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Littérature
Canaã
Édition BooksWhale en portugais par Graça Aranha
Um romance brasileiro sobre imigração, raça, utopia, conflito social e formação nacional.
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Introduction du livre
Canaã
Canaã acompanha imigrantes alemães no Espírito Santo e transforma colonização, raça, trabalho, idealismo e conflito social em reflexão sobre o Brasil moderno. Graça Aranha combina romance de ideias, paisagem brasileira, debate nacional e tensão entre utopia, violência e identidade.
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Graça Aranha died in 1931, and Canaã was first published in 1902; these dates support public-domain status for the Portuguese original.
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Canaã
Graça Aranha
Chapitre d'aperçuCHANAANAperçu
Milkau,e estou certo de que temos tudo arranjado; e você, Joca, que fim levou?
— Rolando, amigo... De um lado para outro, a fazer medição agora lá para o Guandu... Isto é, estes dias nós descemos ao Cachoeiro para folgar um pouco. E como vão lá no prazo? Já sei que a casa está bonitinha. E o cafesal?...
— Plantado. — No roçado que fizemos? — Sim, ao lado da casa. — E quando beberemos d'esse café?
A resposta foi um gesto largo de mão, indicando o tempo remoto. Por um instante uma ligeira sobrexcitação coloriu as faces de Lentz que tremia em pensar no vago da distancia ainda á sua frente, e n'aquella vida extranha que levava.
— Ah! agora a coisa vae ser mais animada, disse em sobresalto o mulato, olhando alvoroçado para o fundo ; lá vem a banda.
Os músicos da philarmonica do Cachoeiro vinham chegando ao arraial, e todas as vistas se voltavam para elles. Um grande reboliço fez-se no povo e repentinamente todos se foram approximando da banda, que, caminhando lentamente e como por um velho habito, se dirigia para um pateo ladrilhado de cimento, que era o logar destinado para seccar o café comprado por Jacob iMulier. Nos dias de semana uma grade de arame protegia esse pateo da invasão dos animaes e da creançada. x\.os domingos, quando havia festa, a grade era retirada,
Cl I ANA AN ir,5
c todo3 tinham a liberdade de penetrar na área. Jeca deixou Milkau e foi se postar ao lado dos músicos, alguns dos quaes eram seus conhecidos e camaradas.
— Então, minha gente, vocês hoje estavam com preguiça de desunhar! A rapaziada aqui já andava impaciente... O velho Martinho já está com o braço morto de tocar realejo, para entreter o povo lá em cima. Vanros á gaita !
E, contente, o mulato começou a dar vivas á banda do Cachoeiro. Um alarido de gargalhadas e acclamações acompanhou os vivas. Os homens da musica sorriam, rubros de vexame, e todos automaticamente tiraram o chapéo, agradecendo.
Foi um delirio para o maranhense, que começou a ciar outros vivas ao « povo do Cachoeiro », a « Jacob Miiller», « á união da rapaziada.» Todos se divertiam, gesticulavam, dansavam descompassados, acompanhando a banda. Os músicos installaram-se n'um dos ângulos do pateo largo, liso, lavado, que recebia em seu lagedo, para irradial-a, a força do sol. N'um momento ficou coalhado da gente simples e fácil de contentar, d'esses que são amados da alegria e em quem ella não encontra atropelo para reinar livremente.
Collocadas as estantes, os músicos sentaram-se e começaram a tocar uma marcha de que cada qual, enthusiasmado, ia repetindo os compassos. Joca, cantando marcialmente, com os olhos accesos e as narinas arregaçadas, perseguia um bando de raiC6 CU ANA AN
parigas louras, coradas, que fugiam rindo, n'um fingido susto. Alguns velhos já ébrios, de cachimbo ao queixo, arrastavam as vozes, fazendo mesuras ás mulheres, que riam destemperadamente. As creanças invadiam o terreiro, vindo em grupo, abrindo espaço aos empurrões. O dono da casa, todo de branco, em mangas de camisa, e com um grande chapéo de palha na cabeça, appareceu no pateo, e depois de se entender com o mestre da banda principiou a falar, dando ordens. Algumas velhas applicavam-lhe palmadas nas costas, outras puxavam-lhe levemente a barba ; elle respondia aos soccos, berrando : — A festa é das creanças. Limpa o terreiro! Arreda! Vocês tém baile á noite. E depois, persuasivamente, viravase para os mais teimosos :
— Anda, meu velho, ajuda-me, que tenho de attender á freguezia. Olha, vae tomar um copo lá dentro.
Era o argumento irresistível e proveitoso, porque a miragem d'esse copo afastava o homem d'ahi, e dava algum lucro ao armazém. O logar ficou limpo da gente grande, que se enfileirou aos lados, formando o quadro do pateo. A creançada agora sobre elle girava doidamente, a rodar, a rodar, como si fosse movida por um pé de vento.
Chapitre d'aperçuCHANAAN 167Aperçu
dirigir o baile infantil. Foi um instante de socego. O homem mandou que os pequenos se ordenassem pelos sexos, e começou depois a distribuir os pares, chamando cada creança pelo seu nome. « Alberto e Emma. » « Hermann e Sofia ». « Guilherme e Ida... » As vezes, um dos pequenos recalcitrava contra o arranjo.
— Mas eu estou compromettido, professor. — Como? Com quem? — Com Augusta Feltz...
— Mas não é possível : você tão miúdo e ella tão crescida, replicava o velho, tremendo-lhe as mandíbulas molles.
No circulo as mães intervinham, acompanhadas por outras vozes de mulheres.
— Deixe, sr. professor. Que é que tem? Cada um escolhe a que deseja.
O mestre resignava-se, e Augusta Feltz, com os seus doze annos, de canellas compridas e olhos mansos de veada, lá ia para a forma, inclinando o pescoço para o cavalleiro, que a levava de braço, fitando-a muito ancho.
Afinal o professor conseguia arranjar as quadrilhas, e a musica rompia a dansa. Os pequenos estavam exercitados, de modo que tudo corria em ordem, sem confusão. Das pessoas grandes, muitas ficavam entretidas, acompanhando a festa das creanças 5 outras, porém, fatigavam-se da attenção, e punham-se a passeiar pelo arraial, indo á beira do rio, deitando-se na relva para verem passar a
Table des matières
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- 133parte, onde a bondade corra espontânea e abundante, como a agua sobre aterra. Vem... Subamos
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