  406. 406sendo a mais forte de todas esta:
  407. 407descobrisse.
  408. 408Foi Alvaro ao collegio, e contou ao seu mestre predilecto a ida a
  409. 409prometteu por sua parte mentir piamente ao pae, caso acertasse de
  410. 410encontrar-se com elle. Aos outros professores disse Alvaro que ia passar
  411. 411Na madrugada do proximo dia, sahiu de Lisboa, o filho de Maria da
  412. 412Gloria.
  413. 413II
  414. 414Maria da Gloria, depois que leu em tremuras uma carta que recebera do
  415. 415E leu Maria uma carta em que a sua criada lhe contava miudamente as
  416. 416para que eu sentisse o immenso prazer d'esta noticia! Fallai, meu divino
  417. 417para receber dignamente a vossa misericordia, e o amor de seu filho!
  418. 418resgatar, pelo amor do filho, e talvez pelo remorso do pae.
  419. 419Esta nova correu logo os dormitorios, e todas as freiras se alegraram,
  420. 420porque Maria da Gloria era amada de todas, e respeitada das mais
  421. 421seu quarto, a dar-lhe os parabens, como se no animo das mais virtuosas
  422. 422annos de sua vida.
  423. 423criada. Eram paginas sobre paginas levantadas em amor e jubilo, como um
  424. 424tanto amor, onze annos retraindo, e sem desafogo no proprio seio da
  425. 425Passaram tres dias n'esta abrazada ancia de outras noticias. Ao quarto,
  426. 426tanto. Sossobrou-a o transporte de alegria; e as formidaveis angustias
  427. 427nunca poderam tanto. Quizeram as amigas, e sobre todas a inseparavel
  428. 428timidas senhoras se arreceiavam mais da felicidade imprevista, que das
  429. 429Maria cahiu de cama; e, ao terceiro dia, depois da ultima carta,
  430. 430successos que a phantasia escaldada lhe antepunha. A bondosa abbadessa,
  431. 431a fim de socegal-a, promettia-lhe, chegando o menino, abrir-lhe a
  432. 432portaria, contra o estatuido na regra benedictina, e dar-lhe quarto ao
  433. 433monjas, e para a festa da chegada se apostavam todas, com offertas e
  434. 434solemnissimo dia do patriarcha, cujas filhas eram.
  435. 435maiores talentos de Portugal, o inimitavel poeta Antonio Feliciano de
  436. 436juvenil poeta!
  437. 437Maria da Gloria, ao dizerem-lhe que entrara o filho no pateo do
  438. 438delicado o tiraria a limpo.
  439. 439Chegou Alvaro ao pateo do mosteiro.
  440. 440lhes davam os fatos em duplicado para se vestir, chilreando
  441. 441ouvissem de longe o rangido de botas nos sonoros corredores dos
  442. 442com a madre que estava de semana no encargo de acompanhar os
  443. 443quer n'aquelle tempo, a frequencia das grades monasticas era uso e moda
  444. 444das boas familias, Alvaro nunca vira freiras, e julgava d'ellas pelas
  445. 445que via macilentas e magras nos retabulos das igrejas.
  446. 446agruparam-se no corredor a um lado da porta, abrindo passagem ao hospede
  447. 447de sofregos beijos, e, a rapidos intervallos, o afastava de si e
  448. 448contemplava com olhar frenetico, e tregeitos convulsivos como os da
  449. 449loucura.
  450. 450riqueza! tenho vivido em tormentos de onze annos para este instante...
  451. 451Deixem-me desabafar, que a felicidade suffoca-me...
  452. 452como elle, n'aquelles annos, poderia imaginar um anjo. A mulher, que
  453. 453alli via, era magra, livida, e com as rugas da velhice precoce nos
  454. 454conservava a infeliz aos trinta e quatro annos, idade em que o toque
  455. 455Maria da Gloria debulhou-se em lagrimas, e rompeu em gritos. Todas as
  456. 456do leito, tomou-a para si, e submetteu o hombro ao rosto pendido e
  457. 457gotejante de suor.
  458. 458A prelada mandou sahir as religiosas, que pejavam o quarto mal arejado.
  459. 459A discreta abbadessa tambem sahiu, cerrando a porta.
  460. 460sobejavam recursos para as mal denominadas regalias do convento.
  461. 461aceio de adornos, uma livraria, que tomava um dos quatro lados, e alguns
  462. 462olhos por sobre os papeis espalhados n'ella. Entre estes estava aberta a
  463. 463a delicadeza de furtar os olhos ao estimulo da curiosidade. Leu a carta,
  464. 464repellida da casa, onde estava o filho da martyr, e ella, a alma unica
  465. 465temperassem as desesperadas saudades.
  466. 466Maria da Gloria, vestida em desalinho, entrou no quarto, onde Alvaro
  467. 467estava.
  468. 468Sentou-se n'uma cadeira de espaldar, e achegou de si o filho, que
  469. 469parecia tomado de melancolico espasmo.
  470. 470entristece?
  471. 471Maria empallideceu, e balbuciou por entre beijos, em que parece que
  472. 472comprehenderes a calumnia de que sou victima.
  473. 473Diz a Eufemia que elle fora muito seu amigo, e o meu mestre de inglez
  474. 474annos?
  475. 475pae?
  476. 476foram chamados a jantar em casa da abbadessa.
  477. 477prelada ao filho da senhora, querida de todas. Alvaro ficou sentado
  478. 478soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor, impressionara fundamente o
  479. 479animo de algumas senhoras para quem a innocencia de Maria da Gloria era
  480. 480uma piedosa hypothese. Durante o jantar, a santa, que n'esta conta era
  481. 481tida e assim denominada a decrepita monja, fallou algumas vezes com
  482. 482queixando-se de que a sua vinda fosse o prognostico de ella ser
  483. 483A este dito, respondeu Maria da Gloria que a vinda do seu filho era uma
  484. 484sua dignidade de esposa.
  485. 485espirito divino que lhe fallava. Deu-se um religioso silencio, tal que
  486. 486Estas foram as palavras de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor:
  487. 487Maria da Gloria mandou o filho beijar o habito da religiosa. Alvaro foi,
  488. 488da postura humilde, e, assentando os dedos afilados sobre as faces
  489. 489labios lhe abrisse Deus um sorriso de sua misericordia:
  490. 490em que Deus o mandou chegar.
  491. 491volveram os risos e os gracejos depois que, findo o jantar, a santa se
  492. 492retirou encostada a duas religiosas, que haviam sido suas discipulas de
  493. 493noviciado, e contavam para mais de setenta annos.
  494. 494Duas horas depois do jantar, foi Maria da Gloria com seu filho visitar
  495. 495fez signal de ficarem.
  496. 496senhora--disse Maria da Gloria, beijando-lhe o escapulario.
  497. 497demorar-se muito...
  498. 498Vieram-lhes ao encontro nos dormitorios, na claustra, na cerca, as
  499. 499duvidava. Recebia os parabens como se a promessa lhe descesse
  500. 500tanto. Fez-se um mundo novo n'aquelle espirito. As aves da floresta
  501. 501entoavam por ella louvores a Deus. As flores dos taboleiros recendiam os
  502. 502aspecto triste e de ferro com que se mostra a olhos marejados de
  503. 503Nazareth o annuncio da sua maternidade!
  504. 504Fugiam as horas do dia. As do silencio, na breve noite que se seguiu,
  505. 505acalentava-o depois, como douda de felicidade com lembrar-se do amor com
  506. 506que o velara no seu primeiro anno.
  507. 507acordar o filho.
  508. 508Resolveu-a um recado de soror Joanna; mandava dizer que estava esperando
  509. 509o menino, e que fosse, porque eram horas de coro. As palavras da santa
  510. 510deram-lhe alma para o trance.
  511. 511penitente--continuou acariciando Maria--notae bem o que vos digo.
  512. 512Entendeis, Maria?
  513. 513incapaz de desobedecer-lhe.
  514. 514Deus, meus filhos.
  515. 515III
  516. 516milagres: antevia unicamente, com os olhos de sua virtuosissima alma, as
  517. 517faz.
  518. 518direi que amava, mas estimava grandemente seu marido, mais velho que
  519. 519commerciante laborioso, sympathisou com o incansavel bastardo do
  520. 520dous annos; e, como deixasse o seu negocio na India entregue a
  521. 521caixeiros, accelerou o casamento com o duplo fim de desapressar-se de
  522. 522Na ausencia de seu marido, a vida de Maria da Gloria era o amor de
  523. 523Defrontava com a sua casa um cavalheiro de annos adiantados, quarenta
  524. 524teria, mas sobravam-lhe qualidades para ser presado. Umas dava-lh'as a
  525. 525aquelle o nome do cavalheiro, que foi depois intendente geral da
  526. 526desterro, se bem que exilado pelo illegitimo soberano a quem
  527. 527honradamente servira.
  528. 528pilar das virtudes sociaes, sem absoluta dependencia dos preceitos
  529. 529virtude, sem penitenciar o corpo nem a alma.
  530. 530Mandam-me, talvez, cancellar o periodo em que ficam elogiadas as
  531. 531d'estas, e tenta corrigil-as desde a raiz.
  532. 532Outra passagem:
  533. 533implicancia das suas excellentes qualidades:
  534. 534matal-o. Amou pelos olhos Maria da Gloria; mas as mil avenidas da sua
  535. 535alma tinham sido escaladas pelo amor. Amou a formosa porque era formosa.
  536. 536Escreveu uma, duas, seis cartas, longas e eloquentes como devia
  537. 537homem corrido e allucinado:
  538. 538A mulher pura chamou o criado, que lhe entregara as cartas, por
  539. 539da Gloria fez-lhe um gesto severo de silencio, e mandou-o descer no
  540. 540rasto de quem lhe comprara a fidelidade. Vacillou em despedir a criada.
  541. 541Teixeira. Senhor d'uma mulher bella, e virtuosa, e meiga; pae d'um
  542. 542comprar a ouro; estimado de uns sinceramente, e lisongeado por outros;
  543. 543mundo?
  544. 544Uma tarde, entrou no quarto de sua esposa Manoel Teixeira, e disse-lhe,
  545. 545rosto.
  546. 546Sahiu Manoel Teixeira, porque n'este ponto entrou Eufemia com o menino.
  547. 547Maria seguiu-o, e entrou com elle n'uma sala.
  548. 548contar-lhe o acontecimento.
  549. 549ia a fallar, quando lhe elle voltou de golpe as costas, e sahiu.
  550. 550os innocentes sejam condemnados em muitas instancias, antes de serem
  551. 551citados ao seu tribunal supremo, e--n'isto vai muito a dizer--parece que
  552. 552Consultem-se, pois, os theologos.
  553. 553Mattos de sua casa, uma vez pelo menos, em quanto o seu protector
  554. 554segundo pae fosse deshonrado por uma mulher indigna. E taes cousas disse
  555. 555Decorridas estas, convidou-a a dar um passeio de carruagem ao campo.
  556. 556digamos maldade.
  557. 557Fora de portas estava uma liteira, uma mulher sobre umas andilhas, e
  558. 558Maria sahiu machinalmente.
  559. 559deixarem. Adeus.
  560. 560A criada tinha apeado. Maria da Gloria foi transportada quasi sem
  561. 561conflicto.
  562. 562Deixemos ir aquella martyr, e esperemos em Deus.
  563. 563conta de todo o contheudo n'ella. Eufemia e o menino foram recebidos em
  564. 564casa de uma familia, e d'ahi levados para outro domicilio, onde os
  565. 565Dizia-se que a criminosa esposa do desditoso fora encerrada n'um
  566. 566convento de Hespanha; que os remorsos a matariam alli; que o extremoso
  567. 567marido estava a ponto de enlouquecer; que os seus amigos desvelavam as
  568. 568de evangelhos.
  569. 569estava em Barcellos, sua terra natal, convalescendo da enfermidade do
  570. 570capital, ouviu a historia, e deliberou-se nobremente a procurar Manoel
  571. 571Teixeira, e contar-lhe a innocencia de sua mulher, confessando a propria
  572. 572viajar pela Italia, com o filho aos peitos da ama, e comprara uma quinta
  573. 573nos arrabaldes de Napoles.
  574. 574successos o perturbasse no exercicio dos seus altos cargos. Imaginava
  575. 575Maria da Gloria em Hespanha, e, por decoro seu e d'ella nunca inquiriu o
  576. 576filhinhos, que aposentou em Lisboa n'um palacete de Belem. Consola,
  577. 577trazia sempre sobre os joelhos, na carruagem, e offerecia aos carinhos
  578. 578de todos os seus amigos.
  579. 579blasphema dos degraus do altar, sentiu-se morrer em agonias atrozes
  580. 580Deus, por que era de Deus um anjo, que ella via ao seu lado, envolvido
  581. 581no habito de soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor.
  582. 582cartas que Eufemia lhe escrevia de Napoles. Logo que as recebeu de
  583. 583Lisboa, escreveu a seu marido muitas cartas, que elle lia commovido.
  584. 584filho, antes de ser chamada com o pae ao tribunal de Deus.
  585. 585IV
  586. 586petitis, credite quia accipietis, et
  587. 587Eu vos affirmo que todas as cousas,
  588. 588S. MARC. 11. 24.
  589. 589Em 1825, era empregado, em qualidade de aguazil, na intendencia geral da
  590. 590importantes segredos d'aquella magistratura.
  591. 591Manoel Teixeira de Macedo, como suspeito partidario de D. Carlota
  592. 592Cahiu a proposito fallar da graciosa napolitana, que vivia
  593. 593ostentosamente em Belem, e da esposa, que fora encarcerada n'um mosteiro
  594. 594de Hespanha.
  595. 595Gloria tinha sido entregue na raia a pessoas encarregadas de
  596. 596conduzirem-na ao convento hespanhol.
