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Littérature
O Gaúcho
Édition BooksWhale en portugais par José de Alencar
Alencar transforma o pampa, a honra e a vingança em romance nacional romântico.
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Introduction du livre
O Gaúcho
O Gaúcho leva o projeto indianista e regional de José de Alencar ao universo do pampa. Entre cavalos, fronteira, amor e códigos de honra, o romance constrói uma figura heroica ligada à paisagem e à imaginação nacional brasileira.
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Texto original em português publicado em 1870. José de Alencar morreu em 1877; a obra pertence ao domínio público.
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O Gaúcho
José de Alencar
Que significa este nome — Sênio — no frontispício de livros que vozes benévolas da imprensa já atribuíram a outrem?
Cada um fará a suposição que entender.
Era preciso um apelido ao escritor destas páginas, que se tornou um anacronismo literário. Acudiu esse que vale o outro e tem de mais o sainete da novidade.
Porventura escolhendo aquela palavra, quis o espírito indicar que para ele já começou a velhice literária, e que estes livros não são mais as flores da primavera, nem os frutos do outono, porém sim as desfolhas do inverno?
Talvez.
Há duas velhices: a do corpo que trazem os anos, e a da alma que deixam as desilusões.
Aqui, onde a opinião é terra sáfara, e o mormaço da corrupção vai crestando todos os estímulos nobres; aqui a alma envelhece depressa. E ainda bem! A solidão moral dessa velhice precoce é um refúgio contra a idolatria de Moloch.
10 de novembro de 1870.
Chapitre d'aperçuLivro IAperçu
Livro I
Chapitre d'aperçuI O PAMPAAperçu
Como são melancholicas e solmenes, ao pino do sól, as vastas campinas que cingem as margens do Uruguay e seus affluentes!
A savana se desfralda a perder de vista, ondulando pelas sangas e cochilhas que figuram as fluctuações das vagas nesse verde oceano. Mais profunda parece aqui a solidão, e mais pavorosa, do que na immensidade dos mares.
É o mesmo ermo, porém sellado pela immobilidade, e como que estupefato ante a majestade do firmamento.
Raro corta o espaço, cheio de luz, um passaro erradio, demandando a sombra, longe na restinga de mato que borda as orlas de algum arroio. A trecho passa o poldro bravio, desgarrado do magote; ei-lo que se vae retouçando alegremente babujar a gramma do próximo banhado.
No seio das ondas o nauta sente-se isolado; é atomo envolto numa dobra do infinito. A ambula immensa tem só duas faces convexas, o mar e o céo. Mas em ambas a scena é vivaz e palpitante. As ondas se agitam em constante fluctuação; têm uma voz, murmuram. No firmamento as nuvens cambiam á cada instante ao sopro do vento; ha nellas uma phisionomia, um gesto.
A tela oceanica, sempre magestosa e esplendida, resumbra possante vitalidade. O mesmo pégo, insondavel abysmo, exhubera de força creadora; miriades de animaes o povoam, que surgem á flor d'agua.
O pampa ao contrario é o pasmo, o torpor da natureza.
O viandante perdido na immensa planicie, fica mais que isolado, fica oppresso. Em torno delle faz-se o vacuo: subita paralysia invade o espaço, que pesa sobre o homem como livida mortalha.
Lavor de jaspe, imbutido na lamina azul do céo, é a nuvem. O chão semelha a vasta lapida musgosa de extenso pavimento. Por toda a parte a immutabilidade. Nem um bafo para que essa natureza palpite; nem um rumor que simule o balbuciar do deserto.
Pasmosa inanição da vida no seio de um alluvio de luz!
O pampa é a pátria do tufão. Ahi, nas estepes nuas, impera o rei dos ventos. Para a fúria dos elementos inventou o Creador as rigezas cadavericas da natureza. Diante da vaga impetuosa collocou o rochedo; como leito do furacão estendeu pela terra as infindas savanas da America e os ardentes areaes da África.
Arroja-se o furacão pelas vastas planícies; espoja-se nellas como o poltro indomito; convolve a terra e o céo em espesso turbilhão. Afinal a natureza entra em repouso; serena a tempestade; queda-se o deserto, como d’antes plácido e inalterável.
É a mesma face impassível; não ha ali sorriso, nem ruga. Passou a borrasca, mas não ficáram vestígios. A savana permanece como foi hontem, como ha de ser amanhã, até o dia em que o verme homem corroer essa crosta secular do deserto.
Ao pôr do sól perde o pampa os toques ardentes da luz meridional. As grandes sombras, que não interceptam montes nem selvas, desdobram-se lentamente pelo campo fora. É então que assenta perfeitamente na immensa planice o nome castelhano. A savana figura realmente um vasto lençol desfraldado por sobre a terra, e velando a virgem natureza americana.
Essa phisionomia crepuscular do deserto é suave nos primeiros momentos; mas logo após resumbra tão funda tristeza que estringe a alma.
Parece que o vasto e immenso orbe cerra-se e vae minguando a ponto de espremer o coração.
Cada região da terra tem uma alma sua, raio creador que lhe imprime o cunho da originalidade. A natureza infiltra em todos os seres que ella gera e nutre aquella seiva própria; e fórma assim uma família na grande sociedade universal.
Quantos seres habitam as estepes americanas, sejão homem, animal ou planta, inspiram nellas uma alma pampa. Tem grandes virtudes essa alma. A coragem, a sobriedade, a rapidez são indigenas da savana.
Table des matières
Dans cette édition
- 01Full text
- 02Livro I
- 03I O PAMPA
- 04II. 0 VIAJANTE.
- 05III O AGOURO
- 06IV. O PADRINHO.
- 07V. O PAREO.
- 08Livro II
- 09Livro III
- 10Livro IV
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