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O Homem

Édition BooksWhale en portugais par Aluísio Azevedo

Azevedo investiga desejo reprimido, corpo, ciência e moral no naturalismo brasileiro.

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Introduction du livre

O Homem

O Homem acompanha Magdá, jovem submetida a pressões familiares, diagnósticos médicos e frustrações afetivas. Aluísio Azevedo transforma o drama íntimo em estudo naturalista de sexualidade, repressão e discursos científicos do final do século XIX.

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Texto original em português publicado em 1887. Aluísio Azevedo morreu em 1913; o texto é de domínio público por prazo expirado.

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Chapitre d'aperçuPart 1Lire l'aperçu

O Homem

Aluísio Azevedo

Madalena, ou simplesmente Magdá, como em família tratavam a filha do Sr. Conselheiro Pinto Marques, estava, havia duas horas, estendida num divã do salão de seu pai, toda vestida de preto, sozinha, muito aborrecida, a cismar em coisa nenhuma; a cabeça apoiada em um dos braços, cujo cotovelo ficava numa almofada de cetim branco bordada a ouro; e a seus pés, esquecido sobre um tapete de pelos de urso da Sibéria, um livro que ela tentara ler e sem dúvida lhe tinha escapado das mãos insensivelmente.

No entanto, não havia ainda um mês que chegara da Europa, depois de um longo passeio que o pai fizera com sacrifício, para ver se lhe obtinha melhoras de saúde.

Melhoras! Que esperança! - Magdá voltou no estado em que partiu, se é que não voltou mais nervosa e impertinente. O Conselheiro, coitado, desfazia-se em esforços por tirá-la daquela prostação, mas era tudo inútil: de dia para dia, a pobre moça tornara-se mais melancólica, mais insociável, mais amiga de estar só. Era preciso fazer milagres para distraí-la um segundo; era preciso de cada vez inventar um novo engodo para obter que ela comesse alguma coisa . Estava já muito magra, muito pálida, com grandes olheiras cor de saudade; nem parecia a mesma. Mas, ainda assim, era bonita.

Morava com o pai e mais uma tia velha chamada Camila numa boa casa na praia de Botafogo. Prédio talvez um pouco antigo, porém limpo; desde o portão da chácara pressentia-se logo que ali habitava gente fina e de gosto bem educado; atravessando-se o jardim por entre a simetria dos canteiros e limosas estátuas cobertas de verdura, e enormes vasos de tinhorões e begônias do Amazonas, e bolhas de vidro de várias cores com pedestal de ferro fosco, e lampiões de três globos que surgiam de pequeninos grupos de palmeiras sem tronco, e bancos de madeira rústica, e tambores de faiança azul-nanquim, alcançava-se uma vistosa escadaria de granito, cujo patamar guarneciam duas grandes águias de bronze polido, com as asas em meio descanso, espalmando as nodosas garras sobre colunatas de pedra branca. Na sala de entrada, por entre muitos objetos de arte, notava-se, mesmo de passagem, meia dúzia de telas originais; umas em cavaletes, outras suspensas contra a parede por grossos cordões de seda frouxa; e, afastando o soberbo reposteiro de reps verde que havia na porta do fundo, penetrava-se imediatamente no principal salão da casa.