  597. 597reservadamente esclarecimentos acerca de Maria da Gloria, entrada no seu
  598. 598mosteiro em 1817. Soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor era a tia de
  599. 599Escreveu de novo o magistrado a sua tia, confirmando a conta em que ella
  600. 600Soror Joanna contrariou o plano judiciario de seu sobrinho, dizendo que
  601. 601Maria da Gloria a carta em que lhe era dada a noticia da ida de Alvaro.
  602. 602rosto sereno da santa, eram inexhauriveis durante aquellas horas do
  603. 603ellas, rezavam ferventemente.
  604. 604Dizem que Soror Joanna estava no coro, a tempo que chegou a noticia da
  605. 605vinda de Alvaro, e que, sem ninguem lh'a ter communicado, rompera em
  606. 606sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me casos da natureza
  607. 607Dispensa o leitor que lhe refresquem a memoria dos successos decorridos
  608. 608com Soror Joanna, durante as vinte e quatro horas de visita de Alvaro a
  609. 609naturalmente, depois da troca das cartas antecedentes, entre a freira e
  610. 610cegos d'aquella celestial claridade a que as almas escolhidas a si se
  611. 611nem devo duvidar das lavadas entranhas e clara fama dos meus leitores.
  612. 612Ao terceiro dia da sua supposta ida para o collegio, o morgado dos
  613. 613se disse, d'aquelle fidalgo de antiga linhagem.
  614. 614pozera o bastardo o fito de sua vaidade, e o legitimo o da sua
  615. 615lhe emprestava quantias avultadas, cobrava titulo d'ellas, armas de
  616. 616Leonor perguntou logo por seu primo, ao subir a escada. Manoel Teixeira
  617. 617era Brito e Macedo. Manoel Teixeira gostou da censura, e disse que o
  618. 618aturar as fadigas da cavallaria. Redarguiu o morgado que era uso na
  619. 619Se outrem o dissesse, era epigramma de certo.
  620. 620alguns primos e primas.
  621. 621Foram Manoel Teixeira e a sobrinha ao collegio com o intento de
  622. 622que foi o surprehendido.
  623. 623apparecer-lhe de repente com a prima.
  624. 624dos Olivaes--tornou o director.
  625. 625Teixeira, interrogando o mestre de inglez.
  626. 626estabelecimento.
  627. 627suppunhamos nos Olivaes: se seu filho mentiu, castigue-o vossa senhoria,
  628. 628Manoel Teixeira sahiu de maneira aturdido que deixaria a sobrinha, se o
  629. 629Eufemia, desconfiada do que havia de succeder, logo que viu Leonor sahir
  630. 630clamorosa de seu amo chamando o filho.
  631. 631Acudiram os criados todos, menos ella. Leonor foi ao quarto de Eufemia,
  632. 632e achou-a em desmaios. Tornou ao tio, contando lhe o estado em que
  633. 633deixava a pobre ama.
  634. 634N'estas aperturas, soou a campainha, e annunciou-se o professor de
  635. 635inglez, que pedia fallar particularmente com o dono da casa. Manoel
  636. 636Teixeira reanimou-se.
  637. 637rosto.
  638. 638presado.
  639. 639soubesse. Ha quatro dias que elle disse ao director do collegio que ia
  640. 640a meu filho?
  641. 641muito servir os nobres sentimentos do filho de vossa senhoria.
  642. 642ironicamente o negociante--Quer-me mais alguma cousa?
  643. 643E, dizendo, tirou d'uma carteira dinheiro em papel, que estendeu sobre a
  644. 644banca a que Manoel Teixeira encostava o cotovelo direito.
  645. 645Na garganta do negociante ficou afogada uma insolencia.
  646. 646Era simples: logo que o filho chegasse, mandal-o para Inglaterra,
  647. 647demoral-o annos n'um collegio, interceptar-lhe a correspondencia com a
  648. 648fosse elle evadir-se ao castigo premeditado.
  649. 649ter feito ao menino; e, como balbuciasse nas respostas, foi despedida, e
  650. 650seu filho. Sahiu a pobre mulher, e escreveu a sua ama; esta carta,
  651. 651criadas de Maria da Gloria.
  652. 652quando se lhe deu parte de um menino, que era portador de uma carta de
  653. 653fim da leitura, tomou-o para si, beijou-o, e disse-lhe com muita
  654. 654meiguice:
  655. 655levou!... Ora deixe estar, que ha-de ser muito feliz com ella... Espere
  656. 656Voltando, tocou uma campainha. Appareceu, afastando o reposteiro, o
  657. 657Limoeiro--disse o intendente--Agora vamos, menino.
  658. 658Maria da Gloria.
  659. 659V
  660. 660fallecem termos com que digamos ao justo o esgar de surpreza com impetos
  661. 661Gloria, vendo entrar seu filho ao lado do amante de sua mulher!
  662. 662se ia demorando, quando a sala immediata se abriu, e o escudeiro veio
  663. 663demorava.
  664. 664do menino, e dizia-lhe:
  665. 665vagava como allucinado o negociante, remettendo contra a porta que o
  666. 666separava da sala em que era esperado, e recuando com o gesto cada vez
  667. 667tirou d'um estojo uma pistola de dous tiros, accommodou-a na algibeira
  668. 668do chambre de cachemira, e entrou na sala com sinistra serenidade.
  669. 669pavimento que se interpunha aos dous.
  670. 670commerciante, relanceando os olhos fuzilantes sobre Alvaro.
  671. 671significa um successo extraordinario movido por um impulso tambem
  672. 672extraordinario.
  673. 673casa.
  674. 674Um criado cortou a resposta, dizendo que um meirinho que acompanhava um
  675. 675preso entre soldados queria fallar a sua excellencia.
  676. 676Manoel Teixeira ergueu os hombros, e disse enleiado das estupendas
  677. 677occorrencias:
  678. 678India, e eu cuidei miseravelmente que a esposa fiel deixaria de o ser na
  679. 679ausencia de seu marido. Havia na sua casa um criado, que adivinhara as
  680. 680mais cinco cartas instando pela resposta da primeira. Sua esposa nunca
  681. 681me respondeu. Um dia, fui animado pelo meu confidente a entrar
  682. 682furtivamente em casa de sua esposa, e esperal-a na passagem do seu
  683. 683de sua casa, cuidando que me era sobejo castigo o despreso com que fui
  684. 684expulso por um ligeiro aceno de mulher. Momentos depois, o criado era
  685. 685despedido tambem, e a esposa sem macula ficou pensando que Deus
  686. 686o feixo da porta, e disse ao meirinho:
  687. 687preso.
  688. 688preso.
  689. 689em casa de vossa senhoria.
  690. 690Teixeira.
  691. 691Levanta-te, e responde. Entregaste alguma vez cartas minhas a tua ama,
  692. 692esposa d'este senhor?
  693. 693accento:
  694. 694Maria da Gloria?
  695. 695lugar onde ella havia de passar?
  696. 696mas quem me aconselhou foi um logista, que tinha sido caixeiro de vossa
  697. 697Manoel Teixeira, como se espertasse d'um sonho vertiginoso, engatilhava
  698. 698a pistola, visando com olhos convulsivos e escarlates de sangue o peito
  699. 699do preso.
  700. 700vale onze annos de lagrimas.
  701. 701almas apaixonadas da terrivel sublimidade da angustia, tirou da
  702. 702algibeira uma carta, que leu com voz solemne, cava, e pungitiva por seu
  703. 703tremor nervoso:
  704. 704que has-de convencer o pae d'esse menino da innocencia d'esta santa.
  705. 705testemunha dos remorsos do marido. Vai, meu sobrinho, vai, guiado por
  706. 706infeliz marido; infeliz, sim, porque eu tenho uma quasi certeza de que
  707. 707creaturas escolhidas. Eu espero com ancia que me digas o que o meu
  708. 708perco a companhia do anjo d'esta communidade; mas ganho-a para a sua
  709. 709felicidade, e onde quer que ella esteja dar-me-ha sempre o mais doce dos
  710. 710nada, porque as minhas muitas enfermidades, bemdito seja Nosso Senhor
  711. 711sobrinho da minha alma. Escreve-me na volta do correio. Deus te guarde.
  712. 712Tua tia muito amiga.
  713. 713de Mattos, e disse:
  714. 714era desculpa, nem a impossibilidade do delicto innocencia.
  715. 715E este sentimento adivinhava o de Manoel Teixeira. Qualquer que fosse a
  716. 716isso bastante para que o homem compadecido offerecesse a sua amisade a
  717. 717familia, embora o effeito da tentativa criminosa fosse apenas a
  718. 718grande alegria a evidencia da lealdade de sua mulher; sentia-se como
  719. 719rehabilitado perante sua propria consciencia. N'isto vae muito para a
  720. 720d'estas culpas. O arrependimento inventa carinhos novos; e a innocente
  721. 721invulneravel da mulher mais depure o quilate da sua virtude, encarecendo
  722. 722poder, sem desaire, recusar-lhe a sua.
  723. 723semblante do intendente.
  724. 724Trinta e quatro annos depois, o padre Alvaro Teixeira, apontando o
  725. 725Foram estas as palavras do homem virtuoso, ao despedir-se de Manoel
  726. 726expansiva de amigo.
  727. 727VI
  728. 728N'um dos ultimos dias de setembro de 1825, amanheceram embandeiradas as
  729. 729de milicias, aquella um desembargador, uma um camponio, outra um
  730. 730Estas folias celebravam um abbadessado, em que devia ser reeleita pela
  731. 731sujeitos bem postos sobre as suas cavalgaduras, e de semblantes
  732. 732destinos alli vinham a cumprir: eram os poetas. D'estes, uns vinham por
  733. 733convite, outros espontaneos, ou esporeados pelo furor metrico. Uns
  734. 734celebrado Ferro; de Braga dous conegos em Apollo, e alguns abbades
  735. 735conhecido Mesquita, cujo nome se laureara entre os contemporaneos da
  736. 736Universidade.
  737. 737Quanto pode de Athenas desejar-se,
  738. 738Tudo o soberbo Apollo aqui reserva;
  739. 739Do bacharo, e do sempre verde louro.
  740. 740hospedavam lautamente os seus poetas das mais raras gulosinas e
  741. 741trouxe comsigo o segredo de civilisar pela fome, e de restaurar
  742. 742direitos, violando-os.
  743. 743A noite illuminaram se as janellas, e os postigos, e os frisos das
  744. 744da abbadessa, primeiro aos vates e seus amigos, depois aos notaveis
  745. 745dadivosa das mais recheadas cestinhas de bolos e garrafas do vinho
  746. 746prelada a paphia deusa, e decima musa. Tudo isto ia intervallado por
  747. 747peito em colloquios rimados de tanto amor que o proprio patriarcha S.
  748. 748santidade e bom siso.
  749. 749dizel-o um dos proprios inspirados.
  750. 750Era este o abbade Mormo, de Villa Real, inimigo do seu patricio
  751. 751mal-feridos de estocadas metricas, e desafiados para o outeiro proximo.
  752. 752Mesquita era filho d'um cortador de carnes, e gastara muitos milhares de
  753. 753cruzados para conseguir cartas de bacharel, que a estulticia do tempo
  754. 754abbade.
  755. 755O doutor Mesquita foi vexado do demonio da satyra mais cedo que o seu
  756. 756Escoucinha, espirra, e rincha,
  757. 757Ouvindo ornear o pechincha,
  758. 758O abbade sujo e devasso, etc.
  759. 759A isto o concitavam as gargalhadas de alguns seus contemporaneos; e a
  760. 760O abbade Mormo ergueu-se de sobre uma alfombra de relva onde parecia
  761. 761sopitado, e bateu as palmas, apenas soou o mote.
  762. 762Boas noites! vou-me embora;
  763. 763Nem me apraz soffrer o mono,
  764. 764Oh! quanto melhor lhe fora
  765. 765Ter as facas amoladas,
  766. 766E ir cortar as colladas
  767. 767No outeiro sanguinoso,
  768. 768Em quanto eu louvo ditoso
  769. 769podia com o adversario; mas sobravam-lhe alli admiradores que o
  770. 770defenderam, immolando-lhe o nariz contuso de Mesquita. Acudiram os
  771. 771amigos do doutor, e a briga assanhou-se entre os dous partidos a ponto
  772. 772com o riso as monjas velhas. As criadas estendiam as bugias e lanternas
  773. 773apagassem as luzes, e mandou tocar a silencio. Meia hora depois, os
  774. 774conventual, e passaram o restante da noite em regalado somno, excepto os
  775. 775dous conegos bracarenses, que d'alli se partiram logo para suas casas
  776. 776clamyde grega, e os cabellos descompostos, improvisou um soneto, que
  777. 777Transfigura em cajadas os cajados
  778. 778Que pozeram em fuga os desalmados
  779. 779conta da desordem, e do receio que se ella repetisse. Conjuraram muitas
  780. 780diligencias de algumas senhoras, que muito podiam com elles.
  781. 781vates, salvo Maria da Gloria que passava a noite no quarto de soror
  782. 782Joanna, recontando-lhe pormenores da sua feliz infancia, e tristonha
  783. 783supplica:
  784. 784pergunto a mim mesma que virtudes novas tenho eu agora para merecer que
  785. 785como tenho sido.
  786. 786estava sentada, e conseguiu-o coadjuvada por Maria da Gloria. Esta, sem
  787. 787convite da santa, ajoelhou tambem, e ouviu da freira estas brandas
  788. 788palavras:
  789. 789queixe. Job tinha uma pedra por leito, e outra com que se alliviava da
  790. 790tirou do ventre materno. A misericordia divina perdoou-lhe ao tom
  791. 791Afervore-sa e rese commigo.
  792. 792disse:
  793. 793crucificado.
  794. 794na freira.
  795. 795Soror Joanna sorriu e disse:
  796. 796comprehende.
