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Literatura

Casa Velha

Edición BooksWhale en portugués de Machado de Assis

Um romance breve sobre memória familiar, classe, desejo, segredo e observação social.

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Introducción del libro

Casa Velha

Casa Velha explora uma casa aristocrática, seus arquivos, seus afetos e as tensões de classe que cercam um possível amor. Machado de Assis constrói uma narrativa discreta e crítica, rica em memória, ironia e análise da sociedade brasileira do século XIX.

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Casa Velha is a public-domain work: the author died in 1908, and the text was first published in 1885. This edition uses the original Portuguese text.

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Capítulo de vista previaCasa VelhaLeer vista previa

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente em A Estação , de 15/01/1885 a 28/02/1886

Capítulo de vista previaCAPÍTULO PRIMEIROVista previa

ANTES E DEPOIS DA MISSA

Aqui está o que contava, há muitos anos, um velho cônego da Capela

Imperial:

— Não desejo ao meu maior inimigo o que me aconteceu no mês de

abril de 1839. Tinha-me dado na cabeça escrever uma obra política, a

história do reinado de D. Pedro I. Até então esperdiçara algum talento

em décimas e sonetos, muitos artigos de periódicos, e alguns sermões,

que cedia a outros, depois que reconheci que não tinha os dons

indispensáveis ao púlpito. No mês de agosto de 1838 li as Memórias

que outro padre, Luís Gonçalves dos Santos, o padre Perereca

chamado, escreveu do tempo do rei, e foi esse livro que me meteu em

brios. Achei-o seguramente medíocre, e quis mostrar que um membro

da igreja brasileira podia fazer coisa melhor.

Comecei logo a recolher os materiais necessários, jornais, debates,

documentos públicos, e a tomar notas de toda a parte e de tudo. No

meado de fevereiro, disseram-me que, em certa casa da cidade,

acharia, além de livros, que poderia consultar, muitos papéis

manuscritos, alguns reservados, naturalmente importantes, porque o

dono da casa, falecido desde muitos anos, havia sido ministro de

Estado. Compreende-se que esta notícia me aguçasse a curiosidade. A

casa, que tinha capela para uso da família e dos moradores próximos,

tinha também um padre contratado para dizer missa aos domingos, e

confessar pela quaresma: era o rev. Mascarenhas. Fui ter com ele para

que me alcançasse da viúva a permissão de ver os papéis.

— Não sei se lhe consentirá isso, disse-me ele; mas vou ver.

— Por que não há de consentir? É claro que não me utilizarei senão do

que for possível, e com autorização dela.

— Pois sim, mas é que livros e papéis estão lá em grande respeito. Não

se mexe em nada que foi do marido, por uma espécie de veneração,

que a boa senhora conserva e sempre conservará. Mas enfim vou ver,

e far-se-á o que for possível.

Mascarenhas trouxe-me a resposta dez dias depois. A viúva começou

recusando; mas o padre instou, expôs o que era, disse-lhe que nada

perdia do devido respeito à memória do marido consentindo que

alguém folheasse uma parte da biblioteca e do arquivo, uma parte

apenas; e afinal conseguiu, depois de longa resistência, que me

apresentasse lá. Não me demorei muito em usar do favor; e no

domingo próximo acompanhei o Padre Mascarenhas.

A casa, cujo lugar e direção não é preciso dizer, tinha entre o povo o

nome de Casa Velha, e era-o realmente: datava dos fins do outro

século. Era uma edificação sólida e vasta, gosto severo, nua de

adornos. Eu, desde criança, conhecia-lhe a parte exterior, a grande

varanda da frente, os dois portões enormes, um especial às pessoas

da família e às visitas, e outro destinado ao serviço, às cargas que iam

e vinham, às seges, ao gado que saía a pastar. Além dessas duas

entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho que

dava acesso às pessoas da vizinhança, que ali iam ouvir missa aos

domingos, ou rezar a ladainha aos sábados.