O salão era magnífico. Paredes forradas por austera tapeçaria de linho inglês cor de cobre e guarnecida por legítimos caquimanos, em que se destacavam grupos de chins em lutas fantásticas com dragões bordados a ouro; as figuras saltavam em relevo do fundo dos painéis e mostravam as suas caras túrgidas e bochechudas, com olhos de vidro, cabeleiras de cabelo natural e roupas de seda e pelúcia. Cobria o chão da sala um vasto tapete Pompadour, aveludado, cujo matiz, entre vermelho e roxo, afirmava admiravelmente com os tons quentes das paredes. Do meio do teto, onde se notava grande sobriedade de tintas e guarnições de estuque, descia um precioso lustre de porcelana de Saxe, sobrecarregado de anjinhos e flores coloridas e pássaros e borboletas, tudo disposto com muita arte numa complicadíssima combinação de grupos. Por baixo do lustre, uma otomana cor de pérola, em forma de círculo, tendo no centro uma jardineira de louça esmaltada onde se viam plantas naturais. A mobília era toda variada; não havia trastes semelhantes; tanto se encontravam móveis do último gosto, como peças antigas, de clássicos estilos consagrados pelo tempo. Da parede contrária à entrada dominava tudo isto um imenso espelho sem moldura, por debaixo do qual havia um consolo de ébano, com tampo de mármore e mosaicos de Florença, suportando um pêndulo e dois candelabros bizantinos; ao lado do consolo uma poltrona de laquê dourado com assento de palhinha e uma cadeira de espaldar, forrada de gorgorão branco listrado de veludo; logo adiante um divã com estofos trabalhados na Turquia.

Chapitre d'aperçuPart 2Aperçu

Mudou-se pois a família de Militão para a casa do Conselheiro e Magdá, adivinhando os planos do pai, sorriu intimamente. Inauguraram-se os bailes, e os pretendentes não se fizeram esperar. Pudera! Uma menina que não é pobre, com certa educação, algum espírito, e linda como a filha do Sr. Conselheiro Pinto Marques, encontra sempre quem a deseje.

O primeiro a apresentar-se foi um tal Martinho de Azevedo, rapaz de vinte e poucos anos, filho de um cônsul em que em não sei que parte da Europa; ares de fidalgo; bigode louro e olhos de mulher; não tinha nada de feio; ao contrário, chegava a ser impertinente com a sua inalterável boniteza risonha; e vestia-se como ninguém, graças a alguns anos que passara em Paris estudando um curso que não chegara a concluir.

Magdá esteve quase a desenganá-lo, antes mesmo que o sujeito se lhe declarasse; resolveu, porém, deixar isso ao cuidado do pai, que não se embirrava menos com ele. Com quem o Conselheiro não embirrou, e mostrou até simpatizar, foi um certo ministro argentino, levado à sua casa por um colega que já lá se dava; mas este segundo pretendente não foi feliz que o primeiro, nem que os outros apresentados depois.

Todavia as festas continuavam, e por fim a casa do Conselheiro Pinto Marques era tida e havida entre a melhor gente como das mais distintas e bem freqüentadas do Rio de Janeiro; e Magdá classificada ao lado das estrelas mais rutilantes do empíreo de Botafogo.

Assim se passou o resto do ano.

Ah! com que ansiedade contou a pobre menina os dias que precederam à formatura do irmão! Como aquele coraçãozinho palpitou de susto e de esperança ao lembrar-se de que em breve o seu Fernando, o único que aos olhos dela parecia bom, delicado, inteligente e sincero, tinha com uma só palavra de apagar todas as dúvidas que a torturavam, ou destruir-lhe por uma vez todos os sonhos de ventura.

Sim, porque a filha do Conselheiro, agora nos seus dezessete anos, estava bem certa de que amava Fernando; mais se convencera dessa verdade nesses últimos tempos em que ele se mostrara indiferente e esquivo. Só agora podia avaliar o bem que lhe faziam aquelas tranqüilas palestras que tantas vezes desfrutara com ele, ora nos bancos da chácara, ora assentados junta à janela, perto um do outro, ou em volta da pequena mesa de viex-chêne que havia numa saleta ao lado do gabinete do Conselheiro, e onde ela costumava ler e estudar no bom tempo em que Fernando se comprazia em dar-lhe lições de preparatórios.

As lições!... Quanto desvelo de parte a parte! Com que gosto ele ensinava e com que gosto ela aprendia!