  797. 797tremiam de modo, que ella chamou Cecilia para se amparar.
  798. 798pessoas a apear dos cavallos, e umas senhoras saltaram das liteiras, e
  799. 799seio misericordioso do Senhor.
  800. 800Novos estrondos se aproximaram do quarto, e logo entraram tres senhoras
  801. 801sobrinha de Manoel Teixeira. Com estas senhoras vinha tambem Alvaro, a
  802. 802humildade: era a criada Eufemia.
  803. 803As senhoras cercaram Maria da Gloria, chamando-a todas, e perguntando
  804. 804cada uma se a conhecia ainda. Leonor dizia-lhe que era a sua sobrinha.
  805. 805Alvaro dava-lhe aquelle doce nome, a cujo som toda ella se estremecia.
  806. 806Eufemia, essa, obscura a um canto do quarto, estava como esperando que
  807. 807sua ama a chamasse.
  808. 808passagem.
  809. 809Maria da Gloria abrira os olhos apavorados, relanceando-os por todos
  810. 810com tamanho impeto, que foi preciso ampararem o grupo as senhoras mais
  811. 811chegadas. Leonor acudiu de novo dizendo quem era. Maria fitou-a com
  812. 812amor, e disse-lhe:
  813. 813conhecia.
  814. 814deixa envelhecer... E a mim conhecerme-hiam?
  815. 815seu proprio assombro.
  816. 816esbeltas matronas, sahidas das liteiras, e sentiram intumecida a veia da
  817. 817perguntar aos proprios maridos que senhoras eram aquellas, e por ordem
  818. 818afoguearam os filhos de Apollo, e em cada labio borbulhou uma estrophe
  819. 819que se machinava um fogo preso de odes, disse em voz alta, que dava uma
  820. 820correlativas.
  821. 821Com estas e outras facecias mantiveram os poetas o outeiro animado,
  822. 822curiosidade.
  823. 823Ficou de memoria a primeira quadra de um soneto declamado n'esse
  824. 824intervallo pelo doutor Ferro:
  825. 825Seja um vulto qualquer... uma garrafa!
  826. 826VII
  827. 827Manoel Teixeira esperava encostado a uma columna do portico. Os amigos
  828. 828receiavam o effeito do abalo que a primeira vista de Maria da Gloria
  829. 829devia fazer-lhe.
  830. 830differente d'aquella gentil dama, que era Maria da Gloria ha onze annos.
  831. 831No ar do convento dizem os santos que as almas respiram regaladamente;
  832. 832esquerdo de Alvaro. A luz, que as alumiava, era de tochas de cera, ao
  833. 833affectuoso sorriso:
  834. 834nem mesmo aos maridos penitentes.
  835. 835dobrara o joelho diante d'ella.
  836. 836lagrimas e gemidos.
  837. 837e o mesmo fez ao cunhado, que a saudou com esta tirada de palaciano e
  838. 838enamorado de todas as palacianas:
  839. 839marqueza bem conservada, e soubera que a marqueza repetira em ar de
  840. 840bella como foi.
  841. 841Maria da Gloria riu-se, e as senhoras de Lisboa com ella, mas
  842. 842delicadamente. Ao mesmo tempo espirraram de um grupo uns frouxos de
  843. 843bravia, como a abbadessa lhes chamava, que traziam o mosteiro em
  844. 844perguntou-lhe se o menino ficava.
  845. 845consentir, podem tambem ficar. O patriarcha S. Bento tudo tolera hoje,
  846. 846vamos com Deus.
  847. 847Fecharam-se as portas. Maria passou a noite de vigilia, com o seu leito
  848. 848rodeado das antigas amigas, das freiras mais da sua alma, e do filho
  849. 849acariciado, que adormecera com a fronte encostada ao travesseiro de sua
  850. 850d'algum leitor.
  851. 851Diz elle:
  852. 852occasionadas pelo encontro de Maria da Gloria e Manoel Teixeira. Fiquei
  853. 853logrado. Nenhum d'elles disse cousa que fizesse chorar, nem escassamente
  854. 854era que devia ostentar os thesouros do seu estilo lamuriante. Nem um
  855. 855aprendiz de romances deixava, pelo menos, de tirar do peito do marido
  856. 856em cinco minutos. Que ella perdoasse, isso sobre ser justo, era
  857. 857dramatico; todavia, a palavra misericordiosa devia fugir-lhe do
  858. 858novella, e a venderem-se mais alguns milhares de volumes. Escrever as
  859. 859ou leu, ou lhe contaram?! E como dizerem que o theatro deve ser a
  860. 860assim?! Deixar o author correr glacialmente aquella scena da portaria do
  861. 861convento! Ainda agora podiam estar os conjuges a dissertar a respeito
  862. 862entre Manoel Teixeira e sua esposa, se commovessem, porque lhes viram
  863. 863levantam os romancistas da moda. Fique-lhe, pois, de memoria esta
  864. 864Respondendo, digo ao leitor sisudo que me conformo com o seu parecer, e
  865. 865molestia: quando muito, para aformosentar a morte com um nome bemquisto
  866. 866dos poetas, e dos leitores sentimentaes, tenho denominado tisica
  867. 867nos meus ultimos romances, nem mulher alguma perdida tem sido
  868. 868verdade, embora a verdade seja descorada e dissaborida aos amigos das
  869. 869Quem me dera a mim para um dos meus livros uma sombra do renome
  870. 870d'aquelle romance! Quantos milhares de romances, decantados uma hora,
  871. 871pensa o leitor que a voragem do esquecimento enguliu, desde que a
  872. 872obrinha do grande naturalista recebe o tributo de lagrimas, que
  873. 873N'este genero de escriptos, o sello da perpetuidade grava-o a natureza.
  874. 874rudezas de alguns raros, que me trazem entre os dentes da sua critica,
  875. 875Respondi, e volto ao outeiro.
  876. 876musas roufenhas da friagem matinal. As damas lisbonenses, captivas da
  877. 877novidade do outeiro, nem se deitaram, e com Leonor andaram, de grade em
  878. 878grade, pedindo que lhes ensinassem a dar motes. Notaram as freiras que
  879. 879particularmente a menina, se o verso que lhe davam era para assumpto
  880. 880proferindo eom certo requebro as palavras do verso. O pae, que andava,
  881. 881como dissemos, entre os poetas, regosijava-se de ouvir a voz da filha, e
  882. 882como tal a apresentava aos trovadores embellecados da voz argentina e
  883. 883insinuante, que ella tinha. D'estes, o mais verde em annos, e mais verde
  884. 884convertendo-os em madrigaes. Leonor estava encantada de ouvir o seu
  885. 885Disseram-lhe que era um filho segundo de uma nobre casa de Villa do
  886. 886amorosos sonetos. Viu-o, e ouviu-o em prosa, e achou-o na sympathia
  887. 887igual ao poeta. Disse-lhe de entre as grades um adeus affectuoso, e foi
  888. 888aos quatorze annos.
  889. 889VIII
  890. 890Nunca velhaco algum mais destro fora.
  891. 891PLAUTO.
  892. 892sahiram com Alvaro para o recinto exterior da grade mais ampla do
  893. 893mosteiro. Ahi eram esperadas pelos cavalheiros, tirando Manoel Teixeira,
  894. 894a seu marido estas linhas:
  895. 895trouxeram a esta casa. Sobeja e inutilmente te fallei da minha
  896. 896Providencia escuta os innocentes e os criminosos.
  897. 897disse-lhe:
  898. 898em mulher que padeceu tanto! Pergunta-me se eu posso amar meu filho, e
  899. 899mais nada. E que mais queres tu de mim, Manoel?
  900. 900sem lagrimas--Esqueces o meu pedido?
  901. 901Manoel Teixeira obedeceu a sua mulher e contemplou-a em silencio, a
  902. 902agonia mortal, tormento sem nome, nem remedio, quando a piedade recusa
  903. 903abrir-lhe o espiraculo das lagrimas. Que via elle? As reliquias d'uma
  904. 904grande formosura, os cabellos brancos, as palpebras roxas, as rugas
  905. 905ser esta a pergunta que elle a si se fez, quando o choro lhe borbulhou
  906. 906dos olhos. Que fizera elle? Vivera em toda a parte a vida exterior da
  907. 907de Paris. Em quanto a esposa pura d'alli pedia uma visita de seu filha
  908. 908unicamente, e deixava ao pae o gozo inteiro das regalias do seu
  909. 909patrimonio d'ella, quem era aquella mulher que, fatigada de felicidade,
  910. 910se reclinava na espaldar-setim das suas carruagens, e se aborrecia do
  911. 911depressa mitigar as saudades da esposa com as venaes caricias da
  912. 912grangeado pelo incansavel lavor d'um pae, que a si tirava o que lhe
  913. 913Devia ser este o affligido meditar do negociante, ou maiores seriam suas
  914. 914Acudiu Maria a erguel-o, e disse-lhe:
  915. 915Vamos sahir, que me sinta aqui sem ar. Vamos experimentar as minhas
  916. 916que eu vejo, ha onze annos, da minha cella.
  917. 917Manoel Teixeira recobrou vigor dos alentos e sorrisos de sua mulher.
  918. 918me disseres que sim... De resto... como poderias tu ser feliz, se ha
  919. 919Deus!...
  920. 920Teixeira sentiu o golpe involuntario d'estas palavras, e murmurou:
  921. 921Deus!...
  922. 922As familias, reunidas na grade, sabendo que os esposos tinham sahido do
  923. 923sua felicidade.
  924. 924Quando se ajuntaram, continuou o morgado dos Olivaes:
  925. 925Riram todos, porque de todos era sabido o projecto de matrimonio entre
  926. 926os dous primos.
  927. 927perdeu a noite, e perderia a vida, se elle lhe promettesse uma
  928. 928eternidade de sonetos.
  929. 929versos, meu filho?
  930. 930tu ser freira para gozares as delicias d'um outeiro de tres em tres
  931. 931annos?
  932. 932convento! Antes morte que tal sorte!
  933. 933calumniavam.
  934. 934defendia encarecendo a felicidade dos mosteiros, quando reina a paz no
  935. 935e Leonor, estremecendo, exclamou:
  936. 936deixal-a fallar.
  937. 937Miguel de Sotto-Mayor tinha chegado ao grupo, e cortejou-o com
  938. 938poetas portuguezes!...
  939. 939minhas poesias incultas e sem mais merito que o da natureza.
  940. 940O poeta foi indo no grupo, respondendo com frivolidades a outras do
  941. 941penetrante dos olhos de Leonor, que parecia embevecida nas palavras
  942. 942d'elle.
  943. 943Esmerou-se a communidade em lauto e primoroso banquete n'aquelle dia. A
  944. 944amplamente a regra da ordem, admittindo as familias de Lisboa a jantarem
  945. 945lhes comiam.
  946. 946Os hospedes do convento sahiram ao cahir da tarde para o cruzeiro do
  947. 947pateo. Era um formoso intardecer de estio o d'aquelle dia de Setembro.
  948. 948melancolica senhora respondia:
  949. 949mais tarde, nunca sahiria d'aqui.
  950. 950Manoel Teixeira ouvira estas palavras, e interrompeu-as com muita
  951. 951amargura:
  952. 952a conformidade, e o amor d'este menino.
  953. 953Ao diante veremos que nobres e singulares espiritos eram os de Maria da
  954. 954Gloria.
  955. 955Estamos na ultima noite de outeiro. A partida das familias para Lisboa
  956. 956foi marcada para as quatro horas da seguinte madrugada. Os poetas
  957. 957galhardamente se tiraram da dificuldade. Bons tempos aquelles em que a
  958. 958poesia era inimiga do somno!
  959. 959Quem de certo nunca bocejou foi Leonor. O vate de Villa do Conde
  960. 960soneto, impetuosa e energica; na decima, toda em flores e maviosidades.
  961. 961O Ferro ouvira-lhe alguns versos de relance, e cantou-o assim n'um
  962. 962A pomba enamorada e toda secia!
  963. 963Cuidado! que a virtude soffre um tombo,
  964. 964E vamos ter alguma peripecia!
  965. 965Miguel de Sotto-Mayor, posto em riso pelas chufas da plebe, azedou-se
  966. 966contra o repentista portuense, e quiz desafial-o. Intercederam as
  967. 967senhoras religiosas, conscias do conflicto, e Leonor pediu com ellas,
  968. 968Ora o Ferro, que fingira escassamente entender que o desafiavam,
  969. 969apasiguada a sanha do trovador de Villa do Conde, deu mostra da sua
  970. 970impenitencia n'um soneto de cujos tercetos resta memoria:
  971. 971Matarem-me por causa d'um remoque!...
  972. 972Se me elle ao ventre aponta o agudo estoque,
  973. 973Que diluvio de vinho e de pasteis!
  974. 974roda das senhoras, e sumir-se entre as criadas, que conversavam em prosa
  975. 975com os seus conhecidos, em janellas afastadas dos pontos concorridos.
  976. 976tambem do local dos seus triumphos, dando a desconfiar de que sahira
  977. 977estomagado das facecias do doutor Ferro. As criadas convisinhas de
  978. 978Leonor ouviram este breve dialogo entre a menina e o poeta:
  979. 979ter visto, Leonor!
  980. 980saudades. Jurai-me um eterno amor! Promettei escrever ao infeliz poeta,
  981. 981primo?
  982. 982muitas freiras. Maria da Gloria tinha entrado no quarto de soror Joanna
  983. 983da religiosa e de Cecilia. Voltara a si, rompendo em gemidos, como se a
  984. 984menino. A santa, simulando coragem, impunha-lhe o dever de demudar o
  985. 985phrenesi o filho, cobrou animo para trocar por elle a amisade angelica
  986. 986d'aquellas senhoras.