Foi por esse caminho que chegamos à casa, às sete horas e poucos

minutos. Entramos na capela, após um raio de sol, que brincava no

azulejo da parede interior onde estavam representados vários passos

da Escritura. A capela era pequena, mas muito bem tratada. Ao rés-

do-chão, à esquerda, perto do altar, uma tribuna servia privativamente

à dona da casa, e às senhoras da família ou hóspedas, que entravam

pelo interior; os homens, os fâmulos e vizinhos ocupavam o corpo da

Capítulo de vista previaCAPÍTULO IIVista previa

Antes de me despedir deles, fui ver a biblioteca. Era uma vasta sala,

dando para a chácara, por meio de seis janelas de grade de ferro,

abertas de um só lado. Todo o lado oposto estava forrado de estantes,

pejadas de livros. Estes eram, pela maior parte, antigos, e muitos in-

fólio; livros de história, de política, de teologia, alguns de letras e

filosofia, não raros em latim e italiano. Eu via-os, tirava e abria um ou

outro, dizia alguma palavra, que o Félix, que ia comigo, ouvia com

muito prazer, porque as minhas reflexões redundavam em elogio do

pai, ao mesmo tempo que lhe davam de mim maior idéia. Esta idéia

cresceu ainda, quando casualmente dei com os olhos na Storia

Fiorentina de Varchi, edição de 1721. Confesso que nunca tinha lido

esse livro, nem mesmo o li mais tarde; mas um padre italiano, que eu

visitara no Hospício de Jerusalém, na antiga Rua dos Barbonos,

possuía a obra e falara-me da última página, que, em alguns

exemplares faltava, e tratava do modo descomunalmente sacrílego e

brutal com que um dos Farneses tratara o bispo de Fano.

— Será o exemplar truncado? disse eu.

— Truncado? repetiu Félix.

— Vamos ver, continuei eu, correndo ao fim. Não, cá está; é o cap. 16

do lv. XVI. Uma coisa indigna: In quest'anno medesimo nacque un

caso... Não vale a pena ler; é imundo.

Pus o livro no lugar. Sem olhar para o Félix, senti-o subjugado. Nem

confesso este incidente, que me envergonha, senão porque, além da

resolução de dizer tudo, importa explicar o poder que desde logo

exerci naquela casa, e especialmente no espírito do moço. Creram-me

naturalmente um sábio, tanto mais digno de admiração, quanto que

contava apenas trinta e dois anos. A verdade é que era tão-somente

um homem lido e curioso. Entretanto, como era também discreto,

deixei de manifestar um reparo que fiz comigo acerca de

promiscuidade de coisas religiosas e incrédulas, alguns padres de

Igreja não longe de Voltaire e Rousseau, e aqui não havia afetar nada,

porque os conhecia, não integral mente, mas no principal que eles

deixaram. Quanto à parte que imediatamente me interessava, achei

muitas coisas, opúsculos, jornais, livros, relatórios, maços de papéis

rotulados e postos por ordem, em pequenas estantes, e duas grandes

caixas que o Félix me disse estarem cheias de manuscritos.

Havia ali dois retratos, um do finado ex-ministro, outro de Pedro I.

Conquanto a luz não fosse boa, achei que o Félix parecia-se muito com

o pai, descontada a idade, porque o retrato era de 1829, quando o ex-

ministro tinha quarenta e quatro anos. A cabeça era altiva, o olhar

inteligente, a boca voluptuosa; foi a impressão que me deixou o

retrato. Félix não tinha, porém, a primeira nem a última expressão; a

semelhança restringia-se à configuração do rosto, ao corte e viveza

dos olhos.

— Aqui está tudo, disse-me Félix; aquela porta dá para uma saleta, onde

poderá trabalhar, quando quiser, se não preferir aqui mesmo.

Já disse que saí de lá encantado, e que os deixei igualmente encantados

comigo. Comecei os meus trabalhos de investigação três dias depois.

Só então revelei a Monsenhor Queirós, meu velho mestre, o projeto

que tinha de escrever uma história do Primeiro Reinado. E revelei-lho

com o único fim de lhe contar as impressões que trouxera da Casa

Velha, e confiar as minhas esperanças de algum achado de valor

político. Monsenhor Queirós abanou a cabeça, desconsolado. Era um

bom filho da Igreja, que me fez o que sou, menos a tendência política,

apesar de que no tempo em que ele floresceu muitos servidores da

Índice

Dentro de esta edición

  1. 01Casa Velha
  2. 02CAPÍTULO PRIMEIRO
  3. 03CAPÍTULO II
  4. 04CAPÍTULO III
  5. 05parte sã e justa, ou, pelo menos, a porção moderada. Nunca andaria
  6. 06CAPÍTULO IV
  7. 07CAPÍTULO V
  8. 08CAPÍTULO VI
  9. 09CAPÍTULO VII
  10. 10CAPÍTULO VIII
  11. 11CAPÍTULO IX
  12. 12CAPÍTULO X

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