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Historia

Tratado da Terra do Brasil

Edición BooksWhale en portugués de Pero de Magalhães Gândavo

Um dos primeiros textos portugueses sobre território, natureza, povos e colonização do Brasil.

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Introducción del libro

Tratado da Terra do Brasil

Tratado da Terra do Brasil descreve paisagens, recursos naturais, povos indígenas, costumes, possibilidades agrícolas e colonização portuguesa. O texto de Gândavo é fonte fundamental para a visão quinhentista do Brasil e para a história inicial da escrita colonial.

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Pero de Magalhães Gândavo morreu no século XVI e o Tratado da Terra do Brasil pertence à literatura quinhentista. Estas datas sustentam o domínio público do texto português.

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Tratado da terra do Brasil

Tratado da Terra do Brasil TRATADO DA TERRA DO BRASIL, NO QUAL SE CONTEM A INFORMAÇÃO DAS COUSAS QUE HÁ NESTAS PARTES, FEITO POR PERO DE MAGALHÃES Ao muito alto e Sereníssimo Príncipe dom Henrique, Cardeal, Infante de Portugal.

Posto que os dias passados apresentei outro sumário da terra do Brasil a el-Rei nosso Senhor, foi por cumprir primeiro com esta obrigação de vassalo que todos devemos a nosso rei: e por esta razão me pareceu cousa muito necessária (muito Alto e Sereníssimo Senhor) oferecer também este a V. A. a quem se devam referir os louvores e acrescentamento das terras que nestes reinos florescem: pois sempre desejou tanto aumentá-las, e conservar seus súditos e vassalos em perpétua paz. Como eu isto entenda, e conheça quão aceitos são os bons serviços a V. A. que ao reino se fazem imaginei comigo que podia trazer destas partes com que desse testemunho de minha pura tenção: e achei que não se podia de um fraco homem esperar maior serviço (ainda que tal não pareça) que lançar mão desta informação da terra do Brasil (cousa que até agora não empreendeu pessoa alguma) para que nestes reinos se divulgue sua fertilidade e provoque as muitas pessoas pobres que se vão viver a esta Pero de Magalhães Humilde Vassalo de S. A.

Minha atenção não foi outra neste sumário (discreto e curioso leitor) senão denunciar em breves palavras a fertilidade e abundância da terra do Brasil, para que esta fama venha à notícia de muitas pessoas que nestes reinos vivem com pobreza, e não duvidem escolhê-la para seu remédio por pobres e desamparados que sejam. E assim cada vez se vai fazendo mais próspera, e depois que as terras viçosas se forem povoando (que agora estão desertas por falta de gente) hão de se fazer nelas grossas fazendas como já são feitas nas que possuem os moradores da terra, e também se espera desta província que por muito tempo floresça tanto na riqueza como as Antilhas de Castela por que é certo ser em si a terra muito rica e haver nela muitos metais, os quais até agora se não descobrem ou por não haver gente na terra para cometer esta empresa, ou também por negligência dos moradores que se não querem dispor a esse trabalho: qual seja a causa por que o deixam de fazer não sei. Mas permitirá nosso Senhor que ainda em nossos dias se descubram nela grandes tesouros, assim para serviço a aumento de S. A., como pelo proveito de seus vassalos que o desejam servir.

A povoação da primeira capitania, e mais antiga está numa ilha que se chama Tamaracá pegada com a terra firme; tem três léguas de comprido e duas de largura. Tem trinta e cinco léguas de terra pela costa pelo o norte. É de dona Jerônima de Albuquerque, mulher que foi de Pero Lopes de Sousa, na qual tem posto capitão de sua mão. Há nela um engenho de açúcar e agora se faz dois novamente e muito pau do Brasil e algodão. Pode ter até cem vizinhos. Há nesta capitania muitas e boas terras para se povoarem e fazerem nelas fazendas.

A Capitania de Pernambuco está cinco léguas de Tamaracá, pelo o sul em altura de oito graus, da qual é capitão e governador Duarte Coelho de Albuquerque. Tem duas povoações, a principal se chama Olinda, a outra Guaraçu, que está quatro léguas pela terra dentro. Haverá nesta capitania mil vizinhos. Tem vinte e três engenhos de açúcar posto que destes três ou quatro não são ainda acabados.