  987. 987encontraram soror Joanna das Cinco Chagas do Senhor. Findos os psalmos,
  988. 988a santa ergueu a sua voz, sempre ouvida como a palavra d'um anjo, e
  989. 989disse:
  990. 990os mysteriosos juizos de Deus lh'as reservam.
  991. 991Meyrinho moor saude. Sabede, que a abadessa do de Vairam mi envyou dizer
  992. 992veem a este moesteyro comer as turas e albergar i desmesuradamente, e
  993. 993con mays ca he contheudo no meu Degredo, de guisa que ela e as outras
  994. 994moesteyro; isto non tenho eu por bem, se asi he; por que vos mando que
  995. 995me tornaria eu porem, e faryavos coreger de vossa cassa todos danos,
  996. 996IX
  997. 997Em breves termos darei conta do viver de cinco annos em casa de Manoel
  998. 998Teixeira de Macedo. Seria talvez do agrado do leitor a historia
  999. 999minudenciosa dos menores actos, que naturalmente se encadearam para
  1000. 1000engano. As primaveras da alma, se a aza negra d'uma tormenta as esfolha,
  1001. 1001nunca mais reverdecem; e os algozes, que afiam o gume de seu orgulho
  1002. 1002chaga abrem de remorso que nem o balsamo do arrependimento a cerra.
  1003. 1003Maria da Gloria, ao entrar em casa de seu marido, lhe disse a elle, sem
  1004. 1004testemunhas:
  1005. 1005habitos. Continua a ser o que eras antes de me ir buscar para a tua
  1006. 1006companhia. Nada te pergunto do teu passado, nem quero que m'o digas:
  1007. 1007basta que eu o tenha ouvido da malevola curiosidade de pessoas, que,
  1008. 1008ainda ha quinze dias, te absolviam a ti para me infamarem a mim. Isto
  1009. 1009bastaria para eu odiar o mundo, e presar viver em odio d'elle. A tua
  1010. 1010depender o teu bem-estar. Disseste-me que eras, em tua casa, meramente
  1011. 1011conhecel-a nos extremos com que ama teu filho, e na estima respeitosa
  1012. 1012com que ha doze annos te presava. A mesma te sou hoje e serei sempre.
  1013. 1013E cumpriu religiosamente.
  1014. 1014Aquella italiana do palacio de Belem achou-se de repente augmentada em
  1015. 1015riqueza; mas a riqueza era o ultimo saldo de contas. O millionario
  1016. 1016dera-lhe, com o dinheiro, o conselho de retirar-se a Napoles com os dous
  1017. 1017filhos. A cantora ficou com o dinheiro, e devolveu-lhe o conselho. Se
  1018. 1018ostentou-se redobrando a magnificencia da napolitana. Quiz Manoel
  1019. 1019e amigo as lagrimas de alegria.
  1020. 1020sabia era muito pouco comparativamente ao que ella me ensina. Disse-me
  1021. 1021o ar sombrio de meu pae. Falla-lhe com brandura e contentamento a ella;
  1022. 1022involuntariamente o mortifica com os signaes do sofrimento a que elle a
  1023. 1023aos effeitos dos padecimentos passados...
  1024. 1024policia a Manoel Teixeira.
  1025. 1025Em 1830, o negociante abandonou inteiramente o trafico commercial.
  1026. 1026estado era relativamente limitado. As antigas equipagens tinham sido
  1027. 1027reduzidas ao indispensavel. Maria da Gloria apenas ia com seu filho aos
  1028. 1028era a sua constante companhia. As antigas amisades de sua casa retiraram
  1029. 1029ofendidas do ar ceremonioso e reservado com que eram recebidas, e mais
  1030. 1030bem-vindas palavras ao quarto de Maria da Gloria eram as cartas de
  1031. 1031religiosas, a quem ella respondia sempre. As de soror Joanna cessaram ao
  1032. 1032Manoel Teixeira peorava de dia para dia. A medicina aconselhou-lhe os
  1033. 1033ares de Italia, depois um passeio recreativo pela Europa. Perguntou a
  1034. 1034sua mulher se o acompanhava, e ella respondeu que a magoava a pergunta,
  1035. 1035vontade. Lembrou-se o pae de Alvaro levar tambem Leonor. Maria approvou
  1036. 1036sequer por condescendencia contrafez o desgosto de tal viagem. Disse que
  1037. 1037desculpas que dispensassem a filha.
  1038. 1038Maria da Gloria, como adivinhasse a tristeza do filho, fallou-lhe assim:
  1039. 1039Alvaro corou, e balbuciou.
  1040. 1040Maria proseguiu:
  1041. 1041diante de teus olhos? A chave das maravilhas d'este mundo ha-de dar-t'as
  1042. 1042primoroso. Esquece Leonor, filho. Faz de conta que viste uma vibora
  1043. 1043confessar-se. Estas linhas escriptas de Alvaro a Leonor dizem mais:
  1044. 1044ao nosso amor, Deus sabe os motivos, que tens para ficar. Lembra-te de
  1045. 1045No dia seguinte, veio o morgado e a filha a Lisboa.
  1046. 1046Brito a Maria da Gloria--A mana lembra-se d'aquelle poeta, chamado
  1047. 1047Miguel de Sotto-Mayor?
  1048. 1048respondeu que viera a Lisboa, e andava visitando os arrabaldes. E o caso
  1049. 1049Maria da Gloria.
  1050. 1050prima...
  1051. 1051atoucinhados como o author.
  1052. 1052poderei, lendo os teus versos, tomar gosto pela poesia.
  1053. 1053poeta de Villa do Conde, e concluiu d'elle para a visita aos Olivaes.
  1054. 1054Apenas nascido, o abutre do ciume recurvou-lhe as garras no seio. A
  1055. 1055pelos afagos d'elle.
  1056. 1056d'elle.
  1057. 1057corada por um suave sorriso de artificio.
  1058. 1058por estas palavras no seio d'ella:
  1059. 1059Gloria--Lembre-te isto sempre, meu filho.
  1060. 1060Sahiram para Veneza.
  1061. 1061X
  1062. 1062Miguel de Sotto-Mayor, decorridos dous dias, appareceu nos Olivaes, de
  1063. 1063volta de Sacavem, e Villa-Franca, para acceitar a honrosa hospedagem de
  1064. 1064digo com respeito ao morgado.
  1065. 1065Leonor sabia que Miguel de Sotto-Mayor alli vinha. O juramento, feito em
  1066. 1066dezenove. Recebera sempre cartas, e respondera a todas do seu poeta, na
  1067. 1067escrupulisavam em murmurar do proximo. Fora elle academico, duas vezes
  1068. 1068riscado por contumaz na desordem e outros effeitos da vinolencia. Este
  1069. 1069vicio dominava-o no seio da familia, e desafogava por maus tratos e
  1070. 1070impossivel nascer em Villa do Conde o Byron de Portugal. Em verdade, as
  1071. 1071Em 1828, morrera o morgado, e succedera Miguel no vinculo, onerado de
  1072. 1072aos maus: gente van dos seus juizos que quer com olhos do rosto abranger
  1073. 1073o infinito dos juizos divinos.
  1074. 1074Constituido senhor da casa, vieram de seu os desperdicios, com o nome de
  1075. 1075sua. Os sustentaculos d'esta dignidade estavam na estrebaria: eram-os
  1076. 1076arrogantes cavallos, que escouceavam os velhos machos de seu pae.
  1077. 1077Posto que Miguel de Sotto-Mayor mantivesse correspondencia com Leonor de
  1078. 1078passatempo, e outras calculo. Em quanto filho segundo, convinha lhe o
  1079. 1079sabia ao certo o valor da morgada dos Olivaes. Depois que succedeu no
  1080. 1080N'estas tentativas, malbaratou novos empenhos levantados sobre a casa, e
  1081. 1081em menos de dous annos--eram-lhe escassos para viver limpamente os
  1082. 1082rendimentos d'ella.
  1083. 1083Tinham assentado n'isto, quando Miguel de Sotto-Mayor, explorando o
  1084. 1084consequencias d'ella.
  1085. 1085se faz recommendavel pelos dous cavallos e lacaio. Ahi, primeiro,
  1086. 1086desenrola o hospede os pergaminhos da sua linhagem, e diz quantos reis
  1087. 1087pintura.
  1088. 1088nobreza ao ouro das classes mecanicas. Sotto-Mayor verberava os indignos
  1089. 1089herdeiros d'um castello avoengueiro, que o arrazavam para erguerem pala
  1090. 1090perguntou o de Villa do Conde se era irrevogavel o plano de tal
  1091. 1091casamento, descrevendo o mau estado da sua casa, e a necessidade de
  1092. 1092conforme nos seus calculos, e no conhecimento do seu desvaliado dote.
  1093. 1093traziam planos de completarem sua ruina.
  1094. 1094Miguel de Sotto-Mayor mandou apparelhar os cavallos, esperou no pateo
  1095. 1095por que hei-de fazer contas com elle, quando for seu genro.
  1096. 1096para Lisboa, e deu-a em guarda a parentes, que lhe vigiavam as minimas
  1097. 1097das Commendadeiras, e esperar alli que seu primo voltasse da viagem para
  1098. 1098Miguel de Sotto-Mayor, abonado e recommendado por cartas que apresentou
  1099. 1099pretendente, e foi em pessoa ao convento para despersuadir a filha
  1100. 1100do ministro, havia de ser o herdeiro dos centenares de contos de seu pae
  1101. 1101tentativa que os muros e grades do convento. Apesar de sua ousadia, o de
  1102. 1102Villa do Conde receiou que o Limoeiro lhe embargasse o passo. A
  1103. 1103delineado o plano por cartas a Leonor, sahiu de Lisboa.
  1104. 1104perdoa a innocente volubilidade d'uma menina, engodada por um homem
  1105. 1105succedido estes episodios trinta vezes, e raras sahem d'elles com a sua
  1106. 1106Replicava a tudo isto Leonor instando por sahir do mosteiro, e
  1107. 1107digna de desculpa. A passo igual cresciam as suspeitas, e o morgado
  1108. 1108do descredito, abstinha-se de os aventar primeiro. Pareceu-lhe heroica e
  1109. 1109byroniana a fuga da morgada. Deu-se pressa em chegar a Lisboa, avisando
  1110. 1110depois que chegava a Lisboa, era preso por malhado, e conduzido ao
  1111. 1111Olivaes, e, conscio d'ella, deu-lhe o nome que ella devia ter;
  1112. 1112chamou-lhe infamia. Contra vontade do intendente geral da policia, chefe
  1113. 1113Mattos: adoptou o conselho de sahir de Portugal por algum tempo, unica
  1114. 1114Mattos, suspeito liberal por este e semelhantes actos de consciencia
  1115. 1115Por esses dias, recebeu Leonor esta carta de Alvaro:
  1116. 1116escrever-te estas linhas. Estava tudo prompto para a partida, quando meu
  1117. 1117nunca desamparou o leito do infeliz, que parecia contar os instantes de
  1118. 1118cada dia:--Que tristeza! contemplar-vos, amar-vos tanto, e ter n'esta
  1119. 1119agonia a certeza de que hei-de deixar-vos breve! Viver sem ti os
  1120. 1120melhores annos da vida, minha querida esposa, e chamar-te para mim,
  1121. 1121Maria, que me deixe viver tres annos por amor de ti e d'este filho,
  1122. 1122por todos que te injuriaram, e te mataram, primeiro que a meu pae...
  1123. 1123Portugal. Adeus, minha querida Leonor. Chora uma lagrima, que t'a
  1124. 1124merecem os infelizes que mais te amam n'este total desamparo, de amigos.
  1125. 1125violento de Miguel de Sotto-Mayor.
  1126. 1126phreneticos da morgada.
  1127. 1127XI
  1128. 1128qu'elle remerciait tous les
  1129. 1129soirs, de son esprit, et qu'elle le
  1130. 1130depois da morte de seu marido, chegou a Lisboa. O pae, temendo que a
  1131. 1131Olivaes, e cuidou em amaciar-lhe a braveza com os antigos carinhos e
  1132. 1132Alvaro, no dia immediato ao da sua chegada, recebeu recado urgente de
  1133. 1133sobre este designio de seu pae?
  1134. 1134lagrimas que viu na face de um velho, e por ellas lhe rogo que, em meu
  1135. 1135que lhe matei a felicidade de toda a vida.
  1136. 1136perdoou.
  1137. 1137d'ellas, contou o successo, e fez de joelhos a supplica. Maria da Gloria
  1138. 1138que eu perdoo a quantos me fizeram mal; e a este, que peccou, e se
  1139. 1139accrescentou em voz alta:
  1140. 1140sobrinho era pobre, e morreria pobre. Disse-m'o em elogio da sua
  1141. 1141felicidade; mas restituiu-t'a para o amor.
  1142. 1142apontando para um grande painel, disse:
  1143. 1143Agradeceu Alvaro a dadiva, e ajudou a deslocar o quadro, para o levar
  1144. 1144comsigo. Foi esse mesmo o que eu vi nas ruinas dos Olivaes.
  1145. 1145propheta do seu repouso. Finou-se com pouco tempo de desterro. A sua
  1146. 1146ultima carta ao filho de Maria da Gloria era uma reminiscencia dorida
  1147. 1147que a virtude e a paz d'uma mulher se despenhavam com a honra d'elle.
  1148. 1148Esta carta denotava desconcerto de espirito; e, por ser a ultima, de
  1149. 1149perto se seguiu o apagar-se aquella grande luz, que de mais, no entender
  1150. 1150dos magnates e dos aulicos, alumiava a ignominia e a protervia
  1151. 1151paternaes, e segura base para o amar e respeitar no futuro com o amor e
  1152. 1152espirito de Maria da Gloria.
