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A pata da gazela

Édition BooksWhale en portugais par José de Alencar

Um romance urbano breve sobre aparência, fetiche, idealização e amor na corte brasileira.

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Introduction du livre

A pata da gazela

A pata da gazela parte de um detalhe elegante para desenvolver uma comédia sentimental de equívocos, desejo e imaginação. Alencar observa a sociedade urbana com leveza, ironia e gosto pela forma romanesca.

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José de Alencar morreu em 1877, e A pata da gazela foi publicado pela primeira vez em 1870; essas datas sustentam a base de domínio público desta edição no idioma original.

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A pata da gazela

José de Alencar

A Pata da Gazela José de Alencar

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Estava parada na rua da Quitanda, proximo a da Assembléa, uma linda victoria, puxada por soberbos cavallos do cabo.

Dentro do carro havia duas moças; uma dellas, alta e esbelta, tinha uma presença encantadora; a outra, de pequena estatura, muito delicada de

talhe, era talvez mais linda que sua companheira.

Estavam ambas elegantemente vestidas, e conversavam a respeito das compras que já tinham realizado ou das que ainda pretendiam fazer.

— Daqui aonde vamos? perguntou a mais baixa, vestida de roixo claro.

— Ao escriptorio de papai: talvez elle queira

vir comnosco. Na volta passaremos pela rua do Ouvidor: respondeu a mais esbelta, cujo talhe

era desenhado por um roupão cinzento.

O vestido roixo debruçou-se de modo a olhar para fóra, no sentido contrario aquelle em que seguia o carro, emquanto o roupão, recostando-se nas almofadas, consultava uma carteirinha de lembranças, onde naturalmente escrevêra a nota

de suas encommendas.

— O lacaio ficou-se de uma vez! disse o vestido roixo com um movimento de impaciencia.

— É verdade! respondeu distrahidamente a

companheira.

Estas palavras confirmavam o que aliás indicava o simples aspecto da carruagem: as senhoras estavam à espera do lacaio, mandado a algum ponto proximo. A impaciencia da moça de vestido roixo era partilhada pelos fogosos cavallos, que difficilmente conseguia soffrear um cocheiro

agalloado.

Depois de alguns momentos de espera, sobresaltou-se o roupão cinzento, e conchegando-se mais às almofadas, como para occultar-se no

fundo da carruagem, murmurou:

— Laura!... Laura !...

E como sua amiga não a ouvisse, puxou-lhe

pela manga.

— O que é, Amelia?

— Não vês? Aquelle moço que está ali defronte

nos olhando.

— Que tem isto? disse Laura sorrindo.

— Não gósto! replicou Amelia com um movimento de contrariedade. A quanto tempo está

ali e sem tirar os olhos de mim?

— Volta-lhe as costas!

— Vamos para diante.

— Como quizeres.

Avisado o cocheiro, avançou alguns passos, de modo á tirar ao curioso a vista do interior do carro; mas o mancebo não desanimou porisso, e passando de uma a outra porta, tomou posição conveniente para contemplar a moça com

uma admiração franca e apaixonada.

Simples no trajo, e pouco favorecido a respeito de belleza; os dotes naturaes que excitavam nesse moço alguma attenção eram uma vasta, fronte meditativa, e os grandes olhos, pardos, cheios do brilho profundo e phosphorescente que naquelle

momento derramavam pelo semblante de Amelia.

Havia minutos que percorrendo a rua da Quitanda em sentido opposto á direcção do carro, avistára a moça recostada nas almofadas, e sentira a seu aspecto viva impressão. Sem disfarce ou acanhamento, recostando-se a ombreira de uma porta de escriptorio, esqueceu-se naquella

ardente contemplação.

O coração é um solo. Valle onde brotam as paixões, como os outros valles da natureza inanimada, elle tem suas estações, suas quadras de aridez

ou de seiva, de estirilidade ou de abundancia.

Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores do sol, produzem na terra uma fermentação, que fórma o humus; a semente, cahindo ahi, brota com rapidez. Depois das grandes dôres e das lagrimas torrenciaes, fórma-se tambem no coração do homem um humus poderoso,

uma exhuberancia de sentimento que precisa de expandir-se. Então um olhar, um sorriso, que ahi penetre, é semente de paixão, e pulula com

vigôr extremo.

O moço parecia estar nessas condições: elle trajava lucto pesado, não sómente nas roupas negras, como na côr macilenta das faces nuas, e

na magoa que lhe escurecia a fronte.

Notando Amelia a insistencia do mancebo, ficou vivamente contrariada. Aquelle olhar profundo, que parecia despedir os fogos surdos de uma labareda occulta, incutia nella um desassocego intimo. Agitava-se impaciênte, como uma creatura no meio de um somno inquieto

ou mesmo de um ligeiro pesadello.

Até que abriu o chapeosinho de sol, para interceptar a contemplação apaixonada de que era objecto. Nesta occasião, Laura, que frequentemente se debruçava para vêr quando vinha o

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  1. 01Full text
  2. 02I

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