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A Capitania de São Vicente está sessenta léguas do Rio de Janeiro em vinte e quatro graus, é de Pero Lopes de Sousa, na qual tem posto capitão de sua mão: esta e o Rio de Janeiro são as mais frias terras que há no Brasil, géia nelas em tempo de inverno quase como neste Reino.

Nesta capitania se deu já trigo, mas não no querem semear por haver na terra outros mantimentos de menos custo. Tem três povoações, e uma fortaleza que está numa ilha junto da terra firme quatro léguas para o Norte que se chama Britioga; daqui defendem esta capitania dos índios, e franceses com artilharia que há na mesma fortaleza. A principal povoação se chama Santos, onde está um mosteiro de padres da Companhia de Jesus. A outra mais avante ao longo do rio uma légua é São Vicente; também há nela outro mosteiro de padres da Companhia. Pela terra dentro dez léguas edificarão os mesmos padres uma povoação entre os índios que se chama – o Campo, na qual vivem muitos moradores, a maior parte deles são mamelucos filhos de portugueses e de índias da terra. Aqui e nas mais capitanias têm feito estes padres da Companhia grande fruto e fazem com que a terra vá em muito crescimento, trabalham por fazer cristãos a muitos índios e metem muitas pazes entre os homens; também fazem restituir as liberdades de muitos índios que alguns moradores da terra têm mal resgatados: assim que sempre acodem aos que se desviam do serviço de Deus e de S.A.

Haverá nesta capitania quinhentos vizinhos, tem quatro engenhos de açúcar e muitas terras viçosas de que os moradores tiram muitos mantimentos e fazenda e vivem todos mui abastados. Esta é a última capitania que há nestas partes do Brasil...

Os moradores desta costa do Brasil todos têm terras de sesmarias dadas e repartidas pelos Capitães da terra, e a primeira cousa que pretendem alcançar, são escravos para lhes fazerem e granjearem suas roças e fazendas, porque sem eles não se podem sustentar na terra: e uma das cousas por que o Brasil não floresce muito mais, é pelos escravos que se alevantaram e fugiram para suas terras e fogem cada dia: e se estes índios não foram tão fugitivos e mudáveis, não tivera comparação a riqueza do Brasil. As fazendas donde se consegue mais proveito são açúcares, algodões e pau do Brasil, com isto fazem pagamentos aos mercadores que deste Reino lhes levam fazenda porque o dinheiro é pouco na terra, e assim vendem e trocam uma mercadoria por outra em seu justo preço. Quantos moradores há na terra têm roças de mantimentos e vendem muitas farinhas de pau uns aos outros, de que também tiram muito proveito.

O mais gado que há nesta costa são bois e vacas, deste há muita abundância em todas as capitanias, porque são as ervas muitas, e sempre a terra está coberta de verdura, ainda que em Porto Seguro não se querem dar nenhumas vacas senão o primeiro ano, no qual engordam tanto que do muito viço dizem que morrem todas. Cabras e ovelhas há muito poucas até agora, começam de multiplicar novamente; as cabras se dão melhor que as ovelhas e parem dous, três filhos de cada vez. Fazem os moradores da terra muito por esta criação. Também há éguas e cavalos, mas ainda são caros por não haver muitos na terra, levamnos de Cabo Verde pera lá e dão-se muito bem na terra.

Acha-se também por esta costa muito âmbar que o mar de si lança fora as mais das vezes quando faz tormenta e são águas vivas, então há muitas pessoas que mandam seus escravos pela praia buscá-la nos lugares onde costuma sair mais vezes, e muitas vezes acontece enriquecerem alguns assim do que acham seus escravos como do que resgatam aos índios forros. Segundo a dita e ventura de cada um. Os panos que nesta terra se fazem são de algodão, todo o mais vai deste Reino. E assim há também muitos escravos de Guiné: estes são mais seguros que os índios da terra porque nunca fogem nem têm pera onde. Há também muita criação de porcos e muitas galinhas, adens e patos da terra. Estas são as fazendas que possuem os moradores do Brasil.

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De limões e laranjas há muita infinidade; dão-se muito na terra estas árvores de espinho e multiplicam mais que as outras.