  1153. 1153soledade com seu filho era tudo o que lhe restava bom e acceitavel
  1154. 1154n'este mundo. Leonor, algum tanto desvanecida de Miguel de Sotto-Mayor,
  1155. 1155industriada por amigas e parentas, mostrou affavel sombra ao primo, por
  1156. 1156entre uns gestos de tristeza insinuante. Dizia ella que um anno de vida
  1157. 1157phantasiando-a com elle na vida do campo, na ausencia dos esplendores
  1158. 1158ou encarecendo-lhe as virtudes do filho, ou pedindo-lhe conselhos para o
  1159. 1159igualar em merecimentos.
  1160. 1160Gloria ouvia a sobrinha, notando-lhe a sagacidade, em que fora
  1161. 1161industriada pelo pae ambicioso, e pelas mulheres da roda illustre,
  1162. 1162tivesse dezoito annos, nada pedia nem acceitava dos grandes haveres de
  1163. 1163tantos desgostos e vexames com o seu proceder. Esta, que os principiava
  1164. 1164a sentir em certas faltas que a superabundancia sem regimen faz
  1165. 1165da tia.
  1166. 1166as duas ultimas. Tinham estas referencia aos oito annos de sua idade, e
  1167. 1167Leonor depoz o manuscripto, e disse triste:
  1168. 1168Leonor, sem demora de pensar, continuou assim a escripta:
  1169. 1169vejo sempre; mas esquecel-a-hei quando a mulher, que vagamente me falla
  1170. 1170Alvaro leu, fitou os olhos em sua prima, e disse:
  1171. 1171dizendo, beijou-lhe a face e retirou-se.
  1172. 1172Ai! Maria da Gloria, como has-de tu combater o veneno corrosivo
  1173. 1173d'aquelle beijo?!
  1174. 1174promessas do espirito!
  1175. 1175XII
  1176. 1176Viu Maria da Gloria seu filho amargurado, e mysterioso. Notou igualmente
  1177. 1177a ausencia prolongada de Leonor e do cunhado. Industriosamente, se fazia
  1178. 1178e disse:
  1179. 1179alli tua prima, durante oito mezes.
  1180. 1180Maria abriu a gaveta d'uma escrivaninha, e mostrou a Alvaro uma carta,
  1181. 1181recentemente recebida, de uma senhora, sua amiga de collegio, que a
  1182. 1182carta. Era isto o prologo de miuda noticia de todos os actos de Leonor,
  1183. 1183provam mais, arrependimento ou astucia? A culpa arrepende-se,
  1184. 1184com vehemencia e magestade:
  1185. 1185minhas contas com o infortunio estejam saldadas, casa embora com Leonor.
  1186. 1186lagrimas.
  1187. 1187querido Alvaro... Fazes-me a vontade?... Olha... estuda dous annos o
  1188. 1188caracter de Leonor, espera-lhe o desenvolvimento que ella ha-de ter
  1189. 1189n'este praso; e, se, decorridos dous annos, a vires igual, toda
  1190. 1190lhe dar a ella.
  1191. 1191estava na alma. A carta da commendadeira estava ainda alli sobre a
  1192. 1192Coincidiu com estes successos a vinda do morgado dos Olivaes, a convidar
  1193. 1193palavra resabiada de despeito, nem o semblante de Maria denotou
  1194. 1194Duas noites mal dormidas, um defluxo, uma dispepsia, sombream o aspecto
  1195. 1195das cores morbidas de uma certa tristeza, que fica bem. Pode ser, e de
  1196. 1196atmospherico, da insomnia, e do alimento indigesto; mas a critica de
  1197. 1197Se aos trinta e aos quarenta annos ha muita gente que se prende ao visco
  1198. 1198d'esta armadilha, que fariam os dezoito annos de Alvaro Teixeira?
  1199. 1199Sinceramente acreditou que sua prima padecia as dores do arrependimento
  1200. 1200congelasse subito.
  1201. 1201primo.
  1202. 1202serenamente Alvaro.
  1203. 1203Purifiquei a minha alma das manchas que me deixou a indiscreta
  1204. 1204aos treze annos. Aqui tens o que fiz no convento das commendadeiras,
  1205. 1205Alvaro. Quando alguma mulher virtuosa te fizer semelhante pergunta,
  1206. 1206Retirava-se; mas Alvaro susteve-a, e disse-lhe com muita ternura:
  1207. 1207seu rir das minhas loucuras era como atirar lama ao rosto de quem
  1208. 1208Alvaro ficou n'aquella janella com os olhos sempre fitos na mesma
  1209. 1209estrella. Era alli que elle a via e ouvia, vinte e nove annos depois,
  1210. 1210de compadecer-se nas dores alheias!
  1211. 1211de victima contente do seu martyrio. Depois dos applausos, sentou-se
  1212. 1212ausencia?!
  1213. 1213vaidade da sua virtude soffredora, e seria intolerante commigo.
  1214. 1214Alvaro--Eu queria que te ella amasse como a mim, e sei que tu o
  1215. 1215perdoam nem sabem os amargos descontos da leviandade... E de
  1216. 1216foi o meu? Em que perdi? que desaire pratiquei de que deva
  1217. 1217envergonhar-se meu futuro marido, ou minha futura sogra?
  1218. 1218Alvaro ia responder, quando viu o rosto inflammado e o olhar sinistro de
  1219. 1219artificio, e mostrando-se em toda a sua deformidade e nudez. A menina
  1220. 1220estorcia-se na cadeira, o arquejava de modo que lhe rangiam os
  1221. 1221incommodada.
  1222. 1222sobre o que dizia respeito a ella, e o conflicto do collete.
  1223. 1223dous annos, e vagar para estudal-a.
  1224. 1224Decorreram oito mezes, sem, que Alvaro descobrisse sensiveis
  1225. 1225desigualdades no amor de sua prima. Se a encontrava triste, a si se dava
  1226. 1226conta d'aquella tristeza, attribuindo-a ao fastio de esperar na
  1227. 1227incerteza. Se lhe ella respondia com enfado agora, a arte corrigia logo
  1228. 1228obteve-o. Este resultado esfriou a actividade do morgado, e comprazeu a
  1229. 1229Leonor.
  1230. 1230visitar algumas das suas amigas que ainda viviam, orar de joelhos sobre
  1231. 1231prelada um aviso regio que concedia a Cecilia viver fora do mosteiro por
  1232. 1232tempo indeterminado na convivencia de Maria da Gloria.
  1233. 1233Uma freira de Villa do Conde, amiga da familia Sotto-Mayor, fallando de
  1234. 1234poetas, disse que Miguel tinha escripto aos parentes, da ilha Terceira,
  1235. 1235olhos de Leonor, e viu-a muito attenta e excitada com a noticia.
  1236. 1236satisfeito.
  1237. 1237pedra musgosa em que me eu sentei com o padre em 1859. Levava Alvaro um
  1238. 1238sarmentos da arvore fez duas grinaldas com arte entretecidas, e as
  1239. 1239Finda esta bucolica, Leonor olhou para o interior de sua consciencia e
  1240. 1240tomar como escarneo e mentira o que para Alvaro estava sendo
  1241. 1241apertando ao seio a incomprehensivel mulher.
  1242. 1242sei o que quero, nem o que digo!... Talvez que o mais acertado fosse
  1243. 1243desejar a morte...
  1244. 1244os esperavam Maria da Gloria e Cecilia.
  1245. 1245Quando, alta noite, Alvaro ia contando na carruagem a mysteriosa scena
  1246. 1246do bosque, Maria sahiu d'um recolhimento profundo, e disse:
  1247. 1247ainda nada, meu pobre filho!... Espero que a Providencia te abra os
  1248. 1248XIII
  1249. 1249um dos sete mil e quinhentos, e soubera validar-se em intelligencia e
  1250. 1250Sabia Sotto-Mayor que as suas cartas, enviadas do estrangeiro, nunca
  1251. 1251Portugal, aproveitou a desordem dos espiritos, e expediu aos Olivaes um
  1252. 1252caminheiro sagaz com carta a Leonor, prevenindo-a da sua chegada, caso
  1253. 1253pernoitou na propria casa de Leonor, disse aos criados que vira
  1254. 1254sua filha. Em quanto aquelle, praguejando contra malhados e
  1255. 1255agourando-lhes derrota inteira em quinze dias, passeava na sala
  1256. 1256A sobresaltada menina sahiu da sala, e leu a longa carta com arrebatada
  1257. 1257Miguel, exhaurida a linguagem maviosa do amor, fallava da sua
  1258. 1258infiel aos juramentos.
  1259. 1259Respondeu Leonor contando-lhe mentidamente o assedio em que seu
  1260. 1260vira.
  1261. 1261estrada real, e o confidente, espiando hora propicia, entregara a carta,
  1262. 1262e planeara o momento da fuga.
  1263. 1263Era no ultimo dia de Julho d'aquelle anno de 1832.
  1264. 1264e foram gozar a fresca da noite nos Olivaes, com o intento de levarem
  1265. 1265Leonor, no dia seguinte, ao valle de Santarem, onde a viuva tinha um
  1266. 1266A inesperada visita conturbou Leonor. Era aquella a noite da fuga, e o
  1267. 1267sombra de desistencia.
  1268. 1268lua!...
  1269. 1269E Alvaro replicou:
  1270. 1270Foram. A superficie do lago estava em verdade encantadora. A bacia era
  1271. 1271saltitavam uns insectos cujas azas reluziam douradas pelo luar. A
  1272. 1272cada circulo uma zona de prata.
  1273. 1273deves sentir agora!...
  1274. 1274Tudo isto diz melhor o que sentimos do que a pobre linguagem do homem...
  1275. 1275o amor eloquente de Alvaro, que n'aquella noite fora mais que nunca
  1276. 1276eloquente; e amante.
  1277. 1277Soaram os tres quartos depois das onze.
  1278. 1278capuz?
  1279. 1279Apenas Alvaro desappareceu no fundo da rua fechada de murtas, Leonor
  1280. 1280d'este passeio, desceu por degraus a um pomar de laranja, e tirou da
  1281. 1281emplumado. D'alli seguiu rente com o muro da quinta, e abriu uma pequena
  1282. 1282poucos passos, estavam as cavalgaduras, e o caminho franco para celerada
  1283. 1283fugida.
  1284. 1284Alvaro tinha pedido a capa com aquella pressa do amor que nas menores
  1285. 1285cousas se desvela e impacienta. O morgado acudiu perguntando o que tinha
  1286. 1286Quando abordaram o lago, ouviram Alvaro chamar Leonor.
  1287. 1287fosquinhas!...
  1288. 1288Gloria.
  1289. 1289dando gargalhadas do seu logro, e da esperteza da menina.
  1290. 1290ella no laranjal.
  1291. 1291E foi com o sobrinho pelo caminho, que ella seguira. Correram o pomar, e
  1292. 1292viram aberta uma janella.
  1293. 1293Tentou saltar ao caminho; mas o instincto do rheumatismo da perna
  1294. 1294os servos; mas ninguem o ouviu: dormiam todos. Chegavam n'este conflicto
  1295. 1295acharam Alvaro encostado ao tanque, como se fora uma estatua de adorno.
  1296. 1296aqui?!... Deixe-me ver se esta agonia acaba commigo.
  1297. 1297Maria da Gloria sentou-se ao lado do filho, invocou a alma da santa de
  1298. 1298quando no palacete se levantou grande rumor de vozes, de portas, e de
  1299. 1299passos. O morgado mandara apparelhar cavallos, e destinou um criado para
  1300. 1300a estrada de Lisboa, e outro para Villa Franca. Maria da Gloria disse a
  1301. 1301ordem, ergueu-se, e disse chorando:
  1302. 1302martyrio envergonham a fraqueza de quem succumbe... Hei-de viver, minha
  1303. 1303Alvaro, perpassando certos sitios, parava, e contemplava-os alguns
  1304. 1304instantes. Ao sahir do jardim, voltou-se de rosto para elle, e
  1305. 1305articulou:
  1306. 1306tivera tempo de estudar a topographia do terreno, e atravessai o por
  1307. 1307tomou um hiate, e desembarcou a salvamento em Mathosinhos, quando a
  1308. 1308esquadra de D. Miguel se estava batendo com a de almirante Sartorius,
  1309. 1309defronte de Vigo, e a costa do Porto era de facil accesso.
  1310. 1310Miguel de Sotto-Mayor foi surprehendido nos trabalhos do
  1311. 1311entrincheiramento por Leonor, e apresentou-a como esposa aos seus
  1312. 1312camaradas, attonitos da formosura d'ella. O titulo com que a apresentara
  1313. 1313foi d'ahi a poucas horas confirmado pelo primeiro padre, que em sua
  1314. 1314consciencia se julgou idoneo para supprir o consentimento paterno.
  1315. 1315pendia d'elle a dignidade de Leonor, e o respeito de si proprio.
  1316. 1316batalhas. Seria falsear a chronica affirmar que o poeta se achou muitas
  1317. 1317vezes ao lado dos Garretts e Herculanos que mordiam o cartucho com tanta
  1318. 1318especulativos, conseguiu empregar-se nas rodas intellectuaes d'aquelle
  1319. 1319espirito, que chegou ao termo da guerra com as carnes intactas, e grande
  1320. 1320dos valentes era sua filha.
  1321. 1321Abriram-se as linhas, entrou o exercito libertador em Lisboa, e Miguel
  1322. 1322um dos expedicionarios. Dias depois chegou a Lisboa Leonor, e procurou
  1323. 1323noticias de seu pae. Soube que sahira dos Olivaes para uma quinta do
  1324. 1324odios politicos.
  1325. 1325tinham tido a temeridade de ficar em Lisboa, sem receio dos barbaros
  1326. 1326invasores. Ir para Lisboa, quando toda a sua gente fugia, excepto ellas,
  1327. 1327pareceu-lhe cousa de aproveitar, e foi.