Magdá, logo ao deixar o colégio das irmãs de caridade, entrou a estudar com o irmão, e foi nesse contato espiritual de três horas diárias que os dois mais se fizeram um do outro, e mais se amaram, e mais se respeitaram. Todavia, nesse tempo ela ainda não lhe tinha observado as feições, nem notado a inteireza de caráter nem a delicadeza do gênio; habituara-se a estimá-lo, e aceitava-o quase que pela fatalidade da convivência ou pela natureza efetiva do seu próprio temperamento; mas depois, quando teve ocasião de compará-lo com outros, amou-o por eleição, por entender que ele era o melhor de todos os homens, o mais digno de preferência.

Agora, depois daqueles frios meses de retraimento, Fernando parecia-lhe ainda mais belo e mais desejável; aquela transformação inesperada foi como uma dolorosa ausência em que as boas qualidades do rapaz ganharam novo prestígio no espírito da irmã, assumindo proporções excepcionais. Magdá esperava pelo dia da formatura, como se aguardasse a chegada do noivo; tinha lá para si que o seu amado reapareceria então como dantes, meigo, comunicativo e amigo de estar ao lado dela. Agora idolatrava-o; todo o grande empenho do Conselheiro em substituí-lo por outro apenas conseguia encarecê-lo ainda mais, fazendo-o mais desejável, mais insubstituível. Ela já não podia compreender como é que por aí se amavam outros que não eram Fernando; outros que não tinham aquela mesma barba, aqueles olhos tão inteligentes e tão doces, aquela mesma estatura bem conformada, forte sem ser grosseira, aquela boca tão limpa, tão bem tratada, que logo se via não poder servir de caminho à mentira ou a uma palavra feia. E muita coisa, que até então não lhe notara, agora a impressionava; a voz, por exemplo, o metal de sua voz, em que havia uma certa harmonia corajosa; aquela voz velada, discreta, mas muito inteligível; uma voz que não chamava a atenção de ninguém, mas que prendia a todo aquele que por qualquer circunstância a escutava. — E a cor do seu rosto? aquele moreno suave, de pele muito fina, em que ia tão bem, o cabelo preto? — E aquele modo inteligente de sorrir, quando ele descobria um ridículo noutrem? aquele ar condescendente com que Fernando ouvia as frioleiras do Martinho de Azevedo ou as bazófias do ministro argentino? aquele sorriso inteiriço, de alma virgem, onde não havia o menor vislumbre de inveja a ninguém, nem contentamento próprio por vaidade; aquele sorriso, que ela supunha ser a única a compreender.

Chapitre d'aperçuPart 3Aperçu

Ela sempre embirrara com o Dr. Lobão; tinha-lhe velha antipatia; achava-o sistematicamente grosseiro, rude, abusando da sua grande nomeada de primeiro cirurgião do Brasil, maltratando os seus doentes, cobrando-lhes um despropósito pelas visitas, a ponto de fazer supor que metia na conta as descomposturas que lhes passava.

— A senhora tem tido muitos namorados? interrompeu ele, depois de estudar, medindo-a de alto a baixo, por cima dos óculos.

Magdá sentiu venetas de virar-lhe as costas e retirar-se.

— Não ouviu? Pergunto se tem tido muitos namorados!

— Não sei!

E ela afastou-se, enquanto o cirurgião resmungava:

— Que diabo! Para que então me fazem vir cá?...

Ia já a sair, quando o Conselheiro foi ter com ele:

— Então?

— Não é coisa de cuidado; um abalo nervoso. Que idade tem ela?

— Dezessete anos.

— É...! mas não convém que esta menina deixe o casamento para muito tarde. Noto-lhe uma perigosa exaltação nervosa que, uma vez agravada, por interessar-lhe os órgão encefálicos e degenerar em histeria...

— Mas, doutor, ela parece tão bem conformada, tão...