Não se pode numerar nem compreender a multidão de bárbaro gentio que semeou a natureza por toda esta terra do Brasil; porque ninguém pode pelo sertão dentro caminhar seguro, nem passar por terra onde não acha povoações de índios armados contra todas as nações humanas, e assim como são muitos permitiu Deus que fossem contrários uns dos outros, e que houvesse entre eles grandes ódios e discórdias, porque se assim não fosse os portugueses não poderiam viver na terra nem seria possível conquistar tamanho poder de gente.

Havia muitos destes índios pela costa junto das capitanias, tudo enfim estava cheio deles quando começaram os portugueses a povoar a terra; mas porque os mesmos índios se alevantaram contra eles e faziam-lhes muitas traições, os governadores e capitães da terra destruíram-nos pouco a pouco e mataram muitos deles, outros fugiram pera o sertão, e assim ficou a costa despovoada de gentio ao longo das capitanias. Junto delas ficaram alguns índios destes nas aldeias que são de paz, e amigos dos portugueses.

A língua deste gentio toda pela costa é, uma: carece de três letras – scilicet, não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente.

Estes índios andam nus sem cobertura alguma, assim machos como fêmeas, não cobrem parte nenhuma de seu corpo, e trazem descoberto quanto a natureza lhes deu. Vivem todos em aldeias, pode haver em cada uma sete, oito casas, as quais são compridas feitas à maneira de cordoarias; e cada uma delas está cheia de gente duma parte e doutra, e cada um por si tem sua estância e sua rede armada em que dorme, e assim estão todos juntos uns dos outros por ordem, e pelo meio da casa fica um caminho aberto para se servirem. Não há como digo entre eles nenhum Rei, nem Justiça, somente em cada aldeia tem um principal que é como capitão, ao qual obedecem por vontade e não por força; morrendo este principal fica seu filho no mesmo lugar; não serve doutra cousa se não de ir com eles à guerra, e conselhá-los como se hão de haver na peleja, mas não castiga seus erros nem manda sobre eles cousa alguma contra sua vontade. Este principal tem três, quatro mulheres, a primeira tem em mais conta, e faz dela mais caso que das outras. Isto tem por estado e por honra. Não adoram cousa alguma nem têm para si que há na outra vida glória para os bons, e pena para os maus, tudo cuidam que se acaba nesta e que as almas fenecem com os corpos, e assim vivem bestialmente sem ter conta, nem peso, nem medida.

Estes índios são mui belicosos e têm sempre grandes guerras uns contra os outros; nunca se acha neles paz nem é possível haver entre eles amizade; porque umas nações pelejam contra outras e matam-se muitos deles, e assim vai crescendo o ódio cada vez mais e ficam imigos verdadeiros perpetuamente. As armas com que pelejam são arcos e frechas; a cousa que apontarem não na erram, são mui certos com esta arma e mui temidos na guerra, andam sempre nela exercitados. E são mui inclinados a pelejar, e mui valentes e esforçados contra seus adversários, e assim parece cousa estranha ver dous, três mil homens nus duma parte e doutra com grandes assobios e grita frechando uns aos outros; e enquanto dura esta peleja nunca estão com os corpos quedos meneando-se duma parte pera outra com muita ligeireza pera que não possam apontar nem fazer tiro em pessoa certa; algumas velhas costumam apanhar-lhes as frechas pelo chão e servi-los enquanto pelejam. Gente é esta mui atrevida e que teme muito pouco a morte, e quando vão à guerra sempre lhes parece que têm certa a vitória e que nenhum de sua companhia há de Tratado da Terra do Brasil – História da Província Santa Cruz morrer. E quando partem dizem, vamos matar: sem mais considerações, e não cuidam que também podem ser vencidos. Não dão vida a nenhum cativo, todos matam e comem, enfim que suas guerras são mui perigosas, e devem-se ter em muita conta porque uma das cousas que desbaratou muitos portugueses foi a pouca estima em que tinham a guerra dos índios, e o pouco caso que faziam deles, e assim morreram muitos miseravelmente por não se aperceberem como convinha; destes houve muitas mortes desastradas: e isto acontece cada passo nestas partes.

Índice

Dentro de esta edición

  1. 01Part 1
  2. 02Part 2
  3. 03Part 3
  4. 04Part 4

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