  1328. 1328Leonor recebeu-o com muito carinho; deu-lhe de seu marido uma conta que
  1329. 1329invejariam anjos; ostentou felicidade nos menores incidentes da sua
  1330. 1330gloriosa aventura; convenceu o pae de que o seu destino era aquelle, e
  1331. 1331rematou pedindo-lhe novas de seu primo.
  1332. 1332Pobre rapaz!...
  1333. 1333pae. Uma mulher deixa muitas vezes de seguir o anjo do seu destino para
  1334. 1334indole. A mulher sacrifica-se; e o homem, a quem se deu, passado tempo,
  1335. 1335perfeitamente o envez do meu. O que seria eu agora com elle? Uma mulher
  1336. 1336muito rica e muito enjoada da minha riqueza. Assim que sou? Uma esposa
  1337. 1337comprar um capricho. E elle? Soffreu no seu orgulho, soffreria tambem no
  1338. 1338outra. Ora aqui tem, meu pae!
  1339. 1339tingindo umas mechas de cabello, que tinham passado do branco ao
  1340. 1340escarlate.
  1341. 1341XIV
  1342. 1342Levantado o cerco de Lisboa, Miguel de Sotto-Mayor foi visitar as
  1343. 1343herdades de seu sogro, e soube dos caseiros e feitores que os bens
  1344. 1344os rendimentos de cincoenta annos, se os credores chamassem o morgado a
  1345. 1345Leonor doeu-se do modo secco d'estas palavras, e respondeu:
  1346. 1346aquella.
  1347. 1347Convem saber que os haveres de Miguel de Sotto-Mayor em Villa do Conde
  1348. 1348terra e dos foros haviam adiantado as rendas de alguns annos,
  1349. 1349descontando n'ellas a perigosa hypothese de morrer o administrador do
  1350. 1350vinculo, e apossar-se o legitimo successor dos bens desonerados.
  1351. 1351Sotto-Mayor fez o que faziam todos os camaradas: pediu um emprego, e
  1352. 1352ajuizou-se merecedor de tudo o que pedia. Deram-lhe uma prefeitura no
  1353. 1353habilidade, e recursos para sustentar-se dignamente. Tornou para Lisboa,
  1354. 1354requereu de novo, e foi recebido dos ministros com frieza, e esperado no
  1355. 1355livro da secretaria.
  1356. 1356Brito. O velho fidalgo abandonava os processos sem contestal-os. Os bens
  1357. 1357livres foram penhorados, e os de vinculo obrigados pela renda. Ficou um
  1358. 1358palacio em ruinas deshabitado desde o terremoto, os terrenos contiguos,
  1359. 1359e uma quinta, bens hypothecados a Manoel Teixeira de Macedo, quando o
  1360. 1360por um enlace matrimonial dos filhos ambos.
  1361. 1361podesse deitar-se em tabuas suas: insinuaram Maria da Gloria a
  1362. 1362senhorear-se do restante dos bens.. Esta, sem ouvir seu filho,
  1363. 1363respondeu:
  1364. 1364O palacete, onde nascera Leonor, passou ao dominio de um negociante, sob
  1365. 1365Brito depositario d'ella.
  1366. 1366N'estes termos, o espirito de Miguel de Sotto-Mayor passou da
  1367. 1367enfreava as suas, com medo de irrital-o. O velho morgado deixou a
  1368. 1368familia, e foi para Lisboa viver das sopas de parentes.
  1369. 1369Aqui temos face a face estes dous infelizes. Afigura-se-nos que o severo
  1370. 1370tem um cavallo, que o leva para longe do semblante amargurado e
  1371. 1371escondem a ser observada pelos olhos iracundos de seu marido. No recesso
  1372. 1372creremos na muita dor e muita saudade d'aquellas lagrimas, que Leonor
  1373. 1373Alguma nova credora, a quem eu hei-de pagar a carruagem...
  1374. 1374Era Eufemia, a ama de leite de Alvaro.
  1375. 1375feliz?
  1376. 1376trazer-lhe uma encommenda, e dizer a vossa excellencia que, nos fins dos
  1377. 1377palpebras--que a pobre Leonor acceita a sua esmola, e lh'a agradece com
  1378. 1378padeceu onze annos...
  1379. 1379o castigo.
  1380. 1380quando Alvaro entrava.
  1381. 1381Alvaro--Acceitou a esmola!... Pobre mulher!... Deve estar mudada tambem
  1382. 1382de rosto...
  1383. 1383Fiz-te a vontade, Alvaro?
  1384. 1384soccorro?
  1385. 1385culpas estes punhados de ouro, Alvaro. Da antiga Leonor o que resta para
  1386. 1386e de santos estimulos para a caridade, sem lucro de gloria, nem orgulho
  1387. 1387ficou assim pensativa... e fallou n'outra cousa.
  1388. 1388dos olhos como punhos.
  1389. 1389estas perguntas.
  1390. 1390olhos umas pisaduras que parecem de tisica...
  1391. 1391Alvaro recolheu-se ao seu quarto, e escreveu algumas paginas d'uma
  1392. 1392amava Leonor.
  1393. 1393Aqui vai trasladado um fragmento:
  1394. 1394na fronte os espinhos da coroa, que eu, a victima das tuas proprias
  1395. 1395infancia! Com que alma podes tu olhar aquelle lago, aquelles bosques, e
  1396. 1396gozas os tormentos da saudade; mas eu desejo morrer, e, a cada rebate do
  1397. 1397assim. A mim me tem acoimado de paradoxal n'este meu sentir sobre a
  1398. 1398enxovalhos de falsos affectos, com que a civilidade e a conveniencia
  1399. 1399infamam aquelle divino dom da alma humana.
  1400. 1400Miguel de Sotto-Mayor, recolhendo noite alta do seu passeio, achou
  1401. 1401desfortuna domestica.
  1402. 1402miseria. Eu espero a independencia, quando entrarem no ministerio outros
  1403. 1403emprestimo.
  1404. 1404estas horas, Miguel?
  1405. 1405deve ser menos exigente, vive mais commigo.
  1406. 1406involuntarios.
  1407. 1407Houve grande reforma no viver da morgada dos Olivaes: cresceram os
  1408. 1408criados; cuidou-se no aceio da casa; emparelhou-se outro cavallo, com o
  1409. 1409quatro annos; a mesa era servida por criado de gravata branca; algumas
  1410. 1410parentas de Lisboa reconheceram de novo os pergaminhos de Leonor; o
  1411. 1411mil reis mensaes, entregues no principio de cada mez, davam que farte
  1412. 1412para satisfazer as necessidades do luxo.
  1413. 1413Maria da Gloria disse uma vez ao filho:
  1414. 1414recebe de esmola.
  1415. 1415filho--E de que te serve a ti a tua riqueza!? Tens vinte e tres annos, e
  1416. 1416maravilha da sociedade? Queres tu viajar que eu vou comtigo, filho?
  1417. 1417aprender lendo e pensando; tambem distrahem; mas, se ha magoas na minha
  1418. 1418vida, e cuidemos em a dar com menos amarguras aos que soffrem mais que
  1419. 1419XV
  1420. 1420S. MATT.--7. 13.
  1421. 1421A legua e meia distante dos Olivaes, morava, em antiquissimo, solar, o
  1422. 1422morgado de Porto-Alvo, casado com sua sobrinha, filha segunda de uma
  1423. 1423nobre casa de Alemquer.
  1424. 1424Era mui gentil de sua pessoa a dama, e gozava de preclara fama de
  1425. 1425familia, muito aparentada com sua mulher.
  1426. 1426da sua vaidade, que ambas as cousas correm com o mesmo nome. Invectivou
  1427. 1427a deslealdade de seu marido, e o impudor de sua prima de Porto-Alvo.
  1428. 1428Sotto-Mayor recebeu com desagrado os ciumes de sua esposa, e
  1429. 1429despresou-lh'os a ponto de amiudar os passeios a horas mortas.
  1430. 1430Aguilhoada pela raiva congenial da sua indole, Leonor escreveu uma carta
  1431. 1431anonyma ao morgado, prevenindo-o da deshonra, que lhe rodeava o palacio
  1432. 1432de noite, e teria astucia de o visitar na camara nupcial.
  1433. 1433incutira suspeitas, nem de si arguira leveza de espirito. Calou o aviso
  1434. 1434como prudente, e sobreroldou as avenidas da sua casa como acautelado.
  1435. 1435Era uma das seguintes noites disseram-lhe os vigias que, a distancia de
  1436. 1436cem passos, parara um cavalleiro, e se estivera quieto contemplando as
  1437. 1437janellas do palacio; e accrescentaram que, por volta d'uma hora,
  1438. 1438d'alguns segundos.
  1439. 1439tirou-as, e terriveis. Informou-se da janella em que os vigias avistaram
  1440. 1440mulher tossir no leito, paredes meias com o seu, e ao mesmo tempo um
  1441. 1441signal convencionado e mui subtil debaixo da sua janella. Ergueu-se de
  1442. 1442golpe, passou ao quarto de sua mulher, e viu-a na cama; atravessou um
  1443. 1443fora dado o signal. Quando entrava na sala, viu uma criada com um
  1444. 1444A criada respondeu, e o morgado retirou-se ao seu quarto, tranquillo
  1445. 1445como se houvesse descoberto que sua esposa era uma das virtudes
  1446. 1446theologaes em pessoa, e pessoa que fingia dormir profundamente.
  1447. 1447Decorreram tres noites depois d'esta.
  1448. 1448Foram dias e noites de supplicio para Leonor. A consciencia gritava-lhe.
  1449. 1449enfrear o seu ciume.
  1450. 1450Na terceira noite, disse ella a Miguel de Sotto-Mayor, com caricia:
  1451. 1451sobr'olho.
  1452. 1452Freire.
  1453. 1453dia morto.
  1454. 1454da calumnia!... Como sabes que elle foi avisado?!
  1455. 1455dobrar os joelhos diante d'elle.
  1456. 1456Leonor, beijando-a na testa.
  1457. 1457Porto-Alvo.
  1458. 1458punhal, ergueu-se, tornou ao quarto da criada, fechou a porta, e guardou
  1459. 1459ao modo de espanto com que a sobrinha lhe perguntou a causa de tal
  1460. 1460Sotto-Mayor fazia galopar o ginete por uma quebrada de cujo topo se
  1461. 1461avistava o signal.
  1462. 1462examinar a um raio da lua o seu relogio, dous tiros simultaneos lhe
  1463. 1463sobre o estribo esquerdo, viu o ensanguentado. Subiu as escadarias,
  1464. 1464Leonor saltou do leito, e desceu ao pateo a examinar o sangue do
  1465. 1465estribo. Fugiu, como seguida por um espectro; entrou no seu quarto com
  1466. 1466os olhos esgazeados da demencia, e soltou estas pavorosas palavras:
  1467. 1467D'alli em diante, o que ella dizia eram palavras sem nexo, e
  1468. 1468blasphemias, acompanhadas de medonhos tregeitos.
  1469. 1469estrada de Porto-Alvo, por alvitre de um que sabia os segredos de seu
  1470. 1470amo.
  1471. 1471Os segundos, a tres quartos de legua, ao voltar de uma charneca para um
  1472. 1472atalho pedregoso, acharam o cadaver de Miguel de Sotto-Mayor. A
  1473. 1473reconheceram. Camisa e collete cheiravam ainda a queimados: os tiros
  1474. 1474pegaram ao sangue empastado do peito.
  1475. 1475Volveu um dos criados a buscar a carruagem, que devia transportal-o para
  1476. 1476Brito, chamou aos Olivaes algumas familias, a quem as desventuras de
  1477. 1477Leonor tinham restituido a antiga estima. Curaram da sepultura, e a
  1478. 1478e lavrou o auto. Proseguiu na devassa; mas era tudo escuro e
  1479. 1479indecifravel. Entre os parentes da casa, que assistiram ao funeral,
  1480. 1480estava o morgado de Porto-Alvo, de casaca preta e aspecto lagrimoso.
  1481. 1481vista por todos, e perguntou:
  1482. 1482Os circumstantes confirmaram a suspeita do morgado, e lastimaram-a
  1483. 1483tambem.
  1484. 1484devassa, que lhe quero gravar na testa um ferrete com sangue?
  1485. 1485Leonor olhou de revez para quem lhe fazia a violencia, e viu Maria da
  1486. 1486Gloria.
  1487. 1487cavalheiros:
  1488. 1488ella ao seu quarto, e haja ahi uma alma piedosa, que nos dispense de
  1489. 1489cuidarmos do enterro d'esse infeliz. Vamos, Leonor.
  1490. 1490XVI
  1491. 1491Admoesto-te a que me compres o
  1492. 1492meu ouro de fino quilate para te locupletares.
  1493. 1493APOC. 3. 18.
  1494. 1494Os primeiros dias de sua viuvez passou-os Leonor no seu quarto, e Maria
  1495. 1495de sua numerosa parentela aporfiavam em mitigar-lhe as penas, desde que
  1496. 1496aruspices, atarefados em prognosticar a vida alheia, que as segundas
  1497. 1497nupcias da morgada pobre com o filho unico do banqueiro Macedo seriam
  1498. 1498assassinado Miguel de Sotto-Mayor por ordem de Alvaro de Macedo. A
  1499. 1499sociedade teve sempre d'estes carrascos, para assim dizer, encarregados
  1500. 1500criada com um sorriso, e estas palavras:
  1501. 1501Ficou Leonor com seu pae.
  1502. 1502Dizer que a viuva se definhava de dia para dia, consumida de saudades do
  1503. 1503purpura da juventude lhe retingiu as faces, e que o lindo oval do rosto
  1504. 1504se recompoz. Leonor nunca mais foi bella, desde o primeiro dia que se
  1505. 1505viu desmerecida aos olhos do marido pela mesma causa que a sociedade a
  1506. 1506a seiva que as alindava.