— Por isso mesmo. Ah! Eu leio um pouco pela cartilha antiga. Quanto melhor for a sua compleição muscular, tanto mais deve ser atendida, sob pena de sentir-se irritada e esbravejar por’aí, que nem o diabo dará jeito! E adeus. Passe bem!

Mas voltou para perguntar: — E a barata velha, como vai?

— Minha irmã...? ao mesmo, coitada! Enfermidades crônicas...

— Ela que vá continuando com as colheradas de azeite todas as manhãs e que não abandone os clisteres. Hei de vê-la, noutra ocasião; hoje não tenho mais tempo. Adeus, adeus!

E saiu com os seus movimentos de carniceiro, resmungando ao entrar no carro:

— Não tratam da vida enquanto são moças e agora, depois de velhas, o médico que as ature! Súcia! Não prestam p’ra nada! nem p’ra parir!

A festa de Fernando realizou-se na véspera da sua partida. Magdá nuca pareceu tão alegre nem tão bem disposta de saúde; pôs um vestido de cassa cor-de-rosa, todo enfeitado de margaridas, deixando ver em transparência a ebúrnea riqueza do colo e dos braços.

Estava fascinadora: toda ela era graça, beleza e espírito; causou delírios de admiração. Nessa noite dançou muito, cantou e, durante o baile inteiro, mostrou-se para com Fernando de uma solicitude, em que não se percebia a menor sombra de ressentimento; dir-se-ia até que estimava haver descoberto que era sua irmã. Conversaram muito; ela contou-lhe, ora rindo, ora falando a sério, as declarações de amor que recebera; citou nomes, apontou indivíduos, pediu-lhe conselhos sobre a hipótese de uma escolha e declarou, mais de uma vez, que estava resolvida a casar.

No dia seguinte apresentaram-se alguns amigos para o bota-fora. Magdá foi à bordo, chorou, mas não fez escarcéu; em casa compareceu ao jantar, comeu regularmente e até a ocasião de se recolher falou repetidas vezes do irmão, sem patentear nunca na sua tristeza desesperos de viúva, nem alucinações de mulher abandonada.

Só dois meses depois foi que notaram que estava tanto mais magra e um tanto mais pálida; e assim também que o seu riso ia perdendo todos os dias certa frescura sanguínea, que dantes lhe alegrava o rosto, e tomando aos poucos uma fria expressão de inexplicável cansaço.

Alguns meses mais, e o que havia de menina desapareceu de todo, par só ficar a mulher. Fazia-se então muito grave, muito senhora, sem todavia parecer triste, nem contrariada; as amigas iam vê-la com freqüência e encontravam-na sempre em boa disposição para dar um passeio pela praia, ou para fazer música, dançar, cantar; tudo isto, porém, sem o menor entusiasmo, friamente, como quem cumpre um dever. Vieram-lhe depois intermitências de tédio; tinha dias de muito bom humor e outros em que ficava impertinente ao ponto de irritar-se coma menor contrariedade. Não obstante, continuava a ser admirada, querida e invejada, graças ao seu inalterável bom gosto, à sua altiva de procedimento e à sua aristocrática beleza. O pai votava-lhe já essa reverente consideração, que nos inspiram certas damas, cuja pureza de hábitos e extrema correção nos costumes se tornam lendárias entre os grupos com que convivem; tanto assim que, vendo o Militão forçado a retirar-se com a família par uma fazenda que ia administrar, o Conselheiro não os substituiu por ninguém, e a casa ficou entregue a Magdá.

Table des matières

Dans cette édition

  1. 01Part 1
  2. 02Part 2
  3. 03Part 3
  4. 04Part 4
  5. 05Part 5
  6. 06Part 6
  7. 07Part 7
  8. 08Part 8
  9. 09Part 9
  10. 10Part 10
  11. 11Part 11
  12. 12Part 12
  13. 13Part 13
  14. 14Part 14
  15. 15Part 15
  16. 16Part 16
  17. 17Part 17
  18. 18Part 18
  19. 19Part 19

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