  1507. 1507theatros, e nos bailes, passado um anno. Apontaram-lhe os binoculos os
  1508. 1508que hoje.
  1509. 1509Em que pensava Alvaro? Como scismava elle em sua prima? Amava aquella
  1510. 1510que era cinco annos depois. Nunca mais a vira, nem quizera ver. Desde
  1511. 1511que pessoa descuriosa lhe disse, sem proposito, que a vira, muito outra
  1512. 1512do que era, em casa da prima condessa de tal, e no theatro de S. Carlos,
  1513. 1513Alvaro deixou de frequentar o theatro, local unico onde o levava a suave
  1514. 1514tristeza da musica.
  1515. 1515convidada para casa de sua tia. Alvaro respondeu:
  1516. 1516encontrarmos.
  1517. 1517dinheiro inutil, dinheiro que nunca me lembrou quando eu pensava em ser
  1518. 1518prima.
  1519. 1519que a expozesse a novas miserias?
  1520. 1520contra a estrella fatal d'aquella infeliz.
  1521. 1521Este dialogo foi interrompido por um recado de uma senhora que desejava
  1522. 1522fallar a Alvaro.
  1523. 1523senhora.
  1524. 1524Viu elle uma dama trajada de preto, com semblante de quarenta annos
  1525. 1525amargurados, e um complexo de adornos, que denotavam pobreza.
  1526. 1526A italiana enxugava as lagrimas.
  1527. 1527quanto a belleza me inflorava o vicio, aturdi-me nas pompas, e nos
  1528. 1528eu envelheci, e de repente cahi dos ouropeis da minha opulencia ao
  1529. 1529charco da miseria. Tirei do collegio os meus filhos: o mais velho era um
  1530. 1530demonio, o outro um anjo. O anjo levou-m'o Deus um anno depois, quasi
  1531. 1531elle estava no Limoeiro, preso por furto. Desfiz-me de quanto tinha para
  1532. 1532as primeiras necessidades do meu uso, e consegui restituir o furto ao
  1533. 1533alcancei empregar-se na alfandega, em lugar de bastante
  1534. 1534d'elle em dous annos; eu julgava-me bemquista da sorte, e contava com o
  1535. 1535valores que elle perdeu no jogo e dissipou na libertinagem. Ha quinze
  1536. 1536por toda a vida.
  1537. 1537salve, pagando o roubo, que sobe a muitos contos de reis. O que venho de
  1538. 1538dos seus amigos para que a pena seja commutada em degredo perpetuo, sem
  1539. 1539Alvaro ergueu'a mulher, que ajoelhara, e disse-lhe:
  1540. 1540escada.
  1541. 1541tinha ouvido tudo. Sahiu, como desapercebida ao encontro de Alvaro, e
  1542. 1542disse-lhe risonha:
  1543. 1543que sentes, Alvaro!
  1544. 1544monossyllabos.
  1545. 1545mulher que o mais novo era um anjo? Ahi tens... Foi como as arvores que
  1546. 1546minha para levantares o dinheiro que quizeres. O teu fausto, segundo
  1547. 1547Alvaro Teixeira foi encarregar o advogado de sua casa de solicitar o
  1548. 1548O solicitador desanimou quando lhe disseram o avultado da quantia.
  1549. 1549antiga locataria do palacio de Belem:
  1550. 1550senhora sabe, tinha uma propriedade nos arrabaldes de Napoles, que eu
  1551. 1551Alvaro--Permitta Deus que o filho de meu pae se regenere com as que lhe
  1552. 1552vejo no rosto.
  1553. 1553partiram para Italia. Vinte e dous annos depois, me disse aquelle santo
  1554. 1554dos Olivaes que a antiga actriz morrera velha e feliz; que Julio de
  1555. 1555Macedo conservava ainda a quinta, e honrava uma alta patente no exercito
  1556. 1556d'aquelle homem e a velhice venturosa da amante de seu pae, elle me
  1557. 1557respondeu:
  1558. 1558XVII
  1559. 1559avec celui de la farouche Judith serait
  1560. 1560BALZAC.
  1561. 1561Tinham decorrido dous annos depois da viuvez de Leonor. Na correnteza
  1562. 1562legando simplesmente alguns rolos de pergaminhos e a memoria dos seus
  1563. 1563fidalgo de Porto-Alvo morreu envenenado, consoante a fama dizia; e que
  1564. 1564sua sobrinha passou a segundas nupcias com um primo de Alemquer, e vivia
  1565. 1565ainda honrada e feliz em 1859. Achei tambem nota de que a criada,
  1566. 1566confidente da morgada, dias depois do assassinio de Miguel de
  1567. 1567claros vestigios de ter sido estrangulada. E de presumir que o fidalgo
  1568. 1568atirasse ao Tejo com a unica testemunha do seu crime. Se o boato da
  1569. 1569sua prima.
  1570. 1570Transferiu-se para Lisboa a viuva e com ella o seu trem. Tomou um
  1571. 1571disponibilidade, insinuando-se, a titulo de genio, entre as pessoas,
  1572. 1572e communicou-as a Alvaro.
  1573. 1573como ella.
  1574. 1574concorrencia, e poz logo o dedo na chaga.
  1575. 1575miseria, Leonor! Recobra a tua dignidade enxovalhada! Lembra-te das
  1576. 1576tia, soltando estas palavras:
  1577. 1577antes a certeza de que esta beneficencia pertencia exclusivamente a
  1578. 1578vossa excellencia. Meu primo tem-me favorecido para me humilhar.
  1579. 1579mais por entender que meu primo se regosijava a cada escaleira, que me
  1580. 1580sua criada com a primeira esmola, cuidei que mais tarde acharia nos meus
  1581. 1581espirito, essa nunca. Eu aceitava o ouro porque tinha um marido que me
  1582. 1582nome que as sombras do infortunio empanavam, como se a arvore de tronco
  1583. 1583proprios olhos. Depois de viuva, permaneci dous annos nas austeridades
  1584. 1584que raros exemplos me tinham ensinado. Contrafiz a minha indole para bem
  1585. 1585beijar a terra honrada pelas suas botas. Vim para Lisboa, depois de dous
  1586. 1586a vida luxuosa de Lisboa. Quer minha tia saber como eu denomino este
  1587. 1587Agora vamos ao ponto da sua inesperada visita. E certo que eu amo um
  1588. 1588mulher nas minhas circumstancias. Eu hoje comprehendo melhor as
  1589. 1589minha obscuridade. Se minha tia me vem dizer que retira a sua esmola,
  1590. 1590Calou-se Leonor.
  1591. 1591disse:
  1592. 1592abatida, que ella desfitara a vista do magestoso aspecto de sua tia.
  1593. 1593elle, escassamente referia alguns dos queixumes de Leonor, como a
  1594. 1594do sofrimento, e a sympathia que a ligava ao homem, com quem desejava
  1595. 1595casar-se.
  1596. 1596Alvaro apparentou natural placidez, e, n'outro ensejo em que fallavam
  1597. 1597sobre o mesmo motivo, disse:
  1598. 1598seus parentes.
  1599. 1599collegio, nos meus ultimos tempos.
  1600. 1600Foi Alvaro ao collegio, e fallou largo tempo com o seu antigo amigo,
  1601. 1601professor de inglez. Dias depois, procurou-o o mestre, e respondeu assim
  1602. 1602ao encargo, que recebera:
  1603. 1603amolar! Apenas lhe toquei no assumpto, accendeu o cachimbo, cobriu as
  1604. 1604Disse-lhe eu que a viuva vivia da beneficencia dos seus parentes, e que
  1605. 1605inconvenientes das suas parentas necessitadas.
  1606. 1606isto?
  1607. 1607vezes romantica.
  1608. 1608philosophica, que tinha, como eu tenho, horror ao vacuo. Resta-me
  1609. 1609mestre de inglez, disse:
  1610. 1610e manifestamente se revelara Leonor, a elle e aos hospedes maravilhados.
  1611. 1611Ao despedir-se do escriptor, disse-lhe ella:
  1612. 1612com despeitado sorriso.
  1613. 1613atreve a entrar nos juizos do espirito...
  1614. 1614anciosa o dia seguinte.
  1615. 1615minha vida, sacrifical-a-ia, minha senhora. O mesmo seria obrigal-a a
  1616. 1616sei, tambem como vossa excellencia, que os seus muitos recursos procedem
  1617. 1617da amisade d'uma tia millionaria, que vossa excellencia tem.
  1618. 1618com estes recursos, e vossa senhoria, nas suas cartas, falla-me da
  1619. 1619trabalho da intelligencia.
  1620. 1620Todavia...
  1621. 1621meus recursos?
  1622. 1622tinha absolutamente nada que lhe segurasse a futura subsistencia, se
  1623. 1623contrahisse segundas nupcias contra vontade dos seus parentes.
  1624. 1624Leonor ergueu-se, sahiu da sala pisando com soberana arrogancia, e o
  1625. 1625litterato ficou perplexo com os olhos cravados na porta por onde a vira
  1626. 1626sahir.
  1627. 1627Instantes depois, entrou um criado de farda, e disse ao cavalheiro:
  1628. 1628Quando Eufemia entrou, estava a viuva vestida de preto, com o fato
  1629. 1629senhora D. Leonor?! a menina tem febre!
  1630. 1630e ao teu amo. Diz-lhes mais que venham tomar conta do que esta casa
  1631. 1631honra pagar pouco, e ficar sem nada. Diz a meu primo que esta nobre
  1632. 1632do punhal com que se mata a dignidade dos infelizes. Diz a meu primo que
  1633. 1633virtuosos. Diz isto. Agora, vai, ou fica.
  1634. 1634julgal-a demente. Os criados vieram; mas recuaram ante o olhar imperioso
  1635. 1635Eufemia contou o succedido. Maria da Gloria chorou, e pediu a Deus que
  1636. 1636serenamente repetirem-se os afrontamentos de sua prima, e parecia
  1637. 1637XVIII
  1638. 1638Non, non, j'en ai le pressentiment,
  1639. 1639Leonor, apeando no pateo do palacete dos Olivaes, chamou o feitor, e
  1640. 1640pediu a chave da casa da Luiza: por este nome era conhecida a casa que
  1641. 1641firme abriu a porta, fechou-se dentro, abriu os dous postigos
  1642. 1642velhos moveis, que Leonor lhe dera. O feitor, se bem que prohibido de a
  1643. 1643seguir, teimou em vigial-a, suspeitoso do descuido em que a vira
  1644. 1644vestida, e do desconcerto do rosto. Afoutou-se a pedir-lhe que abrisse a
  1645. 1645herdeira.
  1646. 1646verdadeiramente meu, disse ella; posso com este legado da minha Luiza
  1647. 1647rondar as avenidas da casinha, Leonor deu-lhe dinheiro para lhe comprar
  1648. 1648um jantar como costumava ser o de Luiza, e accrescentou:
  1649. 1649O tom d'este dizer dava azo a que o mordomo ia tivesse em conta de
  1650. 1650douda. Assim o creu, e mandou aviso a Maria da Gloria.
  1651. 1651Alli passou o restante do dia. Ao trazerem-lhe o jantar, recebeu-o por
  1652. 1652um dos postigos, e tomou d'elle o prato menos exquisito, uma pouca de
  1653. 1653Luiza, e abriu alta noite as janellas porque sentiu aquelle especial e
  1654. 1654De madrugada, abriu a porta, e sentou-se no unico degrau. Estava
  1655. 1655abrazada em febre, e, a intervallos, deixava pender para o seio a
  1656. 1656casa, recolheu-se e fechou a porta: era o feitor, que passara a noite
  1657. 1657velando a casinha onde dormia a filha de seus amos.
  1658. 1658aturdida, e trancou a porta, porque a fechadura tinha saltado aos
  1659. 1659d'uma tesoura. Feita a experiencia e ensanguentado o dedo, escreveu no
  1660. 1660perfeito juizo.
  1661. 1661esquerdo. Como a cisura apenas revesse o sangue, ligou e comprimiu o
  1662. 1662sentidos ao leito. Sondou-lhe o pulso, e achou-a viva. Mandou chamar o
  1663. 1663pannos adhesivados e compressas.
  1664. 1664De repente, deram passagem a alguem os muitos visinhos, que alli chamara
  1665. 1665Teixeira.
  1666. 1666mortal espasmo.
  1667. 1667tesoura...--disse o feitor.
  1668. 1668transportal-a.
  1669. 1669respaldo, e, com duas cadeiras, formou-lhe apoio para o restante do
  1670. 1670quanto as lagrimas lhe permittiam, e mandou seguir a carruagem para
  1671. 1671Lisboa, a passo.
  1672. 1672A meio caminho, Leonor reconheceu seu primo, e estremeceu. Fitou os
  1673. 1673necessario para ires d'este teu inferno com a certeza de que eu te amei
  1674. 1674sempre...
  1675. 1675um sorriso, e murmurou:
  1676. 1676E contemplou-a.
  1677. 1677esplendido, d'aquella belleza viva e irrequieta, da exuberancia de vida
  1678. 1678que lhe sahia aos olhos em faiscas e em risos expansivos aos labios,
  1679. 1679restava a pelle cortada dos ardores da febre, os ossos descarnados, o
  1680. 1680Leonor, e leval-a a um leito.
  1681. 1681dous medicos. Do exame rapido que estes fizeram, concluiram por
  1682. 1682elles.
  1683. 1683da alma, que eu quero que ella me veja, e me julgue antes de morrer! Um
  1684. 1684dizia um ao outro com o frio desdem da sciencia:
  1685. 1685que Leonor perdera em sangue o que Alvaro perdera em sizo.
  1686. 1686Maria da Gloria, a martyr sem treguas, andava repartida entre Deus, e o
  1687. 1687filho, e Leonor. Invocava o Altissimo pedindo-lhe a vida da sobrinha,
  1688. 1688que chamava e beijava, cuidando que o halito dos seus labios lhe coavam
  1689. 1689Deus o salvamento da prima.
  1690. 1690Leonor descerrou os olhos quebrantados, mas serenos. Reconheceu a tia e
  1691. 1691e balbuciou:
  1692. 1692tens penado!...
  1693. 1693jamais a saude. Afrouxaram-lhe os musculos motores de todas as
  1694. 1694intermittentes de paralysia em parte dos vasos sanguineos, que formam o
  1695. 1695Italia. Leonor agradecia-lhes, com sinceras lagrimas de remorso, o amor
  1696. 1696com que velavam os seus longos paroxismos, e dizia que a viagem a fazer
  1697. 1697quarto, desafogava chorando, ou escrevendo paginas de muitissima
  1698. 1698tristeza, mixto de saudade e desespero, saudade da Leonor da sua
  1699. 1699bellezas da innocencia, quando a teve a fatidica Leonor? Ai! a belleza
  1700. 1700bailes nem banquetes, mas com liberalidades de esmolas, levadas por
  1701. 1701soccorrer alguns egressos, que corriam de noite as ruas de Lisboa,
  1702. 1702rancorosos do velho odio civil.
  1703. 1703sua tia: sahiram de Lisboa no estio, correram as provincias do norte, e
  1704. 1704retrocedeu para Lisboa. Aqui, melhorou de aspecto, e transferiu a sua
  1705. 1705residencia para a quinta do valle de Santarem.
  1706. 1706de soffrer e chorar, pedindo a Deus que lhe tirasse a vida. Alvaro era
  1707. 1707o consolador d'estes desconfortos, umas vezes rodeando-a de improficuas
  1708. 1708juntas de medicos, outras abalando-lhe o espirito com alegres
  1709. 1709seria desagradavel; experimentou, apesar d'ella, chamando alguns
  1710. 1710vivem, com o que podia inventar o seu espirito attento a minorar as
  1711. 1711amarguras da inconsolavel doente: inutil tudo, Leonor rogou a seu primo
  1712. 1712estranhas; que a deixasse gozar os instantes de allivio na companhia
  1713. 1713gente, a quem o espectaculo da dor enfada?! Cuidas tu que os move a
  1714. 1714piedade d'este meu estado? Deixa de ser a candida alma, que tens sido,
  1715. 1715meu primo! Estas familias, que vieram a um teu aceno, souberam que eu
  1716. 1716vivia miseravel nos Olivaes, e encarregavam-se de exaltar a Providencia
  1717. 1717Divina, dizendo que eu estava expiando; e, como o valerem-me seria
  1718. 1718contrariar a vontade de Deus, abandonaram-me... Se me eu tivesse esvaido
  1719. 1719de sangue n'aquella casinha, onde o nosso fatal anjo te encaminhou,
  1720. 1720estes parentes, obrigados a fallarem de mim a quem lhes perguntasse a
  1721. 1721curiosidade interesseira do mundo que te chamava, serias a esta hora
  1722. 1722feliz!...
  1723. 1723formosa, como a tinha amado, quando amava e esperava.
  1724. 1724visses infamada, e perdida nos mais baixos sedimentos da sociedade,
  1725. 1725passarias por ella, sem que o pejo te dissesse que era nobre estender-me
  1726. 1726ao pisar os tapetes das tuas escadas, subiria estudando phrases de
  1727. 1727particular e em publico, andarias feliz e convencido de tua honra. Muita
  1728. 1728que lhe fallem. Os seus amigos, com medo de lhe ferirem o nobre
  1729. 1729ostentar as exterioridades de jubilo, que eu muitas vezes senti, sendo
  1730. 1730que mereces?
  1731. 1731do seu carcere... n'aquelle tempo, Leonor, gozei horas de alegria
  1732. 1732dias alegres... pallida luz, como a da lampada do sacrario ao
  1733. 1733amanhecer... mas, aqui estou vendo os olhos, que me viram feliz... E tu,
  1734. 1734Leonor, o teu espirito vive e falla... O melhor de ti era o sentimento
  1735. 1735N'aquelle tempo...
  1736. 1736XIX
  1737. 1737Leonor, ao cabo de dous annos de padecer, difficultosamente sahia do
  1738. 1738leito. A extrema fraqueza e tremor espasmodico das pernas seguiu-se a
  1739. 1739paralysia, e a inteira inactividade. Se a tiravam do leito,
  1740. 1740acontecia Maria ou Alvaro olharem-na com piedade, sorria ella, e dizia:
  1741. 1741amaciou-se e restaurou a antiga alvura; volveram as cores purpurinas, e
  1742. 1742contornou-se o oval do rosto. Eufemia esmerava-se em toucal-a, em quanto
  1743. 1743ella, sorrindo, dizia:
  1744. 1744Alvaro depunha muitas vezes o livro, com que sua prima se recreava, e
  1745. 1745extasiava-se nos olhos d'ella; mas que amargura elle escondia n'aquelles
  1746. 1746extasis!
  1747. 1747Maria da Gloria chamou uma vez o filho ao seu quarto, e disse-lhe:
  1748. 1748escondido de ti o unico segredo, que devia esconder--a sensivel
  1749. 1749dizer o fim para que te chamei!...
  1750. 1750final, depois que deres a mortalha a tua prima? E a ti quem te
  1751. 1751Apresentou-se ao cardeal-patriarcha, e demorou-se algumas horas em
  1752. 1752pratica secreta. Commetteu importantes encargos ao advogado de sua casa,
  1753. 1753quem ouvira da enferma o terrivel segredo, obteve do medico a
  1754. 1754Goldsmith. Reviam lagrimas suaves os olhos de ambas, quando Leonor lia o
  1755. 1755com felizes e infelizes. Resulta da propria natureza do prazer e da
  1756. 1756fizeste em Lisboa, Alvaro... Devia de parecer-te nova a cidade! Ha tres
  1757. 1757algum tempo para negocios nossos.
  1758. 1758primo! Pois tu deixas-nos por algum tempo!? E podes, Alvaro?
  1759. 1759demora o mais que possa...
  1760. 1760que a vejo reanimada!...
  1761. 1761Nos tres dias consecutivos, Maria padeceu muito, e perguntou
  1762. 1762quem as tivesse vivas e anciosas no espirito.
  1763. 1763foi para Lisboa.
  1764. 1764Ao termo de quatro dias, foi chamado por uma carta de Leonor, atribulada
  1765. 1765morreria sem ver seu filho, com um ar de certeza e contentamento que
  1766. 1766A tempo foram as cartas de estar cumprida a diligencia que o levara a
  1767. 1767Lisboa. Sem respiro, transpoz Alvaro as doze leguas que o separavam de
  1768. 1768Gloria, sem delirio nem fraqueza de espirito, horas antes da chegada do
  1769. 1769filho, estava sempre dizendo, com sombra de jubilo, estas e outras
  1770. 1770Bemdito seja o Senhor no improfundavel mysterio dos seus juizos!
  1771. 1771encostada ao peito de Eufemia, e os olhos postos no crucifixo. Maria, ao
  1772. 1772levas comtigo este meu esquife?
  1773. 1773e disse ao padre:
  1774. 1774vinha espantar-me da serenidade da moribunda.
  1775. 1775Viatico.
  1776. 1776vir da igreja acompanhando o Senhor. Maria fez um gesto de gostoso
  1777. 1777assentimento.
  1778. 1778Entrou o ostiario, e ao lado d'elle um outro sacerdote com as ambulas
  1779. 1779dos santos-oleos.
  1780. 1780Ouviu-se um ai agudo, e o nome de Alvaro proferido com espanto. Leonor
  1781. 1781reconheceu-o, Maria descerrou as palpebras, e balbuciou:
  1782. 1782leito, e disse:
  1783. 1783Alvaro.
  1784. 1784meu Deus! pede um raio da tua gloria para a alma da tua serva!
  1785. 1785Ajoelharam todos. Maria commungou, e foi ungida. Terminada a ceremonia,
  1786. 1786e desempedido o quarto, a moribunda acenou ao filho, que continuava de
  1787. 1787joelhos. Alvaro foi, e curvou-se sobre o leito, applicando-lhe o ouvido
  1788. 1788ainda quentes, era o calor do ultimo suspiro. Tomou-o Alvaro no
  1789. 1789Fez-se o terror do silencio alli n'aquelle quarto. Ninguem se desafogou
  1790. 1790XX
  1791. 1791estes desafortunados dos prazeres reaes da vida!
  1792. 1792Quando entardeceu o dia de contentamento para Maria da Gloria?
  1793. 1793com que Deus acode e se amerceia dos que o confessam e chamam nas
  1794. 1794viciado nos leva.
  1795. 1795Se Alvaro foi feliz?! Perguntemos a Deus se os seus martyres correm
  1796. 1796n'este mundo os estadios de suas dores, sem que a luz ineffavel de seus
  1797. 1797Oito dias depois do trespasse de Maria da Gloria, padre Alvaro fallou a
  1798. 1798sua prima, n'um tom de voz e magestade de postura, que denotava a
  1799. 1799amortalhado.
  1800. 1800convencer de que tudo se acabou para mim, menos a vida da alma e as
  1801. 1801levantam da queda, chorando. Aqui tens o amigo da tua infancia, minha
  1802. 1802paciencia merece, e me ensina a praticar. Deus perdoar-me-ia se te eu
  1803. 1803agora contasse a longa historia, os longos trabalhos que me custou o
  1804. 1804te dar um espectaculo de angustias, que eu de mim proprio forcejava por
  1805. 1805casa em ruinas. Venho-te pedir que m'a cedas para os dias todos da minha
  1806. 1806vida.
  1807. 1807prazer em pedir-t'as.
  1808. 1808levou a Deus a conta das nossas lagrimas.
  1809. 1809sirva.
  1810. 1810os olhos, e continuou:
  1811. 1811proposito, dir-m'ohas, Leonor.
  1812. 1812No proximo dia, sahiu Leonor com as suas criadas para Lisboa. O padre
  1813. 1813Alvaro anticipou-se algumas horas, e foi em direitura ao convento de
  1814. 1814N'esse mesmo dia, entrou Leonor de Brito no mosteiro de franciscanas, e
  1815. 1815Deus.
  1816. 1816de Leonor, e sahiu.
  1817. 1817No mesmo dia, foi o padre para as ruinas dos Olivaes, onde Eufemia o
  1818. 1818estava esperando. Em quanto fazia habitavel uma parte do edificio
  1819. 1819alluido, viveu na casinha, onde encontrara Leonor esvaida de sangue.
  1820. 1820decorou-a com parte dos moveis, que conhecia desde a sua infancia em
  1821. 1821Os bens de fortuna de padre Alvaro Teixeira eram ainda grandes.
  1822. 1822algumas religiosas necessitadas do convento d'ella. Para si tomou uma
  1823. 1823pequena parte dos rendimentos de um capital, que doara a Eufemia. Dizia
  1824. 1824N'este longo termo, quando alguem acertava de perguntar por aquelle
  1825. 1825exquisito Alvaro Teixeira, os melhores informadores diziam em tom de
  1826. 1826tal respeito o sacerdote me disse. Como ninguem soubesse atinar com a
  1827. 1827os poetas achavam-no digno de ser cantado; mas ninguem cantou o heroe
  1828. 1828obscuro: a piedade era assumpto mingoado para o estro ambicioso dos
  1829. 1829amortalhado no seu habito.
  1830. 1830que soffresse muito porque os seus quarenta e cinco annos eram a
  1831. 1831decrepidez.
  1832. 1832novo de extemporanea velhice, que divisava no rosto de Alvaro.
  1833. 1833Algumas vezes supplicou-lhe que a deixasse ir estar com elle, algum
  1834. 1834tempo, nas suas ruinas. Alvaro respondia que o seu pacto com ella era
  1835. 1835Tinha o padre um amigo em Lisboa; era o seu mestre de inglez, aquelle
  1836. 1836homem que assistiu commigo ao sublime espectaculo da morte do justo.
  1837. 1837Accrescentado pelas liberalidades do sacerdote, o professor abandonara o
  1838. 1838entre os homens uteis d'este paiz. Se elle tivesse passado, e se a
  1839. 1839amigo digno de Alvaro Teixeira.
  1840. 1840dictames d'aquella boca ungida das lagrimas que lhe sulcavam o rosto
  1841. 1841venerando.
  1842. 1842suas ruinas. N'aquella janella ouvira elle, em noite de baile, vinte e
  1843. 1843Tambem se lembram da rapida sabida, que elle fez para Lisboa, ao
  1844. 1844annunciarem-lhe a agonia de Leonor.
  1845. 1845Eu fui ao convento de Santa Joanna, e perguntei a historia dos ultimos
  1846. 1846instantes da entrevada. Disseram-me, debulhadas em pranto as religiosas,
  1847. 1847que a morte de Leonor fora o remate de um colloquio com o espirito de
  1848. 1848Maria da Gloria. E, como eu me detivesse em amiudar os pormenores d'este
  1849. 1849vago dizer, tiveram as senhoras a bondade de me contar que o rosto de
  1850. 1850inconciliaveis.
  1851. 1851ella estava em agonia da morte?
  1852. 1852nos apressamos a chamal-o.
  1853. 1853para nos edificar--respondeu a prelada--O padre Alvaro chegou minutos
  1854. 1854depois da hora que ella dissera.
  1855. 1855anterior a trinta annos?
  1856. 1856criadas lhe chamassem Magdalena.
  1857. 1857Pensei na palavra, e puz ponto na minha curiosidade.
  1858. 1858Alheado n'estes pensamentos ingratos e inconcludentes, ouvi uns sons de
  1859. 1859igreja, ajoelhei, orei, e tudo comprehendi, encarando no retabulo de um
  1860. 1860AMARGAMENTE.
  1861. 1861FIM.

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